terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Conseqüencias da Renúncia de Fidel

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Após 49 anos no comando direto de Cuba, Fidel Castro renunciou ao poder. Logo que isso ocorrreu, assim como em várias ocasiões em que o velho comandante demonstrou sinais de fraqueza, a mídia manifestou seu entusiasmo e sua esperança por uma "abertura política" na ilha.

Na realidade, a chance de mudanças concretas, para além do processo de abertura econômica já processo no país, é pequena, ao menos por enquanto - Fidel ainda detém o fundamental cargo de Presidente do Partido Comunista, além de uma cadeira no parlamento; além disso, quem assumiu seu lugar presidencial foi seu irmão mais novo, Raúl, que sempre lhe foi fiel.

Todavia, ainda é importante entender de onde vem essa "fome" da mídia, essa impaciência por alterações no regime de inspiração socialista desenvolvido no local. Segundo minha perspectiva, é evidente que o país necessita de enormes reformas políticas e de uma quebra da lógica totalitária difundida por seus líderes; o problema, contudo, é que as mudanças que o empresariado mundial espera que assolem Cuba vão muito além das referidas reformas democráticas.

O interesse mais imediato é o econômico, obviamente - mas, além disso, e provavelmente mais fundamental, trata-se de um interesse ideológico dos agentes capitalistas. É óbvio que, assim, como ocorreu na União Soviética, se o regime castrista cair em Cuba, forças do capital internacional não tardarão a aparecer para forçar uma transição LIBERAL de cunho ECONÔMICO, bem antes do que uma "transição democrática". Como o mercado cubano possui importância minúscula na perspectiva econômica global, a liberalização total da economia representaria muito mais uma vitória político-ideológica do capitalismo do que um incremento relevante ao mercado mundial.

Acima de tudo, o que se pretende destruir é o sonho do socialismo de forma geral, relacionando-o de forma inexorável à uma estrutura política totalitária, avessa aos princípios da heterogeneidade humana. Ao criticar o regime de Castro, o mercado finge dar ênfase ao autoritarismo de seu Estado, mas, no fundo, ataca seus avanços sociais - no que se refere, por exemplo, à educação e à saúde públicas da Ilha.


O processo da queda do "socialismo" (capitalismo de Estado, para alguns analistas mais realistas) da União Soviética é uma prova viva da história dos reais interesses do mercado. Poucos anos após a liberalização da economia russa, bilionários nasceram do nada no país, beneficiados pelas reformas econômico-estruturais tocada a cabo pelos seus líderes (em especial, por meio de privatizações em massa que assolaram a nação). Foi o caso de Mikhail Khodorkovsky, que passou a administrar a outrora estatal companhia petrolífera Yukos, mais poderosa do país - a ponto de se tornar um dos homens mais ricos do mundo, em um intervalo de tempo impressionantemente curto. Por sua vez, quem analisa a Rússia de hoje sabe que, a despeito dessa liberalização econômica, reformas de cunho democrático ficaram longe de atingir os patamares esperados; até hoje, críticos de todo o planeta apontam para a truculência do governo local, que, entre outras medidas, proibiu manifestações e prendeu quantidade considerável de opositores políticos.


Não tenho dúvidas de que Cuba corre um risco similar, passível de concretização quando se der a queda do castrismo: a destruição quase obsoluta do "lado positivo da ilha", para o bem do "capital internacional", e, em paralelo, uma manutenção considerável (salvo algumas reformas "pincelares") da estrutura política atual - que corresponde, na minha visão, ao "lado negativo" do país. Conseqüências de uma associação simplista e, infelizmente, muito arraigada na mídia, entre um controle estatal dos meios de produção e uma forma autoritária de controle do Estado por um grupo burocrático corruptível. Quem conhece as publicações de socialistas históricos de renome, como Rosa Luxemburgo, sabe que tal associação é tão errônea quanto mal-intencionada. É uma pena que experiências humanamente catastróficas como a soviética, a cubana e a chinesa tenham dado tando respaldo a essa visão pessimista sobre a ideologia socialista, prestes a sofrer uma nova derrota.
Pedro Mancini

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Urso de Ouro a Padilha: celebração à polêmica?

