Mostrando postagens com marcador cultura americana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura americana. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de março de 2011

A devassidão da Sandy e a lógica da sociedade de consumo

4 comentários:
Dia desses, um novo comercial sacudiu as redes sociais: uma campanha desenvolvida pela cervejaria Devassa, em que um suposto modelo de pureza e bom-mocismo, Sandy, aparecia revelando um suposto lado "devasso". Exibindo um penteado diferente, a cantora simula uma lap dance em um palco, perante uma grande platéia masculina.



Não tardou para que várias pessoas discutissem a atuação da ex-sertaneja e o conteúdo simbólico do comercial. Entre as principais reações, destaca-se a falta de convencimento da representação de Sandy como "devassa": sua imagem de pureza parece ter penetrado tão profundamente no inconsciente de seu público, que ele simplesmente não engole quando ela foge do papel. Apontam que ela própria não estava convencida da personagem, incorporando com pouquíssimo sucesso a safadeza que lhe foi imputada. Na reportagem a seguir, chegam a contestar a "habilidade" da garota com o copo:



Outros discutem a triste adaptação da imagem da Sandy a um padrão formatado de submissão ao prazer masculino - a incorporação da artista à lógica machista, igualmente presente em populares revistas "femininas", como a Nova (que recomendam às mulheres explorar, de forma absolutamente técnica, habilidades e comportamento que servem especificamente para maximizar os prazeres do parceiro sexual). Como exemplo dessas críticas, indico a última postagem de Tica Moreno.

Mas há outro modo de compreender a utilização do "lado devasso" da artista em um comercial de cerveja. A interpretação que ofereço não é de todo antagônica à visão feminista: não há dúvidas de que a intenção da cervejaria era associar um padrão específico de mulher (que serve aos interesses carnais masculinos mais  banais) ao consumo de cerveja propriamente dito.

Mas se a intenção era somente exibir um padrão de sexualidade adaptado ao prazer masculino, por que escolheriam uma garota que é comumente associada à pureza, virgindade e ao bom comportamento (à submissão sem graça às regras masculinas e ao modelo de "Amélia", portanto)? Não era mais fácil manter a Paris Hilton como garota-propaganda, ou adotar outra modelo-atriz com uma devassa reputação pregressa?

Na verdade, o comercial diz mais sobre a sociedade contemporânea do que os primeiros comentários a seu respeito fazem supor. E o fato de escolherem a Sandy como garota-propaganda é a chave para compreendermos a estratégia de marketing da empresa: explorar uma imagem de ambivalência e de cinismo,  em que são reveladas formas múltiplas de existência, que simulam uma transgressão da norma vigente. Assim, a idéia parece ser de, por meio de uma figura santificada como a da Sandy, explorar o lado "perverso" de cada um de nós, um aspecto que contradiz - sem excluir - o lado bonzinho, que segue um padrão fixado de conduta moral. Sandy não é, assim, uma figura de pura devassidão, mas uma pessoa múltipla, em certo sentido bi-polar, que possui tanto um lado santo, quando um lado "pervertido", por assim dizer. Norma e "transgressão da norma" em uma mesma representação social.

Em uma sociedade capitalista em que os vínculos com os objetos são frágeis, é sábio aproveitar-se dessa fragilidade. Com a redução da importância e da capacidade de convencimento e de identificação de conteúdos normativos, as formas de publicidade que exploram imagens "típico-ideais" de sujeitos (como os antigos comerciais de margarina, que mostravam a típica família nuclear americana - um casal branco feliz, com um casal de filhos e um cachorro, morando na praia) caducam, sendo substituídas por propagandas que exploram, muito mais, o caráter ambíguo ou múltiplo dos indivíduos. Conseguem, assim, atingir um público muito mais amplo: não só aqueles que identificam-se a um padrão, como os que "rebelam-se" contra ele. A negação das velhas estratégias de publicidade acaba, então, sendo igualmente colonizada pelo sistema publicitário.



