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sexta-feira, 15 de abril de 2011

A decadência da humildade em tempos de fragmentação social

5 comentários:
Em minha última postagem, estabeleci um paralelo entre a paixão juvenil e a experiência pessoal, para apontar como a primeira é mais valorizada nos dias atuais; hoje, traço um raciocínio semelhante para ressaltar que a questão de "fechar a mente para a vida" não é determinada pela idade, e que existem outros fatores a se levar em consideração.

Acho que uma das grandes ironias da sociedade contemporânea é que, conforme cresce a fragmentação social - e, conseqüentemente, as inseguranças individuais - mais uma parcela dos indivíduos radicaliza seu modo de pensar. Kenneth Gergen é um dos autores que escreve sobre o processo de fragmentação da realidade e do próprio “eu” contemporâneo – que ele qualificou como “saturado”. Para ele,

 “A condição pós-moderna, de modo mais genérico, é marcada por uma pluralidade de vozes competindo pelo direito à realidade – de serem aceitas como expressões legítimas da Verdade e o Bem. Enquanto as vozes aumentam em poder e presença, tudo que parecia apropriado, bem-pensado e bem entendido é subvertido. No mundo pós-moderno nos tornamos cada vez mais conscientes de que objetos sobre os quais falamos não estão ´no mundo´ tanto quanto são produtos de perspectivas” (GERGER, Kenneth: “The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life”, p. 7. Nova Iorque: BasicBooks, 1991).

Gergen aponta, portanto, que ao contrário da modernidade, em que algumas poucas perspectivas totalizantes sobre a realidade competiam pelo domínio ideológico, hoje fica mais difícil detectar um número pequeno e bem constituído de "vozes" sobre a sociedade em que vivemos; temos, ao invés disso, inúmeros sussurros espalhados pelo espectro social, que competem entre si e povoam nossas mentes, saturando-as de informações e pontos de vista. 


Uma outra conseqüência dessa fragmentação de modos de encarar a realidade  é a difusão da insegurança: não podemos mais contar, afinal, com uma "grande muleta" ideológica para nos sustentar - ao menos, não com uma muleta maciça e resistente. Não existe uma única religião dominante, uma única ideologia hegemônica, indiscutível, que nos ampare; temos que nos contentar com múltiplas perspectivas incertas, continuamente contestadas, vítimas fáceis da ironia. Sua religião, sua posição política, não passa de mais uma entre dezenas de outras possíveis - e como ter a certeza de que se joga do lado certo?  


Ora, é difícil lidar com a erosão das certezas instituídas, apontada por Gergen. Para aqueles que detém sabedoria suficiente para conviver com aqueles que pensam de modo distinto, essa é uma ótima chance de se desenvolver - de aprender com a voz discordante, aceitando, com humildade, as prováveis limitações de sua própria perspectiva. Já para os mais carentes de certezas, uma alternativa menos indolor e, infelizmente, usualmente adotada é a de agarrar-se a uma dessas perspectivas de forma extrema, a ponto de desconsiderar todas as demais -  e, em último caso, pregar a aniquilamento daqueles que se situam no "outro lado". Agarrar-se a uma ideologia extremista para ser uma saída possível à fragmentação social, portanto.

É nisso, em boa parte, que se baseia a difusão de movimentos fundamentalistas de toda sorte em plena sociedade ocidental. Alguns países não mais se surpreendem quando um gay é espancado na rua, ou um jovem afetado por anos de bullyng rebela-se contra a sociedade a ponto de cometer assassinatos em massa. Todos esses “anti-heróis” procuram agarrar-se em “verdades absolutas”, estejam elas em uma ideologia político-social – como o nazismo, ainda capaz de seduzir jovens “saudosistas” de uma sociedade “organizada” e “pura” – ou em um santuário totalmente pessoal (indivíduos com o ego inflado, que se veem como “gênios incompreendidos” em uma sociedade fria e insensível às suas necessidades). Wellington Menezes de Oliveira seria somente mais um exemplo do último caso, como os grupos de recistas e homofóbicos  - tão ativos  atualmente- exemplificam o primeiro. Ainda há que se considerar, evidentemente, a filiação de indivíduos a grupos religiosos pautados pelo fanatismo e pelo ódio às diferenças - alguns de seus porta-vozes costumam, também, aproveitar qualquer oportunidade para revelar posturas agressivas.

