segunda-feira, 9 de julho de 2012
A "luta do século" da sociedade do espetáculo
sexta-feira, 15 de abril de 2011
A decadência da humildade em tempos de fragmentação social
Uma outra conseqüência dessa fragmentação de modos de encarar a realidade é a difusão da insegurança: não podemos mais contar, afinal, com uma "grande muleta" ideológica para nos sustentar - ao menos, não com uma muleta maciça e resistente. Não existe uma única religião dominante, uma única ideologia hegemônica, indiscutível, que nos ampare; temos que nos contentar com múltiplas perspectivas incertas, continuamente contestadas, vítimas fáceis da ironia. Sua religião, sua posição política, não passa de mais uma entre dezenas de outras possíveis - e como ter a certeza de que se joga do lado certo?
Ora, é difícil lidar com a erosão das certezas instituídas, apontada por Gergen. Para aqueles que detém sabedoria suficiente para conviver com aqueles que pensam de modo distinto, essa é uma ótima chance de se desenvolver - de aprender com a voz discordante, aceitando, com humildade, as prováveis limitações de sua própria perspectiva. Já para os mais carentes de certezas, uma alternativa menos indolor e, infelizmente, usualmente adotada é a de agarrar-se a uma dessas perspectivas de forma extrema, a ponto de desconsiderar todas as demais - e, em último caso, pregar a aniquilamento daqueles que se situam no "outro lado". Agarrar-se a uma ideologia extremista para ser uma saída possível à fragmentação social, portanto.
Acredito que o processo de negação da diversidade e de supervalorização de uma perspectiva determinada sobre todas as demais não pode ser vislumbrado apenas nas situações extremas: terrorismo, movimentos neonazistas, homofobia, racismo, etc. Vemos a tentativa de se agarrar em certezas em várias situações cotidianas que pareceriam inofensivas. Muitos, por exemplo, enclausuram-se em uma visão superestimada de sua própria imagem. São os “convencidos” ou “metidos”, que se transformam nos próprios objetos de adoração. Hoje, eles parecem se multiplicar a uma forma alucinante – alimentados pelas possibilidades de auto-promoção trazidas pelas tão faladas redes sociais. Alguns comentários do Facebook e do Twitter são verdadeiros deleites nesse aspecto, mostrando claramente como alguns indivíduos se deslumbram com a ilusão de estarem fixados em um pedestal que os mantém acima dos “cidadãos comuns”.
Parece que a "humildade", valorizada em tempos pré-modernos, é hoje considerada um defeito, algo a se evitar; antes de mais nada, a ordem é “amar-se”, valorizar-se, vender uma imagem positiva de si próprio, ter orgulho e auto-estima elevados. É evidente que esse movimento possui grandes vantagens, além de ter cumprido um importante papel histórico. Valorizar-se como indivíduo destacado do "social" contém elevado teor libertário, protegendo e armando o sujeito contra opressões externas; a partir do momento em que nos valorizamos, tornamo-nos mais imunes a imposições sobre nosso comportamento. Desse modo, as relações de dominação, outrora dependentes de uma imposição externa, conquistada pela espada, devem hoje se concentrar bem mais em uma "submissão voluntária" de seu público. Uma interiorização da ideologia dos dominantes entre os dominados, embora sempre tenha existido, nunca foi tão necessária às relações de dominação. Assim, as grandes marcas devem mais do que nunca "conquistar" seu público-alvo, e até torná-lo seu próprio porta-voz (difundindo a marca nas redes sociais, por exemplo). O consumidor deve adorar o "estilo de vida" vendido pela Coca-cola e pelo McDonalds, e não mais ser um simples comprador de mercadorias.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
O "pior dia do ano": lamentos pouco justificados
Atravessando um desses viadutos, então,o fato mais marcante do dia me atingiu: um sujeito, vindo em sentido contrário, tira algo como uma comprida chave de fenda de um saco preto, e ameaça "me furar todinho" caso eu não lhe entregue todo o dinheiro de minha carteira. Estava bem no meio do viaduto, isolado da "terra firme", com pouco espaço para realizar qualquer manobra evasiva. Notável é que estava, também, sem dinheiro (com apenas R$2,00 na carteira), e tive provar essa "pobreza" ao assaltante. A seguir, mandou-me entregar o que tinha nos bolsos: mais uma vez, disse que nada possuía. Enfim, mandou-me entregar o meu aparelho de celular.
