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segunda-feira, 9 de julho de 2012

A "luta do século" da sociedade do espetáculo

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Na madrugada entre sábado e domingo, ocorreu aquela que foi considerada a "luta do século" da UFC, o torneio mundial de lutas marciais mistas. Nela, o "herói brasileiro" Anderson Silva (vulgo "Spider") enfrentou o seu "arquirival" americano, o sociólogo (!) de Oregon Chael Sonnen, que teria sido o lutador mais próximo de vencer Silva em uma luta dois anos antrás. Mas, como leigo evidente no assunto, não estou aqui para discutir os acontecimentos de ontem em si mesmos, com as especificidades das técnicas de luta empregadas por ambos os lutadores. Antes, gostaria de colocar em debate a importância simbólica que foi conferida a esse embate pelo mundo - e, em especial, no Brasil.

O que mais me surpreendeu no evento esportivo de ontem foi sua capacidade de mobilização do público nacional. Mesmo aqueles que não se dizem fãs desse tipo de luta fizeram questão de abrir mão de seu sono para assistir o embate. No Facebook, vários contatos expuseram suas expectativas, tento alguns deles arquitetado encontros entre amigos para acompanhar os pontapés ao vivo pela televisão. Mas qual seria a explicação para tamanha atenção a esse esporte, da noite para o dia?

A mídia cobriu os eventos anteriores à luta com rigor. Sonnen, considerado um "fanfarrão", pode ser tido como um representante vivo da ideologia mega-competitiva americana, com seu subsequente estímulo ao orgulho pessoal e nacional: arrogante, transmitiu a típica imagem do "malvado metido à besta", que "fala mais que a boca", ou "fala muito e faz pouco"; o mimado alienado do país do Primeiro Mundo, pronto para pisar em qualquer um que cruzar a sua escalada ambiciosa pelo estrelato. O lutador provocou Anderson Silva em toda oportunidade que teve, de forma aberta e direta. Chegou a afirmar que "passaria a mão na bunda" da esposa do brasileiro e que a mandaria fritar um bife para saciar sua gula

Anderson, por sua vez, encarnou a imagem típica do "herói", o "bom moço" do Terceiro Mundo que apareceria para "calar a boca" do americano, mas apresentando grande "humildade" e um "espírito zen" a gerar inveja até a alguns monges budistas. Ao contrário de Sonnen, o "Spider" era mais do tipo que "fazia" antes de ficar só "falando". Sobre suas costas, ainda estava todo o orgulho de uma nação, diretamente afrontada pelo lutador-fanfarrão (Sonnen havia zombado da pobreza do Brasil durante uma de suas provocações ao brasileiro); Anderson deveria "limpar a honra ferida" do país. Um grande espetáculo estava sendo armado desde semanas antes da luta, como se fortes emoções (de ódio, inveja, vingança, amor à pátria) brotassem espontaneamente entre os envolvidos quando, na realidade, haviam sido meticulosamente planejas e manufaturadas para agregar telespectadores, patrocínios e - enfim - dinheiro, muito dinheiro.

Antes e prosseguir, resta uma colocação: é claro que  a figura do "herói nacional" nunca pode permanecer, no Brasil, apenas na esfera da "bom-mocidade" exagerada. Um bondoso pode rapidamente ser taxado de "trouxa", de "otário", por deixar os outros pisarem em sua honra. Assim, Silva, provavelmente orientado por excelentes agentes, também fez questão de colocar mais "lenha na fogueira" nas disputas simbólicas com Sonnen, negando o caráter "trouxa" de sua personalidade: respondeu às provocações e, na rádio, prometeu quebrar todos os dentes do rival, ensinando-o, assim, a ter mais respeito por tudo e todos. Por fim, chegou a dar uma leve ombrada na face do rival, no clássico ritual da "foto com encarada" entre os lutadores. Anderson ganhava, assim, mais alguns milhares de fãs brasileiros até então hesitantes em se tornar espectadores desse esporte.

Eis, enfim, o meu ponto com a postagem de hoje: o imensurável poder de persuação de uma "sociedade do espetáculo" que, por meio de diversos mecanismos, consegue hipnotizar uma grande massa de espectadores, seduzindo-os de modo altamente eficaz, com uma profundidade e abrangência supreendentes. Assim, as mais pacíficas almas sentiram-se na obrigação moral de assistir, ao menos por uma noite, um dos esportes mais violentos da atualidade, persuadidos por emoções das mais primárias, diretamente provocadas pelo teatro midiático protagonizado pelos lutadores: ódio ao rival, patriotismo distorcido, medo de humilhação, orgulho, dentre outras. As estúpidas - mas de certo modo geniais - provocações de Sonnen cumpriram seu papel: atingiram a grande massa brasileira e garantiram um público massivo aos canais de televisão que transmitiram a contenda. Aposto que, por mais que tenha apanhado, Sonnen também saiu vitorioso desse confronto épico, assim como todas as outras partes diretamente envolvidas: a UFC, Anderson, os agentes, os patrocinadores da luta, apostadores, as redes de transmissão, e muitos outros. E, é claro, os próprios brasileiros ganharam uma boa desculpa para reunir os amigos e acumular, por alguns minutos e de modo osmótico, doses moderadas de adrenalina passiva. 

O desfecho da luta favorece meus argumentos; no final, nada tão surpreendente aconteceu. O malvado perdeu. O herói nacional ganhou. O melhor - e mais previsível - resultado ideológico nesse tipo de espetáculo meticulosamente arquitetado. O homem "dedicado", "zen", "sofredor" e "popular" venceu o "arrogante do Primeiro Mundo", capaz de qualquer ação monstruosa para adquirir o sucesso imediato. A luta pode ter sido mais "real" do que as velhas lutas-livre, mas os personagens são os mesmos, assim como o elevado poder de persuasão sobre os telespectadores, presos por relações de afeto e desafeto com os heróis e vilões do ringue. Anderson não fez Sonnen "engolir todos os dentes", pois isso feriria a própria lógica institucional a que está submetido. No fim, portanto, a fala na rádio e a "ombrada" na pesagem não passaram de provocações meramente simbólicas, ao invés de se constituírem como promessas a serem concretizadas - tanto que a única (e, mais uma vez, bem pensada) atitude de Anderson Silva após a luta foi a de pedir aplausos para seu rival, dando-lhe uma sutil alfinetada verbal. Mais uma vez, o ídolo se consolidava em moldes profundamente "brazucas": trabalhador, disciplinado, mas meio "malandro", "tirador de onda". Taí o o irônico convite para o churrasco que não me deixa mentir.

E um brinde à mais uma vitória esplêndida... da sociedade do espetáculo. 

Pedro Mancini




sexta-feira, 15 de abril de 2011

A decadência da humildade em tempos de fragmentação social

5 comentários:
Em minha última postagem, estabeleci um paralelo entre a paixão juvenil e a experiência pessoal, para apontar como a primeira é mais valorizada nos dias atuais; hoje, traço um raciocínio semelhante para ressaltar que a questão de "fechar a mente para a vida" não é determinada pela idade, e que existem outros fatores a se levar em consideração.

Acho que uma das grandes ironias da sociedade contemporânea é que, conforme cresce a fragmentação social - e, conseqüentemente, as inseguranças individuais - mais uma parcela dos indivíduos radicaliza seu modo de pensar. Kenneth Gergen é um dos autores que escreve sobre o processo de fragmentação da realidade e do próprio “eu” contemporâneo – que ele qualificou como “saturado”. Para ele,

 “A condição pós-moderna, de modo mais genérico, é marcada por uma pluralidade de vozes competindo pelo direito à realidade – de serem aceitas como expressões legítimas da Verdade e o Bem. Enquanto as vozes aumentam em poder e presença, tudo que parecia apropriado, bem-pensado e bem entendido é subvertido. No mundo pós-moderno nos tornamos cada vez mais conscientes de que objetos sobre os quais falamos não estão ´no mundo´ tanto quanto são produtos de perspectivas” (GERGER, Kenneth: “The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life”, p. 7. Nova Iorque: BasicBooks, 1991).

Gergen aponta, portanto, que ao contrário da modernidade, em que algumas poucas perspectivas totalizantes sobre a realidade competiam pelo domínio ideológico, hoje fica mais difícil detectar um número pequeno e bem constituído de "vozes" sobre a sociedade em que vivemos; temos, ao invés disso, inúmeros sussurros espalhados pelo espectro social, que competem entre si e povoam nossas mentes, saturando-as de informações e pontos de vista. 


Uma outra conseqüência dessa fragmentação de modos de encarar a realidade  é a difusão da insegurança: não podemos mais contar, afinal, com uma "grande muleta" ideológica para nos sustentar - ao menos, não com uma muleta maciça e resistente. Não existe uma única religião dominante, uma única ideologia hegemônica, indiscutível, que nos ampare; temos que nos contentar com múltiplas perspectivas incertas, continuamente contestadas, vítimas fáceis da ironia. Sua religião, sua posição política, não passa de mais uma entre dezenas de outras possíveis - e como ter a certeza de que se joga do lado certo?  


Ora, é difícil lidar com a erosão das certezas instituídas, apontada por Gergen. Para aqueles que detém sabedoria suficiente para conviver com aqueles que pensam de modo distinto, essa é uma ótima chance de se desenvolver - de aprender com a voz discordante, aceitando, com humildade, as prováveis limitações de sua própria perspectiva. Já para os mais carentes de certezas, uma alternativa menos indolor e, infelizmente, usualmente adotada é a de agarrar-se a uma dessas perspectivas de forma extrema, a ponto de desconsiderar todas as demais -  e, em último caso, pregar a aniquilamento daqueles que se situam no "outro lado". Agarrar-se a uma ideologia extremista para ser uma saída possível à fragmentação social, portanto.

