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domingo, 17 de junho de 2012

Morte e desencantamento na FFLCH: Sobre o falecimento do Prof. Antônio Flávio Pierucci

17 comentários:


Essa semana foi celebrada a missa de sétimo dia do falecimento de um grande professor (em que fiquei muito triste por estar impossibilitado de comparecer) - Antônio Flávio Pierucci,  um dos maiores especialistas em Sociologia da Religião e na obra de Max Weber que o Brasil já produziu. Mas não estou aqui para falar dos feitos acadêmicos do excelente professor e pesquisador Pierucci; e sim de suas qualidades pessoais.

Mas quem sou eu para falar alguma coisa, poderia-se pensar? Conhecia ele mais do que vários de meus colegas de faculdade, que cursaram a graduação tendo a honra de assistir as suas aulas descontraídas, apesar de extremamente enriquecedoras? Não. Não sou ninguém notadamente especial entre o círculo de amizades de Pierucci: apenas MAIS UM aluno que ele conhecia pelo nome e comprimentava pelos corredores da faculdade com boa vontade e transparência raras e invejáveis. Não apenas lembrava meu nome anos após uma participação em seu curso de Sociologia IV, como lembrava das conversas que havíamos tido àquela época. E isso, não tenho dúvidas, ocorreu com inúmeros colegas de curso.

A maior virtude de Flávio Pierucci, para mim, não estava em sua produção acadêmica - que, não me entendam mal, é indiscutivelmente importantíssima, mas que já foi destacada pelos usuais veículos de comunicação, embora ainda superficialmente. Sua maior qualidade encontrava-se por detrás do pesquisador e professor: seu lado humano, desapegado às relações burocrático-informais que permeiam um ambiente como aquele que frequentava até muito recentemente: os corredores da Universidade. Em um local em que somos "apenas mais um aluno", com um número de matrícula que nos posiciona em uma massa de milhares de matrículas, e em que nos encontramos na mais baixa posição hierárquica da rígida estratificação universitária, Pierucci possuía a habilidade inata de romper as barreiras estatutárias e apresentar-se como um ser humano para seus alunos, para além de um "simples" reprodudor de conhecimentos teóricos. Aproximava-se de cada um de nós como um colega pessoal, e não como um ser que vive em um inviolável Monte Olimpo, pairando sobre nossas cabeças. Tinha o dom de fazer cada um entre centenas de alunos se sentir um pouco mais especial, um pouco mais do que um mero número de matrícula em uma comunidade acadêmica altamente burocratizada (burocracia essa habilmente tematizada pelo estudioso em que Pierucci mais se especializou, o velho Max Weber). Não era o único professor a deter esse dom - tive a sorte de me relacionar com uma orientadora com qualidades semelhantes - mas era um dos poucos, e daqueles que o faziam de modo mais hábil e natural.

Pierucci, enfim, era um dos poucos professores que conheci que eram capazes, naturalmente, de encantar um pouco esse desencantado, altamente racionalizado, universo acadêmico. A FFLCH acordou um pouco mais desencantada no mês de junho de 2012.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Haiti e as controvérsias levantadas pelas catástrofes sociais

3 comentários:
A calamidade ocorrida no Haiti, como todas as grandes crises sociais, suscitou um número enorme de questões. Para a Sociologia, muitas vezes, é nesses momentos de extrema tensão e rompimento da normalidade que as regras e valores sociais se revelam, desnudos de adornos e distorções.

Para além dos absurdos proferidos pelo cônsul do Haiti no Brasil, já bastante difundidos (http://www.youtube.com/watch?v=_K5lBkDcYf8), aponto para outras questões levantadas pela catástrofe. Já contestam, por exemplo, a real finalidade dos Estados Unidos e até mesmo do Brasil no que tange ao envio e manutenção de tropas no Haiti destruído (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4521). Segundo esses críticos, se trata, para além de uma ajuda humanitária, de uma ocupação militar pouco engajada com uma reconstrução real do país.

Outra questão, percebida por pessoas do Twitter e de meios de comunicação mais alternativos, é a desigualdade, ao menos inicial, na consideração das vítimas da catástrofe.