Acredito que o processo de negação da diversidade e de supervalorização de uma perspectiva determinada sobre todas as demais não pode ser vislumbrado apenas nas situações extremas: terrorismo, movimentos neonazistas, homofobia, racismo, etc. Vemos a tentativa de se agarrar em certezas em várias situações cotidianas que pareceriam inofensivas. Muitos, por exemplo, enclausuram-se em uma visão superestimada de sua própria imagem. São os “convencidos” ou “metidos”, que se transformam nos próprios objetos de adoração. Hoje, eles parecem se multiplicar a uma forma alucinante – alimentados pelas possibilidades de auto-promoção trazidas pelas tão faladas redes sociais. Alguns comentários do Facebook e do Twitter são verdadeiros deleites nesse aspecto, mostrando claramente como alguns indivíduos se deslumbram com a ilusão de estarem fixados em um pedestal que os mantém acima dos “cidadãos comuns”.

Parece que a "humildade", valorizada em tempos pré-modernos, é hoje considerada um defeito, algo a se evitar; antes de mais nada, a ordem é “amar-se”, valorizar-se, vender uma imagem positiva de si próprio, ter orgulho e auto-estima elevados. É evidente que esse movimento possui grandes vantagens, além de ter cumprido um importante papel histórico. Valorizar-se como indivíduo destacado do "social" contém elevado teor libertário, protegendo e armando o sujeito contra opressões externas; a partir do momento em que nos valorizamos, tornamo-nos mais imunes a imposições sobre nosso comportamento. Desse modo, as relações de dominação, outrora dependentes de uma imposição externa, conquistada pela espada, devem hoje se concentrar bem mais em uma "submissão voluntária" de seu público. Uma interiorização da ideologia dos dominantes entre os dominados, embora sempre tenha existido, nunca foi tão necessária às relações de dominação. Assim, as grandes marcas devem mais do que nunca "conquistar" seu público-alvo, e até torná-lo seu próprio porta-voz (difundindo a marca nas redes sociais, por exemplo). O consumidor deve adorar o "estilo de vida" vendido pela Coca-cola e pelo McDonalds, e não mais ser um simples comprador de mercadorias.

Mas voltemos ao assunto principal. Ao mesmo tempo em que adquire forças libertárias em outros contextos, um maior amor-próprio, quando alimentado pelas profundas inseguranças trazidas pela fragmentação social, pode resultar em um aterrorizante radicalismo individualista: buscando refúgio em um mundo individual de certezas, em geral fantasioso, o indivíduo corta qualquer comunicação real com o mundo exterior. A outra opção, como já sugerido, não é menos assustadora: a filiação a grupos radicais de caráter comunitário, como bandos de skinheads ou fanáticas facções religiosas. Seja superestimando sua imagem individual e seus conhecimentos no mundo virtual, seja filiando-se a grupos radicais, ou invadindo uma escola armado até os dentes, o cidadão em questão possui uma profunda certeza de que está "absolutamente correto", acima de todos os demais "seres mortais". Quando alimentado pelo sentimento de vingança contra opressões sofridas, como o trágico caso da escola de Realengo, o indivíduo amedrontado pode tornar-se um agressor impetuoso do status quo que tanto teme e demoniza - por “não compreendê-lo” nem fornecer respostas claras e justas para a vida. Rancoroso, deixa de aproveitar a possibilidade de crescimento a partir do diálogo com o Outro, para se fechar em um mundo de ignorância e convencimento, protegendo-se, de dentro de sua bolha, da maldade vista no mundo externo. Acaba iludindo-se com a idéia de ser um Deus entre os homens. Não passa, na verdade, de um ser humano, dentre muitos outros, apavorado com a possibilidade de ser mais um componente da massa. E isso, em meio a um ambiente onde um único ponto de vista não é mais fornecido de antemão como "o correto" ou "verdadeiro". Por baixo de sua carapaça, o mais feroz terrorista não passa de um ser contaminado pelos efeitos mais nefastos da contemporaneidade.




Pedro Mancini 

segunda-feira, 14 de março de 2011

A queda do muro das redes e a a reunificação das identidades virtuais

3 comentários:
Em outras ocasiões, já escrevi sobre como as novas formas de sociabilidade online estimulam uma percepção de fragmentação das identidades pessoais. Precisando administrar inúmeros perfis virtuais, com suas redes de contato específicas, o indivíduo inserido em relações sociais intermediadas pela internet precisa demonstrar grande competência na arte de administrar papéis e ferramentas interativas: Facebook, Twitter, Orkut, Skype, MSN, e-mail - várias formas de comunicação são utilizadas simultaneamente, cada  qual com seus instrumentos particulares.A autora Sherry Turkle já estabeleceu um paralelo entre essa fragmentação do self e a própria dinâmica do sistema operacional Windows, da Microsoft: de forma similar a esse último (e, em partes, para adaptar-se a ele), o indivíduo precisa administrar várias "janelas" autônomas, com diferenças de micro-segundos de troca entre elas.

