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domingo, 27 de fevereiro de 2011

O sublime momento da partida

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Quem me conhece, sabe que não sou nenhum crítico de cinema - muito longe disso. Mas existem alguns filmes sobre os quais não consigo deixar de comentar. Um deles é o japonês "A Partida", de 2008, dirigido por Yojiro Takita.

O grande mérito desse filme está em tratar de um tabu fortíssimo que, me arrisco a dizer, possui grandes chances de ser universal: a morte. Ora, alguns irão pensar, mas ela é muito explorada por outros filmes;  vários personagens, protagonistas e coadjuvantes, costumam morrer nas telinhas, afinal. Acontece que o tratamento que o diretor japonês dá ao término da existência humana é altamente diferenciado: ele é visto de perto, em close up,  pelos olhos das pessoas próximas ao falecido - aquelas que, de fato, sofrerão por sua ausência. Aqui, a morte não aparece banalizada, mas é elevada à uma posição sublime. Um momento extremamente valorizado, cujo caráter mágico é objetivado pela execução de um ritual de exumação, característico da tradicionalidade japonesa. O morto, por lá, parece merecer uma deferência muito maior do que alguns seres vivos de nossa sociedade ocidental.

Isso pode parecer chocante, mas é, ao mesmo tempo, o que fornece ao filme japonês seu caráter profundamente marcante e emocionante. O sentimento passado é o de tristeza  - mas não uma tristeza trágica, pesada, da qual, em geral, fugimos no dia-a-dia mas sentimos, de forma controlada, em um filme melodramático típico. Trata-se de uma tristeza amena, tranquila, até mesmo um pouco "alegre" - por mais paradoxal que pareça. Não deixa de ser uma metáfora da própria idéia de morte passada pelo filme: uma transição pacífica, que não precisa, necessariamente, ser encarada com uma tristeza violenta ou um inconformismo raivoso. A idéia que o filme parece vender é a de uma submissão às leis da vida e da existência, que permite, em última análise, o estabelecimento de uma relação mais saudável com o fato da morte de nossos semelhantes.

Claro que o filme possui, também, os seus defeitos: em geral, parece um tanto forçado e "maquiado"; as representações são um tanto artificiais.  A intenção não é, afinal de contas, trazer os podres físicos da morte aos olhos do espectador: a putrefação da pele e órgãos, a vazão dos fluídos corporais etc.; nesse ponto, reproduz uma parte da evitação da morte presente no senso comum, e seus detalhes materiais não são exibidos.

Mas de uma exposição banal da morte, as telas já estão cheias: filmes de terror e de ação não de cansam de mostrar corpos dilacerados, e isso está longe de significar uma valorizção da morte ou uma superação de sua banalização - ela aparece apenas como a transição do homem a um emaranhado de carne sem vida e sem face. Antes de lidar com nossa relação com esses detalhes físicos repulsivos, "A Partida"  busca dialogar com o tabu psicológico do contato com o corpo, e com a própria forma usual de enxergar o processo da passagem à pós-vida (seja qual for o lugar de chegada). O desespero familiar no momento da despedida do ente falecido é que detém destaque - algo totalmente ignorado, de forma geral, em filmes policiais, de ação e de terror (onde os mortos servem apenas para contabilizar o grau de "sanguinolência" de heróis e vilões).

De todo modo, os pontos passíveis de crítica ficaram longe de minar as intenções do filme: dissecar um assunto visto com tanta repulsa, medo e evitação, como a morte, e torná-la uma das coisas mais belas da vida - contra todos os sentimentos inconscientemente perpetuados pelo senso comum.

Pedro Mancini








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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A sociedade contemporânea e a personalidade esquizóide

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Vivemos numa sociedade que faz muitas exigências aos indivíduos, causando-lhes, com freqüência, sensações de profunda ansiedade e insegurança. Essas múltiplas demandas são, muitas vezes, contraditórias, tornando seu impacto sobre os homens ainda mais problemático: ao mesmo tempo, por exemplo, que somos solicitados a nos manter minimamente coesos, tendo uma só personalidade, convivemos com ambientes cada vez mais diversificados que exigem, por sua vez, representações de papéis particulares. Temos que ser filhos, pais, irmãos, amigos, namorados, trabalhadores, entre muitas outras coisas e, concomitantemente, ser "a mesma pessoa", controlar nossos impulsos e emoções, e agir de modo aparentemente racional.