É nisso, em boa parte, que se baseia a difusão de movimentos fundamentalistas de toda sorte em plena sociedade ocidental. Alguns países não mais se surpreendem quando um gay é espancado na rua, ou um jovem afetado por anos de bullyng rebela-se contra a sociedade a ponto de cometer assassinatos em massa. Todos esses “anti-heróis” procuram agarrar-se em “verdades absolutas”, estejam elas em uma ideologia político-social – como o nazismo, ainda capaz de seduzir jovens “saudosistas” de uma sociedade “organizada” e “pura” – ou em um santuário totalmente pessoal (indivíduos com o ego inflado, que se veem como “gênios incompreendidos” em uma sociedade fria e insensível às suas necessidades). Wellington Menezes de Oliveira seria somente mais um exemplo do último caso, como os grupos de recistas e homofóbicos  - tão ativos  atualmente- exemplificam o primeiro. Ainda há que se considerar, evidentemente, a filiação de indivíduos a grupos religiosos pautados pelo fanatismo e pelo ódio às diferenças - alguns de seus porta-vozes costumam, também, aproveitar qualquer oportunidade para revelar posturas agressivas.

Acredito que o processo de negação da diversidade e de supervalorização de uma perspectiva determinada sobre todas as demais não pode ser vislumbrado apenas nas situações extremas: terrorismo, movimentos neonazistas, homofobia, racismo, etc. Vemos a tentativa de se agarrar em certezas em várias situações cotidianas que pareceriam inofensivas. Muitos, por exemplo, enclausuram-se em uma visão superestimada de sua própria imagem. São os “convencidos” ou “metidos”, que se transformam nos próprios objetos de adoração. Hoje, eles parecem se multiplicar a uma forma alucinante – alimentados pelas possibilidades de auto-promoção trazidas pelas tão faladas redes sociais. Alguns comentários do Facebook e do Twitter são verdadeiros deleites nesse aspecto, mostrando claramente como alguns indivíduos se deslumbram com a ilusão de estarem fixados em um pedestal que os mantém acima dos “cidadãos comuns”.

Parece que a "humildade", valorizada em tempos pré-modernos, é hoje considerada um defeito, algo a se evitar; antes de mais nada, a ordem é “amar-se”, valorizar-se, vender uma imagem positiva de si próprio, ter orgulho e auto-estima elevados. É evidente que esse movimento possui grandes vantagens, além de ter cumprido um importante papel histórico. Valorizar-se como indivíduo destacado do "social" contém elevado teor libertário, protegendo e armando o sujeito contra opressões externas; a partir do momento em que nos valorizamos, tornamo-nos mais imunes a imposições sobre nosso comportamento. Desse modo, as relações de dominação, outrora dependentes de uma imposição externa, conquistada pela espada, devem hoje se concentrar bem mais em uma "submissão voluntária" de seu público. Uma interiorização da ideologia dos dominantes entre os dominados, embora sempre tenha existido, nunca foi tão necessária às relações de dominação. Assim, as grandes marcas devem mais do que nunca "conquistar" seu público-alvo, e até torná-lo seu próprio porta-voz (difundindo a marca nas redes sociais, por exemplo). O consumidor deve adorar o "estilo de vida" vendido pela Coca-cola e pelo McDonalds, e não mais ser um simples comprador de mercadorias.

Mas voltemos ao assunto principal. Ao mesmo tempo em que adquire forças libertárias em outros contextos, um maior amor-próprio, quando alimentado pelas profundas inseguranças trazidas pela fragmentação social, pode resultar em um aterrorizante radicalismo individualista: buscando refúgio em um mundo individual de certezas, em geral fantasioso, o indivíduo corta qualquer comunicação real com o mundo exterior. A outra opção, como já sugerido, não é menos assustadora: a filiação a grupos radicais de caráter comunitário, como bandos de skinheads ou fanáticas facções religiosas. Seja superestimando sua imagem individual e seus conhecimentos no mundo virtual, seja filiando-se a grupos radicais, ou invadindo uma escola armado até os dentes, o cidadão em questão possui uma profunda certeza de que está "absolutamente correto", acima de todos os demais "seres mortais". Quando alimentado pelo sentimento de vingança contra opressões sofridas, como o trágico caso da escola de Realengo, o indivíduo amedrontado pode tornar-se um agressor impetuoso do status quo que tanto teme e demoniza - por “não compreendê-lo” nem fornecer respostas claras e justas para a vida. Rancoroso, deixa de aproveitar a possibilidade de crescimento a partir do diálogo com o Outro, para se fechar em um mundo de ignorância e convencimento, protegendo-se, de dentro de sua bolha, da maldade vista no mundo externo. Acaba iludindo-se com a idéia de ser um Deus entre os homens. Não passa, na verdade, de um ser humano, dentre muitos outros, apavorado com a possibilidade de ser mais um componente da massa. E isso, em meio a um ambiente onde um único ponto de vista não é mais fornecido de antemão como "o correto" ou "verdadeiro". Por baixo de sua carapaça, o mais feroz terrorista não passa de um ser contaminado pelos efeitos mais nefastos da contemporaneidade.




Pedro Mancini 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O "pior dia do ano": lamentos pouco justificados

2 comentários:
Hoje, utilizarei o espaço desse blog de uma forma um tanto distinta da habitual: descreverei o dia que considero, sem muitas dúvidas, o pior do ano para mim. A partir daí, pode ser até que desenvolva algumas reflexões mais amplas, sobre a vida na metrópole (explícitas ou implícitas); mas o principal objetivo é mesmo, admito, o puro desabafo.

O dia já começou mal, antes mesmo do sol raiar: tomado pelo calor, tive grandes dificuldades para dormir. E tinha que acordar cedo, para me deslocar até o centro e solicitar, em um prédio do SUS, um remédio de alto custo. Para mim, o local era desconhecido e quase inacessível: perto do Largo do Glicério. Pois bem, fui até a Praça da Sé e, de lá, andei uns 20min até o local; lá chegando, peguei uns 40min de fila para solicitar cadastro de solicitação de remédios, apenas para descobrir que tinha um documento faltando. Bem, pensei, ao menos já me informei de todos os detalhes burocráticos sobre o procedimento. Da próxima vez, não haverá falhas. Mas é claro que o dia estava apenas começando: percebi o quanto ele seria longo quando me vi um tanto perdido entre os viadutos do Largo do Glicério, procurando algum metrô nas proximidades. Senso de localização nunca foi meu forte, afinal.

 Atravessando um desses viadutos, então,o fato mais marcante do dia me atingiu: um sujeito, vindo em sentido contrário, tira algo como uma comprida chave de fenda de um saco preto, e ameaça "me furar todinho" caso eu não lhe entregue todo o dinheiro de minha carteira. Estava bem no meio do viaduto, isolado da "terra firme", com pouco espaço para realizar qualquer manobra evasiva. Notável é que estava, também, sem dinheiro (com apenas R$2,00 na carteira), e tive provar essa "pobreza" ao assaltante. A seguir, mandou-me entregar o que tinha nos bolsos: mais uma vez, disse que nada possuía. Enfim, mandou-me entregar o meu aparelho de celular.

Nesse momento, admito que tentei, no calor do momento, pensar em alternativas que escapassem das ações  mais óbvias que se esperariam dessa interação social entre "assaltante" e "vítima": mediante ameaça, o assaltado entrega o objeto requerido pelo assaltante, que, consumado o roubo, cessa a interação e deixa o local com velocidade. Ao invés, tentei me esquivar do rapaz... mas tive uma sorte, travestida, inicialmente, de azar: o assaltante reagiu aos meus pensamentos e avançou com a arma branca que portava. Segurei a mesma, mas, agindo racionalmente, verifiquei que corria muitos riscos com a reação que esboçava. Eu tinha chances de conseguir escapar do assalto, de fato; mas, caso ele tivesse a chance de me ferir, estaria no meio de um elevado, com uma mureta me separando dos veículos que passavam na pista, e não poderia contar com nenhuma ajuda por um tempo considerável. Não valia a pena todo esse risco por um simples celular (que nem era dos melhores ou mais atuais), mas a idéia estúpida de reação realmente passou pela minha cabeça na exata hora do assalto. Burrice minha, mesmo - e sorte por não ter sido furado, afinal.

A história poderia ter acabado assim: perdi o celular, mas minha vida foi poupada, assim como minha carteira e minha mochila. Rapidamente liguei para pessoas próximas, solicitando que bloqueassem meu celular. A única preocupação que teria seria a de comprar outro aparelho - me conformei rapidamente com o fato de que nunca iria recuperar o meu antigo. Mas outro fato - infelizmente, como ficará claro - realimentou provisoriamente minhas esperanças. No momento em que eu adentrava o Metrô Term. Pedro II, um motoboy buzinou, chamando minha atenção. Disse que havia testemunhado a ação, e embora não pôde fazer nada no exato momento, seguiu o assaltante em fuga, e, avistando um carro da polícia, o acionou. Os policiais chegaram a abordar o sujeito, o revistaram, mas o mesmo estava limpo: já havia se livrado dos objetos que o  incriminariam, o celular e o objeto pontiagudo. Mesmo assim, achei que se eu mesmo falasse com a polícia, teria chances de recuperar meu aparelho. No que estava pensando?

Chamei, então, os agentes policiais. Após 40min de espera, liguei novamente e descobri que a viatura não me localizou; passaram do outro lado do Terminal. Aguardei mais uns 45min para eles me encontrarem de fato. Nesse ponto, já havia novamente perdido qualquer esperança de reverter a situação; e a polícia também estava cansada de me procurar. A única coisa que fez, então, foi me levar até a delegacia mais próxima, a primeira de São Paulo (1ºDP), perto do Paraíso. Lá, mais um martírio: um flagrante atrapalhou o atendimento, e esperei mais de três horas para conseguir fazer o B.O. E, ansioso com toda a situação, ainda consegui grampear meu próprio dedo enquanto ditava as informações ao policial (tenho mania de mexer em tudo que se encontra ao redor quando estou nervoso). Um temperinho final para meu dia de aventuras.