Chamei, então, os agentes policiais. Após 40min de espera, liguei novamente e descobri que a viatura não me localizou; passaram do outro lado do Terminal. Aguardei mais uns 45min para eles me encontrarem de fato. Nesse ponto, já havia novamente perdido qualquer esperança de reverter a situação; e a polícia também estava cansada de me procurar. A única coisa que fez, então, foi me levar até a delegacia mais próxima, a primeira de São Paulo (1ºDP), perto do Paraíso. Lá, mais um martírio: um flagrante atrapalhou o atendimento, e esperei mais de três horas para conseguir fazer o B.O. E, ansioso com toda a situação, ainda consegui grampear meu próprio dedo enquanto ditava as informações ao policial (tenho mania de mexer em tudo que se encontra ao redor quando estou nervoso). Um temperinho final para meu dia de aventuras.
Por fim, como não poderia faltar, mais de 2h de trânsito. Ao todo, mais de 5h para resolver um simples caso de roubo de celular... sem direito a refeições durante todo o período. Após esse alvoroço, bem descansado, alimentado e banhado, penso que não sou um grande desafortunado. No final, não passo de mais um jovem "pequeno-burguês" me achando o maior dos azarados apenas por um dia ruim, em comparação com minha rotina ordinária; mas quantos não passam por uma situação igual, similar ou mesmo bem pior, muitas e muitas vezes ao ano, quiçá na maioria dos dias? Em uma análise fria, fui mesmo muito sortudo, comparativamente falando: poderia ter perdido todos os documentos e despender muitas horas a mais cancelando cartões e solicitando segundas vias; poderia ter sido morto ou ferido; poderia morar a três ou mais horas de ônibus do local; ou poderia, até mesmo, ser um sujeito tão excluído que seria capaz de assaltar um transeunte apenas para conquistar mais alguns minutos de felicidade hiper-real, pelo consumo de alguma droga pesada - correndo todos os riscos de ser apanhado e destruído pelo sistema durante a tentativa. E eis que, de repente, minha desgraça pareceu minúscula e patética.
Pedro Mancini
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Maiores desenvolvimentos sobre a postagem anterior
Agora, um outro ponto: parece-me que um simples comportamento mais "pessimista" desperta uma série de associações político-ideológicas que nem sempre são verdadeiras. Graças à minha última postagem, sofri a comparação - talvez alimentada por resquícios da radicalização vivida pelo país nas últimas eleições - entre meu pensamento e a postura eleitoral de 2006 de Geraldo Alckmin, que procurava, a todo custo, argumentos para atacar o Governo Lula. Bem, faço aqui uma crítica a respeito da postura de boa parte da massa otimista com o governo atual: em sua ânsia por rebater a ferocidade da oposição, que agiu de forma extremamente violenta nos últimos meses, os lulistas e dilmistas mais radicais, ainda pensando de forma maniqueísta, desqualificam qualquer apontamento mais negativo sobre a realidade brasileira atual. Parece sempre um "papinho" da oposição, desesperada em agredir o governo presente.
Ora, é evidente que, mesmo se considerarmos os incontestáveis pontos positivos da administração petista - em especial, sua competência na aplicação de medidas de combate à exclusão social mais absoluta - vários problemas ainda afligem o país, não podendo ser facilmente resolvidos por um simples governo temporal. Além disso, havemos de manter o senso crítico, apontando os erros da administração de Lula e da futura presidenta Dilma - que, até então, não foram poucos. Houve falhas admistrativas de grandes proporções, que escapam do simples "blá-blá-blá" vomitado pela mídia em momentos eleitorais. Há, em suma, que "se colocar os pingos nos ´is´": Sim, o governo atual é mais competente no combate a problemas críticos da sociedade brasileira, em comparação com governos passados; e não, ele não consegue eliminar todos os problemas estruturais do país, e ainda está sujeito a graves insuficiências, que devem ser apontadas, sem se menosprezar os avanços alcançados. A militância não deve ser apagada por sua própria fidelidade ao governo; deve apenas ser melhor direcionada, mais precisa.