Essas exigências, derivadas de uma sociedade amplamente individualizada e racionalizada, podem causar verdadeiras rupturas na identidade de alguns indivíduos, que não suportam o peso das dinâmicas contemporâneas. Entre as reações defensivas que uma pessoa pode adotar, inconscientemente, para se proteger da insegurança derivada das exigências contraditórias da sociedade atual, destaco, nessa postagem, a possibilidade da cisão da personalidade, a ser melhor definida nas linhas que se seguem.

Não é à toa que, para a psicanálise, as patologias psicológicas mais típicas da atualidade, para além do narcisismo e da egolatria, são a esquizofrenia e o transtorno da personalidade esquizóide. Todas essas patologias, fortemente favorecidas pela hiper-individualização contemporânea, relacionam-se com a defesa de um self enfraquecido pelas pressões sociais, mergulhado em uma busca, em seu interior, por um eu “verdadeiro".

Enquanto o ególatra se compromete em manter uma imagem exagerada de si para os outros, e o narcisista só enxerga o mundo sob a lente de sua própria imagem e interesses, o esquizofrênico e o esquizóide escondem-se em suas fantasias. No caso do esquizóide, o self é cindido entre um"eu" visto como verdadeiro, autêntico, espontâneo e criativo (e, muitas vezes, extraordinário e poderoso, com características ou muito boas, ou muito más - alguém que se acha deveras inteligente, ou perigoso, em seu interior), que só o próprio indivíduo conhece, e um "eu falso" - aquele preocupado com a aceitação social, comprometido com as representações da vida cotidiana, agindo de modo mecânico para agradar a sociedade e realizar as tarefas do dia-a-dia que lhe são exigidas.

A sociedade é vista por ele com medo e desprezo, considerada fria, sem graça, desprovida de magia e de significado. O mergulho num universo íntimo de imaginação não seria, nesse sentido, mais do que uma forma de re-encantar um mundo desencantado pela burocratização e pela saturação social. Cumpriria, assim, o mesmo papel que um esporte radical ou uma ida ao Shopping Center (ler últimas postagens), ativando sensações mais brutas e instintivas que acarretariam em uma efêmera e provisória sensação de liberdade e controle sobre si (beirando, por vezes, a uma sensação de megalomania).

Vamos a exemplos mais práticos sobre essas possibilidades de cisão do Eu, que escapam da mera perspectiva de patologias psíquicas. De fato, problemáticas da "dupla personalidade", da "identidade secreta", entre outras, têm sido muito exploradas pela própria mídia televisiva. Os contos contemporâneos estão cheios de personagens que se escondem por detrás de máscaras, ou que se separam entre um eu "verdadeiro" e um "falso". De super-heróis a serial killers, o problema da divisão entre múltiplos "eus" têm sido apropriado de formas diversas. Muitas vezes, essa questão é interpretada sob a ótica de dicotomia falso/real: O filme Avatar aparece, aqui, como o último exemplo cinematográfico que levanta a discussão de uma dupla identidade, e sobre qual delas deve ser vista como "verdadeira" e dotada de significado e qual, em contrapartida, seria fútil e banal, merecendo o abandono.

Acredito que muitos de nós conheçamos, ainda, exemplos de pessoas cujas personalidades possam ser classificadas como mais ou menos próximas das noções de esquizofrenia e da síndrome da personalidade esquizóide.

O ex-namorado de uma grande conhecida é um modelo útil para esse caso. Perante a sociedade, a pessoa em questão demonstrava ser muito tímida e reservada: parecia, mais do que isso, estar sempre desconfortável, como se calculando mecanicamente cada uma de suas ações em público. A própria namorada, posteriormente, revelou que ela mesma não sabia o que passava na cabeça do amante, em muitas situações do dia-a-dia.