Por fim, como não poderia faltar, mais de 2h de trânsito. Ao todo, mais de 5h para resolver um simples caso de roubo de celular... sem direito a refeições durante todo o período. Após esse alvoroço, bem descansado, alimentado e banhado, penso que não sou um grande desafortunado. No final, não passo de mais um jovem "pequeno-burguês" me achando o maior dos azarados apenas por um dia ruim, em comparação com minha rotina ordinária; mas quantos não passam por uma situação igual, similar ou mesmo bem pior, muitas e muitas vezes ao ano, quiçá na maioria dos dias? Em uma análise fria, fui mesmo muito sortudo, comparativamente falando: poderia ter perdido todos os documentos e despender muitas horas a mais cancelando cartões e solicitando segundas vias; poderia ter sido morto ou ferido; poderia morar a três ou mais horas de ônibus do local; ou poderia, até mesmo, ser um sujeito tão excluído que seria capaz de assaltar um transeunte apenas para conquistar mais alguns minutos de felicidade hiper-real, pelo consumo de alguma droga pesada - correndo todos os riscos de ser apanhado e destruído pelo sistema durante a tentativa. E eis que, de repente, minha desgraça pareceu minúscula e patética.

 Pedro Mancini


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maiores desenvolvimentos sobre a postagem anterior

Um comentário:

Minha última postagem rendeu algumas críticas ferozes sobre meu posicionamento a respeito dos conflitos no Rio. Claro que críticas são sempre esperadas quando escrevemos sobre assuntos tão polêmicos, e, em especial, quando almejamos nos esquivar de interpretações mais casuais. Mas elas não costumam surgir de forma tão direta - o que dificulta o debate, impossibilitando o desenrolar de melhores explicações, justificativas e até contra-ataques argumentativos. Ou seja: comentem, por favor! Nada alimenta mais um blogueiro do que a participação dos seus leitores (de preferência, uma participação que não se limite à avaliação das postagens publicadas).

Nas próximas linhas, dedicarei-me a esclarecer alguns pontos sobre o raciocínio aplicado na última postagem. Além disso, tecerei uma crítica sobre a postura que vejo presente em parte das análises sobre situações ocorridas no contexto brasileiro atual.

Para começar, os esclarecimentos. Ao focar-me na incompetência do Estado em gerir a situação carioca, não me referi à ineficácia do governo atual; apontei que se tratava de um problema de natureza muito mais profunda, que escapa à resolução de uma simples gestão temporal. Na verdade, é óbvio que a situação exigia uma ação forte do Estado (para além de seus aparatos policiais) e que o Governo, tanto estadual quanto federal, agiu, a princípio, do modo que lhe cabia. Tomou decisões, na verdade, que mostraram uma coragem e vontade política que esteve ausente em governos passados, baseadas em critérios razoáveis: compensando a história ausência de aparatos estatais na periferia, criou um programa de polícia comunitária -as UPPs - que poderia intermediar a entrada de escolas, saneamento básico e vários outros serviços nas regiões mais afetadas pela desigualdade e, conseqüentemente, pela violência urbana. É claro que, por trás das intervenções policiais mais clássicas, encabeçadas pelo BOPE, estava sub-entendida uma concepção de criminalização da pobreza, uma simplificação de que os moradores da favela devem ser tratados como bandidos, concretamente ou potencialmente; mas esse é um problema histórico de representação social em vigência no Brasil, e não se pode esperar que um simples governo temporal cause grandes mudanças nesse pensamento.

Infelizmente, contudo, continuo sendo pessimista no que tange à possibilidade de o Estado resolver definitivamente a questão da segurança pública da capital fluminense com o tipo de ação visto nas últimas semanas. O "oba-oba" exibido pela mídia, que obscurece a possibilidade de plena apreensão da questão, mascara a necessidade de iniciativas mais profundas, que ataquem diretamente a questão da desigualdade e da exclusão sociais, eliminando a criminalidade pela raiz. O problema é muito mais sério do que os jornais fazem parecer, e, antes de uma comemoração antecipada, é necessário um aprofundamento das ações de penetração do Estado em comunidades periféricas. E temo que isso não ocorra pela perpetuação da imagem de "plena vitória", aplacada por vários setores pela grande mídia, como se o Rio já estivesse totalmente livre de seus males graças à atuação "heróica" do BOPE, em ações de intervenção que suportam a atuação das UPPs.

Continuo achando, ainda, que existem interesses que validam essa representação (da vitória incontestável das forças de segurança sobre a criminalidade). Temo que nisso, porém, tenha sido mal interpretado: não vislumbro uma "conspiração" na apreensão clássica do termo, com um grupo social específico exercendo secretamente seu poder sobre todo o resto da sociedade. Acredito, na verdade, que estamos imersos em uma enorme teia de interesses múltiplos, que, por vezes, convergem pelos mesmos objetivos táticos. Nesse caso, vemos algumas forças políticas com interesses articulados por vender uma representação de resolução absoluta sobre uma séria questão de segurança pública. 

Talvez, portanto, tenha deixado as palavras pesarem além da conta, chamando as ações no Rio de "grande farsa"; de fato, elas ocorreram, e provavelmente colaboraram para que a situação carioca melhore a curto, médio e longo prazos. Mas esses atos policiais foram, sem dúvida, super explorados - e até mesmo superestimados - pela mídia e pela sociedade. Possivelmente motivados pela ânsia de mostrar que "a vida imita a arte", trazendo os efeitos desenvolvidos em Tropa de Elite 1 e 2 para uma dada exibição sobre a realidade cotidiana, o dia-a-dia de policiais e moradores do Complexo do Alemão foram exibidos à exaustão, antes, durante e após a "invasão final e definitiva". Misturavam-se cenas da "Tropa de Elite real" com um gigantesco Big Brother, com a vigilância contínua do dia-a-dia dos cidadãos do Complexo em meio aos conflitos armados. E, sinceramente, não acredito que toda a comoção desencadeada seja neutra de significado: atende a demandas e interesses de certos setores sociais (pelo jeito, muitos, e muito relevantes). O maior problema, como já afirmei, é que o excesso de atenção à "imagem" do que ocorreu no Rio de Janeiro pode bloquear uma visão real dos fatos, que vislumbre as condições reais da proliferação da violência na periferia urbana.

Agora, um outro ponto: parece-me que um simples comportamento mais "pessimista" desperta uma série de associações político-ideológicas que nem sempre são verdadeiras. Graças à minha última postagem, sofri a comparação - talvez alimentada por resquícios da radicalização vivida pelo país nas últimas eleições - entre meu pensamento e a postura eleitoral de 2006 de Geraldo Alckmin, que procurava, a todo custo, argumentos para atacar o Governo Lula. Bem, faço aqui uma crítica a respeito da postura de boa parte da massa otimista com o governo atual: em sua ânsia por rebater a ferocidade da oposição, que agiu de forma extremamente violenta nos últimos meses, os lulistas e dilmistas mais radicais, ainda pensando de forma maniqueísta, desqualificam qualquer apontamento mais negativo sobre a realidade brasileira atual. Parece sempre um "papinho" da oposição, desesperada em agredir o governo presente.

Ora, é evidente que, mesmo se considerarmos os incontestáveis pontos positivos da administração petista - em especial, sua competência na aplicação de medidas de combate à exclusão social mais absoluta - vários problemas ainda afligem o país, não podendo ser facilmente resolvidos por um simples governo temporal. Além disso, havemos de manter o senso crítico, apontando os erros da administração de Lula e da futura presidenta Dilma  -  que, até então, não foram poucos. Houve falhas admistrativas de grandes proporções, que escapam do simples "blá-blá-blá" vomitado pela mídia em momentos eleitorais. Há, em suma, que "se colocar os pingos nos ´is´": Sim, o governo atual é mais competente no combate a problemas críticos da sociedade brasileira, em comparação com governos passados; e não, ele não consegue eliminar todos os problemas estruturais do país, e ainda está sujeito a graves insuficiências, que devem ser apontadas, sem se menosprezar os avanços alcançados. A militância não deve ser apagada por sua própria fidelidade ao governo; deve apenas ser melhor direcionada, mais precisa.

O que fiz, portanto, não foi nenhum exercício de oposição míope ao Governo. Em primeiro lugar, porque reconheço que as medidas tomadas foram corajosas e necessárias, concentrando minhas críticas à posterior imagem, criada e alimentada pela mídia, a respeito da situação carioca. Com todas as limitações a que estão sujeitos, os governos municipal, estadual e federal fizeram a parte deles. Em segundo lugar, porque critiquei, igualmente, uma questão que vejo como estrutural na sociedade, consolidada nas instituições e nas representações sociais em vigência, e que escapam de um combate governamental direto. Problemas de Estado e de "consciência coletiva", para utilizar a terminologia do velho Durkheim; não de governo ou de indivíduos que se unem com objetivos conspiratórios, simplesmente. Tratei, dessa forma, de preconceitos arraigados entre vários setores e explorados pela mídia em exaustão, e formas de pensar e agir que se atrelam ao Estado de forma absolutamente parasitória, contaminando sua gestão. Os governos terão muito mais trabalho no combate a esses inimigos do que tiveram, em aparência, na luta contra o tráfico do Alemão...