É realmente incrível como os grandes meios de comunicação valorizaram muito mais, nos primeiros dias após o terremoto, a perda da vida da fundadora da Pastoral da Criança, a brasileira Zilda Arns, do que de milhares de haitianos. Por alguns momentos (felizmente, parece que agora as atenções se voltaram definitivamente à destruição do país e da condição de vida da população haitiana em geral) a tragédia se resumia, em grande parte, à morte de Agnes.

Obviamente, a explicação para essa valorização extrema de UMA morte em meio a dezenas de milhares não pode se resumir ao senso de comunidade compartilhado pelos brasileiros - a morte de militares do Brasil no Haiti também causou certo impacto, mas menor do que a morte da filantropa. Lembro-me, a título de exemplo, que o governo Lula foi criticado por não decretar luto oficial nacional - mais uma vez, não por causa dos incontáveis haitianos prejudicados pela catástrofe, mas apenas pela morte dessa bondosa senhora.


Antes que digam qualquer coisa sobre a biografia de Agnes, não coloco isso em discussão. Aparentemente, era alguém de fato de muito valor, que dedicou sua vida à melhora da condição de vida de crianças desfavorecidas. Mas a questão, como sempre, não é essa; o que me atormenta é o impacto simbólico da morte de uma pessoa moralmente valorizada, em relação a um impacto inicial infimamente proporcional de cada haitiano. Parece que a "certeza" da bondade de uma filantropa (que preenche um perfil muito valorizado em nossa cultura, da boa velhinha rica e de cultura que ajuda os pobres e desamparados) tem muito mais peso do que o desconhecimento sobre a massa haitiana. O que me faz lembrar a política militar de Israel, que age como se a vida de cada soldado de seu país valesse mais do que a vida de - no mínimo - dez ou vinte civis palestinos.

Fica difícil não concordar com mais uma postagem provocativa do blog "The Classe Media Way of Life"(http://classemediawayoflife.blogspot.com/2010/01/dica-040-ficar-chocado-quando-um-rico.html), lançada antes mesmo do terremoto: morte de pobre é corriqueira, morte de rico e gente "importante" é uma calamidade, "tragédia que abalou a família brasileira". Se Zilda Agnes realmente correspondia à imagem que o Brasil a respeito dela, não acredito que ela estaria satisfeita.

Como nos mostra o exemplo israelense, é claro que uma valorização desigual da vida não é própria da sociedade brasileira. Mesmo os EUA, auto-proclamados líderes da bandeira democrática e da igualdade de direitos, utiliza o termo "VIP" (Very Important People) para designar aqueles que são vistos como "mais valiosos" do que o resto da população. No Brasil essa desigualdade simbólica também é gritante, influenciada pelo esqueleto estratificado de nossa cultura e camuflado por um suposto caráter liberal e democrático de nossas instituições (hipocrisia esta muito bem notada por Roberto DaMatta, em "Carnavais, Malandros e Heróis").


Mas para não terminar a postagem de modo totalmente negativista, ressalto a afirmação de que essa desigualdade de tratamento, no tocante às vítimas do terremoto do Haiti, parece ter sido reduzida dias após a tragédia. Reportagens atuais já focam muito mais para a vida dos dos milhões de sobreviventes desabrigados em meio a um oceano de cadáveres. Pena que essa nova ênfase pode muito bem estar relacionada à tentativa de legitimiação de uma ocupação militar perpétua do Haiti, seja pela ONU (emcabeçada por nós), seja pelo velho exército americano de sempre.

Ops! "Negativei" de novo.

Pedro Mancini

sexta-feira, 7 de março de 2008

Crise na América Latina- A cultura latino-americana de resolução de conflitos pela intolerância violenta

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Mais uma crise diplomática na América do Sul, mais uma oportunidade de propagação de absurdos. O recente ataque das forças colombianas ao território do Equador e muitas das suas conseqüências até agora não passam de mais uma representação da tentação latino-americana de resolver todas as suas questões - principalmente, seus problemas sociais e políticos - da forma mais intolerante e violenta possível.