Em seu interior, contudo, ele detinha hábitos secretos aos olhos conhecidos – que, no caso considerado, revelavam uma grande imaturidade e confusão identitárias. Aparentemente, apenas conseguia se realizar por meio dessas ações secretas consigo próprio, e não pelo contato com o resto do mundo: sua intimidade constituía-se como um refúgio de prazer, permanentemente ameaçado pelo contato com o mundo “real”, com pessoas concretas.

O indivíduo considerado foi vítima de outra característica típica do esquizóide: por mais que tenha medo e aversão a relacionamentos profundos, lá no fundo eles almejam relacionar-se, escapar de sua condição de isolamento e alienação. Por vezes, o meio encontrado para possibilitar essa relação é arrastar outras pessoas para seu mundinho de fantasias – uma namorada que mantivesse seus segredos a salvo, por exemplo.

No decorrer do namoro, foi, aos poucos, revelando seu lado obscuro, por assim dizer (sem qualquer julgamento moralista de minha parte). A partir daí, o relacionamento desabou: afinal, não é qualquer um que está disposto a mergulhar no mundo de fantasia de um esquizóide. Esse mundo só têm significado para seu criador, estando, por vezes, muito além da compreensão de indivíduos de fora – ao menos, para as pessoas mais conhecidas do sujeito.

O que resta para o esquizóide dessa espécie, fracassada sua tentativa de englobar outra pessoa em suas fantasias infantis, é a continuação de seu drama anterior: continuar vagando sozinho pelo mundo, representando papéis artificiais e buscando, ao mesmo tempo, uma alma que possa compreendê-lo e resgatá-lo de sua bolha entorpecente.

Esse é um de muitos frutos que podem germinar em um terreno fertilizado pela contemporaneidade. Condenando os indivíduos a se responsabilizarem totalmente por suas existências, a sociedade atual difunde igualmente uma insegurança que nos faz agarrar, com freqüência, a hábitos compulsivos e identidades defensivamente formadas, que, mesmo precariamente, nos fornecem uma sensação de relativa segurança. Comportamentos compulsivos, por exemplo, já trazem uma segurança pelo seu caráter repetitivo em uma sociedade cuja principal regra é a da perpétua e incontrolável mudança.

Pedro Mancini

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Urso de Ouro a Padilha: celebração à polêmica?

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Sábado, dia 16 de fevereiro de 2008: José Padilha, diretor do sucesso "Tropa de Elite", conquista o Urso de Ouro em Berlim - mesmo prêmio ganho, dez anos antes, por Walter Salles Júnior, pelo filme "Central do Brasil".
Assim como quando lançado em nosso país, na Alemanha o filme de Padilha criou um grande alvoroço entre a crítica, que se manifestou de diversas formas: alguns acusaram o formato do filme de "fascista", responsável por uma apologia inconseqüente da violência por parte do Estado - incluindo a mundialmente condenada prática da tortura (que apenas alguns poucos líderes, como o belicista George W. Bush têm coragem de defender abertamente: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u372710.shtml); outros aplaudiram de pé a obra de Padilha, celebrando seu realismo implacável. Veja matéria na Folha com uma listagem de críticas relevantes feitas por jornais e revistas européias: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u371897.shtml.



José Padilha recebe seu "Urso de Ouro" em Berlim


É incontestável que "Tropa de Elite" põe o dedo em feridas bem feias da realidade brasileira, e que precisam de trato "médico" imediato. O realismo do filme tem esse mérito, de apontar em que ponto perigoso a sociedade brasileira chegou - ponto esse que, infelizmente, costuma ficar obscurecido por toda a festividade presente em nossa cultura, festividade essa que serve como uma espécie de narcótico para nossa capacidade de pensar de modo crítico a sociedade em que vivemos.

Contudo, começo a me perguntar até que ponto toda essa polêmica a respeito da intenção "real" do filme mereça uma resposta definitiva: Fascista ou apenas "corajoso"? Apologista da violência policial ou uma forma velada de crítica sobre a mesma?