O que fiz, portanto, não foi nenhum exercício de oposição míope ao Governo. Em primeiro lugar, porque reconheço que as medidas tomadas foram corajosas e necessárias, concentrando minhas críticas à posterior imagem, criada e alimentada pela mídia, a respeito da situação carioca. Com todas as limitações a que estão sujeitos, os governos municipal, estadual e federal fizeram a parte deles. Em segundo lugar, porque critiquei, igualmente, uma questão que vejo como estrutural na sociedade, consolidada nas instituições e nas representações sociais em vigência, e que escapam de um combate governamental direto. Problemas de Estado e de "consciência coletiva", para utilizar a terminologia do velho Durkheim; não de governo ou de indivíduos que se unem com objetivos conspiratórios, simplesmente. Tratei, dessa forma, de preconceitos arraigados entre vários setores e explorados pela mídia em exaustão, e formas de pensar e agir que se atrelam ao Estado de forma absolutamente parasitória, contaminando sua gestão. Os governos terão muito mais trabalho no combate a esses inimigos do que tiveram, em aparência, na luta contra o tráfico do Alemão...
Pedro Mancini
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Rio de Janeiro: entre a incompetência arrastada e a grande farsa
Após retaliação dos criminosos, com a queima de veículos por toda a capital fluminense, o Estado resolveu agir com vigor. Pela primeira vez em décadas de combate contra facções criminosas que dominam as favelas cariocas, vários órgãos de segurança do Estado, bem como múltiplos setores da sociedade, uniram-se por uma mesma causa: a remoção do Rio de Janeiro do seu estado de anomia social, com os constantes embates entre facções, milícias e policiais. O contexto prometia uma solução permanente para a problemática da violência urbana carioca.
A cobertura da mídia sobre a ação da Polícia e do Exército no Complexo do Alemão representou muito bem esse caráter de "momento decisivo" da luta contra o crime e de união de toda a "sociedade civil" em torno dos mesmos propósitos; pela primeira vez após o radicalismo ideológico fomentado pelas eleições presidenciais, a sociedade brasileira parecia falar em uma só voz. Uma voz de apoio incondicional às ações do BOPE, mais uma vez convocado para as batalhas mais difíceis, e de esperança quanto a uma solução não-paliativa.
Em uma dada semana, as principais revistas semanais de notícias reproduziram esse pensamento: Veja, IstoÉ e ÉPOCA retrataram o momento carioca pelo viés da luta do BOPE contra o "mal" dos traficantes, e com um tom de otimismo com relação ao futuro da cidade. Nos discursos do cotidiano, também era difícil encontrar vozes distoantes. Todos os que vêem o caos carioca de longe parecem pensar de forma razoavelmente parecida, qual seja: interpretando a situação como uma simplória luta entre o "bem" e o "mal". Com esse raciocínio, elimina-se a crítica à brutalidade do BOPE, por exemplo: nesse momento de crise, deixa de ter importância uma análise sobre a moralidade de sua atuação, e ele é simplesmente categorizado como compondo o "lado do bem", lutando pelo "cidadão" que o Estado tanto gosta: ordeiro, aceitando a exploração pelo mercado de trabalho, ao invés de rebelar-se contra o mesmo.
