sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

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Desenvolvo um assunto um pouco menos polêmico hoje, mas sobre o qual tenho interesse acadêmico mais imediato. Já me recomendaram, inclusive, me aprofundar sobre esse tema em minha dissertação.

Trago, por isso, a tradução de uma postagem de um blog em inglês, que destaca o desenvolvimento de uma análise sociológica sobre a chamada "Civilização Warcraft". Desconheço a qualidade do estudo discutido; à primeira vista, me parece uma "viagem" à lá Pierre Lévy  (tanto que foi em seu Twitter que descobri o link do original em inglês), muito filosófica e com grandes pretensões de antecipação do futuro "de toda a civilização ocidental". Mesmo assim, trata-se de uma das inúmeras possibilidades de interpretação do vasto universo representado pelas novas redes de interação propagadas pela Internet, e que demonstra o quanto ainda falta ser estudado.

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Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

O sociólogo William Sims Bainbridge, conhecido por seu  trabalho de exploração da Sociologia da Religião, publicou um novo livro intitulado "A Civilização Warcraft: Ciências sociais em um mundo virtual". Uma abordagem estranha demais? Given Bainbridge é um membro fundador de uma organização pró-vôo espacial, conhecida como Ordem dos Engenheiros Cósmicos, um nome propício para uma guilda de World of Warcraft, então essa pode ser uma viagem não tão louca assim.

 Segue a descrição da editora sobre seu último trabalho:

"World of Warcraft é mais que um jogo. Não há objetivo final, nenhuma mão vencedora, nenhuma princesa a ser resgatada. WoW contém mais de 5000 aventuras possíveis, jogos dentro do jogo, e abrange centenas de reinos paralelos separados (por servidores de computador, cada um suportando 4000 jogadores simultaneamente). WoW é um mundo virtual envolvente, dentro do qual as personagens devem sobreviver em um ambiente perigoso, assumir identidades, lutar para entender e se comunicar, aprender a usar tecnologia, e competir por recursos escassos. Para além da fantasia e da ficção científica, conforme muitos notaram, isso não difere totalmente do mundo de hoje. No "A Civilização Warcraft", o sociólogo William Sims Bainbridge vai mais longe, argumentando que WoW pode ser visto não apenas como uma alegoria dos tempos de hoje, mas também como um protótipo do amanhã, de um futuro humano real, no qual grupos similares a tribos vão se engajar em combates por recursos escassos, construir alianças temporárias na base de interesses pessoais mútuos, e buscar um conjunto de valores que transcendem a necessidade da guerra.

Bainbridge explorou diretamente o universo complexo de Warcraft, passando mais de 2300 horas por lá, criando vinte e dois caracteres de todas as dez raças, as dez classes, e profissões variadas. Cada capítulo começa com a narrativa de uma personagem, e então continua a explorar um tema social mais amplo - como religião, aprendizado, cooperação, economia, ou identidade pelas lentes da experiência dessa personagem.

O que torna WoW um lugar especialmente bom para buscar insights sobre a civilização ocidental, de acordo com Bainbridge, é que ele liga passado e futuro. É fundado na tradição cultural ocidental, e ainda antecipa os mundos virtuais que poderemos criar em tempos vindouros".

Estou genuinamente curioso sobre os conteúdos do livro, se um sociólogo pode percorrer a Civilização Warcraft para estudá-la por mais de duas mil horas, apenas para descobrir a curva de Bell da insanidade.


Pedro Mancini (tradução da postagem do blog MMOCRUNCH, escrita por Fabian e datada de 05/04/2010)





sábado, 3 de abril de 2010

Marcelo Dourado e a vitória do politicamente incorreto

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O resultado da última edição do BBB, assim como outros fenômenos menos explosivos do universo televisivo brasileiro, fazem-me escrever mais uma postagem sobre aparentes futilidades.

Como todos já devem saber, um tal de Dourado foi o vencedor da última edição do programa global. Mais polêmico entre os confinados, ele ganhou notoriedade por adotar um discurso considerado machista e homofóbico, afirmando que bateria em uma mulher "se ela fosse homem", e que apenas homossexuais transmitem o vírus da  AIDS. Mesmo assim, não apenas consagrou-se vitorioso, como mobilizou toda uma parcela da população a seu favor - tanto homofóbicos que denunciavam a existência de uma "heterofobia" entre a sociedade, quanto aqueles mais "ingênuos", que apenas conclamavam que Dourado era uma pessoa simples e sincera, com todo o direito de cometer alguns erros.