Talvez a intenção de Padilha não possa ser encontrada em nenhuma dessas respostas. A polêmica, por si só, pode ser a "razão de ser" principal do filme, diferentemente de uma mera defesa ideológica - o próprio Padilha parece admitir não se enquadrar em um lado ideológico, ao criticar, em seu discurso em Berlim, a distinção entre "direita" e "esquerda" que persiste há séculos na sociedade ocidental. Esse ponto é uma demonstração central da estrutura pós-moderna do pensamento do diretor, expressa, por sua vez, no formato do filme premiado.

Desse perspectiva, o sucesso de bilheteria do filme poderia ser explicado por dois fatores principais: primeiro, uma apelação sensacionalista, com base na exibição exagerada de cenas de violência, e justificada pelo dito "realismo" adotado pelo filme; e, em segundo, pela polêmica que causou na grande massa da população, inclusive na crítica mais especializada, somada à possibilidade de apropriação da idéia por discursos ideológicos distintos.

Nesse caso, a fórmula adotada por Padilha teve clara inspiração na obra do diretor Fernando Meirelles, "Cidade de Deus" (2002) - que, do mesmo modo, por ser quase puramente "realista", deixava margem às mesmas interpretações distintas sobre a intenção do autor. Qual seria, afinal, a intenção desse último: romantizar o traficante a partir da personagem "Zé Pequeno" ou criticar o estilo de vida criado e mantido pelo crime organizado nas favelas? "Zé Pequeno" é herói ou vilão? E o "Capitão Nascimento"? Independentemente da relação oposta entre as duas personagens, a possibilidade dúbia de interpretação a respeito de seu caráter fez com que ambos os filmes discutidos se tornassem sucesso, tanto da perspectiva da bilheteria, quanto da crítica. Polêmica vende, assim como sexo e violência. Talvez mais.

Vê-se que José Padilha, que já havia seguido a cartilha do sensacionalismo sentimental em "Ônibus 174" (e faço essa crítica apenas à forma do filme, e não ao seu conteúdo, para mim muito válido), que apelava para relatos pessoais complementados por melancólicas músicas de fundo, aplicou uma "nova" fórmula para aprimorar seu estilo em "Tropa de Elite". Não mais tomou um lado específico da trama - o que fez claramente em seu filme anterior, expondo a surpreendente história de Sandro Barbosa do Nascimento, seqüestrador do Ônibus da linha 174 do Rio, e criticando a atuação do mesmo Bope carioca cuja competência foi reverenciada em "Tropa" -, mas deixou para o público tomar esse lado ao não deixar claro o quê defende e o quê, exatamente, condena (para além da denúncia da hipocrisia presente nas classes média e alta brasileiras, financiadoras do tráfico de drogas e de seus "soldados").

Deixando essa interpretação em aberto, Padilha, inteligentemente, agrega para si públicos que pensam de formas totalmente distintas - desde "fascistas" capazes até de defender a pura e simples destruição das favelas e que vibram com a ação do Capitão Nasciomento no filme, até uma massa que odeia a truculência de uma polícia que tortura primeiro e pergunta depois, e que ficou tão abismada e revoltada com a realidade exibida pelo filme quanto "fascistas" ficariam eufóricos e vibrantes.

"Ônibus 174", em termos de público, era limitado: só agradava verdadeiramente uma parcela da população que tinha visões ideológicas próximas daquelas exibidas no filme. "Tropa de Elite" faz uma evolução mercadológica ao escapar de tal limitação, agregando um público consideravalmente maior, cujo interesse é alimentado pela própria polêmica ambígua criada sobre a obra.



Pedro Mancini

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A política global de "Amor, Estranho Amor"

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Segue, abaixo, a coluna de hoje de Sérgio Ripardo, editor de Folha Ilustrada da Folha Online, sobre a oitava versão do reality-show "BBB":



"A Globo evitou riscos na escalação dos 14 participantes da oitava edição do 'Big Brother Brasil', que começa na próxima terça-feira. Com base na divulgação das imagens e dos dados sobre os escolhidos, será, mais uma vez, um programa voltado para o erotismo barato.


Para vender a assinatura do programa na TV fechada, a Net escancara o espírito do reality show: o telespectador terá compactos de cenas de banho, barracos e os melhores closes nos corpos de sarados e gostosas.


