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domingo, 17 de junho de 2012

Morte e desencantamento na FFLCH: Sobre o falecimento do Prof. Antônio Flávio Pierucci

17 comentários:


Essa semana foi celebrada a missa de sétimo dia do falecimento de um grande professor (em que fiquei muito triste por estar impossibilitado de comparecer) - Antônio Flávio Pierucci,  um dos maiores especialistas em Sociologia da Religião e na obra de Max Weber que o Brasil já produziu. Mas não estou aqui para falar dos feitos acadêmicos do excelente professor e pesquisador Pierucci; e sim de suas qualidades pessoais.

Mas quem sou eu para falar alguma coisa, poderia-se pensar? Conhecia ele mais do que vários de meus colegas de faculdade, que cursaram a graduação tendo a honra de assistir as suas aulas descontraídas, apesar de extremamente enriquecedoras? Não. Não sou ninguém notadamente especial entre o círculo de amizades de Pierucci: apenas MAIS UM aluno que ele conhecia pelo nome e comprimentava pelos corredores da faculdade com boa vontade e transparência raras e invejáveis. Não apenas lembrava meu nome anos após uma participação em seu curso de Sociologia IV, como lembrava das conversas que havíamos tido àquela época. E isso, não tenho dúvidas, ocorreu com inúmeros colegas de curso.

A maior virtude de Flávio Pierucci, para mim, não estava em sua produção acadêmica - que, não me entendam mal, é indiscutivelmente importantíssima, mas que já foi destacada pelos usuais veículos de comunicação, embora ainda superficialmente. Sua maior qualidade encontrava-se por detrás do pesquisador e professor: seu lado humano, desapegado às relações burocrático-informais que permeiam um ambiente como aquele que frequentava até muito recentemente: os corredores da Universidade. Em um local em que somos "apenas mais um aluno", com um número de matrícula que nos posiciona em uma massa de milhares de matrículas, e em que nos encontramos na mais baixa posição hierárquica da rígida estratificação universitária, Pierucci possuía a habilidade inata de romper as barreiras estatutárias e apresentar-se como um ser humano para seus alunos, para além de um "simples" reprodudor de conhecimentos teóricos. Aproximava-se de cada um de nós como um colega pessoal, e não como um ser que vive em um inviolável Monte Olimpo, pairando sobre nossas cabeças. Tinha o dom de fazer cada um entre centenas de alunos se sentir um pouco mais especial, um pouco mais do que um mero número de matrícula em uma comunidade acadêmica altamente burocratizada (burocracia essa habilmente tematizada pelo estudioso em que Pierucci mais se especializou, o velho Max Weber). Não era o único professor a deter esse dom - tive a sorte de me relacionar com uma orientadora com qualidades semelhantes - mas era um dos poucos, e daqueles que o faziam de modo mais hábil e natural.

Pierucci, enfim, era um dos poucos professores que conheci que eram capazes, naturalmente, de encantar um pouco esse desencantado, altamente racionalizado, universo acadêmico. A FFLCH acordou um pouco mais desencantada no mês de junho de 2012.

domingo, 17 de outubro de 2010

Manipulações político-eleitorais sobre o aborto: o caso da Revista Veja

5 comentários:
Desculpem por me manter na temática eleitoral (e, mais ainda, na temática específica do uso eleitoral do aborto), mas, dada a última capa da Revista Veja, não pude resistir.

Trata-se, em minha opinião, da tentativa de manipulação do eleitorado mais patética e desprovida de fundamento, de fácil desmonte  por qualquer indivíduo minimamente informado sobre o funcionamento da política e sobre as diferenças entre políticas públicas, aprovações de leis e opiniões pessoais de candidatos. 

Bem, não consegui ainda a foto original da capa, mas vou descrevê-la brevemente. Ela é dividida em duas partes, uma superior e outra inferior, de modo que possamos lê-la de duas perspectivas diferentes. A Dilma aparece dos dois lados, sendo um deles com um fundo branco, e outro, com fundo vermelho. 