É sempre assustador saber que existem pessoas do primeiro tipo, que adotam Dourado como uma espécie de paladino da heterossexualidade contra a "contaminação" do mundo pelos homossexuais. Contudo, é a segunda parcela  que citei que mais prendeu minha atenção: os defensores de Dourado como "ícone da espontaneidade", da sinceridade e da simplicidade. Alguém como nós, com seus defeitos, mas que não adota uma postura hipócrita, sem, em outras palavras, se maquiar como um modelo de perfeição a ser admirado e seguido. Uma espécie de herói sincero, "sem nada a esconder", em meio a um bando de falsos hipócritas. Como pretendo mostrar, acho que as duas formas de pensamento possuem uma relação estreita e perigosa, por mais que tentem escamoteá-la.

Na mesma hora, associei esse discurso da sinceridade, da espontaneidade e da imperfeição a uma perspectiva adotada por amplos segmentos da mídia, em especial o especializado em humor, e reproduzida por sua audiência: um ataque (ou contra-ataque?) à tudo aquilo considerado "politicamente correto".

Cito, como ilustração, o problema que o humorista do CQC, Danilo Gentili, teve recentemente, após deixar escapar uma piada considerada racista em sua conta do Twitter (e estragar ainda mais a situação na tentativa de seu remendo). Como respostas às inúmeras críticas que recebeu, vociferou contra os chamados "politicamente corretos", um bando de hipócritas que adorava achar pêlo em ovo e melar o sentido das piadas sobre estereótipos sociais.Não tardou para que dezenas de milhares de simpatizantes aderissem ao coro do politicamente incorreto encabeçado por Gentili.

De fato, é notória a existência de grandes hipocrisias em meio à população, que servem como carapuça de camuflagem para escamotear preconceitos em geral. Pessoas que expressam seus valores de uma forma, mas pensam, em seu íntimo, de outra; que agem contrariamente ao que defendem. Contudo, isso não deve, de forma alguma, ser confundido com a simples existência de valores morais reais que orientam nossas condutas e julgamentos. Valores a serem defendidos em prol de uma visão ideal de convívio social harmônico - em prol de uma Humanidade que aceite e convive com inúmeras diferenças individuais.

O perigo maior, perpetuado pelos que vociferam contra o politicamente correto, é a possibilidade de defesa do DIREITO de sermos preconceituosos, junto a  uma BANALIZAÇÃO da violência e da intolerância. Partindo-se do pressuposto dos "politicamente incorretos", de que somos tomos imperfeitos ou hipócrias, qual seria o problema de contarmos uma piada racista, ou de sermos um pouco homofóbicos ou machistas? Ninguém é perfeito, ou melhor, somos todos imperfeitos, imorais, intolerantes. Caso não admitamos essa imperfeição, não passamos de porcos hipócritas. Para quê não admitir isso de vez, não tomar os pequenos defeitos morais naturais e absolutamente compreensíveis? É a naturalização da ignorância.No limite, todos podem se sentir à vontade para erguer suas bandeiras de intolerância e segregação.

Bem, o "politicamente correto" que defendo não é a ocultação dos preconceitos, o fingimento de que eles não estão entre nós - isso, sim, é hipocrisia. Muito pelo contrário, acredito que devamos não apenas admitir a existência do preconceito e da intolerância em todos os níveis da sociedade, mas expô-la aos olhos de todos, mas para que possamos COMBATÊ-LOS, e não naturalizá-los e legitimá-los. Se somos todos moralmente imperfeitos, que tal nos mobilizarmos para mudar essa situação, aprimorando nossos  valores?