Não é de se espantar a repetição do formato. A história da Globo mostra que, em momentos de crise no ibope, a baixaria é a fórmula mais adotada pelo canal para reagir, estimulando aquilo que os comunicólogos chamam de 'cultura do grotesco'.


Em 2007, a Globo perdeu espaço para a Record, que também não é santa e vive injetando doses de erotismo em sua programação --cenas de sexo e violência enchem, por exemplo, as novelas do canal dos bispos.


A seleção do 'BBB 8' descartou os elementos que possam, na visão da Globo, atrapalhar o cenário para o onanismo eletrônico. Nada de gente feia, gorda nem pobre à beira da piscina, lembrando que o Brasil é uma terra de mestiços, assalariados e gente fora dos padrões de estética ditados pela publicidade.


Talvez, o 'gênio' e diretor do programa Boninho --aquele que se deixa flagrar em vídeo confessando o esporte de jogar ovos em prostitutas-- merecesse uma resposta contundente do telespectador esclarecido. Desligue a TV."


Tais eventos servem, sempre, para mostrar a verdadeira face da Rede Globo, constantemente camuflada pela imagem com a qual procura se associar. Ao contrário da emissora de Sílvio Santos, que nunca escondeu seu caráter "brega", exibindo o velho seriado mexicano "Chávez" por anos a fio e novelas melancólicas vindas do mesmo país com nomes esdrúxulos como "Alegrifes e Rabujos", "Rubi" e "Poucas, poucas pulgas", a emissora do falecido barão Roberto Marinho sempre cultivou uma dissociação entre sua imagem e sua atuação prática. Essa dissociação alcançou patamares ainda mais elevados, talvez, nos dias de hoje - e alguns nomes importantes da emissora me ajudam nessa constatação: A apresentadora Xuxa, a dita "Rainha dos Baixinhos", que hoje posa de moralista "zen" em seu programa matinal, já fez um filme "caliente" com um garoto de 12 anos (que hoje daria um bom processo de pedofilia contra qualquer outro que se arriscasse a fazer o mesmo); e, nos programas matinais de ontem, abria as pernas em rede nacional, para a alegria dos pais dos baixinhos, em meio a sessões diárias de ginástica, ao lado das oxigenadas paquitas - que tocavam o barco da artificalidade da televisão brasileira, ao promoverem o comum estereótipo da "loira de olhos azuis" em um país de mestiços. Como em tantas outras ocasiões, a emissora, por meio de sua velha contratada Xuxa, apagou - ou pelo menos tentou, e teria conseguido, caso não existisse a internet - o passado, tirando o filme proibido de circulação ("Amor, Estranho Amor", que criou o nome da atual postagem).



Jô Soares, outro símbolo global, detém a imagem de intelectual, sendo, no entando, responsável por algumas pérolas muito bem camufladas por seu pedantismo e seu cenário "cool", copiado de um programa americano do gênero; só para citar dois exemplos banais, disse que a capital ucraniana Kíev fica na Rússia e que Antônio e Flávio foram nomes de dois imperadores romanos. Ora, se o simpático gordinho da Globo disse, está dito, não?



Com relação à saúde e aos indissociáveis cuidados com a sexualidade, a emissora não age de forma distinta: do mesmo modo que divulga, através da figura respeitável de Dráuzio Varella, formas de cuidado com a saúde, prega a irresponsabilidade da sexualidade descompromissada em suas novelas (como, é claro, faz sua concorrente direta, a rede do Bispo Edir Macedo) e em seus reality-shows como o BBB. O que reina, afinal, antes de qualquer preocupação com o bem-estar da população, são os interesses econômicos desse grande símbolo do capitalismo contemporâneo - a busca incessante pela audiência e pelo lucro correspondente.