No lado de baixo, é exposta uma frase, atribuída à candidata petista, que revela um posicionamento supostamente pessoal, íntimo, da mesma: "Eu, pessoalmente, sou contra. Não acredito que haja uma mulher que não considere o aborto uma violência". No lado superior, por seu turno, é revelada uma frase, da mesma candidata, repudiando a criminalização da prática abortiva: "Acho que tem de haver a descriminização do aborto. Acho um absurdo que não haja". A primeira frase foi dita em 2009, e a segunda, dois anos antes.

O argumento da revista é tão simples quanto fraco, e não deixa dúvidas sobre sua parcialidade. Vende-se que a candidata tem "duas caras", por mudar de discurso com relação à temática do aborto, teoricamente por motivações eleitorais. A  infantilidade do "erro" (para dizer o melhor) está na confusão entre opinião particular e concepções mais gerais sobre a sociedade, relacionadas com opiniões sobre a validade de determinadas leis e políticas públicas. Em outras palavras: ser pessoalmente contra o aborto não tem o mesmo significado que defender a proibição da opção de outras mulheres por sua realização. Afinal, viver em uma democracia é saber conviver com as diferenças de credo e de opinião - e um de seus pressupostos é permitir que esse outro, que pensa de modo diferente, conduza sua vida do modo que lhe bem convir, desde que essa condução não interfira na vida alheia. Isso é tão banal, que não mereceria, por si, muita discussão. Mas, infelizmente, o atual nível do debate eleitoral exige esse tipo de esclarecimento. No que tange ao aborto, na concepção de seus defensores, o direito de condução sobre a própria vida incluiria a decisão da mulher sobre um feto que ainda não poderia ser considerado um ser humano, sendo, portanto, uma parte de seu próprio corpo.

É claro que, no auge da "intimização" da política, muitos estão mais interessados nas opiniões pessoais de seus candidatos, especialmente no que tange a questões polêmicas, do que em seus programas de governo e concepções de sociedade. Por isso, eles ganham muito manipulando tais informações. Eu sei bem, por exemplo, que a Dilma é pessoalmente a favor do aborto, mas se viu obrigada a emitir outra opinião para não perder muitos eleitores. Do mesmo modo, já há a notícia de que Mônica Serra, a mulher do candidato do PSDB que disse por aí que a rival do marido era a favor da "morte de criancinhas", teria realizado um aborto no Chile; sem contar que, como já mencionei na última postagem, o próprio tucano foi o grande responsável pela implantação de normas técnicas de regulamentação do aborto em casos específicos, quando ainda era Ministro da Saúde. Hoje, porém, posa de grande figura religiosa, abraçando a bandeira de padres e pastores.

De todo modo, fico feliz ao ver que a candidata petista não tenha recuado de todo de suas opiniões sobre a descrimização do aborto, ao menos por hora, como bem mostra esse trecho do primeiro debate televisivo desse segundo turno:


* Obs: Há indícios de que o monopólio de um único candidato sobre a mídia esteja acabando: Logo após a Revista Veja publicar a matéria de capa mencionada, a Revista IstoÉ  lançou uma similar, mas com a figura de José Serra. Nela, são comparadas duas falas do tucano, uma negando conhecimento sobre Paulo Preto (que desviou mais de R$4mi da campanha do PSDB) e outra chamando o homem de "uma pessoa muito competente". Essa ousadia da Época em contestar o status quo midiático de apoio ao Serra também pôde ser vista na TV Record, que poderá pagar multa por colocar no ar uma reportagem que, supostamente, beneficiou a candidata Dilma Roussef. Juntamente com a multiplicação das fontes de informação, possibilitada pela proliferação das ferramentas de internet, e com o alcance de revistas opostas à grande mídia, como Carta Capital e Caros Amigos, novos modos de reportar o mundo político começam a destruir a visão monolítica que ainda impera nos meios de comunicação. 



Pedro Mancini


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Religião e política nas eleições 2010: O uso de Deus no vale-tudo eleitoral

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Não restam dúvidas: questões religiosas colonizaram totalmente o debate político-eleitoral. E o pior: por iniciativa de um agrupamento político que nasceu com idéias ditas "progressistas", em contraposição a um regime militar de cunho conservador, e que conta com um quadro de intelectuais e empresários modernosos. Como explicar essa guinada absurda em direção à extrema-direita, reacionária e fundamentalista, que se opõe à descriminalização da homofobia e a políticas sociais que provenham atendimento às mães que decidam abortar?