A vitória de Marcelo Dourado no BBB, assim como permanentes reações contra qualquer tentativa de combate à intolerância e ao preconceito, são, para mim, parte de um mesmo e trágico movimento. Não caminhamos rumo a uma nova radicalização DE FATO, pois os intolerantes sempre existiram; mas, com a expansão de certos direitos dos excluídos, como maior aceitação dos homossexuais em alguns níveis sociais, e com a expansão do "politicamente incorreto", há uma reação contrária que tende a revelar intolerâncias outrora mais sutis. A defesa pelos valores dos agrupamentos mais favorecidos ressurge como se os últimos fossem "oprimidos" pelos Direitos Humanos e por um mundo (em tese, e muito menos na prática) mais "politicamente correto". Os intolerantes hoje são vítimas auto-intituladas, chegando ao ápice de apontar para a existência de uma "heterofobia" (?) em meio à população.

Não há outra palavra para descrever esse movimento, portanto, senão como sendo reacionário.Brotando de todos os lugares, retirando suas máscaras de aceitação, admitindo a possibilidade de serem o que são, os intolerantes indiscretos e sua aceitação social são uma reação à divulgação de valores universais que preconizam e ensaiam a expansão de certos direitos à camadas menos incluídas. Vide a forte reação, de vários setores, contra a divulgação do último Plano Nacional de Direitos Humanos.

Uma  contra-reação generalizada, diga-se de passagem, que copia fórmulas do passado, adaptando-as ao presente. Nada de novo em si: como todos os movimentos reacionários em geral, o que há é um temor e um desprezo pelo Outro, pelo diferente, e o enclausuramento em um mundinho comunitário utópico de "iguais", uma defesa do Nós contra qualquer perspectiva de universalização de direitos: o mundinho dos heterossexuais contra os homossexuais, dos brancos contra os negros, dos cidadãos de uma nação contra os imigrantes, dos ricos contra os pobres (e vice-versa, para todos os casos)...

E você aí em casa, achando que a humanidade evoluiu muito, produzindo IPods em série. Por vezes ainda me sinto na Idade Média.

Pedro Mancini

sexta-feira, 26 de março de 2010

A conformação dos sub proletários

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São frequentes as situações em que me surpreendo com a grande apatia que atinge boa parte da população metropolitana de São Paulo. Simplesmente não consigo entender como as pessoas suportam viver nessa cidade,  viajando em ônibus lotados por várias regiões, todos os dias. Aguentando os horrores do tráfego, especialmente nos dias de chuva, e quando das constantes quedas de carretas em rodovias (e muitos outros acidentes diários). Isso sem contar, é claro, várias outras situações desesperadoras, como a falta de acesso a serviços públicos essenciais, insegurança, enchentes, condições precárias de moradia, educação e saúde, etc.


Nos meus vícios burgueses de pensamento, questiono, quando me sentindo uma salsicha em conserva na condução, em um trânsito totalmente parado: "Pôxa, por que esse pessoal não se revolta? Por que não sai às ruas, exigindo condições MÍNIMAS de sobrevivência, para que não se estresse mais na viagem de ida e volta ao trabalho, do que no próprio trabalho?" E concluo que o nosso sistema é tão opressivo, que arranca qualquer vontade de ação da grande massa dos trabalhadores urbanos mais vulneráveis. 

Pois bem. Dia desses, na USP, assisti um debate muito interessante, a respeito de um novo artigo do ilustre ex-porta voz da República, André Singer, intitulado: "As raízes ideológicas e sociais do Lulismo", com a presença do próprio autor, que me ajudou a desenvolver melhores reflexões sobre o tema. A despeito de suas análises sobre o Governo Lula, o que mais marcou em sua fala, para mim, foi sua interpretação a respeito da aversão da grande massa (daquilo que ele chamou de "sub-proletariado", resgatando interpretações marxistas), à qualquer forma direta de confrontação política.

Segundo essa idéia, os componentes desse sub-proletariado, que abrangeria uma série de tipos sociais como desempregados, trabalhadores informais, sub-empregados e micro comerciantes, como camelôs, dentre outros, são por demais vulneráveis para poderem arriscar as condições mínimas que já conquistaram. Assim, os sub-empregados, por exemplo, sem contarem com sindicatos ou outras forças de proteção coletiva, ficam à mercê de seus patrões de uma forma muito mais clara do que um empregado estável e sindicalizado, que possui instrumentos bem arquitetados de luta social ao dispor de sua categoria profissional.