A Colômbia destaca-se como principal representante desta problemática. Por décadas, governo, paramilitares de direita e guerrilhas de esquerda confrontam-se utilizando todos os meios necessários para manter uma ordem pautada na intolerância, de um lado, ou, de outro, para impor um determinado ponto de vista a toda uma nação. O governo colombiano sempre se utilizou de meios escusos para combater as FARC e o ELN - contratando, por exemplo, paramiliares que utilizam métodos tão ou mais terríveis do que as guerrilhas comunistas para combatê-las, aplicando venenos tóxicos internacionalmente condenados para destruir plantações de maconha (afetando moradores de vilas diversas, e atingindo, ainda, o território de outros países) e comentendo puros e simples assassinatos a representantes políticos dos revolucionários, mesmo após tentativasde paz - sempre fracassadas.



As FARC, por sua vez, já mostraram ao mundo que são capazes das maiores atrocidades contra a população colombiana. Nascendo em uma época de forte radicalismo e segmentação entre direita e esquerda no sub-continente, quando governos populares e ditaduras militares competiam diretamente, a guerrilha respondeu da forma violenta reconhecida na época para alterar toda a realidade social - uma vez que a violência e a falta de espaço democrático inerente aos próprios governos da época impediam a viabilidade da atuação parlamentar desses revolucionários. Aprimorando apenas seus meios técnicos de utilização da violência, sem, no entanto, conseguir avançar muito no que se refere à sua atitude política e ao trato de sua imagem, a guerrilha de hoje encontra-se em uma posição anacrônica em relação à população colombiana mais ampla - que, tendo seus membros seqüestrados continuamente, anseiam por uma solução rápida do conflito.



O fracasso das negociações entre a guerrilha e o governo de Andrés Pastrana, em 2000, eliminou a última chance até então de finalizar uma onda de intolerância mútua, em que ambos os lados poderiam ser amplamente beneficiados. Ao contrário, o que houve prejudicou os dois lados da guerra civil; de um lado, o governo desceu novamente ao nível do terrorismo, utilizando métodos condenáveis de combate à sua própria população - e ainda, com pleno suporte econômico e militar do governo norte-americano. Em última instância, mostrando o quanto a Colômbia de hoje não mede as conseqüencias de seus atos com racionalidade (ou boa-fé?), a postura militarista de Álvaro Uribe resultou em um massivo incidente internacional.



As FARC, por sua vez, ao não conseguirem selar a paz, perderam muito de seu apoio popular, sofrendo um desgaste sem precedentes, além da perda pura e simples de milhares de vidas e centenas de quilômetros de território controlado.




O fato é que, independente da visão política presente em cada lado dessa história, nenhum deles representa uma alternativa para a América Latina - antes de tudo, pelo seu método de existência. De forma alguma um Estado de direito, como se considera a Colômbia de Uribe, deve se pautar apenas em meios militares, paramilitares e terroristas para combater quem quer que seja - ainda mais, uma parcela de sua própria população (fato esquecido: sim, os membros das FARC são colombianos). Assim como o governo da cidade do Rio de Janeiro, e outros tantos prováveis exemplos presentes em toda a América Latina, o Estado se vê desobrigado a inserir a parcela diretamente influenciada pelos criminosos, e afetada por uma situação de aterradora desigualdade social, em sua população assistida - se vendo reduzido à função repressora e excludente, e acabando por criminalizar a situação da pobreza em si.


Tal situação absurda cessará apenas quando o Estado deixar de se ver e ser visto a partir dessa única função repressora e violenta, e preocupar-se mais notadamente com a inclusão dos membros desfavorecidos de sua sociedade - não afastando e punindo os miseráveis, mas, pelo contrário, fazendo-se presente na missão de tirá-los de tal situação, inserindo-os na sociedade mais ampla. Seja ela colombiana, brasileira ou de qualquer outra nação desse sub-continente.






Pedro Mancini

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Conseqüencias da Renúncia de Fidel

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Após 49 anos no comando direto de Cuba, Fidel Castro renunciou ao poder. Logo que isso ocorrreu, assim como em várias ocasiões em que o velho comandante demonstrou sinais de fraqueza, a mídia manifestou seu entusiasmo e sua esperança por uma "abertura política" na ilha.