Ora, a reposta, a primeira vista, seria óbvia: puro oportunismo eleitoral. E é isso mesmo - em momento de desespero, correndo o risco de derrota logo no primeiro turno, Serra radicalizou nos minutos finais da campanha, aproveitando-se da ferocidade religiosa de boa parte do eleitorado brasileiro. Somando forças com as denúncias contra Erenice, o fator religioso conseguiu não somente empurrar as eleições para o segundo turno, como reduzir drasticamente a vantagem de Dilma sobre seu rival. 

Mas não questiono, aqui, as óbvias motivações tucanas para reacender o debate religioso; mais difícil é compreender o sucesso dessa estratégia, considerando o suposto caráter progressista do PSDB e de seu eleitorado, concentrado em setores das classes média e alta, que, em boa parte, não são lá muito religiosos (em geral, são aqueles que demonstram sua religiosidade quando casam na Igreja). Muitos, aliás, não questionam a necessidade de um Estado moderno e laico. (Vale lembrar que o próprio Serra, quando Ministro da Saúde, legalizou o aborto em alguns casos específicos, como nas gravidezes resultantes de estupro ou que coloquem em risco a vida da mãe.) Assim, seria de se suspeitar a continuidade de seu apoio a um candidato que abraça bandeiras extremistas e passa a namorar com setores fundamentalistas.

A única explicação que consigo encontrar é a seguinte: o eleitorado peesedebista demoniza os petistas de modo tal que está disposto a fazer qualquer negócio para derrotá-los. Engraçado que esse tipo de comportamento do "vale tudo", dos "fins justificando os meios", vez ou outra é imputada aos petistas, pelos próprios tucanos, para fins de agressão e desqualificação. José Dirceu, o bicho-papão do PT, já sofreu muito com essa análise: ele seria um militante tão fervoroso, acreditaria tanto em um "novo mundo" socialista, que estaria disposto a QUALQUER COISA para atingir seus objetivos, inclusive afundar-se em um lamaçal de corrupção. Tudo isso por seus ideais. 

Pois bem. Ironicamente, o PSDB sofre do mesmo mal imputado a seus adversários. Pela queda do PT e para colocar-se mais uma vez no poder, vende sua alma ao fundamentalismo cristão. O sucesso dessa aproximação relaciona-se, por sua vez, tanto a falta de religiosidade de seu eleitorado clássico (esses "progressistas" das classes média e alta), quanto pelo excesso de religiosidade de um potencial eleitorado de Dilma. 

Em outras palavras: enquanto o ódio do eleitorado peesedebista pelo PT é maior do que sua vinculação religiosa, o amor de parte do eleitorado por Dilma seria menor do que seu fervor cristão. Assim, o PSDB acaba perdendo poucos eleitores, enquanto o PT corre risco de perder um número bem maior, sendo associado a bandeiras rejeitadas por templos e igrejas. Para os não-religiosos, os tucanos vendem simplesmente a idéia de que Dilma tem "duas caras", mudando de posições a respeito do assunto. Serra e sua equipe perceberam isso e partiram para o ataque: têm muito menos a perder do que a ganhar com esse jogo, ao menos eleitoralmente falando. Os princípios que se danem. 

Aliás, também lamento que, agarrado à lógica eleitoral, ao PT nada reste a não ser recuar diante das carapaças que lhe colocam. Sabendo do enorme peso da religião para o eleitorado brasileiro, não se dá ao luxo de debater a descriminalização do aborto, defendendo com maior vigor sua posição original. Seria uma ação arriscadíssima para ele, com enormes chances de resultar em uma derrota fenomenal nas urnas. Mas não revertamos o jogo sujo: quem trouxe o debate religioso à tona, de forma banal e visando atiçar os instintos mais primitivos dos cristãos, foi o PSDB. Enquanto o PT é obrigado a recuar de seus princípios, o PSDB colocou os dele em liquidação de modo claro e ativo, trazendo Deus para o seu vale-tudo eleitoral.  