Fujo, porém, das interpretações mais casuais sobre a atuação do Estado mediante os últimos acontecimentos: ao invés de me parecer um sucesso óbvio, a operação serviu para confirmar uma grande ineficácia das instituições brasileiras, ao menos em sua apreensão racional, baseada nos preceitos ocidentais da justiça e da igualdade de todos perante a lei. Uma ineficácia não do governo atual, mas muito mais profunda, de Estado mesmo. Afinal, das duas uma: ou o crime estava bem menos articulado do que o previsto, e poderia ser vencido há muito tempo - e o teria sido, se não fosse conveniente ao Estado mantê-lo e permitir seu desenvolvimento; ou, e essa é a alternativa mais terrível, o crime está muito mais emaranhado na realidade social do que aparentava, e todas as ações dos últimos dias não passaram da mera simulação de uma batalha épica contra um inimigo muito mais poderoso, de atuação capilar.
Pensando sob a última perspectiva, o problema da segurança pública não foi diretamente atacado. Tudo não passou de ilusões e manipulações, de uma grande farsa, alimentada por uma rede de "interesses escrotos" (palavras utilizadas pelo Capitão Nascimento para caracterizar o "sistema" que combate em ´Tropa 2´). Continuo defendendo, portanto, que não existe algo como uma "opinião pública" homogênea, com um só interesse: as últimas ações policiais beneficiaram certos setores em detrimento a outros (e não estou falando de uma mera dicotomia "cidadãos de bem" X "bandidos"), como toda decisão política, por mais que a imagem de uma unidade de pensamento tenha sido formada. Alguns dos interesses por detrás dessa farsa parcial podem ter vindo da preocupação com a imagem da cidade que sediará eventos das Olimpíadas e da Copa do Mundo de Futebol, nos próximos anos. Mas acredito que muitos outros interesses escusos estejam envolvidos.
Se essa visão se confirmar, vimos apenas a consumação de mais uma medida paliativa e provisória para o Rio, criada sob a máscara da "resolução final", da "luta épica contra o mal". E assim, a sujeira é mais uma vez empurrada para debaixo do tapete, de modo absolutamente conveniente para os interessados mais poderosos: enquanto alguns criminosos são desalojados, vários outros mantém seus domínios, inclusive os milicianos, em plena re-expansão. E o pior: os problemas sociais reais, que afligem as comunidades periféricas, não são manejados; a polícia aparece, espanta os traficantes e, após o furor sócio-midiático inicial, se recolhe, se corrompe ou ambos. As preocupações iniciais das UPPs, de trazer o Estado inteiro (e não sua parcela repressiva, exclusivamente) esvanecem no ar. A exclusão social se mantém, mas apaziguam-se os ânimos mais acirrados da população e da mídia, sedentas por um frágil estado de paz imediata.
Pedro Mancini
domingo, 6 de junho de 2010
A ameaça concreta e objetiva de Israel e a ameaça virtual e abstrata do Irã...
Apesar da forte reação internacional contra o ataque desmedido e injustificável de Israel, as autoridades do país não só mantiveram uma postura de indiferença às críticas, como abordaram mais uma embarcação, dias depois - não ousando, apenas, cometer mais assassinatos.
Pedro Mancini
sábado, 3 de abril de 2010
Marcelo Dourado e a vitória do politicamente incorreto
Como todos já devem saber, um tal de Dourado foi o vencedor da última edição do programa global. Mais polêmico entre os confinados, ele ganhou notoriedade por adotar um discurso considerado machista e homofóbico, afirmando que bateria em uma mulher "se ela fosse homem", e que apenas homossexuais transmitem o vírus da AIDS. Mesmo assim, não apenas consagrou-se vitorioso, como mobilizou toda uma parcela da população a seu favor - tanto homofóbicos que denunciavam a existência de uma "heterofobia" entre a sociedade, quanto aqueles mais "ingênuos", que apenas conclamavam que Dourado era uma pessoa simples e sincera, com todo o direito de cometer alguns erros.
É sempre assustador saber que existem pessoas do primeiro tipo, que adotam Dourado como uma espécie de paladino da heterossexualidade contra a "contaminação" do mundo pelos homossexuais. Contudo, é a segunda parcela que citei que mais prendeu minha atenção: os defensores de Dourado como "ícone da espontaneidade", da sinceridade e da simplicidade. Alguém como nós, com seus defeitos, mas que não adota uma postura hipócrita, sem, em outras palavras, se maquiar como um modelo de perfeição a ser admirado e seguido. Uma espécie de herói sincero, "sem nada a esconder", em meio a um bando de falsos hipócritas. Como pretendo mostrar, acho que as duas formas de pensamento possuem uma relação estreita e perigosa, por mais que tentem escamoteá-la.