Na realidade, a chance de mudanças concretas, para além do processo de abertura econômica já processo no país, é pequena, ao menos por enquanto - Fidel ainda detém o fundamental cargo de Presidente do Partido Comunista, além de uma cadeira no parlamento; além disso, quem assumiu seu lugar presidencial foi seu irmão mais novo, Raúl, que sempre lhe foi fiel.

Todavia, ainda é importante entender de onde vem essa "fome" da mídia, essa impaciência por alterações no regime de inspiração socialista desenvolvido no local. Segundo minha perspectiva, é evidente que o país necessita de enormes reformas políticas e de uma quebra da lógica totalitária difundida por seus líderes; o problema, contudo, é que as mudanças que o empresariado mundial espera que assolem Cuba vão muito além das referidas reformas democráticas.

O interesse mais imediato é o econômico, obviamente - mas, além disso, e provavelmente mais fundamental, trata-se de um interesse ideológico dos agentes capitalistas. É óbvio que, assim, como ocorreu na União Soviética, se o regime castrista cair em Cuba, forças do capital internacional não tardarão a aparecer para forçar uma transição LIBERAL de cunho ECONÔMICO, bem antes do que uma "transição democrática". Como o mercado cubano possui importância minúscula na perspectiva econômica global, a liberalização total da economia representaria muito mais uma vitória político-ideológica do capitalismo do que um incremento relevante ao mercado mundial.

Acima de tudo, o que se pretende destruir é o sonho do socialismo de forma geral, relacionando-o de forma inexorável à uma estrutura política totalitária, avessa aos princípios da heterogeneidade humana. Ao criticar o regime de Castro, o mercado finge dar ênfase ao autoritarismo de seu Estado, mas, no fundo, ataca seus avanços sociais - no que se refere, por exemplo, à educação e à saúde públicas da Ilha.


O processo da queda do "socialismo" (capitalismo de Estado, para alguns analistas mais realistas) da União Soviética é uma prova viva da história dos reais interesses do mercado. Poucos anos após a liberalização da economia russa, bilionários nasceram do nada no país, beneficiados pelas reformas econômico-estruturais tocada a cabo pelos seus líderes (em especial, por meio de privatizações em massa que assolaram a nação). Foi o caso de Mikhail Khodorkovsky, que passou a administrar a outrora estatal companhia petrolífera Yukos, mais poderosa do país - a ponto de se tornar um dos homens mais ricos do mundo, em um intervalo de tempo impressionantemente curto. Por sua vez, quem analisa a Rússia de hoje sabe que, a despeito dessa liberalização econômica, reformas de cunho democrático ficaram longe de atingir os patamares esperados; até hoje, críticos de todo o planeta apontam para a truculência do governo local, que, entre outras medidas, proibiu manifestações e prendeu quantidade considerável de opositores políticos.


Não tenho dúvidas de que Cuba corre um risco similar, passível de concretização quando se der a queda do castrismo: a destruição quase obsoluta do "lado positivo da ilha", para o bem do "capital internacional", e, em paralelo, uma manutenção considerável (salvo algumas reformas "pincelares") da estrutura política atual - que corresponde, na minha visão, ao "lado negativo" do país. Conseqüências de uma associação simplista e, infelizmente, muito arraigada na mídia, entre um controle estatal dos meios de produção e uma forma autoritária de controle do Estado por um grupo burocrático corruptível. Quem conhece as publicações de socialistas históricos de renome, como Rosa Luxemburgo, sabe que tal associação é tão errônea quanto mal-intencionada. É uma pena que experiências humanamente catastróficas como a soviética, a cubana e a chinesa tenham dado tando respaldo a essa visão pessimista sobre a ideologia socialista, prestes a sofrer uma nova derrota.
Pedro Mancini

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O dilema do "ditador bondoso"

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O governo do venezuelano Hugo Chávez vêm pondo à tona uma problemática que já infligiu a humanidade muitas e muitas vezes - e que, atualmente, tem assombrado os agrupamentos de esquerda, em especial da América Latina.