Há dois anos, porém, a revista Wired previu que a fragmentação da internet em várias redes sociais estava condenada: apostou que os muros que separam essas redes seriam diluídos em pouco tempo. Até hoje, essa previsão não se cumpriu: a maior promessa feita nesse sentido, o Google Wave, foi um fiasco e, por mais que o Facebook  disponibilize vários aplicativos de integração com outras redes (como o Twitter), essa relação não parece "natural", estando sujeita a bugs e imprecisões (re-twitadas, por exemplo, não são reproduzidas pelo aplicativo do Facebook). Reportagens, blogs e sites de vídeos também disponibilizam ferramentas de compartilhamento entre redes, mas ainda há um considerável caminho a percorrer. Continuamos a administrar redes sociais quase em isolado, preenchendo nossos dados em cada uma, dialogando com pessoas diferentes, e refazendo o procedimento de postagem de  fotos, textos e vídeos.

Talvez todo esse trabalho estimule o ciclo "ascenção-queda-estagnação" das redes sociais: sendo tão difícil administrar todas ao mesmo tempo, opta-se por priorizar apenas uma, a rede "do momento", e passa-se a desprezar as demais. Orkut, Second Life e Twitter, pelo menos, já passaram por esse processo - e ainda não há evidências de que o Facebook não terá o mesmo destino, decaindo e estagnando após um período de sucesso absoluto. Hoje, embora o Twitter continue a manter muitos adeptos, vislumbra-se um processo de evasão, e as vozes dos que ficam não parecem superar a muralha que cerca essa rede. Ainda há pouco diálogo entre tal micro-universo virtual e todos os demais.

Mesmo assim, acho que a previsão da Wired nunca esteve tão perto de se cumprir. A eclosão de aplicativos de compartilhamento mostra que a exigência por integração continua a crescer - partindo tanto de usuários, que utilizam tais aplicativos com maior freqüência,  quanto das próprias empresas, que melhor poderiam administrar as informações de seus usuários se essas fossem absolutamente integradas, ao invés de fragmentadas em comunidades independentes.

Enfim, acredito que a destruição dessa muralha trará grandes conseqüências para o papel da internet na constituição e experimentação de identidades. O estímulo ao exercício de modos diferentes de ser sofrerá limitações, uma vez que o indivíduo não mais falará para públicos diferentes em plataformas distintas, mas sim para a mesma rede de contatos - que terá ligações cada vez mais explícitas com os contatos do mundo físico. Assim, enquanto em um universo virtual repleto de redes sociais particulares podemos assumir papéis variados (um personagem para o Twitter, outro para o Facebook, e assim por diante), em um contexto em que o que escrevemos ecoa em todos os locais, inclusive no próprio ambiente físico, tendemos a assumir um único papel, o mais coerente possível com o assumido nas relações face a face. É impossível prever o quanto relações virtuais baseadas no anonimato ainda deterão importância nesse contexto, mas acredito que elas não representarão um grande contraponto à tendência pela "unificação" das identidades virtuais.

De toda forma, difícil crer que esse movimento resultará em uma redução do uso das redes, ou em uma banalização desse uso, com a eclosão de uma sensação de mesmidade e tédio entre os usuários: creio, pelo contrário, que disso resultará um novo patamar do uso da internet, onde os indivíduos serão tentados a produzir muito mais informações a respeito de si mesmos, e com mais freqüência. Já vemos, principalmente no Facebook e no Twitter, esse tipo de pressão, em que a exibição de informações pessoais, o compartilhamento de vídeos, fotos e notícias, as re-twitadas de trend topics e o uso da própria ferramenta "curtir" (do Facebook) são usadas para medir o grau de participação pessoal na rede e a popularidade individual do sujeito. Com o fim da necessidade de gerenciar mil comunidades concomitantemente, acredito que sobrará mais tempo e disposição para muitos entrarem nesse engalfinhamento competitivo por mais "produção pessoal" e popularidade, resultando em um aumento massivo na participação virtual.