Na mesma hora, associei esse discurso da sinceridade, da espontaneidade e da imperfeição a uma perspectiva adotada por amplos segmentos da mídia, em especial o especializado em humor, e reproduzida por sua audiência: um ataque (ou contra-ataque?) à tudo aquilo considerado "politicamente correto".
Cito, como ilustração, o problema que o humorista do CQC, Danilo Gentili, teve recentemente, após deixar escapar uma piada considerada racista em sua conta do Twitter (e estragar ainda mais a situação na tentativa de seu remendo). Como respostas às inúmeras críticas que recebeu, vociferou contra os chamados "politicamente corretos", um bando de hipócritas que adorava achar pêlo em ovo e melar o sentido das piadas sobre estereótipos sociais.Não tardou para que dezenas de milhares de simpatizantes aderissem ao coro do politicamente incorreto encabeçado por Gentili.
De fato, é notória a existência de grandes hipocrisias em meio à população, que servem como carapuça de camuflagem para escamotear preconceitos em geral. Pessoas que expressam seus valores de uma forma, mas pensam, em seu íntimo, de outra; que agem contrariamente ao que defendem. Contudo, isso não deve, de forma alguma, ser confundido com a simples existência de valores morais reais que orientam nossas condutas e julgamentos. Valores a serem defendidos em prol de uma visão ideal de convívio social harmônico - em prol de uma Humanidade que aceite e convive com inúmeras diferenças individuais.
O perigo maior, perpetuado pelos que vociferam contra o politicamente correto, é a possibilidade de defesa do DIREITO de sermos preconceituosos, junto a uma BANALIZAÇÃO da violência e da intolerância. Partindo-se do pressuposto dos "politicamente incorretos", de que somos tomos imperfeitos ou hipócrias, qual seria o problema de contarmos uma piada racista, ou de sermos um pouco homofóbicos ou machistas? Ninguém é perfeito, ou melhor, somos todos imperfeitos, imorais, intolerantes. Caso não admitamos essa imperfeição, não passamos de porcos hipócritas. Para quê não admitir isso de vez, não tomar os pequenos defeitos morais naturais e absolutamente compreensíveis? É a naturalização da ignorância.No limite, todos podem se sentir à vontade para erguer suas bandeiras de intolerância e segregação.
Bem, o "politicamente correto" que defendo não é a ocultação dos preconceitos, o fingimento de que eles não estão entre nós - isso, sim, é hipocrisia. Muito pelo contrário, acredito que devamos não apenas admitir a existência do preconceito e da intolerância em todos os níveis da sociedade, mas expô-la aos olhos de todos, mas para que possamos COMBATÊ-LOS, e não naturalizá-los e legitimá-los. Se somos todos moralmente imperfeitos, que tal nos mobilizarmos para mudar essa situação, aprimorando nossos valores?
A vitória de Marcelo Dourado no BBB, assim como permanentes reações contra qualquer tentativa de combate à intolerância e ao preconceito, são, para mim, parte de um mesmo e trágico movimento. Não caminhamos rumo a uma nova radicalização DE FATO, pois os intolerantes sempre existiram; mas, com a expansão de certos direitos dos excluídos, como maior aceitação dos homossexuais em alguns níveis sociais, e com a expansão do "politicamente incorreto", há uma reação contrária que tende a revelar intolerâncias outrora mais sutis. A defesa pelos valores dos agrupamentos mais favorecidos ressurge como se os últimos fossem "oprimidos" pelos Direitos Humanos e por um mundo (em tese, e muito menos na prática) mais "politicamente correto". Os intolerantes hoje são vítimas auto-intituladas, chegando ao ápice de apontar para a existência de uma "heterofobia" (?) em meio à população.