É sabido que grande parte desse movimento esquerdista - e eu me incluo nesse pacote - se viu bastante empolgada com a ascensão democrática do coronel ao poder da Venezuela, bem como com suas políticas governamentais inclusivas e participativas que afetaram as classes menos favorecidas de seu país - medidas essas financiadas pelos recursos captados graças à intervenção do presidente venezuelano na indústria nacional de exploração petrolífera que, diga-se de passagem, há tempos agia como reprodutora da desigualdade, beneficiando diretamente a elite econômica daquele país. De modo silimar, comemoramos enormemente o fracasso do golpe de 2002 contra Hugo Chávez, em um acontecimento-relâmpago de dois dias em que um agrupamento reacionário, fortemente prejudicado com a intervenção estatal na indústria petrolífera, raptou o presidente e divulgou, através de todo aparato da mídia privada - que militava a favor dos golpistas - que o mesmo havia renunciado ao poder. O venezuelano voltou ao seu posto de direito quando a massa descobriu a fraude e exigiu seu retornou imediato.

Como parte considerável da esquerda pró-chavista, no entando, fiquei desconfiado (e fortemente decepcionado) quando o presidente tentou aprovar um pacote de medidas diversas, em que se destacava a tentativa de reprodução ilimitada de seu poder - se tais medidas fossem aprovadas, Chávez passaria a deter o privilégio de ser reeleito inúmeras vezes.

São iniciativas como essa que fazem com que a esquerda perca, historicamente, sua compostura: ações que, somadas, revelam sua pretenção em existir como a única personagem política em jogo. Considerando a pureza de seus ideais como "óbvia" perante os olhos das classes menos favorecidas, forças políticas de esquerda, ao assumirem o poder, impõem sua visão (específica) como a única aceitável (geral) para toda a sociedade que comandam - da mesma forma que os seus rivais, sejam eles liberais ou conservadores. Por meio de diversas táticas, que, no extremo, significam a morte pura e simples da democracia, essa esquerda, assumindo papel similar ao do Deus cristão que, já que naturalmente "bondoso", não aceita crítica ou rebeldia, acaba sendo capaz de desenvolver seu próprio antagonismo - criando, aos poucos, uma sociedade que, ao invés de se pautar no combate às desigualdades e injustiças sociais, apenas as fundamentam a partir de uma nova lógica. Privilegia-se, aqui, a igualdade social-econômica, mas não sem graves prejuízos à igualdade e à liberdade político-individuais.

Foi esse o processo que assolou inúmeros países, como a extinta União Soviética e seus aliados, e que, vez ou outra, ameaça se repetir em nações de diversas partes do globo - e a América Latina é um dos locais mais suscetíveis a esse fenômeno. No momento, esse risco aparece como iminente em figuras como a de Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.

Mais uma vez, contudo, é importante salientar que as críticas não se referem ao caráter social de tais governos - ao combate, por exemplo, a determinados modos de propriedade privada - e nem ao conteúdo ideológico por si dos referidos regimes; mas sim à relação estabelecida entre o Estado e a população governada: uma relação pautada pelo clientelismo, pelo populismo e por um exclusivismo arrogante da esquerda - características essas capazes de resultar no mais pleno suicídio de suas intenções igualitárias, como já indiquei. Mais grave que isso, tal relação resulta em perdas incalculáveis para a autonomia dos indivíduos - que passam, no final das contas, de "clientes" do Estado (como nas relações típicas do neoliberalismo) à condição de "apadrinhados" ou "filhos" deste, recebendo benefícios não por terem pleno direito a eles, mas como mero favor concedido por uma instituição que se encontra acima da sociedade, e não a serviço da mesma.

É essa a lição que a esquerda - em especial, na América Latina - deve aprender: não existem "ditadores bondosos", mas apenas ditadores; e o que os define, pura e simplesmente, é o seu desprezo pela capacidade de auto-determinação dos homens do povo, de desenvolvimento de seu raciocínio e pela prática de seu livre-arbítrio de forma livre. Para esses líderes, a liberdade individual não deve ser estimulada - pois resultaria, obviamente, em fracassos de massa; os pontos de vista plausíveis, sob tal ótica, devem ser sempre impostos de fora, e nunca desenvolvidos pela sociedade civil de forma minimamente expontânea.


O conceito de "heteronomia" - "regra obtida de fora" - serve de substituto, aqui, à noção de "autonomia" - "regra obtida por si só", pelo próprio indivíduo, idéia-chave para uma compreensão desse fenômeno.