(*Obs: Sobre o mesmo tema, indico ainda a leitura de um texto de Vladimir Safatle intitulado: "A República Fundamentalista Cristã").

 
Pedro Mancini


sábado, 3 de janeiro de 2009

Minhas festas de fim-de-ano

Um comentário:
Comemorações de fim-de-ano (o Natal e o Revéillon propriamente dito) são ótimas ocasiões para se observar e estudar as regras sociais em vigor - regras e habitus que condicionam o comportamento de nossos queridos parentes. São ocasiões ritualísticas, em que a solidariedade de grupos de parentesco e amizade é posta à prova e exercitada.

Em meio a tais cerimônias, várias nuanças podem ser captadas: sinais sociais que, por vezes, reforçam, e às vezes parecem contrariar o conteúdo simbólico "real" dessas próprias celebrações...

Na festa de natal que participei, promovida por minha família, pude observar alguns comportamentos curiosos. Destacarei um em especial: a aparição de um Papai-Noel contratado...

Durante essa tradicionalizada aparição, todos os meus priminhos (que têm entre 5 e 9 anos, creio eu... nunca fui bom em estipular idades de crianças) receberam inúmeros presentes - desde dedais de borracha (que simulam máscaras de luta-livre) até um videogame de última geração (sim, trata-se de uma família burguesa, em essência).

Em meio ao ritual, os parentes mais próximos das crianças, mais afobados que as próprias e armados com câmeras digitais, fizeram um verdadeiro escândalo para filmarem seus filhotes no colo do papai-noel - em uma tentativa desesperada de encaixar a situação em um modelo ideal de natal, com as crianças superfelizes ao receberem as mais incríveis bugigangas do "bom velhinho".

As crianças, porém, ao contrário do que ocorre nessa situação ideal, não pareciam lá tão empolgadas... tanto que foram postas "aos gritos" no colo do papai-noel, pelos pais, e cutucados impacientemente quando, distraídas, deixavam de olhar fixamente para o velhinho contratado e os presentes que ele entregava... ao meu ver, uma situação quase totalitária (por minúscula que seja), em que as ações das crianças eram-lhe impostas como obrigatórias, por forças externas, superiores e inescapáveis: adultos neuróticos!!!!!!!!!!!!

O interessante é que tais rituais, apesar de serem voltados às crianças (à internização de determinados valores cristãos e ocidentais às mesmas), atingem e emocionam muito mais esses adultos (que já tiveram esses valores internalizados, em um longo processo de socialização, inciado décadas atrás...). Já "moldados" pela sociedade, são seus valores, já apropriados e internalizados, que são postos à prova - valores esses ainda não inteiramente absorvidos pelas crianças. As últimas, é claro, como "radares" potentes que são, acabam absorvendo e reproduzindo, meio mecanicamente, tamanha excitação presentes em seus pais, tios e avós.

Em suma, valores que são absolutamente arbitrários aos olhos inocentes da criança, são, pela perspectiva adulta, tidos como "naturais", e por vezes defendidos com uma autonomia variável por esses adultos - transformados, pelo tempo, em agentes reprodutores e difusores desses valores.

A situação discrita nesa postagem exemplifica, assim, o funcionamento de todo processo de socialização, em que valores, a princípio estranhos ao indivíduo, são-lhe impostos à força, com tamanha violência simbólica e insistência, que acabam naturalizando-se, sendo apropriados e, freqüentemente, ativamente defendidos e disseminados.

As crianças, por hora vítimas de um ritual rígido de socialização (cujos custos se anulam totalmente, com as recompansas representadas pelos presentes de Natal, o "lado feliz" (???) dessa situação arbitrária), com muita probabilidade, transformar-se-ão em "impositores morais" à imagem dos próprios pais, algum dia: impondo, com violência similar, os valores da sociedade capitalista, cristã e ocidental às próximas gerações... com uma discreta mão de ferro, mas também com muito amor, carinho e presentes, é claro.


