terça-feira, 21 de outubro de 2008

Notícia de ontem

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Só para ratificar a minha postagem anterior, olhem só as consequências da abordagem da mídia sobre o caso Eloá:

Folha Online, 20/10/2008:
Tragédia de Eloá aquece audiência e tira TV do traço, diz coluna
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"As redes de TV aumentaram seus índices de audiência com o caso Eloá, da menina de 15 anos que foi mantida refém pelo ex-namorado na última semana no apartamento em que morava, em Santo André, na Grande São Paulo, informa a coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

No fim de semana, a Folha Online já havia indicado que o ibope de alguns programas apresentava elevação devido à repercussão do caso.

A coluna de Castro informa que o total de televisores ligados na Grande São Paulo no fim de semana foi de 15% maior do que no anterior. No sábado, a média de televisores foi de 46%, a maior dos últimos dois meses.

A média da Globo no domingo, de 7h a 0h, subiu de 16 para 20 pontos, um crescimento de 25%, segundo o colunista. A Record News saltou de 0,3 para 1 no sábado, encostando na RedeTV!".

Não tem jeito: adoraaaaamos tragédias pessoais.



Pedro Mancini

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Trapalhadas de uma mídia intimista e sensacionalista

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Casos como o da menina Eloá, por mais trágicos que sejam, são um ótimo objeto de análise do papel da mídia na sociedade contemporânea. Com seu desfecho trasmitido ao vivo, a situação foi e continua sendo explorada "até a última gota" de múltiplas formas; por vários canais de Tv, pela internet e por qualquer outro meio midiático.


Uma das questões mais interessantes a se discutir, a respeito de tal cobertura, refere-se à sua relação com um processo mais amplo que assola a contemporaneidade: a intimização de toda a vida pública. Discutirei, assim, a cobertura da imprensa sobre o caso Eloá, focando a resposta da mídia sobre a demanda compulsiva de seu público, a respeito de informações de foro íntimo dos envolvidos no caso.

Suplantando a "racionalidade policial" (preocupada, teoricamente, com a solução mais adequada possível da situação gerada pelo jovem Lindemberg) pela "racionalidade midiática" (preocupada única e exclusivamente com a audiência), programas como o da "malufista botoxada" Sonia Abrão causam desconforto e conflitos entre os próprios jornalistas, pelo que são capazes de fazer para segurar a atenção do telespectador. Trato aqui, especialmente, de uma entrevista feita diretamente com o responsável pelo cárcere privado, Lindemberg. Esta reportagem, realizada totalmente à regalia da polícia, procurou dar um tom sentimental e psicológico à situação do cárcere, em uma clara busca desmedida e insana por audiência. Vejam as consequências de tal ação, inicialmente, com relação aos próprios colegas de trabalho de Abrão: http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/zapping/ult3954u457177.shtml


Como se não bastasse a busca pela constituição de um forte caráter intimista e emotivo no caso Eloá, buscando-se relelar em rede nacional a "alma" de Lindemberg, por exemplo, os dois repórteres destacados na matéria da Folha intimizam a própria briga - principalmente Abrão, ao disctuir sua "relação de amizade" com Datena, dizendo que, a partir da crítica proferida por seu colega, ele deixaria de ser seu "amiguinho". Age, assim, como se, na situação dada, o que estivesse em jogo fosse não sua atitute, considerada anti-ética até por outros representantes do jornalismo sensacionalista, mas sim sua relação pessoal com o "gordinho eufórico" da Band.

Esse é o grande movimento que nos assola: o julgamento não da ação dos homens, mas de seus comportamentos, de suas "almas" - do quanto eles "APARENTAM" serem bons ou maus. Não importa tanto o que fazemos, mas sim "quem somos" - mesmo que essa imagem, por vezes, não seja acompanhada de atitudes correlatas. No caso de Abrão, não interessa o que ela fez - todos devem acreditar que ela é uma pessoa "íntegra", "inquestionável". Ela mesma achou um absurdo que um "colega" criticasse suas atitudes; e respondeu não no mesmo nível, pela lógica das atitudes, mas sim no nível da intimidade e do comportamento, desviando as atenções de sua conduta, centralizando-as para seus "sentimentos" para com Datena...

A obsessão da mídia no caso, reflexo da própria obsessão do público com a intimidade humana, fez com que o próprio desenrolar do caso seja afetado. Lindemberg, produto dessa mesma sociedade intimista, apresenta claros problemas psicológicos - além da própria alteração de humor, aparenta uma certa obsessão (desculpe parecer repetitivo) por ser "o centro das atenções"; um certo narcisimo, em minha opinião (muito presente, também, na sociedade atual). Ao "invadir" a relação de negociação entre o jovem e a polícia, a mídia sensacionalista e faminta por Ibope dá ao jovem o que ele deseja, como a própria Abrão admitiu; com isso, ele se sente ainda mais poderoso, podendo agir de modo mais mais irracional e, por conseguinte, mais imprevisível.