É claro, aos meus olhos, que mesmo que esse movimento represente uma redução do fomento  à multiplicidade identitária no uso da internet, ainda há uma compatibilidade entre ele e o processo de difusão de identidades plásticas entre os indivíduos imersos na sociedade contemporânea (de acordo com argumentação presente nos textos mais recentes do filósofo Vladimir Safatle). Em outras palavras, embora menos múltiplas, as identidades exercidas na internet tenderão a se tornar mais flexíveis do que nunca, adaptando-se com grande velocidade às tendências e modismos globais e locais, por meio da alimentação contínua de informações, tanto nos perfis quanto nas caixas de diálogo público das contas dos usuários das redes.

Pedro Mancini






sábado, 5 de março de 2011

A devassidão da Sandy e a lógica da sociedade de consumo

4 comentários:
Dia desses, um novo comercial sacudiu as redes sociais: uma campanha desenvolvida pela cervejaria Devassa, em que um suposto modelo de pureza e bom-mocismo, Sandy, aparecia revelando um suposto lado "devasso". Exibindo um penteado diferente, a cantora simula uma lap dance em um palco, perante uma grande platéia masculina.



Não tardou para que várias pessoas discutissem a atuação da ex-sertaneja e o conteúdo simbólico do comercial. Entre as principais reações, destaca-se a falta de convencimento da representação de Sandy como "devassa": sua imagem de pureza parece ter penetrado tão profundamente no inconsciente de seu público, que ele simplesmente não engole quando ela foge do papel. Apontam que ela própria não estava convencida da personagem, incorporando com pouquíssimo sucesso a safadeza que lhe foi imputada. Na reportagem a seguir, chegam a contestar a "habilidade" da garota com o copo:



Outros discutem a triste adaptação da imagem da Sandy a um padrão formatado de submissão ao prazer masculino - a incorporação da artista à lógica machista, igualmente presente em populares revistas "femininas", como a Nova (que recomendam às mulheres explorar, de forma absolutamente técnica, habilidades e comportamento que servem especificamente para maximizar os prazeres do parceiro sexual). Como exemplo dessas críticas, indico a última postagem de Tica Moreno.

Mas há outro modo de compreender a utilização do "lado devasso" da artista em um comercial de cerveja. A interpretação que ofereço não é de todo antagônica à visão feminista: não há dúvidas de que a intenção da cervejaria era associar um padrão específico de mulher (que serve aos interesses carnais masculinos mais  banais) ao consumo de cerveja propriamente dito.

Mas se a intenção era somente exibir um padrão de sexualidade adaptado ao prazer masculino, por que escolheriam uma garota que é comumente associada à pureza, virgindade e ao bom comportamento (à submissão sem graça às regras masculinas e ao modelo de "Amélia", portanto)? Não era mais fácil manter a Paris Hilton como garota-propaganda, ou adotar outra modelo-atriz com uma devassa reputação pregressa?

Na verdade, o comercial diz mais sobre a sociedade contemporânea do que os primeiros comentários a seu respeito fazem supor. E o fato de escolherem a Sandy como garota-propaganda é a chave para compreendermos a estratégia de marketing da empresa: explorar uma imagem de ambivalência e de cinismo,  em que são reveladas formas múltiplas de existência, que simulam uma transgressão da norma vigente. Assim, a idéia parece ser de, por meio de uma figura santificada como a da Sandy, explorar o lado "perverso" de cada um de nós, um aspecto que contradiz - sem excluir - o lado bonzinho, que segue um padrão fixado de conduta moral. Sandy não é, assim, uma figura de pura devassidão, mas uma pessoa múltipla, em certo sentido bi-polar, que possui tanto um lado santo, quando um lado "pervertido", por assim dizer. Norma e "transgressão da norma" em uma mesma representação social.

Em uma sociedade capitalista em que os vínculos com os objetos são frágeis, é sábio aproveitar-se dessa fragilidade. Com a redução da importância e da capacidade de convencimento e de identificação de conteúdos normativos, as formas de publicidade que exploram imagens "típico-ideais" de sujeitos (como os antigos comerciais de margarina, que mostravam a típica família nuclear americana - um casal branco feliz, com um casal de filhos e um cachorro, morando na praia) caducam, sendo substituídas por propagandas que exploram, muito mais, o caráter ambíguo ou múltiplo dos indivíduos. Conseguem, assim, atingir um público muito mais amplo: não só aqueles que identificam-se a um padrão, como os que "rebelam-se" contra ele. A negação das velhas estratégias de publicidade acaba, então, sendo igualmente colonizada pelo sistema publicitário.