Pedro Mancini

quinta-feira, 13 de março de 2008

A Igreja Católica, o Brasil e a Hipocrisia

2 comentários:



Como se não bastasse o fato de nossa sociedade já possuir práticas culturais que se parecem com exemplos práticos dos "pecados clássicos" da Igreja Católica (apesar de o Brasil ser considerado o "maior país católico do mundo"), algumas figuras do Vaticano resolvem listar alguns novos "maus hábitos" que aproximam mais ainda os brasileiros de sua "inevitável danação".


Vamos a uma pequena análise dos pecados originais e dos comportamentos brasileiros equivalentes:



- Gula: Como todo país cheio de contradições, ao mesmo tempo em que a fome é propagada em regiões isoladas do Norte e do Nordeste, nos grandes aglomerados urbanos a gula é bastante comum entre os que têm alguma condição de comprar mantimentos; somos conhecidos por alguns dos pratos mais pesados do planeta, como a tradicional feijoada e o churrasco de tipo brasileiro. Sem contar as inúmeras empresas produtoras de "porcarias"no país - bolachas, biscoitos sabor "bacon" de marcas e qualidades muito variadas, etc. Além de comermos muito, comemos muito mal.



- Luxúria: segundo a Wikipédia, é o "desejo passional e egoísta por todo o prazer sensual e material". Bom, não preciso me alongar aqui: o Brasil é tão sexualizado que atrai milhares de turistas sedentos por sexo fácil e barato a cada ano, especialmente no período do Carnaval. Somos considerados alguns dos melhores amantes do globo. E, é lógico, adoramos ostentar riquezas - mesmo quando não podemos pagá-las à vista, ou de nenhuma forma.



- Avareza: na concepção cristã, avareza leva o homem a idolatrar bens materiais ao invés do Deus Todo-poderoso. É exatamente o que fazemos quando nos tornamos tão obsessivos pelas "marcas" de nossas roupas e carros, dando-lhes uma "personalidade" como se fossem um ser vivo, e não um simples objeto de uso - "fetichizando" a mercadoria, como diria Karl Marx. Ademais, a mera acumulação de tais bens "reificados" vira um fim em si mesmo, e não um meio para a manutenção da existência material. Bom, não sei quanto a vocês, mas conheço inúmeros exemplos de pessoas "avarentas" nessa concepção, espalhadas, por exemplo, pelas regiões mais "civilizadas" da cidade de São Paulo.



- Ira: Ora, apesar de sermos "o país do carnaval", com fama de alegres, atenciosos e receptivos, só o somos com relação aos estrangeiros ou aos nossos amigos pessoais e familiares. Mas, assim que nos vemos obrigados a lidar com conflitos sociais, com o "povão" e os criminosos que povoam seu ambiente específico, largamos toda essa "boa vontade" e partimos para a agressão pura e simples; nos tornamos vingativos, irracionais, passionais: irados. "Pena de morte neles!" "Tem que torturar, mesmo!" Sem contar, é claro, a própria ira contiuda em nossa criminalidade, capaz de arrastar garotos pelas ruas e queimar jornalistas vivos do alto dos morros.



- Soberba: Já a soberba estaria relacionada à "tendência de um indivíduo para um modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer". Bom, não quero me tornar ainda mais repetitivo.



- Vaidade: é o desejo de atrair a admiração de outras pessoas. Somada à já discutida luxúria, desenvolve-se uma especial preocupação em chamar fisicamente a atenção dos outros. Somos o segundo país que mais se utiliza de cirurgias plásticas para melhorarmos nossa aparência; implante de silicone nos seios, então, praticamente virou "coisa de criança", literalmente. Sem contar o apelo de piercings, tatuagens e vestimentas mais "sexies", que também adoramos.



- Preguiça: Não tendo, aqui, a concordar tanto que o brasileiro, por excelência, seja preguiçoso: pelo contrário, muitos de nós trabalhamos até demais. Muitos acordam às quatro horas da manhã, e voltam para casa perto da meia-noite. Por outro lado, somos o país com um número absurdo de feriados nacionais. Mais uma área de extremas contradições, portanto.