Não há outra palavra para descrever esse movimento, portanto, senão como sendo reacionário.Brotando de todos os lugares, retirando suas máscaras de aceitação, admitindo a possibilidade de serem o que são, os intolerantes indiscretos e sua aceitação social são uma reação à divulgação de valores universais que preconizam e ensaiam a expansão de certos direitos à camadas menos incluídas. Vide a forte reação, de vários setores, contra a divulgação do último Plano Nacional de Direitos Humanos.
Uma contra-reação generalizada, diga-se de passagem, que copia fórmulas do passado, adaptando-as ao presente. Nada de novo em si: como todos os movimentos reacionários em geral, o que há é um temor e um desprezo pelo Outro, pelo diferente, e o enclausuramento em um mundinho comunitário utópico de "iguais", uma defesa do Nós contra qualquer perspectiva de universalização de direitos: o mundinho dos heterossexuais contra os homossexuais, dos brancos contra os negros, dos cidadãos de uma nação contra os imigrantes, dos ricos contra os pobres (e vice-versa, para todos os casos)...
E você aí em casa, achando que a humanidade evoluiu muito, produzindo IPods em série. Por vezes ainda me sinto na Idade Média.
Pedro Mancini
quarta-feira, 10 de março de 2010
Minhas experiências no Carnval 2010 - Parte II
O que muda em cada classe social, talvez, são os momentos em que o desprezo pela vida pública se manifesta. Comportamentos mais hedonistas e desrespeitosos para com o espaço do outro são mais visíveis, talvez, quando oriundos de indivíduos de classes mais pobres: o funkeiro que escuta música alta no ônibus sem se preocupar com os demais passageiros, os funcionários de obras que fazem gracejos explícitos a garotas que transitam pelas ruas, ou a família mal educada que deixa um rastro de lixo após deixar as areias da praia.
Contudo, os "grandes cidadãos" das classes média e alta também costumam manifestar esse desprezo pelo espaço dos outros - mas em momentos mais específicos de descontração, de "fuga" do mundo racionalizado e competitivo a que estão submetidos em suas rotinas pessoais e profissionais. É longe dos ambientes públicos que esses homens mais incluídos no sistema dominante manifestam sua faceta egoísta e hedonista - e, muitas vezes, de forma extremamente agressiva. São bem conhecidos, por exemplo, os casos de crimes cometidos por playboys, influenciados por esse desprezo pelo público e pelo anônimo e por um gostinho pela humilhação alheia. Variam desde o lançamento de ovos e o espancamento de prostitutas e homossexuais, até a combustão de índios e mendigos. Mas também aparecem de modo mais sutil, em indivíduos abastados de todas as idades, por meio de atos como: sonegação de impostos, desrespeito às leis de trânsito mais básicas, e o arremesso de lixos "mais inofensivos" ao chão - como bitucas de cigarro.
Em outras palavras, acredito que o desprezo pelo espaço público, que imputamos à uma massa amorfa de indivíduos pobres e sem estudo, é na verdade muito mais geral em nossa sociedade - atingindo, em graus variados, todas as classes e todos os graus de instrução. O que ocorre, apenas, é que as classes mais inseridas em um universo racionalizado e burocratizado camuflam essa inclinação, manifestando-a em segredo, em momentos de descontração, isolados de seus mundinhos ordinários.
Estaria esse descaso com o espaço alheio e com o espaço público "marcado" no ethos cultural do brasileiro? Acredito que sim, ao menos em certa medida. Seja explicitamente ou "lá no fundinho", estamos "cagando e andando" para o próximo. Valorizamos os "nossos", mas desprezamos o anônimo, o excluído, o "outro" de forma geral.
No carnaval praiano, trago outro exemplo claro: as brincadeiras de arremesso de bexigas d´água, que, acredito, já se caracterizaram como um modo lúdico de socialização entre amigos e vizinhos, e que se transformou em mera agressão ao próximo, ao indivíduo desconhecido: não se arremessam mais essas bexigas com água apenas, mas espalham-se espumas nos estofamentos dos veículos, arremessam-se excrementos, e jogam-se até mesmo cocos inteiros nas latarias dos carros que circulam pelas ruas da Praia Grande.