Pedro Mancini










quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Rio de Janeiro: entre a incompetência arrastada e a grande farsa

13 comentários:
Mais uma vez, depois de algum tempo, tive que abandonar o blog por uns dias. Explico-me: o fim-de-semestre foi realmente conturbado, e tive de lidar não só com uma certa "correria acadêmica", como com uma série de outros problemas, inclusive de cunho técnico-informático. 

Embora o pior já tenha, aparentemente, passado, ainda não estou 100% recuperado dessa "ressaca" de fim de ano; mas já devo estar bom o suficiente para escrever algumas coisas - o que, inclusive, me serve como um bom remédio contra meu atual estado de letargia 

Estou minimamente apto, portanto, a tecer algumas reflexões bem superficiais sobre o que aconteceu - e ainda acontece - na cidade do Rio de Janeiro. Perdoem-me, porém, por imprecisões e indecisões: nesse meu isolamento do mundo virtual, afastei-me igualmente de análises mais pormenorizadas sobre a situação carioca, pautando-me, tão somente, em impressões pessoais obtidas mediante uma análise mínima sobre reportagens vinculadas na mídia tradicional.

Primeiramente, admito que já estive entre aqueles um pouco mais otimistas: achei a idéia por trás das chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) muito interessante, buscando uma integração entre agentes estatais de segurança e comunidade local e aliando ações de cunho repressivo a medidas de desenvolvimento de outros aparatos institucionais do Estado nas regiões ocupadas (escolas, saneamento básico, postos de saúde, etc). Evidente que, como a maioria dos projetos, difícil levar a idéia para a prática com toda a eficácia inicialmente planejada; mas, enquanto tipo-ideal, as UPPs são realmente curiosas e inovadoras - Especialmente como contraponto ao bárbaro BOPE, voltado única e exclusivamente à mais brutal repressão, com uma ideologia de total separação não só entre o policial e a comunidade, mas entre seu papel social de "caveira" e sua própria humanidade interior.

Vista sob esse prisma, a série de ataques articulada pelo crime organizado, que resultaram na intervenção de várias forças de segurança no Rio de Janeiro, seriam reações desesperadas ao sucesso da implementação das UPPs - além, é claro, à sinistra ocupação de várias comunidades por milicianos anti-tráfico, bem retratada pelo filme "Tropa de Elite 2". O crime organizado, em suma, perdera terreno, e tinha que mostrar, de algum modo, que ainda estava no controle, e que o Estado (e "adjacências" ilegais, como as milícias) não avançaria mais um passo sem lidar com forte resistência. 

Após retaliação dos criminosos, com a queima de veículos por toda a capital fluminense, o Estado resolveu agir com vigor. Pela primeira vez em décadas de combate contra facções criminosas que dominam as favelas cariocas, vários órgãos de segurança do Estado, bem como múltiplos setores da sociedade, uniram-se por uma mesma causa: a remoção do Rio de Janeiro do seu estado de anomia social, com os constantes embates entre facções, milícias e policiais. O contexto prometia uma solução permanente para a problemática da violência urbana carioca.

A cobertura da mídia sobre a ação da Polícia e do Exército no Complexo do Alemão representou muito bem esse caráter de "momento decisivo" da luta contra o crime e de união de toda a "sociedade civil" em torno dos mesmos propósitos; pela primeira vez após o radicalismo ideológico fomentado pelas eleições presidenciais, a sociedade brasileira parecia falar em uma só voz. Uma voz de apoio incondicional às ações do BOPE, mais uma vez convocado para as batalhas mais difíceis, e de esperança quanto a uma solução  não-paliativa.

Em uma dada semana, as principais revistas semanais de notícias reproduziram esse pensamento: Veja, IstoÉ e ÉPOCA retrataram o momento carioca pelo viés da luta do BOPE contra o "mal" dos traficantes, e com um tom de otimismo com relação ao futuro da cidade. Nos discursos do cotidiano, também era difícil encontrar vozes distoantes. Todos os que vêem o caos carioca de longe parecem pensar de forma razoavelmente parecida, qual seja:  interpretando a situação como uma simplória luta entre o "bem" e o "mal". Com esse raciocínio, elimina-se a crítica à brutalidade do BOPE, por exemplo: nesse momento de crise, deixa de ter importância uma análise sobre a moralidade de sua atuação, e ele é simplesmente categorizado como compondo o "lado do bem", lutando pelo "cidadão" que o Estado tanto gosta: ordeiro, aceitando a exploração pelo mercado de trabalho, ao invés de rebelar-se contra o mesmo.






Por fim, a mídia noticiou o pleno sucesso da operação de ocupação do Complexo. As facções foram desmanteladas de modo muito mais rápido e fácil do que previsto pela maioria, senão por todos. Agora, só resta perseguir os prováveis fugitivos e encontrar armas e drogas deixadas para trás. O crime organizado sofrera uma derrota humilhante.

Fujo, porém, das interpretações mais casuais sobre a atuação do Estado mediante os últimos acontecimentos: ao invés de me parecer um sucesso óbvio, a operação serviu para confirmar uma grande ineficácia das instituições brasileiras, ao menos em sua apreensão racional, baseada nos preceitos ocidentais da justiça e da igualdade de todos perante a lei. Uma ineficácia não do  governo atual, mas muito mais profunda, de Estado mesmo. Afinal, das duas uma: ou o crime estava bem menos articulado do que o previsto, e poderia ser vencido há muito tempo - e o teria sido, se não fosse conveniente ao Estado mantê-lo e permitir seu desenvolvimento; ou, e essa é a alternativa mais terrível, o crime está muito mais emaranhado na realidade social do que aparentava, e todas as ações dos últimos dias não passaram da mera simulação de uma batalha épica contra um inimigo muito mais poderoso, de atuação capilar.

Pensando sob a última perspectiva, o problema da segurança pública não foi diretamente atacado. Tudo não passou de ilusões e manipulações, de uma grande farsa, alimentada por uma rede de "interesses escrotos" (palavras utilizadas pelo Capitão Nascimento para caracterizar o "sistema" que combate em ´Tropa 2´). Continuo defendendo, portanto, que não existe algo como uma "opinião pública" homogênea, com um só interesse: as últimas ações policiais beneficiaram certos setores em detrimento a outros (e não estou falando de uma mera dicotomia "cidadãos de bem" X "bandidos"), como toda decisão política, por mais que a imagem de uma unidade de pensamento tenha sido formada. Alguns dos interesses por detrás dessa farsa parcial podem ter vindo da preocupação com a imagem da cidade que sediará eventos das Olimpíadas e da Copa do Mundo de Futebol, nos próximos anos. Mas acredito que muitos outros interesses escusos estejam envolvidos.

Se essa visão se confirmar, vimos apenas a consumação de mais uma medida paliativa e provisória para o Rio, criada sob a máscara da "resolução final", da "luta épica contra o mal". E assim, a sujeira é mais uma vez empurrada para debaixo do tapete, de modo absolutamente conveniente para os interessados mais poderosos: enquanto alguns criminosos são desalojados, vários outros mantém seus domínios, inclusive os milicianos, em plena re-expansão. E o pior: os problemas sociais reais, que afligem as comunidades periféricas, não são manejados; a polícia aparece, espanta os traficantes e, após o furor sócio-midiático inicial, se recolhe, se corrompe ou ambos. As preocupações iniciais das UPPs, de trazer o Estado inteiro (e não sua parcela repressiva, exclusivamente) esvanecem no ar. A exclusão social se mantém, mas apaziguam-se os ânimos mais acirrados da população e da mídia, sedentas por um frágil estado de paz imediata.


Pedro Mancini 


domingo, 6 de junho de 2010

A ameaça concreta e objetiva de Israel e a ameaça virtual e abstrata do Irã...

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Acontecimentos trágicos, e bastante atuais, me fazem  tecer mais alguns comentários sobre a importância do acordo entre Irã, Brasil e Turquia: os ataques israelenses à embarcações com militantes pacifistas pró-Palestina, que mostram, de forma inexorável, a diferença de tratamento das grandes potências com relação às atitudes de outras nações.

Um helicóptero das Forças Armadas de Israel simplesmente pairou sobre uma embarcação e liberou soldados que, assim que abordaram o barco, atiraram nos manifestantes a bordo - que, para se defender, portavam apenas objetos de mão. Vejam a notícia e assistam ao vídeo, para recordar sobre a ação israelense.

Apesar da forte reação internacional contra o ataque desmedido e injustificável de Israel, as autoridades do país não só mantiveram uma postura de indiferença às críticas, como abordaram mais uma embarcação, dias depois - não ousando, apenas, cometer mais assassinatos.

Esses verdadeiros atos de pirataria, levado a cabo pelo Estado de Israel em águas internacionais, prova definitivamente a desigualdade ainda reinante nas relações internacionais. Enquanto países como o Irã e a Coréia do Norte são tratados como ameaças concretas à "Ordem Mundial", tendo por  base desconfianças deveras abstratas sobre as  intenções de seus governantes, Israel, agindo de forma muito concreta contra qualquer noção de justiça, legalidade ou respeito à vida, é tratado com um excessivo carinho pelas grandes potências - em especial, é claro, pelos Estados Unidos, seus eternos protetores.

Se alguém ainda tem dúvidas de que Israel representa uma ameaça internacional muito maior do que os países demonizados pelos EUA, não está utilizando minimamente a razão, interpretando a situação geopolítica com um nítido viés ideológico. Inclusive por ser absoluta idiotice acreditar que qualquer governo institucionalmente organizado, como o iraniano, ousaria atacar seus vizinhos com armas nucleares, quando os últimos possuem um arsenal muito maior - estima-se que Israel, sozinho, tenha posse de mais de 100 ogivas nucleares (sem contar as milhares de ogivas estadunidenses).