Assim, a Sandy parece transgredir a sua própria imagem ao agir de modo "devasso"; enquanto outros comerciais chegam a aproveitar-se da retórica da revolução para difundir sua lógica consumista nada revolucionária (lembram-se do comercial "revolução dos dedos", da Vivo, ou da "revolução da esfiha" do Habibs? O último, ainda consegui puxar do YouTube...). Vende-se a idéia, dessa forma, de que estaríamos "transgredindo" a sociedade ao consumir alguns de seus produtos.




Essa percepção foi importada do filósofo uspiano Vladimir Safatle, que estuda, justamente, a publicidade contemporânea e a retórica do consumo. Assim, a estratégia da Devassa não é tão nova, mesmo se considerarmos esse aspecto da bipolaridade, e é bem menos ousada e criativa do que as inicialmente desenvolvidas com a intenção de explorar essa ambivalência (como as marcas Versace e Calvin Klein, especialmente em suas campanhas das décadas de 1990 e 2000). A diferença, com relação à marca brasileira, está em que os dois pólos de ambiguidade explorados são baseadas em imagens machistas: a mulher pura e submissa, de um lado, e a "gostosa" e perversa, boa de cama, por outro. Pureza e safadeza na mesma pessoa (uma santa na rua, uma puta na cama) - a imagem da "mulher perfeita" para o homem comum.Mesmo assim, vende-se a representação de uma marca que costesta a lógica operante da "boa-sociedade", representada pelo bom-mocismo da cantora, violado pelos poucos segundos de duração do comercial. Uma contestação de fachada, que revela, na verdade, um outro padrão de conduta baseado no prazer masculino (mas que pode, contraditoriamente, estar presente na mais comportada das mulheres). Algo bem menos ousado do que a ambiguidade sexual explorada no passado recente pela Versace, que

"(...) se resume a fotos de um casal na cama ou em um quarto com decoração carregada e pretensões de luxo. (...) Nós sempre sabemos quem é um dos parceiros (um homem ou uma mulher bem vestidos em posição de autoconfiança, tédio e domínio da situação), mas nunca sabemos quem é o outro, já que sempre aparece sem rosto, jogado em um canto para denotar que foi usado em um jogo sexual, com roupas íntimas femininas e traços de corpo masculino. Implicações de um lesbianismo lipstick, de homossexualismo e de ambiguidade sexual são evidentes. Note-se que este apelo ao embaralhamento de papéis sexuais não é direcionado para um target homossexual. O target da Versace é composto basicamente de mulheres com mais de 30 anos" (SAFATLE, 2006, p. 61).

Vejam um exemplo dessas propagandas:

De toda forma, e apesar da limitação e teimosia brasileira em continuar a explorar uma imagem machista sobre a mulher, o objetivo dessas campanhas e daquela da Devassa tem suas similaridades: a busca por uma flexibilização de padrões de identificação. Mais uma vez citando Safatle, 

"A publicidade contemporânea e a cultura de massa está repleta de padrões de condutas construído através de figuras para as quais convergem disposições aparentemente contrárias. Mulheres, ao mesmo tempo, lascivas e puras, crianças, ao mesmo tempo, adultas e infantis, marcas tradicionais e modernas.(...) Uma época como esta permite que marcas tragam, ao mesmo tempo, a enunciação da transgressão e da norma. Até porque os sujeitos estão presos a esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a norma e desejar sua transgressão. A publicidade compreendeu isto. Daí porque atualmente ela fala a eles visando este ponto em que transgressão e norma se inbricam" (ibidem, p. 59-60)

É uma pena que a transgressão da norma, para nós, tenha sido tão falsificada a ponto de se resumir à imagem de uma mulher que recusa-se a se limitar à figura machista de santa, apenas para explorar o aspecto igualmente impositivo da mulher enquanto objeto devasso para um puro consumo masculino. Cabe a nós, meros mortais, mostrar o verdadeiro significado da transgressão (se é que ela ainda existe),quando nem a norma, nem a sua suposta "violação" nos parece justa - submetendo-nos, ao invés de nos libertar, aos aspectos mais opressivos da lógica do consumo. 