Domingo, dia 9 de março, o monsenhor Gianfranco Girotti, responsável pelo tribunal da Cúria Romana que trata das questões internas do Vaticano, publicou em uma entrevista no jornal L'Osservatore Romano uma lista contendo novos pecados capitais, a serem evitados pelos fiéis do Catolicismo - e pelos quais os mesmos devem solicitar o perdão divino. Vamos, agora, a uma análise sobre esses novos e divertidos pecados:



- Violações "bioéticas", como é entendido, por exemplo, o controle de natalidade: Ok, não somos tão craques nessa área, a julgar pelo número de recém-nascidos a cada ano; mas a população tem tantos filhos não porque sejam politica e religiosamente contrários ao uso da camisinha, mas por puro desleixo. E estima-se que somos um dos países com maior número de realizações de aborto ilegais.



- Experimentos com células-tronco: taí um fator positivo - fomos o primeiro país do Hemisfério Sul a ingressar no Projeto Genoma. Opa! Isso também seria pecado...
- Utilização de drogas: nosso "querido" tráfico já fala por si. Se vendem, tem quem compre. MUITOS que comprem.



- Poluição do ambiente: apesar de conseguirmos, um ano ou outro, reduzir nossa emissão de poluentes, ainda somos um dos países mais poluentes do planeta. Nossos rios são imundos, a multidão de carros nas grandes metrópoles não nos permitem respirar com qualidade há muito tempo... e nossas florestas são devastadas pelas queimdas, que, além de destruírem habitats naturais, ainda prejudicam mais ainda nossa sofrida camada de ozônio.



- Aumento da injustiça social: Já fomos "eleitos" pelas Nações Unidas como o país mais desigual do mundo! Mas, ao menos, parece que não temos "aumentado" nossa injustiça social, já que hoje ocupamos a 8ª posição no índice... entre mais de 190 países.



- Riqueza excessiva: se somos um dos países mais desiguais do mundo, isso só significa uma coisa: que existe um deseqülíbrio absurdo entre o número de ricos e o volume de sua riqueza e o número de pobres e sua referida pobreza. Logo, ao se considerar o número elevado de miseráveis do país, os ricos detém, de fato, uma "riqueza excessiva", da forma como esse pecado parece se referir.





Vemos, assim, mais uma faceta de nossa tão presente hipocrisia: o maior país católico do mundo também é um dos mais pecadores - senão o maior - de acordo com a ideologia da Igreja Católica.




Pedro Mancini

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O dilema do "ditador bondoso"

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O governo do venezuelano Hugo Chávez vêm pondo à tona uma problemática que já infligiu a humanidade muitas e muitas vezes - e que, atualmente, tem assombrado os agrupamentos de esquerda, em especial da América Latina.

É sabido que grande parte desse movimento esquerdista - e eu me incluo nesse pacote - se viu bastante empolgada com a ascensão democrática do coronel ao poder da Venezuela, bem como com suas políticas governamentais inclusivas e participativas que afetaram as classes menos favorecidas de seu país - medidas essas financiadas pelos recursos captados graças à intervenção do presidente venezuelano na indústria nacional de exploração petrolífera que, diga-se de passagem, há tempos agia como reprodutora da desigualdade, beneficiando diretamente a elite econômica daquele país. De modo silimar, comemoramos enormemente o fracasso do golpe de 2002 contra Hugo Chávez, em um acontecimento-relâmpago de dois dias em que um agrupamento reacionário, fortemente prejudicado com a intervenção estatal na indústria petrolífera, raptou o presidente e divulgou, através de todo aparato da mídia privada - que militava a favor dos golpistas - que o mesmo havia renunciado ao poder. O venezuelano voltou ao seu posto de direito quando a massa descobriu a fraude e exigiu seu retornou imediato.

Como parte considerável da esquerda pró-chavista, no entando, fiquei desconfiado (e fortemente decepcionado) quando o presidente tentou aprovar um pacote de medidas diversas, em que se destacava a tentativa de reprodução ilimitada de seu poder - se tais medidas fossem aprovadas, Chávez passaria a deter o privilégio de ser reeleito inúmeras vezes.