Pedro Mancini

sábado, 3 de abril de 2010

Marcelo Dourado e a vitória do politicamente incorreto

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O resultado da última edição do BBB, assim como outros fenômenos menos explosivos do universo televisivo brasileiro, fazem-me escrever mais uma postagem sobre aparentes futilidades.

Como todos já devem saber, um tal de Dourado foi o vencedor da última edição do programa global. Mais polêmico entre os confinados, ele ganhou notoriedade por adotar um discurso considerado machista e homofóbico, afirmando que bateria em uma mulher "se ela fosse homem", e que apenas homossexuais transmitem o vírus da  AIDS. Mesmo assim, não apenas consagrou-se vitorioso, como mobilizou toda uma parcela da população a seu favor - tanto homofóbicos que denunciavam a existência de uma "heterofobia" entre a sociedade, quanto aqueles mais "ingênuos", que apenas conclamavam que Dourado era uma pessoa simples e sincera, com todo o direito de cometer alguns erros.

É sempre assustador saber que existem pessoas do primeiro tipo, que adotam Dourado como uma espécie de paladino da heterossexualidade contra a "contaminação" do mundo pelos homossexuais. Contudo, é a segunda parcela  que citei que mais prendeu minha atenção: os defensores de Dourado como "ícone da espontaneidade", da sinceridade e da simplicidade. Alguém como nós, com seus defeitos, mas que não adota uma postura hipócrita, sem, em outras palavras, se maquiar como um modelo de perfeição a ser admirado e seguido. Uma espécie de herói sincero, "sem nada a esconder", em meio a um bando de falsos hipócritas. Como pretendo mostrar, acho que as duas formas de pensamento possuem uma relação estreita e perigosa, por mais que tentem escamoteá-la.

Na mesma hora, associei esse discurso da sinceridade, da espontaneidade e da imperfeição a uma perspectiva adotada por amplos segmentos da mídia, em especial o especializado em humor, e reproduzida por sua audiência: um ataque (ou contra-ataque?) à tudo aquilo considerado "politicamente correto".

Cito, como ilustração, o problema que o humorista do CQC, Danilo Gentili, teve recentemente, após deixar escapar uma piada considerada racista em sua conta do Twitter (e estragar ainda mais a situação na tentativa de seu remendo). Como respostas às inúmeras críticas que recebeu, vociferou contra os chamados "politicamente corretos", um bando de hipócritas que adorava achar pêlo em ovo e melar o sentido das piadas sobre estereótipos sociais.Não tardou para que dezenas de milhares de simpatizantes aderissem ao coro do politicamente incorreto encabeçado por Gentili.

De fato, é notória a existência de grandes hipocrisias em meio à população, que servem como carapuça de camuflagem para escamotear preconceitos em geral. Pessoas que expressam seus valores de uma forma, mas pensam, em seu íntimo, de outra; que agem contrariamente ao que defendem. Contudo, isso não deve, de forma alguma, ser confundido com a simples existência de valores morais reais que orientam nossas condutas e julgamentos. Valores a serem defendidos em prol de uma visão ideal de convívio social harmônico - em prol de uma Humanidade que aceite e convive com inúmeras diferenças individuais.

O perigo maior, perpetuado pelos que vociferam contra o politicamente correto, é a possibilidade de defesa do DIREITO de sermos preconceituosos, junto a  uma BANALIZAÇÃO da violência e da intolerância. Partindo-se do pressuposto dos "politicamente incorretos", de que somos tomos imperfeitos ou hipócrias, qual seria o problema de contarmos uma piada racista, ou de sermos um pouco homofóbicos ou machistas? Ninguém é perfeito, ou melhor, somos todos imperfeitos, imorais, intolerantes. Caso não admitamos essa imperfeição, não passamos de porcos hipócritas. Para quê não admitir isso de vez, não tomar os pequenos defeitos morais naturais e absolutamente compreensíveis? É a naturalização da ignorância.No limite, todos podem se sentir à vontade para erguer suas bandeiras de intolerância e segregação.

Bem, o "politicamente correto" que defendo não é a ocultação dos preconceitos, o fingimento de que eles não estão entre nós - isso, sim, é hipocrisia. Muito pelo contrário, acredito que devamos não apenas admitir a existência do preconceito e da intolerância em todos os níveis da sociedade, mas expô-la aos olhos de todos, mas para que possamos COMBATÊ-LOS, e não naturalizá-los e legitimá-los. Se somos todos moralmente imperfeitos, que tal nos mobilizarmos para mudar essa situação, aprimorando nossos  valores?

A vitória de Marcelo Dourado no BBB, assim como permanentes reações contra qualquer tentativa de combate à intolerância e ao preconceito, são, para mim, parte de um mesmo e trágico movimento. Não caminhamos rumo a uma nova radicalização DE FATO, pois os intolerantes sempre existiram; mas, com a expansão de certos direitos dos excluídos, como maior aceitação dos homossexuais em alguns níveis sociais, e com a expansão do "politicamente incorreto", há uma reação contrária que tende a revelar intolerâncias outrora mais sutis. A defesa pelos valores dos agrupamentos mais favorecidos ressurge como se os últimos fossem "oprimidos" pelos Direitos Humanos e por um mundo (em tese, e muito menos na prática) mais "politicamente correto". Os intolerantes hoje são vítimas auto-intituladas, chegando ao ápice de apontar para a existência de uma "heterofobia" (?) em meio à população.

Não há outra palavra para descrever esse movimento, portanto, senão como sendo reacionário.Brotando de todos os lugares, retirando suas máscaras de aceitação, admitindo a possibilidade de serem o que são, os intolerantes indiscretos e sua aceitação social são uma reação à divulgação de valores universais que preconizam e ensaiam a expansão de certos direitos à camadas menos incluídas. Vide a forte reação, de vários setores, contra a divulgação do último Plano Nacional de Direitos Humanos.

Uma  contra-reação generalizada, diga-se de passagem, que copia fórmulas do passado, adaptando-as ao presente. Nada de novo em si: como todos os movimentos reacionários em geral, o que há é um temor e um desprezo pelo Outro, pelo diferente, e o enclausuramento em um mundinho comunitário utópico de "iguais", uma defesa do Nós contra qualquer perspectiva de universalização de direitos: o mundinho dos heterossexuais contra os homossexuais, dos brancos contra os negros, dos cidadãos de uma nação contra os imigrantes, dos ricos contra os pobres (e vice-versa, para todos os casos)...

E você aí em casa, achando que a humanidade evoluiu muito, produzindo IPods em série. Por vezes ainda me sinto na Idade Média.

Pedro Mancini

quarta-feira, 10 de março de 2010

Minhas experiências no Carnval 2010 - Parte II

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Sei que o Carnaval já passou há um tempo e que o assunto que irei tratar, a princípio, está meio batido, mas, mesmo assim, vou me arriscar.

Na primeira postagem sobre o Carnaval, me limitei a uma pacata análise sobre meu deslocamento nessa data, além de descrever minhas impressões sobre o Desfile das Escolas de Samba. Hoje, descreverei um pouco das minhas experiências com a própria população que vivenciava o espírito do Carvanal, especificamente nas areias da maltratada Praia Grande.

É, arrisquei-me mesmo a passar todo o feriado nessa região, apesar das inúmeras recomendações ao contrário. E tenho que admitir que, excetuando-se a companhia, me arrependi de tentar "relaxar" nessa praia. E por tudo aquilo que todos sabem: a bagunça maciça, a despreocupação generalizada da população usuária com o espaço público e o espaço do outro (manifesta pelo lixo nas ruas e na areia e pelo som alto vindo dos porta-malas de inúmeros carros, entre muitos outros exemplos), a superlotação, etc., etc., etc...

Como disse no começo, o assunto que trato aqui é meio batido: o desprezo das pessoas pelo espaço dos outros, que se manifesta com força especial durante certos feriados -- e que aparece com força particular em meio ao Carnaval. Tentarei, contudo, dar um contorno um pouco menos óbvio às minhas observações sobre o tema.

Para começar, rechaço a hipótese, muito recorrente, de que esse tipo de desprezo pelo espaço público e pelo bem-estar de outros indivíduos seria exclusivo de uma classe menos abastada, ignorante pela simples falta de educação elementar.

O que muda em cada classe social, talvez, são os momentos em que o desprezo pela vida pública se manifesta. Comportamentos mais hedonistas e desrespeitosos para com o espaço do outro são mais visíveis, talvez, quando oriundos de indivíduos de classes mais pobres: o funkeiro que escuta música alta no ônibus sem se preocupar com os demais passageiros, os funcionários de obras que fazem gracejos explícitos a garotas que transitam pelas ruas, ou a família mal educada que deixa um rastro de lixo após deixar as areias da praia.

Contudo, os "grandes cidadãos" das classes média e alta também costumam manifestar esse desprezo pelo espaço dos outros - mas em momentos mais específicos de descontração, de "fuga" do mundo racionalizado e competitivo a que estão submetidos em suas rotinas pessoais e profissionais. É longe dos ambientes públicos que esses homens mais incluídos no sistema dominante manifestam sua faceta egoísta e hedonista - e, muitas vezes, de forma extremamente agressiva. São bem conhecidos, por exemplo, os casos de crimes cometidos por playboys, influenciados por esse desprezo pelo público e pelo anônimo e por um gostinho pela humilhação alheia. Variam desde o lançamento de ovos e o espancamento de prostitutas e homossexuais, até a combustão de índios e mendigos. Mas também aparecem de modo mais sutil, em indivíduos abastados de todas as idades, por meio de atos como: sonegação de impostos, desrespeito às leis de trânsito mais básicas, e o arremesso de lixos "mais inofensivos" ao chão - como bitucas de cigarro.