Pedro Mancini

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Depoimento interessante de um veterano de guerra americano

Nenhum comentário:
Enquanto a inspiração para escrever sobre alguns acontecimentos mais recentes não vem - como sobre as "guerras subterrâneas" da mídia brasileira, ou sobre nossa felicidade com a infelicidade alheia (a da Argentina) em tempos de Copa do Mundo-, atualizo o blog publicando um depoimento interessante e comovente de um veterano de guerra americano, presente na invasão do Iraque. Assim, de quebra, torno esse blog um pouco mais movimentado!


(Agradeço à @nmromero, do Twitter, pela divulgação do vídeo.)




Pedro Mancini

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Shopping, o Natal e a Observação Sociológica

2 comentários:

O Natal é sempre uma época muito propícia à observação sociológica. Como uma data de teor simbólico muito forte, em q ue as relações sociais adquirem contornos específicos, é um momento em que um distanciamento mínimo dos acontecimentos pode fornecer informações importantes sobre os sentidos mais obscuros das ações humanas contemporâneas.

O pressuposto para essa forma de observação da realidade é a capacidade de vê-la de fora, como um espectador estrangeiro - algo impossível de se conseguir totalmente, como vários sociólogos observaram, mas cujo exercício mínimo ainda assim é imprescindível para tal profissão.

A última vez que estive especialmente inspirado a realizar esse afastamento razoável, observando o interessante e o especial por detrás das situações que outrora pareceriam as mais rotineiras e comuns, foi há cerca de um mês e meio do Natal.

Estava em frente ao Shopping Iguatemi, em São Paulo, às 10h30min, aguardando minha namorada, que trabalhava em um local próximo. Para quem não sabe, esse é um Shopping voltado para classes com maior poder aquisitivo, localizado no Itaim Bibi.

Estranhamente, toda a decoração de Natal do Shopping já estava montada, mas o mesmo ainda não estava totalmente em um "clima de Natal", uma vez que ainda estava abrindo tarde para essa época do ano - abriria apenas às 11h. Mesmo assim, uma pequena multidão já se aglomerava às portas do estabelecimento, posando para fotos com o gigantesco Papai-Noel montado às portas do local e aguardando ansiosamente pela abertura do local.

Até aí, nada de tão surpreendente: as pessoas querem comprar seus presentes de Natal, para socializarem com a família e amigos, compartilhando o chamado "espírito natalino" - materializado nos produtos adquiridos em lojas. Mas não só esse hábito do uso de mercadorias como forma de sociabilidade traz muitas informações caras aos sociólogos, como o próprio evento do "passeio no Shopping" superou em muito essa função; pois, na verdade, embora esse "palácio do consumo" abrisse às 11h nesse dia (um domingo), suas lojas estariam fechadas até as 14h.

Ora, isso mostra como o Shopping Center deixou de ser apenas um local de compra de mercadorias - um meio para um fim de consumo - para se tornar um fim em si mesmo. Local encantado por uma "hiper-realidade" cativante, super-atraente, com suas cores exageradas, suas decorações gigantescas, sua arquitetura exuberante, sua coleção de pequenas ilusões, esse grande palácio pós-moderno se impõe como um ambiente muito mais interessante e vívido do que aqueles próprios à realidade cotidiana. Sem dúvida, estamos falando de uma espécie de "re-encantamento do mundo" em uma sociedade cotidianamente desencantada; contudo, um re-encantamento desprovido de conteúdo unívoco e coerente, repleto de signos arrancados de seus significados, pautado apenas por imagens e pelo seu caráter de "superioridade" em relação à realidade por um simples exagero de forma, cores e informações. Um entorpecente visual.

Toda a decoração do referido Shopping conspira nesse sentido: o Papai-Noel gigantesco e seus cães (?) em frente aos portões, e um grande jardim artificial na parte interna, que simula um ambiente natalino extremamente pós-moderno. Nele, são encontrados cerca de dez Papais-Noéis, cercados de bonecos representando crianças e duendes. O mais interessante, contudo, é que o tema dessa decoração é a floresta tropical africana; por isso, podem ser encontradas diversas estátuas de animais típicos daquela região, todas com engrenagens que as fazem se mover com frequência: macacos, hipopótamos, girafas. Mas... o que diabos isso tem a ver com o Natal e seu imaginário, com velhos albinos com casacos de frio, renas e tudo mais?