Assim, a Sandy parece transgredir a sua própria imagem ao agir de modo "devasso"; enquanto outros comerciais chegam a aproveitar-se da retórica da revolução para difundir sua lógica consumista nada revolucionária (lembram-se do comercial "revolução dos dedos", da Vivo, ou da "revolução da esfiha" do Habibs? O último, ainda consegui puxar do YouTube...). Vende-se a idéia, dessa forma, de que estaríamos "transgredindo" a sociedade ao consumir alguns de seus produtos.




Essa percepção foi importada do filósofo uspiano Vladimir Safatle, que estuda, justamente, a publicidade contemporânea e a retórica do consumo. Assim, a estratégia da Devassa não é tão nova, mesmo se considerarmos esse aspecto da bipolaridade, e é bem menos ousada e criativa do que as inicialmente desenvolvidas com a intenção de explorar essa ambivalência (como as marcas Versace e Calvin Klein, especialmente em suas campanhas das décadas de 1990 e 2000). A diferença, com relação à marca brasileira, está em que os dois pólos de ambiguidade explorados são baseadas em imagens machistas: a mulher pura e submissa, de um lado, e a "gostosa" e perversa, boa de cama, por outro. Pureza e safadeza na mesma pessoa (uma santa na rua, uma puta na cama) - a imagem da "mulher perfeita" para o homem comum.Mesmo assim, vende-se a representação de uma marca que costesta a lógica operante da "boa-sociedade", representada pelo bom-mocismo da cantora, violado pelos poucos segundos de duração do comercial. Uma contestação de fachada, que revela, na verdade, um outro padrão de conduta baseado no prazer masculino (mas que pode, contraditoriamente, estar presente na mais comportada das mulheres). Algo bem menos ousado do que a ambiguidade sexual explorada no passado recente pela Versace, que

"(...) se resume a fotos de um casal na cama ou em um quarto com decoração carregada e pretensões de luxo. (...) Nós sempre sabemos quem é um dos parceiros (um homem ou uma mulher bem vestidos em posição de autoconfiança, tédio e domínio da situação), mas nunca sabemos quem é o outro, já que sempre aparece sem rosto, jogado em um canto para denotar que foi usado em um jogo sexual, com roupas íntimas femininas e traços de corpo masculino. Implicações de um lesbianismo lipstick, de homossexualismo e de ambiguidade sexual são evidentes. Note-se que este apelo ao embaralhamento de papéis sexuais não é direcionado para um target homossexual. O target da Versace é composto basicamente de mulheres com mais de 30 anos" (SAFATLE, 2006, p. 61).

Vejam um exemplo dessas propagandas:

De toda forma, e apesar da limitação e teimosia brasileira em continuar a explorar uma imagem machista sobre a mulher, o objetivo dessas campanhas e daquela da Devassa tem suas similaridades: a busca por uma flexibilização de padrões de identificação. Mais uma vez citando Safatle, 

"A publicidade contemporânea e a cultura de massa está repleta de padrões de condutas construído através de figuras para as quais convergem disposições aparentemente contrárias. Mulheres, ao mesmo tempo, lascivas e puras, crianças, ao mesmo tempo, adultas e infantis, marcas tradicionais e modernas.(...) Uma época como esta permite que marcas tragam, ao mesmo tempo, a enunciação da transgressão e da norma. Até porque os sujeitos estão presos a esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a norma e desejar sua transgressão. A publicidade compreendeu isto. Daí porque atualmente ela fala a eles visando este ponto em que transgressão e norma se inbricam" (ibidem, p. 59-60)

É uma pena que a transgressão da norma, para nós, tenha sido tão falsificada a ponto de se resumir à imagem de uma mulher que recusa-se a se limitar à figura machista de santa, apenas para explorar o aspecto igualmente impositivo da mulher enquanto objeto devasso para um puro consumo masculino. Cabe a nós, meros mortais, mostrar o verdadeiro significado da transgressão (se é que ela ainda existe),quando nem a norma, nem a sua suposta "violação" nos parece justa - submetendo-nos, ao invés de nos libertar, aos aspectos mais opressivos da lógica do consumo. 