Em outras palavras, acredito que o desprezo pelo espaço público, que imputamos  à uma massa amorfa de indivíduos pobres e sem estudo, é na verdade muito mais geral em nossa sociedade - atingindo, em graus  variados, todas as classes e todos os graus de instrução. O que ocorre, apenas, é que as classes mais inseridas em um universo racionalizado e burocratizado camuflam essa inclinação, manifestando-a em segredo, em momentos de descontração, isolados de seus mundinhos ordinários.

Estaria esse descaso com o espaço alheio e com o espaço público "marcado" no ethos cultural do brasileiro? Acredito que sim, ao menos em certa medida. Seja explicitamente ou "lá no fundinho", estamos "cagando e andando" para o próximo. Valorizamos os "nossos", mas desprezamos o anônimo, o excluído, o "outro" de forma geral.

 No carnaval praiano, trago outro exemplo claro: as brincadeiras de arremesso de bexigas d´água, que, acredito, já se caracterizaram como um modo lúdico de socialização entre amigos e vizinhos, e que se transformou em mera agressão ao próximo, ao indivíduo desconhecido: não se arremessam mais essas bexigas com água apenas, mas espalham-se espumas nos estofamentos dos veículos, arremessam-se excrementos, e jogam-se até mesmo cocos inteiros nas latarias dos carros que circulam pelas ruas da Praia Grande.

Infelizmente, acho que a solução para todos esses casos de descaso e de agressão ao público não se limita à mera educação formal, pois, como já argumentei, esse comportamento também se manifesta - embora com maior descrição, em muitos casos - em indivíduos do mais alto nível educacional (vide, apenas como um dos inúmeros exemplos possíveis, o caso da Uniban). Por mais que escondamos essas atitudes embaixo do tapete, pelo uso da roupagem da cidadania e da civilidade, elas teimam em se manifestar em nossos rotinas, e, em especial, em nossos momentos de distração e lazer, quando estamos mais propensos a revelar nosso "verdadeiro eu" - como no Carnaval, em que a manifestação desses fantasmas interiores torna-se especialmente justificável (é o espírito do Carnaval, arriscaria-me a dizer). Está aí um ótimo momento para manifestarmos nosso ódio mais profundo ao Outro e o desprezo pelo espaço de "todos", mascarados pela aura de "alegria" de que esse feriado se reveste. 

Pedro Mancini

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Haiti e as controvérsias levantadas pelas catástrofes sociais

3 comentários:
A calamidade ocorrida no Haiti, como todas as grandes crises sociais, suscitou um número enorme de questões. Para a Sociologia, muitas vezes, é nesses momentos de extrema tensão e rompimento da normalidade que as regras e valores sociais se revelam, desnudos de adornos e distorções.

Para além dos absurdos proferidos pelo cônsul do Haiti no Brasil, já bastante difundidos (http://www.youtube.com/watch?v=_K5lBkDcYf8), aponto para outras questões levantadas pela catástrofe. Já contestam, por exemplo, a real finalidade dos Estados Unidos e até mesmo do Brasil no que tange ao envio e manutenção de tropas no Haiti destruído (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4521). Segundo esses críticos, se trata, para além de uma ajuda humanitária, de uma ocupação militar pouco engajada com uma reconstrução real do país.

Outra questão, percebida por pessoas do Twitter e de meios de comunicação mais alternativos, é a desigualdade, ao menos inicial, na consideração das vítimas da catástrofe.

É realmente incrível como os grandes meios de comunicação valorizaram muito mais, nos primeiros dias após o terremoto, a perda da vida da fundadora da Pastoral da Criança, a brasileira Zilda Arns, do que de milhares de haitianos. Por alguns momentos (felizmente, parece que agora as atenções se voltaram definitivamente à destruição do país e da condição de vida da população haitiana em geral) a tragédia se resumia, em grande parte, à morte de Agnes.

Obviamente, a explicação para essa valorização extrema de UMA morte em meio a dezenas de milhares não pode se resumir ao senso de comunidade compartilhado pelos brasileiros - a morte de militares do Brasil no Haiti também causou certo impacto, mas menor do que a morte da filantropa. Lembro-me, a título de exemplo, que o governo Lula foi criticado por não decretar luto oficial nacional - mais uma vez, não por causa dos incontáveis haitianos prejudicados pela catástrofe, mas apenas pela morte dessa bondosa senhora.


Antes que digam qualquer coisa sobre a biografia de Agnes, não coloco isso em discussão. Aparentemente, era alguém de fato de muito valor, que dedicou sua vida à melhora da condição de vida de crianças desfavorecidas. Mas a questão, como sempre, não é essa; o que me atormenta é o impacto simbólico da morte de uma pessoa moralmente valorizada, em relação a um impacto inicial infimamente proporcional de cada haitiano. Parece que a "certeza" da bondade de uma filantropa (que preenche um perfil muito valorizado em nossa cultura, da boa velhinha rica e de cultura que ajuda os pobres e desamparados) tem muito mais peso do que o desconhecimento sobre a massa haitiana. O que me faz lembrar a política militar de Israel, que age como se a vida de cada soldado de seu país valesse mais do que a vida de - no mínimo - dez ou vinte civis palestinos.

Fica difícil não concordar com mais uma postagem provocativa do blog "The Classe Media Way of Life"(http://classemediawayoflife.blogspot.com/2010/01/dica-040-ficar-chocado-quando-um-rico.html), lançada antes mesmo do terremoto: morte de pobre é corriqueira, morte de rico e gente "importante" é uma calamidade, "tragédia que abalou a família brasileira". Se Zilda Agnes realmente correspondia à imagem que o Brasil a respeito dela, não acredito que ela estaria satisfeita.

Como nos mostra o exemplo israelense, é claro que uma valorização desigual da vida não é própria da sociedade brasileira. Mesmo os EUA, auto-proclamados líderes da bandeira democrática e da igualdade de direitos, utiliza o termo "VIP" (Very Important People) para designar aqueles que são vistos como "mais valiosos" do que o resto da população. No Brasil essa desigualdade simbólica também é gritante, influenciada pelo esqueleto estratificado de nossa cultura e camuflado por um suposto caráter liberal e democrático de nossas instituições (hipocrisia esta muito bem notada por Roberto DaMatta, em "Carnavais, Malandros e Heróis").


Mas para não terminar a postagem de modo totalmente negativista, ressalto a afirmação de que essa desigualdade de tratamento, no tocante às vítimas do terremoto do Haiti, parece ter sido reduzida dias após a tragédia. Reportagens atuais já focam muito mais para a vida dos dos milhões de sobreviventes desabrigados em meio a um oceano de cadáveres. Pena que essa nova ênfase pode muito bem estar relacionada à tentativa de legitimiação de uma ocupação militar perpétua do Haiti, seja pela ONU (emcabeçada por nós), seja pelo velho exército americano de sempre.

Ops! "Negativei" de novo.

Pedro Mancini

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ainda sobre a Leila Lopes (Última)

Um comentário:
Só para finalizar o assunto: Leila Lopes deixou uma carta aos familiares com suas justificativas para o suicídio. Para quem tiver curiosidade mórbida ou interesse "acadêmico" para analisar seu discurso, deixo a opção: http://br.noticias.yahoo.com/s/08122009/48/entretenimento-familia-divulga-carta-deixada-leila.html

domingo, 6 de dezembro de 2009

Esclarescimentos sobre a postagem anterior

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Não sei se todos estiveram à parte dos acontecimentos que me fizeram elaborar a postagem de ontem, mas, por via das dúvidas, descreverei brevemente os fatos.

No dia 03/12, a atriz Leila Lopes, que já participou de várias novelas da Globo e recentemente partiu para o mercado de filmes pornográficos, foi encontrada morta em sua residência (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u661197.shtml). A polícia suspeita de suicídio.

Tão logo a notícia se espalhou, os piadistas de plantão do Twitter dispararam seu arsenal de piadinhas - algumas delas razoáveis, outras bem infames. Até aí, não vi lá muitos problemas - não quero entrar em um moralismo simplista. Algumas piadas eram, de fato, boas, sem atacar diretamente os valores humanos (por exemplo, piadas que comparavam a morte da atriz com a do locutor Lombardi, do SBT).

Nesse contexto, Rafinha Bastos, do programa semanal da Bandeirantes CQC (http://www.band.com.br/cqc/), um programa bem a gosto da classe média paulistana, lançou a seguinte piada, via Twitter: "Ñ condenem o suicídio. Pense: Se vc fosse a Leila Lopes, o q vc faria?"

A partir daí, o humorista recebeu uma série de críticas pela rede informacional. Como se não bastasse a infelicidade da referida piada - que atacou moralmente a integridade não só de uma atriz, mas de todos seus amigos e familiares, sofrendo por sua recente perda (e que NÃO PRECISAVAM ler esse tipo de comentário), Bastos lança um comentário de "defesa que soa ainda pior: "A todos os q se ofenderam c/ o q eu disse da Leila Lopes: A vida é ótima e suicida tem mais é q se fuder".

(Aliás, esse tipo de reação parece ser bem próprio dos membros do CQC: Danilo Gentili já foi acusado de fazer uma piada racista e, ao se defender, causou ainda mais mal-estar entre seus seguidores de Twitter).

Enfim, foram esses acontecimentos da presente semana que me motivaram a escrever a última postagem.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Suicídio e o Humor

3 comentários:
Estou abismado com a agressividade demonstrada por alguns humoristas, no Twitter, sobre o suicídio, ao comentarem sobre a morte de Leila Lopes.

Rafinha Bastos, do CQC, para além de qualquer piada de mau gosto, chegou a afirmar que "suicida tem mais é que se foder".Como seu colega de programa Danilo Gentilli, ao expor uma piada acusada de teor racista meses atrás, o comediante consegue piorar uma piada ruim com comentários posteriores, de defesa, que mais "queimam seu filme" do que "livram sua cara".