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Sábado, dia 16 de fevereiro de 2008: José Padilha, diretor do sucesso "Tropa de Elite", conquista o Urso de Ouro em Berlim - mesmo prêmio ganho, dez anos antes, por Walter Salles Júnior, pelo filme "Central do Brasil".
Assim como quando lançado em nosso país, na Alemanha o filme de Padilha criou um grande alvoroço entre a crítica, que se manifestou de diversas formas: alguns acusaram o formato do filme de "fascista", responsável por uma apologia inconseqüente da violência por parte do Estado - incluindo a mundialmente condenada prática da tortura (que apenas alguns poucos líderes, como o belicista George W. Bush têm coragem de defender abertamente: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u372710.shtml); outros aplaudiram de pé a obra de Padilha, celebrando seu realismo implacável. Veja matéria na Folha com uma listagem de críticas relevantes feitas por jornais e revistas européias: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u371897.shtml.



José Padilha recebe seu "Urso de Ouro" em Berlim


É incontestável que "Tropa de Elite" põe o dedo em feridas bem feias da realidade brasileira, e que precisam de trato "médico" imediato. O realismo do filme tem esse mérito, de apontar em que ponto perigoso a sociedade brasileira chegou - ponto esse que, infelizmente, costuma ficar obscurecido por toda a festividade presente em nossa cultura, festividade essa que serve como uma espécie de narcótico para nossa capacidade de pensar de modo crítico a sociedade em que vivemos.

Contudo, começo a me perguntar até que ponto toda essa polêmica a respeito da intenção "real" do filme mereça uma resposta definitiva: Fascista ou apenas "corajoso"? Apologista da violência policial ou uma forma velada de crítica sobre a mesma?

Talvez a intenção de Padilha não possa ser encontrada em nenhuma dessas respostas. A polêmica, por si só, pode ser a "razão de ser" principal do filme, diferentemente de uma mera defesa ideológica - o próprio Padilha parece admitir não se enquadrar em um lado ideológico, ao criticar, em seu discurso em Berlim, a distinção entre "direita" e "esquerda" que persiste há séculos na sociedade ocidental. Esse ponto é uma demonstração central da estrutura pós-moderna do pensamento do diretor, expressa, por sua vez, no formato do filme premiado.

Desse perspectiva, o sucesso de bilheteria do filme poderia ser explicado por dois fatores principais: primeiro, uma apelação sensacionalista, com base na exibição exagerada de cenas de violência, e justificada pelo dito "realismo" adotado pelo filme; e, em segundo, pela polêmica que causou na grande massa da população, inclusive na crítica mais especializada, somada à possibilidade de apropriação da idéia por discursos ideológicos distintos.

Nesse caso, a fórmula adotada por Padilha teve clara inspiração na obra do diretor Fernando Meirelles, "Cidade de Deus" (2002) - que, do mesmo modo, por ser quase puramente "realista", deixava margem às mesmas interpretações distintas sobre a intenção do autor. Qual seria, afinal, a intenção desse último: romantizar o traficante a partir da personagem "Zé Pequeno" ou criticar o estilo de vida criado e mantido pelo crime organizado nas favelas? "Zé Pequeno" é herói ou vilão? E o "Capitão Nascimento"? Independentemente da relação oposta entre as duas personagens, a possibilidade dúbia de interpretação a respeito de seu caráter fez com que ambos os filmes discutidos se tornassem sucesso, tanto da perspectiva da bilheteria, quanto da crítica. Polêmica vende, assim como sexo e violência. Talvez mais.

Vê-se que José Padilha, que já havia seguido a cartilha do sensacionalismo sentimental em "Ônibus 174" (e faço essa crítica apenas à forma do filme, e não ao seu conteúdo, para mim muito válido), que apelava para relatos pessoais complementados por melancólicas músicas de fundo, aplicou uma "nova" fórmula para aprimorar seu estilo em "Tropa de Elite". Não mais tomou um lado específico da trama - o que fez claramente em seu filme anterior, expondo a surpreendente história de Sandro Barbosa do Nascimento, seqüestrador do Ônibus da linha 174 do Rio, e criticando a atuação do mesmo Bope carioca cuja competência foi reverenciada em "Tropa" -, mas deixou para o público tomar esse lado ao não deixar claro o quê defende e o quê, exatamente, condena (para além da denúncia da hipocrisia presente nas classes média e alta brasileiras, financiadoras do tráfico de drogas e de seus "soldados").

Deixando essa interpretação em aberto, Padilha, inteligentemente, agrega para si públicos que pensam de formas totalmente distintas - desde "fascistas" capazes até de defender a pura e simples destruição das favelas e que vibram com a ação do Capitão Nasciomento no filme, até uma massa que odeia a truculência de uma polícia que tortura primeiro e pergunta depois, e que ficou tão abismada e revoltada com a realidade exibida pelo filme quanto "fascistas" ficariam eufóricos e vibrantes.