Desse modo, os sub-proletários percebem que ganham muito mais negociando e barganhando com seus patrões, do que enfrentando diretamente as formas de autoridade que os circundam -- inclusive nosso Estado que, como sabemos, assume um caráter particularmente repressivo quando lida com movimentos sociais que possuem pouco capital social e político. Viria daí o espírito conciliatório dessa massa de sub-empregados de nosso capitalismo periférico sub-desenvolvido, que muitos atribuem a um "conservadorismo" particular.

Acredito, então, que podemos generalizar essa situação típica dos sub-proletários para outros aspectos de sua existência, como a falta de reações mais enfáticas contra situações desesperadoras, tais como as já apontadas: trânsito, baixas condições de moradia, falta de qualidade e acesso a serviços públicos essenciais, entre muitas outras. Antes de ser uma atitude conservadora - pois, acredito eu, esse pessoal QUER melhorar de vida e luta para isso -, trata-se de um comportamento cauteloso, adotado pela população mais fragilizada e vulnerável à ações punitivas seja do Estado, seja do mercado de trabalho a que está submetida.

Segundo Singer, as políticas sociais nas quais o Governo Lula investiu tendem a reverter essa situação, na medida em que melhoraram as condições de vida das classes menos favorecidas (a multidão componente das classes "D" e "E" que passaram à chamada classe "C"), inserindo-as, em massa, no mercado de trabalho formal. Se essa ascensão social se reverter, de fato, em uma situação de maior proteção social a  esses trabalhadores, com a sindicalização em massa e maior estabilidade profissional, por exemplo, acredito, como André Singer especula, que poderá haver um acirramento da luta de classes no Brasil (com relação a um aumento da luta institucional por melhores condições, é bom dizer, e não com perspectivas de uma revolução marxista -- como, por incrível que pareça, muitos ainda acreditam ser possível nos anos vindouros!). Porém, mesmo com todo meu otimismo, custo a acreditar que isso ocorra tão cedo, se considerarmos que não podemos desprezar a contínua difusão de mecanismos neoliberais de controle sobre mercado de trabalho, como a terceirização e a criminalização dos movimentos sociais, que continuam a fragilizar a classe trabalhadora de forma absoluta e inquestionável.

Pedro Mancini

sábado, 20 de março de 2010

Big Brother e os machismos camuflados de cada dia

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Pois é. Com tantos assuntos dignos de comentário nessa semana, como o trágico assassinato de Glauco e as representações sociais criadas para compreender a mente de seu assassino, escolhi discutir as banalidades do "espetaculoso" Big Brother Brasil. Isso porque percebi uma série de mensagens machistas camufladas em alguns de seus acontecimentos mais... "importantes".

Como bem sabe quem me conhece, não costumo assistir ao BBB - embora, impossível negar, sempre tento me manter informado, de forma indireta, das maiores polêmicas por ele geradas, como um interessado crítico da sociedade contemporânea. É óbvio que se trata de uma fonte riquíssima de fatos e representações reveladoreas de nossa sociedade. 

Atualmente, foi bastante difundido o caso do preconceito sexual inculcado em um tal de Dourado e em meio a sua torcida pessoal. Mas esse rapaz é um alvo fácil demais... até Pedro Bial já percebeu sua óbvia homofobia,  expressa, entre outras declarações, pela brilhante constatação de que "apenas gays contraem AIDS". Como disse, não quero chutar alguém que já está sendo tão linchado (e, ao mesmo tempo, tão defendido por homofóbicos de toda espécie).

Ao invés disso, reflito a respeito de demonstrações menos óbvias, mais cínicas e disseminadas de machismo no programa televisivo. O que me chamou a atenção para essa abordagem, em especial, foi a provocadora capa da nova edição da Revista Playboy, mostrando a ex-BBB Tessália com o rosto molhado, em uma clara apologia à sua "atuação" no Big Brother. Para quem não sabe, a garota ficou marcada (e muitos a isso atribuem sua saída do BBB) por, supostamente, praticar sexo oral em seu companheiro de casa, o também ex-BBB Michel, por baixo dos lençóis. 