Ao dizer que os suicidas tem mais é que se foder, Bastos deixa de apenas guardar mais umas piadas de péssimo gosto em seu currículo para tecer um comentário desrespeitoso, agressivo e intolerante. É claro que logo seus defensores surgem das profundezas, buscando distorcer as circunstâncias ao taxarem os críticos de Bastos de intolerância e "corretismo político"!!
(Aqui, eu poderia acrescentar a hipocrisia presente nesse raciocínio "CQCniano": eles acusam os críticos de serem politicamente corretos, mas se acham no direito de tecer comentários moralistas sobre o comportamento de celebridades e políticos nacionais.Quem, afinal, é hipócrita nessa história?)

Rafinha cai, ainda, no senso comum ao abstrair todas as configurações sociais que levam as pessoas a cometerem suicídios, responsabilizando, de forma simplista, o suicida por sua atitude - além de demonstrar grande raiva com relação a essa "solução final", dada por pessoas desesperadas, mostrando um certo moralismo sobre o valor da vida.

De modo similar, os doentes são progressivamente responsabilizados por suas doenças - como uma vítima do câncer, da Aids ou de um ataque cardíaco, com seus estilos de vida e comportamentos passados vistos como únicos fatores causadores das enfermidades. Indo mais longe, garotas como a da Uniban e milhares de mulheres estupradas, vítimas de violência sexual igualmente injustificável, são vistas como grandes causadoras das desgraças que as assolam - como se, indiretamente, respaldassem as ações de seus agressores pelos seus comportamentos "moralmente questionáveis".

Como Durkheim, o pai da Sociologia, já demonstrou, os suicídios, para além das motivações subjetivas dos indivíduos, possuem causas sociais. É preciso entender quais são as características circunstanciais da sociedade contemporânea que tornam atraentes às pessoas se absterem de viver, mergulhando na morte. Declarações de figuras públicas nacionais, como Rafinha Bastos, sobre o assunto, apenas escondem a questão nas profundezas de um quarto escuro, isolado dum debate público sobre a sociedade que nos rodeia.

Pedro Mancini

sábado, 6 de dezembro de 2008

Será?

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Coluna Zapping, Folha de São Paulo, 03/12/2008:


"MPF quer multa de Sonia Abrão"

"Sonia Abrão falou ao vivo com o seqüestrador e com a adolescente. O Ministério Público Federal pediu indenização de R$ 1,5 milhão (o dinheiro vai para projetos de direitos humanos) pelo fato de a imagem da menor, Eloá, ter sido usada sem autorização judicial. Além disso, segundo o MP, Sonia interferiu na atividade policial, colocando a vida da adolescente e dos envolvidos na operação em risco. A Rede TV! diz que não foi notificada e que se sente censurada. Quanto à Globo, que também exibiu entrevista (gravada) feita por Zelda Mello, o ministério diz que enviou um ofício ao RJ, onde fica a sede da emissora. A Record também exibiu entrevista, mas o ministério afirma que não teve conhecimento oficial".


Já é um passo, não?? Mas... e como ficam as emissoras mais poderosas (e TEORICAMENTE mais discretas), como a Globo e a Record? Será que também serão punidas de alguma forma pela irresponsabilidade?


Pedro Mancini

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Pequena ressalva - Datena X Abrão

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Gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito do embate, analisado dias atrás, entre representantes da mídia durante a cobertura do caso Eloá.

Em uma postagem anterior, indiquei que a briga se deu entre Datena e Abrão. Contudo, assistindo o programa do primeiro dias desses, percebi que as críticas proferidas referiam-se, em maior medida, à cobertura da Record sobre o incidente.

De fato, essa emissora, assim como a de Abrão, realizou entrevistas com Lindemberg, o ex-namorado de Eloá ainda durante o cativeiro, mas não parou por aí: conseguiu, misteriosamente, adentrar o presídio em que Lindemberg foi confinado após o desfecho do caso, obtendo, em primeira mão, uma "entrevista" com o próprio autor do crime. A emissora, ao tomar essa espécie de atitude jornalística, em seu desespero por superção da audiência da Rede Globo, mandou a ética às favas, de forma tão ou mais forte do que Abrão. Suas intervenções jornalísticas poderiam inclusive ser interpretadas como obstáculos aos procedimentos policiais na situação do cativeiro.

Um agravamente para a atuação da emissora do bispo Edir Macedo é a insistência pela busca de uma imagem "séria", preocupação estética importada, também, da Globo. Ao contrário de canais como o SBT e a Rede Tv, que admitem e cultivam sua imagem brega e sensacionalista, a Record tenta camuflar esse caráter, próprio de sua atuação real. Demostrando seu caráter hipócrita, essa rede age de forma extremamente sensacionalista buscando, em paralelo, manter uma imagem exterior de seriedade e ética absolutos.

Embora Datena continue sendo uma figura deplorável do jornalismo brasileiro, como muitas outras, nesse episódio ele ganhou alguns pontinhos, em minha opinião: demonstrando certa coragem (estimulada, é claro, pelos interesses próprios de seu programa e sua emissora), o gordinho enfrentou seus rivais sensacionalistas convocando até a Justiça à puní-los criminalmente pela atuação deplorável no caso Eloá.



Pedro Mancini

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Bobagens proferidas por um governador

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Ufa! Está difícil acompanhar os acontecimentos mais recentes nesse blog... ainda mais com o surgimento do "caso Eloá", que a tudo obscurece.

Mesmo também sendo suplantadas por acontecimentos mais recentes, gostaria de discutir brevemente as infelizes delcarações, proferidas por José Serra, a respeito do protesto dos policiais civis durante a semana passada.

Aí vai o "link" com a reportagem a respeito dessas declarações:

Culpando o PT e o PDT pela manifestação dos policiais civis que resultou em um conflito pesado entre as corporações policiais do Estado, Serra associou a passeata a uma "politização" do movimento. Ora, todo movimento por melhores salários e condições de trabalho, suas manifestções, passeatas e movimentos de greve, são políticos por natureza!!! Como pode o governador, que já foi militante em sua juventude política, desconsiderar esse fato tão primordial?

A associação do movimento grevista com a CUT do PT e a Força Sindical do PDT também não deveria ser nenhuma novidade. O relacionamento entre movimentos políticos de categorias profissionais e partidos políticos é clássico e previsível, e não descaracteriza uma ação coletiva como a proferida pela polícia civil, mobilizada em torno de seus interesses de classe.

Demostrando uma má-fé impressionante, o governador tenta deslegitimar o movimento por meio do ataque a suas influências partidárias e seus componentes individuais. É claro que, dentro de qualquer ação política, existem interesses diversos envolvidos; e, em meio aos componentes do grupo em questão, haverá sempre indivíduos com motivações distintas daquelas tomadas pelo movimento como um todo. Isso não significa, no entanto, que as razões de ser de tal movimento deixaram de existir. Como outra reportagem da FolhaOnline apontou (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u457377.shtml), a greve dos policiais têm razões legítimas de ser. Não deve ser explicado, portanto, por mera manipulação eleitoral, desprovida de um sentido real.

O mesmo ataque é realizado, com certa constância, contra militantes de movimentos organizados como o MST. Ora, é claro que dentro de tal grupo existem vários subgrupos com interesses questionáveis (por exemplo, pelo enriquecimento pessoal, por meio da venda de propriedades rurais invadidas); isso não esconde o fato, contudo, de o movimento ainda possuir razões de existência e legitimidade: é inegável que uma grande reforma agrária deveria ser feita em nosso país, e que a mesma teria o potencial de beneficiar milhões de brasileiros. E é a falta de tal reforma que possibilita a existência de movimentos que a defendam e exijam uma atitude do poder público.

Entramos, ao discutir esse assunto, na velha questão que costumo expor no blog: a exploração da "intimidade" e do "comportamento" das pessoas e dos movimentos coletivos, ao invés do julgamento de suas ações em si e de suas motivações, das condições de sua existência. Culpam os movimentos pelo comportamento de parte de seus componentes, desviando, com isso, a atenção sobre as justificativas desse movimento, de suas condições de origem.

Pode, sim, ter havido manipulação eleitoral do movimento dos policiais grevistas; isso não deve ser usado, contudo, para atacar a validade desse movimento. Os policiais civis, de fato, continuam ganhando mal e tendo sua profissão desvalorizada, independentemente do quanto tenham sido "manipulados" por interesses diretamente vinculados às eleições (interesses também naturais nas diputas políticas, já que as eleições são uma de suas principais expressões).

Obs: Não faço, aqui, a discussão a respeito do conflito em si, que ocorreu às portas do Palácio do governador; mas quero deixar claro que, embora defenda as razões de existência do movimento grevista, ele conseguiu se excerder ainda mais que os policiais militares - que, embora também tenham extrapolado os limites da razão pelo uso de violência desnecessária, ao menos tinham a desculpa (insuficiente, mesmo assim) de estarem agindo por ordem (irresponsável) do governador, e não pela defesa de seus próprios interesses classistas.

Pedro Mancini


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Notícia de ontem

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Só para ratificar a minha postagem anterior, olhem só as consequências da abordagem da mídia sobre o caso Eloá:

Folha Online, 20/10/2008:
Tragédia de Eloá aquece audiência e tira TV do traço, diz coluna
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"As redes de TV aumentaram seus índices de audiência com o caso Eloá, da menina de 15 anos que foi mantida refém pelo ex-namorado na última semana no apartamento em que morava, em Santo André, na Grande São Paulo, informa a coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

No fim de semana, a Folha Online já havia indicado que o ibope de alguns programas apresentava elevação devido à repercussão do caso.

A coluna de Castro informa que o total de televisores ligados na Grande São Paulo no fim de semana foi de 15% maior do que no anterior. No sábado, a média de televisores foi de 46%, a maior dos últimos dois meses.