Como se não bastasse, há apenas 1 Papai-Noel negro em meio a esses dez brancos, meio isolado em um canto, absolutamente descontextualizado - no maior estilo "alguém reclamou que só tínhamos Papais-Noéis brancos, então tivemos que colocar um negro".

Sem dúvida, trata-se de um avanço em termos da igualdade racial, com importantes repercussões simbólicas para a mente de crianças acostumadas a bonecas "esteticamente perfeitas", loiras e de olhos azuis. Mas é uma solução puramente visual, desprovida de conteúdo e insuficiente, sem dúvida, para o convencimento de que o Shopping aderiu à idéia de uma democracia racial e de um multiculturalismo - afinal, o Papai-Noel negro, além de solitário, continua inserido em todo um sistema simbólico de raízes não apenas brancas, mas nórdicas - sistema simbólico por si já implantado de modo artificial em nossa cultura, importado de suas características européia e americana de forma absolutamente acrítica. (Aliás, lembremos, mesmo o Papai-Noel vermelho e branco é uma sombra "hiper-real" daquele das tradições cristãs, sendo suas próprias cores, hoje, fruto do imperialismo propagandístico das Indústrias Coca-Cola.)

Vários outros pequenos fenômenos ocorridos no interior desse Shopping poderiam se prestar à uma observação crítica. O lugar está simplesmente lotado de sinais sobre a contemporaneidade e suas lógicas de funcionamento, que são um verdadeiro convite ao olhar sociológico e seu constante treinamento.

Pedro Mancini


sábado, 6 de dezembro de 2008

Novo Show do Iron!

Nenhum comentário:

Folha Online, 28/11/2008

Iron Maiden volta ao Brasil em 2009 em encerramento de turnê


"O Iron Maiden volta ao Brasil em março de 2009 com shows da turnê "Somewhere Back In Time" nas cidades de São Paulo --no Autódromo de Interlagos-- Manaus, Rio de Janeiro, Recife e Brasília.

Em março deste ano, os metaleiros passaram pelo Brasil com esta turnê. O retorno está na agenda de apresentações finais da turnê internacional.

A banda se apresenta em Manaus, no dia 12 de março, no Rio de Janeiro, dia 14, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, no dia 15, em Recife, no dia 18, e em Brasília, dia 20. (...)

(...) Para o show no Autódromo de Interlagos, o Iron Maiden trará para o país todo o equipamento do show apresentado na Europa, com um set list especial e pirotecnias".

Os poucos que acompanham esse humilde blog sabe que estive no show do ano passado, ocorrido no estádio de futebol do Palmeiras, o Parque Antártica.

Pois bem, pelo tanto que adorei aquele show, mesmo sendo em um local relativemente pequeno e sem a exibição de toda a tecnologia que a banda poderia utilizar, não resisti à tentação de voltar a presenciar esse fantástico grupo, tão presente em minha adolescência (e até hoje). Agradeço à minha querida Diana pela compra dos ingressos (por um preço salgadinho, até...) pela Internet, que me possibilitará assistir à apresentação, que promete ser bem melhor que a anterior... a começar pelo local (o Autódromo de Interlagos, muuuito mais espaçoso!), e considerando que o próprio Bruce Dickinson prometeu realizar um show bastante piroténico. Ah, sim: ao contrário do ano passado, em que assisti da arquibancada, ficarei com minha namorada na pista central... o que deve tornar a experiência muito mais intensa.


Pedro Mancini

segunda-feira, 3 de março de 2008

Nota rápida sobre o Show do Iron Maiden

Nenhum comentário:


Simplesmente fantástico. Os maiores clássicos da banda foram tocados, incluindo The Number of the Beast, Fear of the Dark, Powerslave e The Trooper. É claro que, a respeito de muitas músicas, minha namorada, muito mais metaleira, me humilhou em seus conhecimentos: sabia de cor do início ao fim de quase todas as músicas tocadas (e não somente o refrão, como a grande maioria presente).