São iniciativas como essa que fazem com que a esquerda perca, historicamente, sua compostura: ações que, somadas, revelam sua pretenção em existir como a única personagem política em jogo. Considerando a pureza de seus ideais como "óbvia" perante os olhos das classes menos favorecidas, forças políticas de esquerda, ao assumirem o poder, impõem sua visão (específica) como a única aceitável (geral) para toda a sociedade que comandam - da mesma forma que os seus rivais, sejam eles liberais ou conservadores. Por meio de diversas táticas, que, no extremo, significam a morte pura e simples da democracia, essa esquerda, assumindo papel similar ao do Deus cristão que, já que naturalmente "bondoso", não aceita crítica ou rebeldia, acaba sendo capaz de desenvolver seu próprio antagonismo - criando, aos poucos, uma sociedade que, ao invés de se pautar no combate às desigualdades e injustiças sociais, apenas as fundamentam a partir de uma nova lógica. Privilegia-se, aqui, a igualdade social-econômica, mas não sem graves prejuízos à igualdade e à liberdade político-individuais.

Foi esse o processo que assolou inúmeros países, como a extinta União Soviética e seus aliados, e que, vez ou outra, ameaça se repetir em nações de diversas partes do globo - e a América Latina é um dos locais mais suscetíveis a esse fenômeno. No momento, esse risco aparece como iminente em figuras como a de Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.

Mais uma vez, contudo, é importante salientar que as críticas não se referem ao caráter social de tais governos - ao combate, por exemplo, a determinados modos de propriedade privada - e nem ao conteúdo ideológico por si dos referidos regimes; mas sim à relação estabelecida entre o Estado e a população governada: uma relação pautada pelo clientelismo, pelo populismo e por um exclusivismo arrogante da esquerda - características essas capazes de resultar no mais pleno suicídio de suas intenções igualitárias, como já indiquei. Mais grave que isso, tal relação resulta em perdas incalculáveis para a autonomia dos indivíduos - que passam, no final das contas, de "clientes" do Estado (como nas relações típicas do neoliberalismo) à condição de "apadrinhados" ou "filhos" deste, recebendo benefícios não por terem pleno direito a eles, mas como mero favor concedido por uma instituição que se encontra acima da sociedade, e não a serviço da mesma.

É essa a lição que a esquerda - em especial, na América Latina - deve aprender: não existem "ditadores bondosos", mas apenas ditadores; e o que os define, pura e simplesmente, é o seu desprezo pela capacidade de auto-determinação dos homens do povo, de desenvolvimento de seu raciocínio e pela prática de seu livre-arbítrio de forma livre. Para esses líderes, a liberdade individual não deve ser estimulada - pois resultaria, obviamente, em fracassos de massa; os pontos de vista plausíveis, sob tal ótica, devem ser sempre impostos de fora, e nunca desenvolvidos pela sociedade civil de forma minimamente expontânea.


O conceito de "heteronomia" - "regra obtida de fora" - serve de substituto, aqui, à noção de "autonomia" - "regra obtida por si só", pelo próprio indivíduo, idéia-chave para uma compreensão desse fenômeno.

Recria-se, dessa forma, o fanático seguidor cristão que enxerga a autonomia de pensamento, o "pensar diferente", uma "coisa do demo" - e deve aceitar, cegamente, sem contestação, aquilo que foi imposto por seu Senhor (sob a pena de ser visto como, na melhor das hipóteses, marionete inocente de Satã, e, na pior, um cúmplice consciente do mesmo).

Por essa razão, a tolerância com forças reacionárias - como, por exemplo, gigantescas parcelas da mídia -, embora difícil, deve sempre ser mantida por qualquer governo que se diga preocupado com justiça social sob uma perspectiva verdadeiramente humana; não só para que não se desça ao nível de uma parcela política constantemente golpista e autoriária, mas simplesmente porque, se um dia habitaremos um mundo em que exista um grau mínimo aceitável de igualdade e justiça, essa situação, segundo minha perspectiva, não poderá se manter sem uma saudável diversidade política, ligada à dedicação integral pelo desenvolvimento da autonomia individual; autonomia essa que nos faz, afinal de contas, HUMANOS - para além da simples noção de servos de algum senhor benevolente qualquer, seja ele encarnado na figura de Deus, de um Presidente ou, de forma mais ampla, de um Estado burocrático tão acolhedor quanto intolerante com qualquer forma de pensamento independente.

Pedro Mancini