"Ônibus 174", em termos de público, era limitado: só agradava verdadeiramente uma parcela da população que tinha visões ideológicas próximas daquelas exibidas no filme. "Tropa de Elite" faz uma evolução mercadológica ao escapar de tal limitação, agregando um público consideravalmente maior, cujo interesse é alimentado pela própria polêmica ambígua criada sobre a obra.



Pedro Mancini

Replanejamento

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Percebi que a presente extrutura desse blog deve ser alterada. Já notei que, ao mesmo tempo em que tenho publicado com um intervalo longo demais (com tendência pífia a chegar a apenas uma publicação por mês), os temas tratados acabam fugindo das preocupações mais atuais presentes na boca do povo.


É claro que não pretendo abrir mão de escrever sobre aquilo que me dá na telha, sendo em consonância com as notícias mais atuais ou não. Mas acho que a forma de publicação em que me apaguei é insuficiente para manter um blog minimamente interessante.


Dito isso, tentarei, a partir de hoje, cumprir uma meta mensal de publicação, em que estarão inseridas diversas FORMAS de realização de tal tarefa. Assim, manterei as análises temáticas (nos moldes das que foram feitas até aqui - sobre Hugo Cháves, a Globo e o filme "Beleza Americana"), mas pretendo incluir comentários mais abreviados sobre as notícias que assolam o mundo na atualidade. Ademais, almejo reavaliar minha atuação nesse blog de forma pública e casual, ao menos uma vez ao mês, e, esporadicamente (talvez uma vez a cada dois meses), publicar humildes resumos críticos sobre obras de autores do mundo acadêmico que me dispertaram certa paixão - sentimento que tentarei transmitir, em algum grau, aos meus escassos leitores.

Segue, então, uma esquematização mais "direta" sobre minha nova meta de publicação mensal:


- 1 vez ao mês: Análise sobre temas específicos;


- 1 vez ao mês: Auto-avaliações de minha atuação nesse blog e comentários sobre minha evolução pessoal;


- 2 vezes ao mês (a princípio): Comentários "curtos" sobre notícias da atualidade;


- 1 vez a cada dois meses: Análises críticas e breves sobre obras acadêmicas de meu interesse, assim como seus respectivos autores, de áreas acadêmicas diversas.






Pedro Mancini

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O dilema do "ditador bondoso"

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O governo do venezuelano Hugo Chávez vêm pondo à tona uma problemática que já infligiu a humanidade muitas e muitas vezes - e que, atualmente, tem assombrado os agrupamentos de esquerda, em especial da América Latina.

É sabido que grande parte desse movimento esquerdista - e eu me incluo nesse pacote - se viu bastante empolgada com a ascensão democrática do coronel ao poder da Venezuela, bem como com suas políticas governamentais inclusivas e participativas que afetaram as classes menos favorecidas de seu país - medidas essas financiadas pelos recursos captados graças à intervenção do presidente venezuelano na indústria nacional de exploração petrolífera que, diga-se de passagem, há tempos agia como reprodutora da desigualdade, beneficiando diretamente a elite econômica daquele país. De modo silimar, comemoramos enormemente o fracasso do golpe de 2002 contra Hugo Chávez, em um acontecimento-relâmpago de dois dias em que um agrupamento reacionário, fortemente prejudicado com a intervenção estatal na indústria petrolífera, raptou o presidente e divulgou, através de todo aparato da mídia privada - que militava a favor dos golpistas - que o mesmo havia renunciado ao poder. O venezuelano voltou ao seu posto de direito quando a massa descobriu a fraude e exigiu seu retornou imediato.

Como parte considerável da esquerda pró-chavista, no entando, fiquei desconfiado (e fortemente decepcionado) quando o presidente tentou aprovar um pacote de medidas diversas, em que se destacava a tentativa de reprodução ilimitada de seu poder - se tais medidas fossem aprovadas, Chávez passaria a deter o privilégio de ser reeleito inúmeras vezes.