A partir desse momento, a figura da Tessália passou a ser automaticamente associada a "boquete", a ponto de "fazer uma Tessália" se tornar um sinônimo bem humorado de tal prática. Como se não bastasse, ela ficou MAL VISTA por alegrar o seu colega, enquanto o último, pelo pouco que vi durante sua eliminação, ficou marcado apenas como um "grande amigo" do BBB. Em nossa sociedade machista, afinal de contas, o homem que "recebe" prazeres de uma mulher é um "fodão" ou um sortudo, enquando a mulher que fornece tais prazeres (mais ainda por tê-lo feito em rede nacional), é simplesmente uma vagabunda.

E isso tudo, apesar de Michel, o "sortudo" haver traído sua namorada fora do BBB, enquanto Tessália era SOLTEIRA fora da casa - logo, não devendo fidelidade a ninguém de fora. Como é possível notar, tais circunstâncias não fizeram muita diferença na hora de associá-la à figura de puta boqueteira, enquanto, por sua vez, não fez com que Michel fosse associado à figura de um traidor ou um "puto".

Por fim, ainda assistindo à eliminação do "sortudo" Michel, o "amigão", também notei o machismo do próprio Bial, que logo contou ao primeiro que sua namorada, nada contente com a traição de seu parceiro, "não tardou a posar semi-nua para uma revista". Ora, o tom de voz de Bial deixou bem claro, ao menos para minha cabecinha poluída, o seu desprezo pela atuação dessa ex-namorada, vista como "aproveitadora" da situação de traição de seu namorado.

Mais uma vez, só a mulher é vista como puta barata, traidora, vulgar, etc. O garotão é visto como "vítima" de uma namorada que não só não o compreendia, como, no fundo, era uma "vagabunda" em busca de fama e fortuna. Ora, e o que seria Michel, recebendo boquete de uma colega de casa, com sua namorada do lado de fora, possivelmente assistindo a cena em pay-per-view????

Para piorar mais ainda, o fato de as próprias vítimas se aproveitarem de sua má fama para cultivar sucesso faz com que os machistas em geral justifiquem sua posição. Isso vale tanto para Tessália, que aceitou explorar sua fama de boqueteira na Playboy, quanto para outros casos, como a da "Geyse da Uniban" - cuja super exposição posterior, na mídia, só serviu para que os machistas que as xingaram na faculdade dissessem, orgulhosos: "Tá vendo?? Olha só como ela realmente é uma puta!!!""

Bem, embora eu discorde que mulheres como Tessália e Geyse decidam encaixar-se no estereótipo para elas criado, passando, aos olhos do público, a se reduzirem às suas ações mais polêmicas, isso não pode ser utilizado, de forma alguma, para justificar qualquer espécie de machismo. Uma mulher tem todo o direito de transar ou de se vestir como queira, dentro de limites extremamente flexíveis, e isso não deve contar para definir toda a sua personalidade, reduzindo-a a um estereótipo vulgar.

Pedro Mancini


quarta-feira, 10 de março de 2010

Minhas experiências no Carnval 2010 - Parte II

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Sei que o Carnaval já passou há um tempo e que o assunto que irei tratar, a princípio, está meio batido, mas, mesmo assim, vou me arriscar.

Na primeira postagem sobre o Carnaval, me limitei a uma pacata análise sobre meu deslocamento nessa data, além de descrever minhas impressões sobre o Desfile das Escolas de Samba. Hoje, descreverei um pouco das minhas experiências com a própria população que vivenciava o espírito do Carvanal, especificamente nas areias da maltratada Praia Grande.

É, arrisquei-me mesmo a passar todo o feriado nessa região, apesar das inúmeras recomendações ao contrário. E tenho que admitir que, excetuando-se a companhia, me arrependi de tentar "relaxar" nessa praia. E por tudo aquilo que todos sabem: a bagunça maciça, a despreocupação generalizada da população usuária com o espaço público e o espaço do outro (manifesta pelo lixo nas ruas e na areia e pelo som alto vindo dos porta-malas de inúmeros carros, entre muitos outros exemplos), a superlotação, etc., etc., etc...

Como disse no começo, o assunto que trato aqui é meio batido: o desprezo das pessoas pelo espaço dos outros, que se manifesta com força especial durante certos feriados -- e que aparece com força particular em meio ao Carnaval. Tentarei, contudo, dar um contorno um pouco menos óbvio às minhas observações sobre o tema.