Quanto à sua participação política, a característica ambígua da Globo se manifesta de um modo peculiar: procura estar do lado do governo vigente, mas sem perder de todo sua linha-mestra de raciocínio político-econômico. Sempre voltada aos interesses macro-econômicos dos Estados Unidos e de seu liberalismo, seria ingenuidade achar que defenderia um modelo de sociedade interamente voltado aos interesses nacionais, principalmente quando estes contrariam os interesses dos grandes conglomerados econômicos - do qual ela própria é participante. No final, portanto, a emissora é fiel apenas a si própria, sendo capaz de efetivar as mais condenáveis alianças para manter sua importância cultural. Assim, embora tenha se formado e nutrido em meio ao regime militar, cuidando, inclusive, de sua manutenção ao esconder o caráter autoritário de tal regime (como quando divulgou que o comício organizado em São Paulo pela democratização do país era nada mais do que uma "festa popular"), a emissora não tardou a disparar críticas ferrenhas aos governos militares após a redemocratização do país - por meio, por exemplo, de uma reportagem do "Globo Repórter" que condenou a tentativa terrorista alavancada pelos militares no episódio Rio-Centro (que pretendia culpabilizar os militantes comunistas e reimplantar os momentos mais negros da ditadura militarista brasileira). Para melhores informações, os leitores poderiam assistir o documentário inglês feito sobre o assunto, intitulado "Beyond Citizen Kane" - o que seria muito mais fácil caso a emissora de Xuxa não tivesse, mais uma vez, procurado apagar o passado ao proibir a circulação oficial de tal filme.



Essa á a Rede Globo. Posando de inovadora e intelectual, é monocromática e retrógada; parecendo moralista, age despreocupada com a "moral" vigente, ao exibir, com frequência, verdadeiros shows de erotismo em pleno horário nobre(vide as novelas das 6, 7 e 8); dizendo-se voltada para o Brasil, inclina-se à realidade exterior dos Estados Unidos e da Europa (ao pior de cada um, em verdade), copiando descaradamente seus programas e suas perspectivas sociais e políticas sem demonstrar qualquer potencial crítico verdadeiramente autônomo.



A despeito desse verdadeiro show de hipocrisia, a Globo detém forte audiência, embora declinante. O fato é que, queiramos ou não, nós adoramos a hipocrisia. Somos, cada um de nós, minimamente responsáveis pela sobrevivência de aparatos hipócritas como esse - que, jogando a sujeira por debaixo do tapete, fazem a casa brasileira parecer limpa e "chique" como na casa de um herói da novela das 8.





Pedro Mancini

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Beleza Sociológica

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Semana passada, assisti mais uma vez um de meus filmes favoritos: "Beleza Americana". Embora não possa ser considerado um grande fã do cinema americano, admiro a contra-cultura estadunidense, que consegue fugir da obviedade hollywoodiana costumeira.
Nesse caso, tal tarefa não é cumprida sem pregar algumas peças, correndo o risco de ser mal interpretada; já ouvi críticas ferrenhas saírem de mais de uma boca sobre esse filme em especial, que o interpretaram como a simples defesa do estilo de vida adotado por um "tiozão" maconheiro e depravado, sem a menor noção de sua situação social de provedor familiar e "quarentão".
Segundo minha leitura, não é essa, em absoluto, a mensagem que o diretor visou transmitir. O fato de a personagem principal se apaixonar por uma linda e aparentemente pervertida adolescente, amiga de sua filha, é relevante, mas centrar a atenção nesse fato isolado impede o desenvolvimento de uma visão mais ampla dos aconteceimentos complexos que assolam a trama.
A figura da jovem é tratada como um símbolo tosco e superficial de um modo de vida distinto daquele levado pelo protagonista antes de seu "processo de conversão": um estilo libertário de vivência, intenso, que foge das previsibilidades e do tédio existentes em seu casamento desgastado e cheio de cerimônias de falsidade. Tanto que a cena de sexo mais esperada no filme, entre o marido já libertado e "bombado" do final da trama e a jovem rebelde, não acontece - por decisão desse "tiozão tarado". Explicação: descobre-se que a garota, tal qual a esposa neurótica, também representa um papel diante da sociedade - em uma tentativa patética de construção de uma identidade "para os outros" diferente, em essência, de suas características verdadeiramente pessoais. Em outras palavras, a garota representava o papel de uma ninfeta depravada, mas, em verdade, era uma virgem assustada, desesperada por um pouco de aceitação.
O sociólogo Claude Dubar já discorreu sobre esse fenômeno de "dissociação do Eu", que pode acompanhar o processo de socialização: "entre um 'eu' que implica necessariamente um esforço de conformidade ao grupo para se fazer (re)conhecer e um 'eu' que corre sempre o risco de ser anulado e desconhecido pelos outros, o Eu (self) em construção arrisca-se a ser dissociado entre a identidade coletiva sinônima de disciplina, de conformismo de de passividade e a identidade individual sinónima de originalidade, de criatividade, mas também de risco e de insegurança" (Em "A Socialização": Construção das Identidades Sociais e Profissionais", pág. 94).