São iniciativas como essa que fazem com que a esquerda perca, historicamente, sua compostura: ações que, somadas, revelam sua pretenção em existir como a única personagem política em jogo. Considerando a pureza de seus ideais como "óbvia" perante os olhos das classes menos favorecidas, forças políticas de esquerda, ao assumirem o poder, impõem sua visão (específica) como a única aceitável (geral) para toda a sociedade que comandam - da mesma forma que os seus rivais, sejam eles liberais ou conservadores. Por meio de diversas táticas, que, no extremo, significam a morte pura e simples da democracia, essa esquerda, assumindo papel similar ao do Deus cristão que, já que naturalmente "bondoso", não aceita crítica ou rebeldia, acaba sendo capaz de desenvolver seu próprio antagonismo - criando, aos poucos, uma sociedade que, ao invés de se pautar no combate às desigualdades e injustiças sociais, apenas as fundamentam a partir de uma nova lógica. Privilegia-se, aqui, a igualdade social-econômica, mas não sem graves prejuízos à igualdade e à liberdade político-individuais.

Foi esse o processo que assolou inúmeros países, como a extinta União Soviética e seus aliados, e que, vez ou outra, ameaça se repetir em nações de diversas partes do globo - e a América Latina é um dos locais mais suscetíveis a esse fenômeno. No momento, esse risco aparece como iminente em figuras como a de Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.

Mais uma vez, contudo, é importante salientar que as críticas não se referem ao caráter social de tais governos - ao combate, por exemplo, a determinados modos de propriedade privada - e nem ao conteúdo ideológico por si dos referidos regimes; mas sim à relação estabelecida entre o Estado e a população governada: uma relação pautada pelo clientelismo, pelo populismo e por um exclusivismo arrogante da esquerda - características essas capazes de resultar no mais pleno suicídio de suas intenções igualitárias, como já indiquei. Mais grave que isso, tal relação resulta em perdas incalculáveis para a autonomia dos indivíduos - que passam, no final das contas, de "clientes" do Estado (como nas relações típicas do neoliberalismo) à condição de "apadrinhados" ou "filhos" deste, recebendo benefícios não por terem pleno direito a eles, mas como mero favor concedido por uma instituição que se encontra acima da sociedade, e não a serviço da mesma.

É essa a lição que a esquerda - em especial, na América Latina - deve aprender: não existem "ditadores bondosos", mas apenas ditadores; e o que os define, pura e simplesmente, é o seu desprezo pela capacidade de auto-determinação dos homens do povo, de desenvolvimento de seu raciocínio e pela prática de seu livre-arbítrio de forma livre. Para esses líderes, a liberdade individual não deve ser estimulada - pois resultaria, obviamente, em fracassos de massa; os pontos de vista plausíveis, sob tal ótica, devem ser sempre impostos de fora, e nunca desenvolvidos pela sociedade civil de forma minimamente expontânea.


O conceito de "heteronomia" - "regra obtida de fora" - serve de substituto, aqui, à noção de "autonomia" - "regra obtida por si só", pelo próprio indivíduo, idéia-chave para uma compreensão desse fenômeno.

Recria-se, dessa forma, o fanático seguidor cristão que enxerga a autonomia de pensamento, o "pensar diferente", uma "coisa do demo" - e deve aceitar, cegamente, sem contestação, aquilo que foi imposto por seu Senhor (sob a pena de ser visto como, na melhor das hipóteses, marionete inocente de Satã, e, na pior, um cúmplice consciente do mesmo).

Por essa razão, a tolerância com forças reacionárias - como, por exemplo, gigantescas parcelas da mídia -, embora difícil, deve sempre ser mantida por qualquer governo que se diga preocupado com justiça social sob uma perspectiva verdadeiramente humana; não só para que não se desça ao nível de uma parcela política constantemente golpista e autoriária, mas simplesmente porque, se um dia habitaremos um mundo em que exista um grau mínimo aceitável de igualdade e justiça, essa situação, segundo minha perspectiva, não poderá se manter sem uma saudável diversidade política, ligada à dedicação integral pelo desenvolvimento da autonomia individual; autonomia essa que nos faz, afinal de contas, HUMANOS - para além da simples noção de servos de algum senhor benevolente qualquer, seja ele encarnado na figura de Deus, de um Presidente ou, de forma mais ampla, de um Estado burocrático tão acolhedor quanto intolerante com qualquer forma de pensamento independente.

Pedro Mancini

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A política global de "Amor, Estranho Amor"

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Segue, abaixo, a coluna de hoje de Sérgio Ripardo, editor de Folha Ilustrada da Folha Online, sobre a oitava versão do reality-show "BBB":



"A Globo evitou riscos na escalação dos 14 participantes da oitava edição do 'Big Brother Brasil', que começa na próxima terça-feira. Com base na divulgação das imagens e dos dados sobre os escolhidos, será, mais uma vez, um programa voltado para o erotismo barato.