Vejam parte de outra reportagem da Folha a respeito, elaborada antes do desfecho fatal:http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u456942.shtml

Vê-se, assim, que a intervenção desmedida da mídia pôde, com toda a probabilidade, ter prejudicado o desenrolar do caso e colaborado para o desfecho que todos procuraram, conscientemente, evitar. Tal espécie de intervenção prejudicial ganha ainda mais fôlego e liberdade de ação em um país como o nosso, em que a mídia se vê revestida de um enorme poder, de uma liberdade sem quaisquer limites éticos.

Nos próprios EUA, suposta "terra da liberdade", especialistas no procedimento da Swat afirmaram que a intervenção da mídia, em tal grau, certamente acarretaria na prisão dos repórteres envolvidos. Ao agirem de forma totalmente irresponsável, esses "vampiros da audiência" possibilitam uma piora significativa em qualquer caso policial similar, tornando uma situação já complexa ainda mais difícil de se solucionar.



Pedro Mancini


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pequena discussão sobre o estigma e prestígio

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Sempre fui classificado como alguém inteligente. De algum modo, passo essa imagem às outras pessoas, incluindo minha própria família. Talvez essa impressão seja reforçada pelo meu comportamento por vezes excêntrico, e até mesmo por sinais mais simples, como o puro uso de óculos (quem não parece intelectual usando esse velho acessório para os olhos?).

Não discuto o quanto essa imagem concorda ou não com a realidade. O fato é que não sou nenhum gênio. Ou seja: Não sou capaz de conquistar os meus objetivos mais visados sem o dispêndio de um grande esforço, de uma preparação meticulosa e responsável.

Talvez pela primeira vez em minha vida, consegui nesse ano conquistar um objetivo pessoal mediante grande dedicação e fazendo certas escolhas difíceis. Não que eu nunca tenha me esforçado para nada, mas com certeza nunca contei tanto com o meu esforço individual e tão pouco com supostos "dotes naturais" ou um suposto "potencial" inerente à minha imagem pessoal - essa imagem imposta de "inteligente".

Inculcaram-me essa percepção, esse estigma positivamente referido - ou, para utilizar a terminologia de E. Goffmann, esse "prestígio". Ora, o problema dos estigmas é que eles antecipam as impressões e as ações humanas, por vezes impedindo as relações de liberdade. Já conhecendo o estigma de um "louco", por exemplo, não esperamos que ele aja como uma pessoa "sã", e ainda interpretamos suas ações por meio desse estigma: alguma ação que seria tido como comum caso fosse proferida por uma pessoa "sã" pode ser interpretada como "loucura", caso fosse tomada por alguém marcado como "louco".

Por outro lado, o indivíduo estigmatizado pode se apropriar da interpretação feita sobre ele pelos outros, passando, por exemplo, a se enxergar como um louco, a aceitar tal classificação feita à sua pessoa. Isso pode não significar, necessariamente, que o indivíduo referido tenha sintomas "concretos" da loucura psíquica, mas, na prática, ele é visto como um louco perante o resto da sociedade.

Um estigma positivo ou prestígio cumpre papel semelhante. De um lado, pode ajudar, pois acaba-se acreditando, conforme apontado, na classificação que é dada. Alguém tido como "inteligente", mesmo sem tomas ações de fato tão inteligentes, pode passar a se apropriar dessa qualidade conferida e agir como alguém inteligente.

A partir de certo momento, contudo, esse estigma pode cumprir papel diametricalmente oposto: pode impedir o desenvolvimento maior das habilidades relacionadas a tal prestígio. Assim, alguém visto como "inteligente" pode deixar de enxergar a necessidade de provar, na prática, tal inteligência; é evidente que ele "é" inteligente, esse fato já foi naturalizado. Impõe-se, assim, uma situação conformista, em que é desestimulada qualquer atitude nova, capaz de validar o estigma positivo.

Neste caso, a situação colocada é oposta à do estigma negativo, que, quando totalmente estabelecido, pode impedir ou anular ações contestadores de tal estigma, quando partidas do próprio estigmatizado. Uma criança que é vista e se vê como "burra" pode deixar de demostrar qualquer atitude inteligente: ninguém espera isso dela, nem ela própria.

Têm-se assim, e voltando ao estigma positivo ou prestígio, uma situação extremamente delicada: por um lado, qualquer ação inteligente adotada por alguém visto como inteligente está dentro das espectativas; ninguém espera que ele aja de maneira estúpida. O "inteligente" se vê de certa forma compelido a seguir as espectativas colocadas pelos outros, tendo sempre que demostrar ser de fato inteligente; e, quando o faz, "não faz mais do que a obrigação", por assim dizer. Paradoxalmente, a posição confortável do "inteligente", que solidificou sua auto-imagem de acordo com tal estigma, pode impedir que ele continue a tomar ações inteligentes que validam esse próprio estigma.