Pedro Mancini

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A tolerância desigual de Simmel e a "carteirada" de DaMatta

3 comentários:
Hoje, trago uma  reflexão desenvolvida pelo famoso sociólogo Georg Simmel, em fins do século XIX, mais que ainda me parece bastante atual. O enxerto é de um dos artigos que compôs a coletânea "A Filosofia do Amor", com vários textos tratando somente da temática amorosa - de um ponto de vista sociológico, trabalhado, de modo brilhante, em forma de ensaio. Recomendo a leitura para todos os públicos: é um livro que aguça diretamente nossa capacidade de observação crítica da sociedade, com a apresentação de pontos de vista extremamente ousados para a época. O artigo de onde extraí o parágrafo a seguir trata, especificamente, da temática da prostituição; creio, contudo, que as perspectivas que apresenta podem ser levadas à compreensão de outros fenômenos (como, por exemplo, a criminalidade em si), mesmo nos dias presentes:


"É um caráter constante de nossa sociedade cobrar as mais elevadas exigências, em matéria de firmeza de caráter e de resistência às tentações, precisamente daqueles a quem ela mais priva das condições da moralidade. Ela pede ao proletário faminto mais respeito pela propriedade de outrem do que aos barões da Bolsa ou aos pilantras da nobreza; e exige do trabalhador uma modéstia e uma simplicidade máximas, enquanto lhe põe cotidianamente diante dos olhos a tentação do luxo de todos os que ele fez enriquecer; ela se horroriza muito mais com a criminalidade das prostitutas do que com a de qualquer outra categoria, sem pensar que deve ser muito mais difícil para o excluído superar a tentação de agir mal do que para aquele que se acha confortavelmente instalado em seu seio". 


Mais interessante é pensar como essa visão se adaptaria à realidade brasileira e suas especificidades, de acordo, por exemplo, com a perspectiva que Roberto DaMatta, apresenta em "Carnavais, Malandros e Heróis". Será que o fenômeno exposto por Simmel não se agravaria em um ambiente altamente estratificado como o brasileiro, em que os mais favorecidos utilizam-se de seu status para obter vantagens diretas de instituições que deveriam tratar a todos com igualdade? Será que não somos ainda mais tolerantes com comportamentos "desviantes" dos privilegiados, em comparação com os assumidos pelos excluídos?

É claro que, em muitos meios, borbulham indignações quanto aos privilégios de que políticos e "autoridades" se munem (como promotores de justiça que se envolvem em acidentes com a certeza de não serem propriamente punidos). Mas podemos pensar até que ponto, e para muitos, essa indignação não passa de certa "inveja" cultivada por aqueles que não podem deter os mesmos privilégios, ao invés de uma indignação ampla e consolidada sobre as desigualdades desse sistema personalista em que nos encontramos. Afinal, como as pesquisas mostram, os brasileiros adoram dar suas "carteiradas" e aplicar "jeitinhos" - ou o famosos "você sabe com quem está falando?" - na primeira oportunidade que têm, ao mesmo tempo em que não se comformam com as carteiradas e os jeitinhos aplicados por outrens.

De todo modo, essa relação especial do brasileiro com o jeitinho e outros privilégios de status parece casar perfeitamente com a visão de Simmel, ao menos em uma primeira olhadela.

Pedro Mancini








segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estratégias interativas e o convívio familiar saudável

2 comentários:
Viagens de férias: sempre ótimos momentos para exercer a chamada "observação sociológica de boteco". Especialmente quando há presença de familiares.

A despeito de ser visto, por vezes, como a "ovelha negra" da família (ao menos no quesito ideológico), tentei interagir com a mesma em minhas férias, quando fui convidado a passar uns dias na casa de praia de minha tia.

Esse meu interesse não surgiu do nada, é verdade; nessa altura da vida, momento de grandes transições pessoais, começo a perceber o quão importante é um vínculo comunitário, como aquele típico das relações de parentesco (e outras, que nos são "impostas" pelas circunstâncias - de vizinhança, comunidade nacional, entre outras, em que se predomina um forte caráter emotivo). Embora as relações de tipo societário (relações profissionais, por exemplo, baseadas no convívio com o diferente e pautadas por ações mais racionais que propriamente emotivas) garantam, mais plenamente, o estabelecimento da individualidade, a falta de ligações comunitárias torna especialmente difícil trafegar pelos perigosos mares da fria sociedade de indivíduos anônimos e amizades pouco profundas - hoje, expandida pelo universo das redes sociais.