Para vender a assinatura do programa na TV fechada, a Net escancara o espírito do reality show: o telespectador terá compactos de cenas de banho, barracos e os melhores closes nos corpos de sarados e gostosas.


Não é de se espantar a repetição do formato. A história da Globo mostra que, em momentos de crise no ibope, a baixaria é a fórmula mais adotada pelo canal para reagir, estimulando aquilo que os comunicólogos chamam de 'cultura do grotesco'.


Em 2007, a Globo perdeu espaço para a Record, que também não é santa e vive injetando doses de erotismo em sua programação --cenas de sexo e violência enchem, por exemplo, as novelas do canal dos bispos.


A seleção do 'BBB 8' descartou os elementos que possam, na visão da Globo, atrapalhar o cenário para o onanismo eletrônico. Nada de gente feia, gorda nem pobre à beira da piscina, lembrando que o Brasil é uma terra de mestiços, assalariados e gente fora dos padrões de estética ditados pela publicidade.


Talvez, o 'gênio' e diretor do programa Boninho --aquele que se deixa flagrar em vídeo confessando o esporte de jogar ovos em prostitutas-- merecesse uma resposta contundente do telespectador esclarecido. Desligue a TV."


Tais eventos servem, sempre, para mostrar a verdadeira face da Rede Globo, constantemente camuflada pela imagem com a qual procura se associar. Ao contrário da emissora de Sílvio Santos, que nunca escondeu seu caráter "brega", exibindo o velho seriado mexicano "Chávez" por anos a fio e novelas melancólicas vindas do mesmo país com nomes esdrúxulos como "Alegrifes e Rabujos", "Rubi" e "Poucas, poucas pulgas", a emissora do falecido barão Roberto Marinho sempre cultivou uma dissociação entre sua imagem e sua atuação prática. Essa dissociação alcançou patamares ainda mais elevados, talvez, nos dias de hoje - e alguns nomes importantes da emissora me ajudam nessa constatação: A apresentadora Xuxa, a dita "Rainha dos Baixinhos", que hoje posa de moralista "zen" em seu programa matinal, já fez um filme "caliente" com um garoto de 12 anos (que hoje daria um bom processo de pedofilia contra qualquer outro que se arriscasse a fazer o mesmo); e, nos programas matinais de ontem, abria as pernas em rede nacional, para a alegria dos pais dos baixinhos, em meio a sessões diárias de ginástica, ao lado das oxigenadas paquitas - que tocavam o barco da artificalidade da televisão brasileira, ao promoverem o comum estereótipo da "loira de olhos azuis" em um país de mestiços. Como em tantas outras ocasiões, a emissora, por meio de sua velha contratada Xuxa, apagou - ou pelo menos tentou, e teria conseguido, caso não existisse a internet - o passado, tirando o filme proibido de circulação ("Amor, Estranho Amor", que criou o nome da atual postagem).



Jô Soares, outro símbolo global, detém a imagem de intelectual, sendo, no entando, responsável por algumas pérolas muito bem camufladas por seu pedantismo e seu cenário "cool", copiado de um programa americano do gênero; só para citar dois exemplos banais, disse que a capital ucraniana Kíev fica na Rússia e que Antônio e Flávio foram nomes de dois imperadores romanos. Ora, se o simpático gordinho da Globo disse, está dito, não?



Com relação à saúde e aos indissociáveis cuidados com a sexualidade, a emissora não age de forma distinta: do mesmo modo que divulga, através da figura respeitável de Dráuzio Varella, formas de cuidado com a saúde, prega a irresponsabilidade da sexualidade descompromissada em suas novelas (como, é claro, faz sua concorrente direta, a rede do Bispo Edir Macedo) e em seus reality-shows como o BBB. O que reina, afinal, antes de qualquer preocupação com o bem-estar da população, são os interesses econômicos desse grande símbolo do capitalismo contemporâneo - a busca incessante pela audiência e pelo lucro correspondente.