A média da Globo no domingo, de 7h a 0h, subiu de 16 para 20 pontos, um crescimento de 25%, segundo o colunista. A Record News saltou de 0,3 para 1 no sábado, encostando na RedeTV!".

Não tem jeito: adoraaaaamos tragédias pessoais.



Pedro Mancini

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Trapalhadas de uma mídia intimista e sensacionalista

4 comentários:
Casos como o da menina Eloá, por mais trágicos que sejam, são um ótimo objeto de análise do papel da mídia na sociedade contemporânea. Com seu desfecho trasmitido ao vivo, a situação foi e continua sendo explorada "até a última gota" de múltiplas formas; por vários canais de Tv, pela internet e por qualquer outro meio midiático.


Uma das questões mais interessantes a se discutir, a respeito de tal cobertura, refere-se à sua relação com um processo mais amplo que assola a contemporaneidade: a intimização de toda a vida pública. Discutirei, assim, a cobertura da imprensa sobre o caso Eloá, focando a resposta da mídia sobre a demanda compulsiva de seu público, a respeito de informações de foro íntimo dos envolvidos no caso.

Suplantando a "racionalidade policial" (preocupada, teoricamente, com a solução mais adequada possível da situação gerada pelo jovem Lindemberg) pela "racionalidade midiática" (preocupada única e exclusivamente com a audiência), programas como o da "malufista botoxada" Sonia Abrão causam desconforto e conflitos entre os próprios jornalistas, pelo que são capazes de fazer para segurar a atenção do telespectador. Trato aqui, especialmente, de uma entrevista feita diretamente com o responsável pelo cárcere privado, Lindemberg. Esta reportagem, realizada totalmente à regalia da polícia, procurou dar um tom sentimental e psicológico à situação do cárcere, em uma clara busca desmedida e insana por audiência. Vejam as consequências de tal ação, inicialmente, com relação aos próprios colegas de trabalho de Abrão: http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/zapping/ult3954u457177.shtml


Como se não bastasse a busca pela constituição de um forte caráter intimista e emotivo no caso Eloá, buscando-se relelar em rede nacional a "alma" de Lindemberg, por exemplo, os dois repórteres destacados na matéria da Folha intimizam a própria briga - principalmente Abrão, ao disctuir sua "relação de amizade" com Datena, dizendo que, a partir da crítica proferida por seu colega, ele deixaria de ser seu "amiguinho". Age, assim, como se, na situação dada, o que estivesse em jogo fosse não sua atitute, considerada anti-ética até por outros representantes do jornalismo sensacionalista, mas sim sua relação pessoal com o "gordinho eufórico" da Band.

Esse é o grande movimento que nos assola: o julgamento não da ação dos homens, mas de seus comportamentos, de suas "almas" - do quanto eles "APARENTAM" serem bons ou maus. Não importa tanto o que fazemos, mas sim "quem somos" - mesmo que essa imagem, por vezes, não seja acompanhada de atitudes correlatas. No caso de Abrão, não interessa o que ela fez - todos devem acreditar que ela é uma pessoa "íntegra", "inquestionável". Ela mesma achou um absurdo que um "colega" criticasse suas atitudes; e respondeu não no mesmo nível, pela lógica das atitudes, mas sim no nível da intimidade e do comportamento, desviando as atenções de sua conduta, centralizando-as para seus "sentimentos" para com Datena...

A obsessão da mídia no caso, reflexo da própria obsessão do público com a intimidade humana, fez com que o próprio desenrolar do caso seja afetado. Lindemberg, produto dessa mesma sociedade intimista, apresenta claros problemas psicológicos - além da própria alteração de humor, aparenta uma certa obsessão (desculpe parecer repetitivo) por ser "o centro das atenções"; um certo narcisimo, em minha opinião (muito presente, também, na sociedade atual). Ao "invadir" a relação de negociação entre o jovem e a polícia, a mídia sensacionalista e faminta por Ibope dá ao jovem o que ele deseja, como a própria Abrão admitiu; com isso, ele se sente ainda mais poderoso, podendo agir de modo mais mais irracional e, por conseguinte, mais imprevisível.

Vejam parte de outra reportagem da Folha a respeito, elaborada antes do desfecho fatal:http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u456942.shtml

Vê-se, assim, que a intervenção desmedida da mídia pôde, com toda a probabilidade, ter prejudicado o desenrolar do caso e colaborado para o desfecho que todos procuraram, conscientemente, evitar. Tal espécie de intervenção prejudicial ganha ainda mais fôlego e liberdade de ação em um país como o nosso, em que a mídia se vê revestida de um enorme poder, de uma liberdade sem quaisquer limites éticos.

Nos próprios EUA, suposta "terra da liberdade", especialistas no procedimento da Swat afirmaram que a intervenção da mídia, em tal grau, certamente acarretaria na prisão dos repórteres envolvidos. Ao agirem de forma totalmente irresponsável, esses "vampiros da audiência" possibilitam uma piora significativa em qualquer caso policial similar, tornando uma situação já complexa ainda mais difícil de se solucionar.



Pedro Mancini


quinta-feira, 20 de março de 2008

Recomendação de Leitura - Caso Isabella

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Enquanto eu não posto nenhuma interpretação particular sobre "o caso que está comovendo o país", como a mídia constuma definí-lo, envio apenas uma recomendação de leitura sobre o assunto - uma publicação do filósofo e cartunista da Folha Online Hélio Schwartsman.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u392839.shtml

sexta-feira, 7 de março de 2008

Crise na América Latina- A cultura latino-americana de resolução de conflitos pela intolerância violenta

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Mais uma crise diplomática na América do Sul, mais uma oportunidade de propagação de absurdos. O recente ataque das forças colombianas ao território do Equador e muitas das suas conseqüências até agora não passam de mais uma representação da tentação latino-americana de resolver todas as suas questões - principalmente, seus problemas sociais e políticos - da forma mais intolerante e violenta possível.



A Colômbia destaca-se como principal representante desta problemática. Por décadas, governo, paramilitares de direita e guerrilhas de esquerda confrontam-se utilizando todos os meios necessários para manter uma ordem pautada na intolerância, de um lado, ou, de outro, para impor um determinado ponto de vista a toda uma nação. O governo colombiano sempre se utilizou de meios escusos para combater as FARC e o ELN - contratando, por exemplo, paramiliares que utilizam métodos tão ou mais terríveis do que as guerrilhas comunistas para combatê-las, aplicando venenos tóxicos internacionalmente condenados para destruir plantações de maconha (afetando moradores de vilas diversas, e atingindo, ainda, o território de outros países) e comentendo puros e simples assassinatos a representantes políticos dos revolucionários, mesmo após tentativasde paz - sempre fracassadas.



As FARC, por sua vez, já mostraram ao mundo que são capazes das maiores atrocidades contra a população colombiana. Nascendo em uma época de forte radicalismo e segmentação entre direita e esquerda no sub-continente, quando governos populares e ditaduras militares competiam diretamente, a guerrilha respondeu da forma violenta reconhecida na época para alterar toda a realidade social - uma vez que a violência e a falta de espaço democrático inerente aos próprios governos da época impediam a viabilidade da atuação parlamentar desses revolucionários. Aprimorando apenas seus meios técnicos de utilização da violência, sem, no entanto, conseguir avançar muito no que se refere à sua atitude política e ao trato de sua imagem, a guerrilha de hoje encontra-se em uma posição anacrônica em relação à população colombiana mais ampla - que, tendo seus membros seqüestrados continuamente, anseiam por uma solução rápida do conflito.



O fracasso das negociações entre a guerrilha e o governo de Andrés Pastrana, em 2000, eliminou a última chance até então de finalizar uma onda de intolerância mútua, em que ambos os lados poderiam ser amplamente beneficiados. Ao contrário, o que houve prejudicou os dois lados da guerra civil; de um lado, o governo desceu novamente ao nível do terrorismo, utilizando métodos condenáveis de combate à sua própria população - e ainda, com pleno suporte econômico e militar do governo norte-americano. Em última instância, mostrando o quanto a Colômbia de hoje não mede as conseqüencias de seus atos com racionalidade (ou boa-fé?), a postura militarista de Álvaro Uribe resultou em um massivo incidente internacional.



As FARC, por sua vez, ao não conseguirem selar a paz, perderam muito de seu apoio popular, sofrendo um desgaste sem precedentes, além da perda pura e simples de milhares de vidas e centenas de quilômetros de território controlado.




O fato é que, independente da visão política presente em cada lado dessa história, nenhum deles representa uma alternativa para a América Latina - antes de tudo, pelo seu método de existência. De forma alguma um Estado de direito, como se considera a Colômbia de Uribe, deve se pautar apenas em meios militares, paramilitares e terroristas para combater quem quer que seja - ainda mais, uma parcela de sua própria população (fato esquecido: sim, os membros das FARC são colombianos). Assim como o governo da cidade do Rio de Janeiro, e outros tantos prováveis exemplos presentes em toda a América Latina, o Estado se vê desobrigado a inserir a parcela diretamente influenciada pelos criminosos, e afetada por uma situação de aterradora desigualdade social, em sua população assistida - se vendo reduzido à função repressora e excludente, e acabando por criminalizar a situação da pobreza em si.


Tal situação absurda cessará apenas quando o Estado deixar de se ver e ser visto a partir dessa única função repressora e violenta, e preocupar-se mais notadamente com a inclusão dos membros desfavorecidos de sua sociedade - não afastando e punindo os miseráveis, mas, pelo contrário, fazendo-se presente na missão de tirá-los de tal situação, inserindo-os na sociedade mais ampla. Seja ela colombiana, brasileira ou de qualquer outra nação desse sub-continente.






Pedro Mancini