Para começar, rechaço a hipótese, muito recorrente, de que esse tipo de desprezo pelo espaço público e pelo bem-estar de outros indivíduos seria exclusivo de uma classe menos abastada, ignorante pela simples falta de educação elementar.

O que muda em cada classe social, talvez, são os momentos em que o desprezo pela vida pública se manifesta. Comportamentos mais hedonistas e desrespeitosos para com o espaço do outro são mais visíveis, talvez, quando oriundos de indivíduos de classes mais pobres: o funkeiro que escuta música alta no ônibus sem se preocupar com os demais passageiros, os funcionários de obras que fazem gracejos explícitos a garotas que transitam pelas ruas, ou a família mal educada que deixa um rastro de lixo após deixar as areias da praia.

Contudo, os "grandes cidadãos" das classes média e alta também costumam manifestar esse desprezo pelo espaço dos outros - mas em momentos mais específicos de descontração, de "fuga" do mundo racionalizado e competitivo a que estão submetidos em suas rotinas pessoais e profissionais. É longe dos ambientes públicos que esses homens mais incluídos no sistema dominante manifestam sua faceta egoísta e hedonista - e, muitas vezes, de forma extremamente agressiva. São bem conhecidos, por exemplo, os casos de crimes cometidos por playboys, influenciados por esse desprezo pelo público e pelo anônimo e por um gostinho pela humilhação alheia. Variam desde o lançamento de ovos e o espancamento de prostitutas e homossexuais, até a combustão de índios e mendigos. Mas também aparecem de modo mais sutil, em indivíduos abastados de todas as idades, por meio de atos como: sonegação de impostos, desrespeito às leis de trânsito mais básicas, e o arremesso de lixos "mais inofensivos" ao chão - como bitucas de cigarro.

Em outras palavras, acredito que o desprezo pelo espaço público, que imputamos  à uma massa amorfa de indivíduos pobres e sem estudo, é na verdade muito mais geral em nossa sociedade - atingindo, em graus  variados, todas as classes e todos os graus de instrução. O que ocorre, apenas, é que as classes mais inseridas em um universo racionalizado e burocratizado camuflam essa inclinação, manifestando-a em segredo, em momentos de descontração, isolados de seus mundinhos ordinários.

Estaria esse descaso com o espaço alheio e com o espaço público "marcado" no ethos cultural do brasileiro? Acredito que sim, ao menos em certa medida. Seja explicitamente ou "lá no fundinho", estamos "cagando e andando" para o próximo. Valorizamos os "nossos", mas desprezamos o anônimo, o excluído, o "outro" de forma geral.

 No carnaval praiano, trago outro exemplo claro: as brincadeiras de arremesso de bexigas d´água, que, acredito, já se caracterizaram como um modo lúdico de socialização entre amigos e vizinhos, e que se transformou em mera agressão ao próximo, ao indivíduo desconhecido: não se arremessam mais essas bexigas com água apenas, mas espalham-se espumas nos estofamentos dos veículos, arremessam-se excrementos, e jogam-se até mesmo cocos inteiros nas latarias dos carros que circulam pelas ruas da Praia Grande.

Infelizmente, acho que a solução para todos esses casos de descaso e de agressão ao público não se limita à mera educação formal, pois, como já argumentei, esse comportamento também se manifesta - embora com maior descrição, em muitos casos - em indivíduos do mais alto nível educacional (vide, apenas como um dos inúmeros exemplos possíveis, o caso da Uniban). Por mais que escondamos essas atitudes embaixo do tapete, pelo uso da roupagem da cidadania e da civilidade, elas teimam em se manifestar em nossos rotinas, e, em especial, em nossos momentos de distração e lazer, quando estamos mais propensos a revelar nosso "verdadeiro eu" - como no Carnaval, em que a manifestação desses fantasmas interiores torna-se especialmente justificável (é o espírito do Carnaval, arriscaria-me a dizer). Está aí um ótimo momento para manifestarmos nosso ódio mais profundo ao Outro e o desprezo pelo espaço de "todos", mascarados pela aura de "alegria" de que esse feriado se reveste. 