Por essa razão, devemos, sempre que possível, nos esquivar das informações passadas por um sinal de estigma ou de prestígio, buscando conhecer as pessoas por suas ações, e não por sua aparência superficial. Ao mesmo tempo, uma auto-análise é sempre útil e válida a esse respeito: até que ponto minhas ações relfetem minha auto-imagem e a imagem a mim conferida pelos outros?

No momento, reflito sobre essa problemática com relação à minha própria imagem.




Pedro Mancini

Agora sim! (?)

2 comentários:
Já deu para notar que não tenho conseguido manter as promessas de publicação nesse blog. Então, a partir de hoje já não prometo nada: publicarei de acordo com a minha vontade e, principalmente, de acordo com as minhas possibilidades no momento.


De todo modo, acredito que, daqui para a frente (ao menos até março ou abril do ano que vem),será mais fácil manter esse blog ativo. Isso porque o motivo de meu afastamento foi recentemente eliminado com a minha ingressão no mestrado!


Graças a essa conquista, que tanto esgotou minhas forças nesse ano de muito trabalho, aprendi uma série de lições. Discutirei, no próximo post, o que julgo ser o principal aprendizado adquirido.

domingo, 3 de agosto de 2008

Regressando

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Depois de quase três meses sem escrever, somente agora recobro, aos poucos, minha possibilidade e minha vontade de fazê-lo. Foi um tempo de trabalho pesado, certo estresse e um afastamento razoável de minha vida acadêmica... mesmo quando o tempo surgia, não me sentia confiante o suficiente para escrever.
Bom, mas como esse definitivamente NÃO deve ser um espaço para expor minhas angústias mais íntimas, paro por aqui com as reclamações. O importante é que tentarei retomar o ritmo a partir de agora, mesmo mantendo-me em um momento de tensão - a dois meses de prestar a prova teórica de ingressão para o mestrado. MEEEEEEEDO.
Pedro Mancini

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Liberdade trôpega

2 comentários:

Em muitas ocasiões, a vida nos impõe a necessidade de tomar decisões que determinarão o curso de nossa felicidade de modo fundamental e permanente. São momentos em que temos que pesar nossas necessidades mais primordiais, por um lado, e nossos interesses e necessidades secundárias, por outro; em que se concretiza uma oposição clara entre o "querer" e o "precisar".




De um lado, temos uma "opção" mais fácil e imediatista, vinculada às nossas necessidades de sobrevivência. No caso profissional, o exemplo ideal seria a oportunidade de um trabalho que oferece uma renda necessária, embora, muitas vezes, vinculado a uma função não tão atrante quanto a que imaginamos mais compatível com nossa personalidade e habilidades.




De outro, temos os nossos sonhos, nossa necessidade menos imediata mas fundamental tanto para a mente quanto para o espírito, principalmente a longo prazo.




Esse é um problema enfrentado, em maior medida, por profissionais de áreas ainda pouco valorizadas e procuradas pelo mercado, como sociólogos - categoria a qual pertenço. Nesses casos, a dificuldade em encontrar uma colocação profissional que atenda plenamente nossas expectativas e sonhos e que, ao mesmo tempo, possibilita a sobrevivência econômica, faz com que nos rendamos, em situações de urgência "financeira", às primeiras oportunidades de remuneração razoável que surjam, mesmo quando relacionadas à funções mais afastadas de nossos desejos mais pessoais.

Tendemos ainda, uma vez estabelecidos em tal posição, a nos acomodarmos, criarmos "raízes" para garantir a tão sofridamente conquistada posição. Com o passar dos anos, corre-se assim um sério risco de afastamento progressivo e continuado de nossos sonhos e de todas as ações a eles relacionados; é o triunfo final da necessidade sobre a liberdade, quando preferimos a perfeição profissional cotidiana em detrimento às atividades que fundamentam nossos interesses mais específicos.


Esse oposição entre liberdade e necessidade, já presente na vida das pólis gregas da Antigüidade, foi analisada de forma muito competende pela filósofa Hannah Arendt. Para os gregos, a liberdade humana estava condicionada à superação das necessidades; apenas aqueles, por exemplo, que detinham a posse de escravos e, portanto, tinham suas necessidades sanadas pelos últimos, podiam de fato exercer sua liberdade em meio à esfera política de interação. Caso contrário, se tivesse que garantir seu próprio sustento, sanar suas próprias necessidades, o homem, descaracterizado enquanto cidadão, não passava de um "escravo de suas próprias necessidades" - impossibilitado, portanto, de realizar-se plenamente, na e pela interação com seus conterrâneos em meio ao mundo político.

Trazendo tal raciocínio para a contemporaneidade, podemos refletir sobre até que ponto somos capazes de exercer nossa liberdade da forma como compreendida pelos gregos antigos. No meu caso, mesmo o exercício tão agradável e humanizante da publicação de relatos nesse blog, e que não demanda tanto tempo diário, fica limitado por essa terrível necessidade de sobrevivência que domina meu cotidiano. Expressar minhas opiniões exige, assim, uma luta diária contra atividades que requerem atenção mais imediata, pois vinculadas à manutenção de minha própria existência...
Pedro Mancini