Assim, o filme sucinta inúmeras discussões a respeito de temas como individualidade, identidade e socialização. Trata-se de uma crítica à forma pela qual tais questões são manipuladas em meio à cultura americana; especificamente, à utilização, por esta, de máscaras sociais demasiadamente distonantes com as características "reais" dos indivíduos, explicada por um certa obsessão por uma socialização bem-sucedida.

Mesmo assim, o filme não consegue escapar de uma tendência sociológica clara, que assola as sociedades contemporâneas: a busca pela individualização absoluta, pelo direito pessoal em ser diferente de todos os demais, uma certa fuga da equalização - tarefa impossível de ser absolutamente concluída, já que, se levado ao extremo, tal processo não anula que ao menos ALGO resiste de igual entre todos os representantes da Humanidade: justamente essa capacidade de distinção (o que, para Durkheim, ocorre naturalmente com o progresso da divisão social do trabalho). Conforme a sociedade torna-se mais complexa, afinal de contas, mais especializadas são as funções sociais apropriadas pelos indivíduos - e, em decorrência, maior o grau existente de heterogeneidade, inclusive no que tange às construções identitárias.

A defesa ideológica da diferenciação individual, pelo filme, esconde, em realidade, a sujeição a um processo inerente ao "inconsciente coletivo" (de acordo com o ponto de vista durkheimiano) americano. Essa opção aparentemente "livre" pode ser enxergada em diversos momentos, podendo ser melhor representado pela relação entre Ricky Fitts - o filho de um disciplinado simpatizante nazista - e Jane Burnham, filha rebelde de Lester Burnham ( o dito "pai tarado").
Justos, eles chegam a bater boca com a linda e fútil Angela Hayes, que chega a chamar o jovem pretendente de sua melhor amiga de "anormal". Nesse momento, questiona-se: o que vale mais, a dita "normalidade social", obtida mediante representações quase teatrais de identidades e repressões de desejos pessoais, ou a fuga da socialização pela realização dos desejos presentes em nossas personalidades? O que é melhor, viver de fato ou "fingir viver" e se contentar com uma aceitação pautada em identidades manufaturadas, em detrimento de nossa constituição mais íntima?
Ao propor tal debate, o filme age como representante de um fenômeno social quase imperceptível a olhos nus, além de inaceitável àqueles que acreditam se constituirem por sua própria conta, sem quaisquer determinações sociais. A valorização de uma suposta "liberdade individual", que inclui a possibilidade de diferenciação, esconde muito mais do que essa possibilidade, se realizando, verdadeiramente, como uma IMPOSIÇÃO SOCIAL; somos diferentes, mas porque somos COMPELIDOS a nos diferenciarmos, por uma forma de poder que, em oposição à métodos anteriores, não apenas repreende o indivíduo, como uma força exterior a ele, mas o MOLDA de acordo com seus interesses, o incluindo em sua lógica de operação. Não mais submete suas vítimas pela pura coerção física, mas fazem-lhes revelar seu interior "por livre e espontânea vontade" - ou, em outras palavras, nos faz acreditarmos que falamos de nós mesmos de forma absolutamente livre quando, em verdade, tal iniciativa é inteiramente construída e manipulada.
Como filhos da Sociedade Disciplinar enxergada por Michel Foucault, somos geridos, desde o primeiro instante, de modo a nos sentirmos "únicos" sobre um determinado ponto de vista - e assim, acabamos cúmplices da sutil ilusão da liberdade individual perante relações de poder que, protegidas por esse manto de ignorância, exercem-se com uma notável perfeição.



Pedro Mancini