Mas se comunicar, atualmente, com a família ou outros "companheiros de comunidade", em uma sociedade tão fragmentada como a nossa, exige um verdadeiro malabarismo interativo. Como cada indivíduo tende a possuir uma opinião política, religião, time de futebol, além de vínculos com grupos e instituições distintos, interagir de forma positiva, não-conflitiva, com pessoas ligadas a você apenas por um laço comunitário demanda grande esforço. É difícil, em outras palavras, dar ênfase ao que possui em comum com um grupo quanto tantas outras coisas possuem de diferente. Qualquer deslize na interação, e inicia-se uma acalorada discussão sobre temas polêmicos, com resultados potencialmente catastróficos para os relacionamentos sociais envolvidos (ao menos a curto prazo). É claro que existem arenas específicas para que idéias antagônicas se enfrentem frontalmente, administradas pelas capacidades argumentativas dos envolvidos; mas não acredito que o ambiente praiano, onde a maior intenção seria o apaziguamento pessoal das agitações da vida urbana, seja o palco mais indicado para esse embate de idéias.

Assim, caso exista a vontade de passar um tempo agradável com a família, é de vital importância saber lidar com todas as estratégias e ritos de interação que regem nossa sociedade moderna - muito bem analisados, no que tange à sociedade americana, pelo canadense Erving Goffman (em obras como "A representação do Eu na vida cotidiana", "Relations in Public" e "Interaction Ritual").

Talvez a estratégia mais indicada, para esses casos, seja a da "evitação": simplesmente "fugir" de conversas polêmicas, que, sabidamente, podem fazer os ânimos se exaltarem. Sabendo que ninguém na casa compartilhava meu posicionamento político, evitar falar sobre o assunto protegeria tanto a minha face (já que eu não posaria como "radicalóide" ou "comuna fétido") perante a família, quanto a face de meus familiares - que não seriam acusados de "elitistas" ou "reacionários". Estabelece-se, assim, uma trégua político-ideológica, em prol de um convívio familiar apaziguado.

Aqui, cabe tecer dois comentários paralelos:

Em primeiro lugar, por que se esforçar tanto para fugir de polêmicas? Como já disse no começo da postagem, acredito que todos nós precisamos de algum suporte comunitário para suportar as pressões exercidas pela sociedade em seu aspecto mais impessoal - dependente de escolhas que são, com freqüência, acompanhadas de riscos. Mas há algo a mais a considerar: somos todos seres múltiplos, exercendo inúmeros papéis sociais simultâneos - não temos uma identidade fixa e pré-estabelecida, mas "exercemos" identidades diferentes, de acordo com as circunstâncias (ou, em outras palavras, com o ambiente de interação em que estamos imersos). Assim, eu sou um blogueiro, esquerdista moderado, filho, universitário, amigo, namorado, entre muitas outras coisas. E, por mais que os atores de cada grupo em que me relaciono - colegas de faculdade, namorada, parentes - possam conhecer mais de um aspecto de minha personalidade, é impossível expressar todos os meus aspectos em cada arena de interação.

Desse modo, não só é possível, como "natural" exibir apenas aspectos específicos de nossa personalidade àqueles com quem dialogamos. No caso de minhas férias, concentrei-me em revelar minha identidade de parente, desabilitando todas as características que poderiam me ligar ao "ativista político", em especial. Aspectos não tão polêmicos, como os inerentes à minha posição de sociólogo, não foram tão evitados - me dei o luxo, por exemplo, de analisar criticamente os vícios de meus parentes pelo Big Brother e pela novela das nove.

Importante ressaltar que isso não se trata, para mim, de uma falsidade ou mentira: não neguei, nem ocultei absolutamente, minhas posições político-ideológicas. Apenas não deixei que minha identidade política prevalecesse, supressando  seu exercício em meio ao ambiente familiar. Só com isso pude evidenciar aspectos pouco trabalhados de minha psiquê, como minha identidade enquanto parente, desnuda da influência de outros aspectos pessoais.

O segundo comentário relevante - que também ajuda a negar a falsidade de meu comportamento-, diz respeito à diferença entre o silêncio subserviente e a disciplina interativa. O fato de eu escolher atuar, apenas ou principalmente, como um parente, não significa que anulei totalmente outras características de minha personalidade. Felizmente, existem estratégias de interação que permitem que mostremos nossas diferenças e demonstremos nosso orgulho sem, por isso, ameaçarmos fortemente o bom convívio social; provocações pontuais, brincadeiras e "alfinetadas" permitem-nos evitar a subserviência, deixando claro que não concordamos com aqueles que interagimos - mas, antes, encontramo-nos em um provisório estado de trégua. É como se disséssemos: "Olha, estou sendo diplomático, mas isso não significa que concorde com você".