Péssima, apenas, foi a apresentação de abertura, com a filhinha do Steve Harris... cada letrinha fraca, batida. O pior é que a banda dela, em si, parece boa. Muita embalagem para pouco conteúdo. Quase fiquei com pena da garota, dada a reação morníssima (para não dizer "gelada")
do público, mas aí matutei: Pô, cantando musiquinhas pop românticas e bobinhas no meio de milhares de metaleiros fanáticos, esperava o quê?? Ser ovacionada por longos minutos?


Obs: A cinco minutos do início real do show,uma chuva moderada atingiu o estádio... nós, desprevenidos, nos ensopamos e eu tive que passar o resto da noite sem minha camiseta nova do Iron. Mas até que no final, foi refrescante...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Preparativos para o Show

Nenhum comentário:
Já entrando no clima do Rock´n Roll, pois estarei no show do IRON MAIDEN esse domingo, e devido à falta de tempo e vontade de publicar algo mais elaborado, postarei apenas a tradução da letra de uma das minhas músicas favoritas, da banda System of a Down (Fonte:http://letras.terra.com.br/system-of-a-down/303086/), que, para mim, fala de forma interessante e enigmática sobre a alienação presente na sociedade contemporânea:











Hypnotize (tradução)
System of a Down
Composição: Daron Malakian e Serj Tankian


Por que você não pergunta para as crianças na Praça da Paz Celestial?

É por causa da moda que eles estavam lá?

Eles disfarçam, hipnotizam

A televisão fez você comprar isso



Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha...



Ela tem medo que eu a leve embora de lá

Deixou seus sonhos e seu país sem ninguém lá

Hipnotize as mentes simples

A propaganda nos deixa cegos



Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha

garota

Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha

garota

Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha

garota

Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha

garota





Pedro Mancini

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Beleza Sociológica

Nenhum comentário:

Semana passada, assisti mais uma vez um de meus filmes favoritos: "Beleza Americana". Embora não possa ser considerado um grande fã do cinema americano, admiro a contra-cultura estadunidense, que consegue fugir da obviedade hollywoodiana costumeira.
Nesse caso, tal tarefa não é cumprida sem pregar algumas peças, correndo o risco de ser mal interpretada; já ouvi críticas ferrenhas saírem de mais de uma boca sobre esse filme em especial, que o interpretaram como a simples defesa do estilo de vida adotado por um "tiozão" maconheiro e depravado, sem a menor noção de sua situação social de provedor familiar e "quarentão".
Segundo minha leitura, não é essa, em absoluto, a mensagem que o diretor visou transmitir. O fato de a personagem principal se apaixonar por uma linda e aparentemente pervertida adolescente, amiga de sua filha, é relevante, mas centrar a atenção nesse fato isolado impede o desenvolvimento de uma visão mais ampla dos aconteceimentos complexos que assolam a trama.
A figura da jovem é tratada como um símbolo tosco e superficial de um modo de vida distinto daquele levado pelo protagonista antes de seu "processo de conversão": um estilo libertário de vivência, intenso, que foge das previsibilidades e do tédio existentes em seu casamento desgastado e cheio de cerimônias de falsidade. Tanto que a cena de sexo mais esperada no filme, entre o marido já libertado e "bombado" do final da trama e a jovem rebelde, não acontece - por decisão desse "tiozão tarado". Explicação: descobre-se que a garota, tal qual a esposa neurótica, também representa um papel diante da sociedade - em uma tentativa patética de construção de uma identidade "para os outros" diferente, em essência, de suas características verdadeiramente pessoais. Em outras palavras, a garota representava o papel de uma ninfeta depravada, mas, em verdade, era uma virgem assustada, desesperada por um pouco de aceitação.
O sociólogo Claude Dubar já discorreu sobre esse fenômeno de "dissociação do Eu", que pode acompanhar o processo de socialização: "entre um 'eu' que implica necessariamente um esforço de conformidade ao grupo para se fazer (re)conhecer e um 'eu' que corre sempre o risco de ser anulado e desconhecido pelos outros, o Eu (self) em construção arrisca-se a ser dissociado entre a identidade coletiva sinônima de disciplina, de conformismo de de passividade e a identidade individual sinónima de originalidade, de criatividade, mas também de risco e de insegurança" (Em "A Socialização": Construção das Identidades Sociais e Profissionais", pág. 94).