Quanto à sua participação política, a característica ambígua da Globo se manifesta de um modo peculiar: procura estar do lado do governo vigente, mas sem perder de todo sua linha-mestra de raciocínio político-econômico. Sempre voltada aos interesses macro-econômicos dos Estados Unidos e de seu liberalismo, seria ingenuidade achar que defenderia um modelo de sociedade interamente voltado aos interesses nacionais, principalmente quando estes contrariam os interesses dos grandes conglomerados econômicos - do qual ela própria é participante. No final, portanto, a emissora é fiel apenas a si própria, sendo capaz de efetivar as mais condenáveis alianças para manter sua importância cultural. Assim, embora tenha se formado e nutrido em meio ao regime militar, cuidando, inclusive, de sua manutenção ao esconder o caráter autoritário de tal regime (como quando divulgou que o comício organizado em São Paulo pela democratização do país era nada mais do que uma "festa popular"), a emissora não tardou a disparar críticas ferrenhas aos governos militares após a redemocratização do país - por meio, por exemplo, de uma reportagem do "Globo Repórter" que condenou a tentativa terrorista alavancada pelos militares no episódio Rio-Centro (que pretendia culpabilizar os militantes comunistas e reimplantar os momentos mais negros da ditadura militarista brasileira). Para melhores informações, os leitores poderiam assistir o documentário inglês feito sobre o assunto, intitulado "Beyond Citizen Kane" - o que seria muito mais fácil caso a emissora de Xuxa não tivesse, mais uma vez, procurado apagar o passado ao proibir a circulação oficial de tal filme.



Essa á a Rede Globo. Posando de inovadora e intelectual, é monocromática e retrógada; parecendo moralista, age despreocupada com a "moral" vigente, ao exibir, com frequência, verdadeiros shows de erotismo em pleno horário nobre(vide as novelas das 6, 7 e 8); dizendo-se voltada para o Brasil, inclina-se à realidade exterior dos Estados Unidos e da Europa (ao pior de cada um, em verdade), copiando descaradamente seus programas e suas perspectivas sociais e políticas sem demonstrar qualquer potencial crítico verdadeiramente autônomo.



A despeito desse verdadeiro show de hipocrisia, a Globo detém forte audiência, embora declinante. O fato é que, queiramos ou não, nós adoramos a hipocrisia. Somos, cada um de nós, minimamente responsáveis pela sobrevivência de aparatos hipócritas como esse - que, jogando a sujeira por debaixo do tapete, fazem a casa brasileira parecer limpa e "chique" como na casa de um herói da novela das 8.





Pedro Mancini

sábado, 1 de dezembro de 2007

Expectativas de um blog alienígena

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A maioria dos blogs pessoais - e não políticos-, pelo que percebi, têm uma grande e principal preocupação: serem legais. Aqui, essa preocupação é secundária: na verdade, para mim, esse Blog serve mais como uma terapia, na medida em que se estabelece como meio de expressão de minhas idéias. Não serve exatamente aos outros, mas a mim mesmo; não esperem, portanto, um blog LEGAL, um blog que muitas pessoas gostarão de acessar.


Esse papel do Blog se justifica, em minha realidade pessoal, por um atual estado de "carência intelectual" que me aflige (como apontado pelo meu velho amigo de faculdade, Marcelo). O mundo recente, dominado pela individualização extrema, pela intimização da vida e pelos atentados contra a diversidade de opiniões, pela pura e simples intolerância - tanto do lado das classes média e alta retrógradas amedrontadas, capazes de enxergar em um personagem violento (porém "honesto") como o "Capitão Nascimento" as soluções para todos os problemas do país, quanto por parte de uma dita "esquerda" apegada à figuras populistas e paternalistas como Hugo Chávez - impede-me de praticar minhas idéias, de discutir livremente as mesmas de forma construtiva e realizadora, mesmo com pessoas próximas a mim.


A solidão intelectual é, talvez, tão cruel quanto a física - ou talvez mais. Bernard Marx e o selvagem John sentiram isso na pele no fabuloso "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, assim como Winston, personagem principal do "1984" de George Orwell. Em meio a essa situação de isolamento subjetivo, possivelmente, encontra-se uma tênue linha que divide os socialmente tidos como "normais" dos loucos e alienígenas...


Por essas e outras razões, pretendo utilizar esse blog para "fazer contato" com o exterior, encontrar outros seres como eu, do mesmo planeta, que não necessariamente concordem comigo, mas que, ao menos, se proponham a DISCUTIR na mesma língua que a minha! Que, enfim, me ajudem a refletir sobre as minhas próprias idéias e, igualmente, molde as suas quando em contato com as minhas.

Assim, talvez, possa promover minha posição de E.T. solitário para a de um indivíduo de uma raça alienígena particular que, longe dos olhos humanos, estuda, minunciosamente, essa estranha humanidade...








Pedro Mancini