Infelizmente, acho que a solução para todos esses casos de descaso e de agressão ao público não se limita à mera educação formal, pois, como já argumentei, esse comportamento também se manifesta - embora com maior descrição, em muitos casos - em indivíduos do mais alto nível educacional (vide, apenas como um dos inúmeros exemplos possíveis, o caso da Uniban). Por mais que escondamos essas atitudes embaixo do tapete, pelo uso da roupagem da cidadania e da civilidade, elas teimam em se manifestar em nossos rotinas, e, em especial, em nossos momentos de distração e lazer, quando estamos mais propensos a revelar nosso "verdadeiro eu" - como no Carnaval, em que a manifestação desses fantasmas interiores torna-se especialmente justificável (é o espírito do Carnaval, arriscaria-me a dizer). Está aí um ótimo momento para manifestarmos nosso ódio mais profundo ao Outro e o desprezo pelo espaço de "todos", mascarados pela aura de "alegria" de que esse feriado se reveste.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Haiti e as controvérsias levantadas pelas catástrofes sociais
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Ainda sobre a Leila Lopes (Última)
domingo, 6 de dezembro de 2009
Esclarescimentos sobre a postagem anterior
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
O Suicídio e o Humor
sábado, 6 de dezembro de 2008
Será?
Coluna Zapping, Folha de São Paulo, 03/12/2008:
"MPF quer multa de Sonia Abrão"
"Sonia Abrão falou ao vivo com o seqüestrador e com a adolescente. O Ministério Público Federal pediu indenização de R$ 1,5 milhão (o dinheiro vai para projetos de direitos humanos) pelo fato de a imagem da menor, Eloá, ter sido usada sem autorização judicial. Além disso, segundo o MP, Sonia interferiu na atividade policial, colocando a vida da adolescente e dos envolvidos na operação em risco. A Rede TV! diz que não foi notificada e que se sente censurada. Quanto à Globo, que também exibiu entrevista (gravada) feita por Zelda Mello, o ministério diz que enviou um ofício ao RJ, onde fica a sede da emissora. A Record também exibiu entrevista, mas o ministério afirma que não teve conhecimento oficial".
Já é um passo, não?? Mas... e como ficam as emissoras mais poderosas (e TEORICAMENTE mais discretas), como a Globo e a Record? Será que também serão punidas de alguma forma pela irresponsabilidade?
Pedro Mancini
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Pequena ressalva - Datena X Abrão
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Bobagens proferidas por um governador
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Notícia de ontem
Folha Online, 20/10/2008:
Tragédia de Eloá aquece audiência e tira TV do traço, diz coluna
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"As redes de TV aumentaram seus índices de audiência com o caso Eloá, da menina de 15 anos que foi mantida refém pelo ex-namorado na última semana no apartamento em que morava, em Santo André, na Grande São Paulo, informa a coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.
No fim de semana, a Folha Online já havia indicado que o ibope de alguns programas apresentava elevação devido à repercussão do caso.
A coluna de Castro informa que o total de televisores ligados na Grande São Paulo no fim de semana foi de 15% maior do que no anterior. No sábado, a média de televisores foi de 46%, a maior dos últimos dois meses.
A média da Globo no domingo, de 7h a 0h, subiu de 16 para 20 pontos, um crescimento de 25%, segundo o colunista. A Record News saltou de 0,3 para 1 no sábado, encostando na RedeTV!".
Não tem jeito: adoraaaaamos tragédias pessoais.
Pedro Mancini
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Trapalhadas de uma mídia intimista e sensacionalista
quinta-feira, 20 de março de 2008
Recomendação de Leitura - Caso Isabella
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u392839.shtml
sexta-feira, 7 de março de 2008
Crise na América Latina- A cultura latino-americana de resolução de conflitos pela intolerância violenta