Assim, o filme sucinta inúmeras discussões a respeito de temas como individualidade, identidade e socialização. Trata-se de uma crítica à forma pela qual tais questões são manipuladas em meio à cultura americana; especificamente, à utilização, por esta, de máscaras sociais demasiadamente distonantes com as características "reais" dos indivíduos, explicada por um certa obsessão por uma socialização bem-sucedida.

Mesmo assim, o filme não consegue escapar de uma tendência sociológica clara, que assola as sociedades contemporâneas: a busca pela individualização absoluta, pelo direito pessoal em ser diferente de todos os demais, uma certa fuga da equalização - tarefa impossível de ser absolutamente concluída, já que, se levado ao extremo, tal processo não anula que ao menos ALGO resiste de igual entre todos os representantes da Humanidade: justamente essa capacidade de distinção (o que, para Durkheim, ocorre naturalmente com o progresso da divisão social do trabalho). Conforme a sociedade torna-se mais complexa, afinal de contas, mais especializadas são as funções sociais apropriadas pelos indivíduos - e, em decorrência, maior o grau existente de heterogeneidade, inclusive no que tange às construções identitárias.

A defesa ideológica da diferenciação individual, pelo filme, esconde, em realidade, a sujeição a um processo inerente ao "inconsciente coletivo" (de acordo com o ponto de vista durkheimiano) americano. Essa opção aparentemente "livre" pode ser enxergada em diversos momentos, podendo ser melhor representado pela relação entre Ricky Fitts - o filho de um disciplinado simpatizante nazista - e Jane Burnham, filha rebelde de Lester Burnham ( o dito "pai tarado").
Justos, eles chegam a bater boca com a linda e fútil Angela Hayes, que chega a chamar o jovem pretendente de sua melhor amiga de "anormal". Nesse momento, questiona-se: o que vale mais, a dita "normalidade social", obtida mediante representações quase teatrais de identidades e repressões de desejos pessoais, ou a fuga da socialização pela realização dos desejos presentes em nossas personalidades? O que é melhor, viver de fato ou "fingir viver" e se contentar com uma aceitação pautada em identidades manufaturadas, em detrimento de nossa constituição mais íntima?
Ao propor tal debate, o filme age como representante de um fenômeno social quase imperceptível a olhos nus, além de inaceitável àqueles que acreditam se constituirem por sua própria conta, sem quaisquer determinações sociais. A valorização de uma suposta "liberdade individual", que inclui a possibilidade de diferenciação, esconde muito mais do que essa possibilidade, se realizando, verdadeiramente, como uma IMPOSIÇÃO SOCIAL; somos diferentes, mas porque somos COMPELIDOS a nos diferenciarmos, por uma forma de poder que, em oposição à métodos anteriores, não apenas repreende o indivíduo, como uma força exterior a ele, mas o MOLDA de acordo com seus interesses, o incluindo em sua lógica de operação. Não mais submete suas vítimas pela pura coerção física, mas fazem-lhes revelar seu interior "por livre e espontânea vontade" - ou, em outras palavras, nos faz acreditarmos que falamos de nós mesmos de forma absolutamente livre quando, em verdade, tal iniciativa é inteiramente construída e manipulada.
Como filhos da Sociedade Disciplinar enxergada por Michel Foucault, somos geridos, desde o primeiro instante, de modo a nos sentirmos "únicos" sobre um determinado ponto de vista - e assim, acabamos cúmplices da sutil ilusão da liberdade individual perante relações de poder que, protegidas por esse manto de ignorância, exercem-se com uma notável perfeição.



Pedro Mancini