Recria-se, dessa forma, o fanático seguidor cristão que enxerga a autonomia de pensamento, o "pensar diferente", uma "coisa do demo" - e deve aceitar, cegamente, sem contestação, aquilo que foi imposto por seu Senhor (sob a pena de ser visto como, na melhor das hipóteses, marionete inocente de Satã, e, na pior, um cúmplice consciente do mesmo).

Por essa razão, a tolerância com forças reacionárias - como, por exemplo, gigantescas parcelas da mídia -, embora difícil, deve sempre ser mantida por qualquer governo que se diga preocupado com justiça social sob uma perspectiva verdadeiramente humana; não só para que não se desça ao nível de uma parcela política constantemente golpista e autoriária, mas simplesmente porque, se um dia habitaremos um mundo em que exista um grau mínimo aceitável de igualdade e justiça, essa situação, segundo minha perspectiva, não poderá se manter sem uma saudável diversidade política, ligada à dedicação integral pelo desenvolvimento da autonomia individual; autonomia essa que nos faz, afinal de contas, HUMANOS - para além da simples noção de servos de algum senhor benevolente qualquer, seja ele encarnado na figura de Deus, de um Presidente ou, de forma mais ampla, de um Estado burocrático tão acolhedor quanto intolerante com qualquer forma de pensamento independente.

Pedro Mancini

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A política global de "Amor, Estranho Amor"

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Segue, abaixo, a coluna de hoje de Sérgio Ripardo, editor de Folha Ilustrada da Folha Online, sobre a oitava versão do reality-show "BBB":



"A Globo evitou riscos na escalação dos 14 participantes da oitava edição do 'Big Brother Brasil', que começa na próxima terça-feira. Com base na divulgação das imagens e dos dados sobre os escolhidos, será, mais uma vez, um programa voltado para o erotismo barato.


Para vender a assinatura do programa na TV fechada, a Net escancara o espírito do reality show: o telespectador terá compactos de cenas de banho, barracos e os melhores closes nos corpos de sarados e gostosas.


Não é de se espantar a repetição do formato. A história da Globo mostra que, em momentos de crise no ibope, a baixaria é a fórmula mais adotada pelo canal para reagir, estimulando aquilo que os comunicólogos chamam de 'cultura do grotesco'.


Em 2007, a Globo perdeu espaço para a Record, que também não é santa e vive injetando doses de erotismo em sua programação --cenas de sexo e violência enchem, por exemplo, as novelas do canal dos bispos.


A seleção do 'BBB 8' descartou os elementos que possam, na visão da Globo, atrapalhar o cenário para o onanismo eletrônico. Nada de gente feia, gorda nem pobre à beira da piscina, lembrando que o Brasil é uma terra de mestiços, assalariados e gente fora dos padrões de estética ditados pela publicidade.


Talvez, o 'gênio' e diretor do programa Boninho --aquele que se deixa flagrar em vídeo confessando o esporte de jogar ovos em prostitutas-- merecesse uma resposta contundente do telespectador esclarecido. Desligue a TV."


Tais eventos servem, sempre, para mostrar a verdadeira face da Rede Globo, constantemente camuflada pela imagem com a qual procura se associar. Ao contrário da emissora de Sílvio Santos, que nunca escondeu seu caráter "brega", exibindo o velho seriado mexicano "Chávez" por anos a fio e novelas melancólicas vindas do mesmo país com nomes esdrúxulos como "Alegrifes e Rabujos", "Rubi" e "Poucas, poucas pulgas", a emissora do falecido barão Roberto Marinho sempre cultivou uma dissociação entre sua imagem e sua atuação prática. Essa dissociação alcançou patamares ainda mais elevados, talvez, nos dias de hoje - e alguns nomes importantes da emissora me ajudam nessa constatação: A apresentadora Xuxa, a dita "Rainha dos Baixinhos", que hoje posa de moralista "zen" em seu programa matinal, já fez um filme "caliente" com um garoto de 12 anos (que hoje daria um bom processo de pedofilia contra qualquer outro que se arriscasse a fazer o mesmo); e, nos programas matinais de ontem, abria as pernas em rede nacional, para a alegria dos pais dos baixinhos, em meio a sessões diárias de ginástica, ao lado das oxigenadas paquitas - que tocavam o barco da artificalidade da televisão brasileira, ao promoverem o comum estereótipo da "loira de olhos azuis" em um país de mestiços. Como em tantas outras ocasiões, a emissora, por meio de sua velha contratada Xuxa, apagou - ou pelo menos tentou, e teria conseguido, caso não existisse a internet - o passado, tirando o filme proibido de circulação ("Amor, Estranho Amor", que criou o nome da atual postagem).