Pedro Mancini

quarta-feira, 3 de março de 2010

A falta do vínculo

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Já devo ter comentado aqui, e mais de uma vez, sobre o elevado grau de individualização social a que estamos submetidos, tal como sobre suas conseqüências mais negativas. Embora essa idéia de individualização não seja considerada, em muitos casos, sinônimo de individualismo ou egoísmo, acredito que exista uma relação de proximidade entre os dois, que não pode ser negada.

Em outras palavras: embora "individualização", quando se refere à transferência de responsabilidades diversas dos anteriores grupos de pertença, comunitários e societários, diretamente aos indivíduos isolados, não seja equivalente ao "individualismo" - a falta de relações sociais entre os indivíduos -, ambos podem influenciar-se mutuamente. A transferência de responsabilidades pode trazer a ilusão de que os indivíduos não precisam de ninguém além deles mesmos, enquanto os egoístas tendem a atrair a responsabilidade para si mesmos, "por vontade própria".

Como alguns autores já ponderaram, é verdade, o indivíduo contemporâneo não se encontra simplesmente isolado dos demais - pelo contrário, na maior parte das situações ele estabelece um número de relações muita vezes maior do que no passado. É evidente que o advento da Internet também permitiu a difusão de inúmeros novos modos de relacionamento. Assim, é irreal associar o período contemporâneo ao simples individualismo, entendido pela ausência de relações sociais.

Contudo, o que assistimos hoje, independentemente do número de laços que possuímos, é a insuficiência de tais laços na tarefa de dar sentido à nossa existência e nos retirar de um sentimento mais profundo de solidão. De fato, em grande medida mantemos relações efêmeras, pouco intensas; e, no final das contas, nossas "grandes amizades" ainda se reduzem a um número menor do que os dedos de uma mão - e isso, quando existem.

Desde Durkheim, na Sociologia, e não sei já há quanto tempo na Psicologia, discute-se os efeitos do isolamento dos indivíduos, determinado pela configuração da sociedade pós-tradicional. Mais atualmente, as preocupações voltam-se aos comportamentos compulsivos que, em meio a um ambiente de extrema insegurança, garantem uma segurança banal, quase patética, pela mera repetição de ações mecânicas. Pelo que noto, esses comportamentos, que não deixam de ser uma espécie de fuga das crueldades do mundo, ganham mais força e razão de existência quando nos vemos desprovidos de relacionamentos profundos, que nos trariam uma segurança a um prazo maior e imputariam sentidos mais significativos às nossas vidas.

Eu, obviamente, não sou exceção: encontrando-me sozinho, desconectado da pessoa com a qual mantenho meu maior vínculo, sou vítima fácil de minhas inúmeras compulsões. Nessa situação, o peso da responsabilidade - não só sobre minha existência, mas sobre a existência de pessoas próximas que parecem ter abandonado qualquer pretensão de responsabilidade - torna-se insuportável. A fuga para os mundinhos de fantasia do vício, para toda a espécie de comportamento maníaco, torna-se o único meio para evitar os males do mundo e banhar-se de uma segurança e felicidade banais e absolutamente provisórias. Mas esse monstro do vício, insaciável por natureza, escraviza o ser que o alimenta, barganhando por um mínimo de satisfação...

Esse monstro, é claro, pode ser camuflado entre ações de maior aceitação social. Vícios como o televisivo e o informático ainda não são encarados com tanta seriedade como os trazidos por algumas drogas, lícitas ou ilícitas. A mania de limpeza de muitas donas-de-casa também não adquiriu, ainda, o status social pleno de vício ou compulsão a ser combatida. Ou seja, esse monstro é muito mais ardiloso e presente do que se imagina, podendo estar totalmente oculto aos olhos das pessoas mais próximas.

É nesse período de isolamento, em especial, que me encontro capaz de perceber o peso da falta do vínculo, e de seu poder de nos tirar da escuridão da solidão. A companhia pode ser um remédio bem mais eficaz, ao atacar a raiz do problema, do que os comportamentos viciosos: esses, de fato, causam efeitos colaterais por vezes piores que a doença que se propõem a combater. 


Pedro Mancini