A primeira é uma indicação de leitura para um blog que exemplifica, com muita competência, as utilidades de um olhar minimamente distanciado da realidade social. "The Classe Média Way of Life"(http://classemediawayoflife.blogspot.com/) concretiza uma observação em muito similar à sociológica em uma análise satírica de excelente qualidade, uma crítica em forma de humor ácido ao habitus peculiar aos extratos intermediários da sociedade brasileira (também chamados de "classe mérdia").
Isso prova como um olhar de estranhamento sobre a realidade não é útil somente à análise puramente sociológica (no sentido científico do termo), como também a inúmeras formas de crítica sobre a sociedade e suas partes componentes - travestidas, inclusive, de humor. Humor que escapa de uma simples fórmula de reprodução da realidade, que reforça os padrões de desigualdade ao ridicularizar os estratos minoritários e/ ou desfavorecidos; humor militante e progressista, no sentido de que ataca, pela sátira, o status quo, as concepções de uma classe cuja ideologia é predominante no imaginário social - em especial, em meio aos paulistanos.
Mesmo resultando em interpretações extremamente parciais (por serem satíricas), portanto pouquíssimo científicas (não se trata, afinal de contas, de interpretações propriamente sociológicas), e recaindo em estereótipos por vezes repetitivos, ainda vale muito a pena dar boas risadas das observações do blog. Destaco, dada a época do ano, as últimas percepções do autor sobre a impregnação do "espírito natalino" nos componentes da classe média, com a chegada das celebrações natalinas.
Com relação à outra observação, referente aos shopping centers, gostaria apenas de citar uma passagem do autor que me inspirou: Stephen Lyng. Utilizando-se da noção de "desencantamento do mundo" de Max Weber, Lyng acredita que o processo de modernização (simples) fez desaparecer as qualidades encantadoras da experiência humana que gerariam significado e inspiração à vida das pessoas.
Os shopping centers seriam, nessa medida, uma das várias formas contemporâneas de "re-encantar" esse mundo desencantado, por meio de um entorpecimento de "hiper-realidade" - trazida por um ambiente que se pretende superior ao nosso, mágico, com cores e sinais exagerados. Domínio capaz, nessa medida, de se constituir como local de fuga do cotidiano frio em direção a um mundo onírico.
Diz Lyng, sobre os shoppings e outros ambientes "hiper-reais", em que a simulação é predominante:
"Nessas catedrais pós-modernas, pessoas experimentam a implosão do espaço e do tempo, explosões de simulações que distorcem a linha entre o real e o irreal, e um amplo alcance de espetáculos manufaturados que os deixam chocados e inspirados. Assim, a característica encantadora da experiência do consumidor encontra-se em completo contraste com a realidade racionalizada da maior parte dos outros domínios institucionais" (pág. 126, minha tradução).
Pedro Mancini