Jô Soares, outro símbolo global, detém a imagem de intelectual, sendo, no entando, responsável por algumas pérolas muito bem camufladas por seu pedantismo e seu cenário "cool", copiado de um programa americano do gênero; só para citar dois exemplos banais, disse que a capital ucraniana Kíev fica na Rússia e que Antônio e Flávio foram nomes de dois imperadores romanos. Ora, se o simpático gordinho da Globo disse, está dito, não?



Com relação à saúde e aos indissociáveis cuidados com a sexualidade, a emissora não age de forma distinta: do mesmo modo que divulga, através da figura respeitável de Dráuzio Varella, formas de cuidado com a saúde, prega a irresponsabilidade da sexualidade descompromissada em suas novelas (como, é claro, faz sua concorrente direta, a rede do Bispo Edir Macedo) e em seus reality-shows como o BBB. O que reina, afinal, antes de qualquer preocupação com o bem-estar da população, são os interesses econômicos desse grande símbolo do capitalismo contemporâneo - a busca incessante pela audiência e pelo lucro correspondente.



Quanto à sua participação política, a característica ambígua da Globo se manifesta de um modo peculiar: procura estar do lado do governo vigente, mas sem perder de todo sua linha-mestra de raciocínio político-econômico. Sempre voltada aos interesses macro-econômicos dos Estados Unidos e de seu liberalismo, seria ingenuidade achar que defenderia um modelo de sociedade interamente voltado aos interesses nacionais, principalmente quando estes contrariam os interesses dos grandes conglomerados econômicos - do qual ela própria é participante. No final, portanto, a emissora é fiel apenas a si própria, sendo capaz de efetivar as mais condenáveis alianças para manter sua importância cultural. Assim, embora tenha se formado e nutrido em meio ao regime militar, cuidando, inclusive, de sua manutenção ao esconder o caráter autoritário de tal regime (como quando divulgou que o comício organizado em São Paulo pela democratização do país era nada mais do que uma "festa popular"), a emissora não tardou a disparar críticas ferrenhas aos governos militares após a redemocratização do país - por meio, por exemplo, de uma reportagem do "Globo Repórter" que condenou a tentativa terrorista alavancada pelos militares no episódio Rio-Centro (que pretendia culpabilizar os militantes comunistas e reimplantar os momentos mais negros da ditadura militarista brasileira). Para melhores informações, os leitores poderiam assistir o documentário inglês feito sobre o assunto, intitulado "Beyond Citizen Kane" - o que seria muito mais fácil caso a emissora de Xuxa não tivesse, mais uma vez, procurado apagar o passado ao proibir a circulação oficial de tal filme.



Essa á a Rede Globo. Posando de inovadora e intelectual, é monocromática e retrógada; parecendo moralista, age despreocupada com a "moral" vigente, ao exibir, com frequência, verdadeiros shows de erotismo em pleno horário nobre(vide as novelas das 6, 7 e 8); dizendo-se voltada para o Brasil, inclina-se à realidade exterior dos Estados Unidos e da Europa (ao pior de cada um, em verdade), copiando descaradamente seus programas e suas perspectivas sociais e políticas sem demonstrar qualquer potencial crítico verdadeiramente autônomo.



A despeito desse verdadeiro show de hipocrisia, a Globo detém forte audiência, embora declinante. O fato é que, queiramos ou não, nós adoramos a hipocrisia. Somos, cada um de nós, minimamente responsáveis pela sobrevivência de aparatos hipócritas como esse - que, jogando a sujeira por debaixo do tapete, fazem a casa brasileira parecer limpa e "chique" como na casa de um herói da novela das 8.





Pedro Mancini