Assim, minhas opiniões político-ideológicas, assim como as de meus parentes, puderam extravasar na forma de micro-provocações, xistes e "tiradas". Graças a essas ferramentas comunicativas, mantivemos tanto nosso orgulho (com demonstrações claras de que não vendemos nossos posicionamentos) quanto a viabilidade de uma interação saudável. Em outras palavras: não foi necessário "entrar no tapa" (física ou verbalmente). Essa é uma façanha que não seria facilmente alcançada em fases anteriores, em que a única coisa que importava, para mim, era consolidar-me enquanto um indivíduo com idéias políticas próprias - alguém que colocava a boa convivência familiar abaixo da auto-validação identitária. Ou seja: talvez só estejamos aptos à convivência comunitária pacífica, em um contexto de ampla diferenciação social, se tivermos desenvolvido suficientemente nossa identidade, a ponto de deixarmos de lado, por um momento, a nossa fome por aprovação social.

Pedro Mancini


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A re-radicalização ideológica da política nacional

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Passado quase um mês desde as últimas eleições, podemos apreender, com maior clareza, suas principais conseqüências sobre o comportamento político dos brasileiros e suas agremiações.

Como vemos em qualquer situação limítrofe de conflito, em que temos de nos posicionar diante de circunstâncias radicais, boa parte da névoa da hipocrisia e da falsidade se dissolve; é nos momentos de tensão, em outras palavras, que os indivíduos mostram suas verdadeiras faces, suas opiniões mais polêmicas e verdadeiras, usualmente camufladas para evitar discussões mais acaloradas e para alcançar resoluções consensuais.

Roberto DaMatta, em seu “Carnaval, Malandros e Heróis”, nos traz um exemplo interessante a respeito da revelação da realidade social mais obscura em certos momentos tensão: quando indivíduos não são reconhecidos pelo Outro como pessoas a quem se deve tratamento diferenciado, os primeiros podem revelar, de modo claro e agressivo – como pelo uso da fatídica frase “Você sabe com quem está falando?” – aquilo que realmente pensam sobre as regras morais em vigência. Nesse momento da interação face-a-face, a máscara da “igualdade de direito” e da “democracia” se esvai, revelando-se, em seu lugar, o caráter profundamente personalista e hierarquizado da sociedade brasileira. É o caso, por exemplo, de um cidadão que evita ser autuado pela polícia, ao revelar ser uma pessoa "importante", e não um "pobre coitado" qualquer.

No universo político, essa lógica não é menos verdadeira; assim como o mito da democracia racial se esvai em situações limítrofes, que convidam os indivíduos a revelaram seus preconceitos mais obscuros, uma eleição tão radicalizada quanto a última convida a dissolução da representação de uma sociedade brasileira apaziguada, que superou a divisão entre “direita” e “esquerda” e que consegue conviver, sem conflitos, com o diferente.

É claro que a redução da hipocrisia também pode trazer irritações; assim, desaponta saber que certas personalidades, que posavam como ideologicamente “neutras”, revelam uma faceta ideologicamente carregada , possuindo idéias que não compartilhamos. Mas esse auto-desmascaramento possui, também, seu lado bom, especialmente para o desenvolvimento da democracia brasileira: os posicionamentos político-ideológicos ficam mais evidentes, e com isso, mas fáceis de lidar, mais ponderáveis. Sinal de amadurecimento político-ideológico, talvez.

A direita, por exemplo, releva-se enquanto tal, em oposição àquela direita que esconde ser direita, que já atormentou o país por tanto tempo. Assim, dinossauros ideológicos, como a TFP, saem de seu torpor para apoiar candidatos e posturas políticas; faculdades suportadas pela Igreja, como o Mackenzie, revelam sua repulsa a leis seculares, como a que condena a homofobia.

Logicamente, não se trata de um movimento linear: não é a primeira vez que ocorreu, na história brasileira, uma segmentação clara e radicalizada entre direita e esquerda. Especialmente durante o período da Guerra Fria, o Brasil foi contaminado severamente pela dicotomia global entre o “socialismo real”, representado e exportado pela União Soviética, e as potências capitalistas e liberais encabeçadas pelos EUA. Desde o período Vargas até os anos finais da Ditadura Militar, a sociedade brasileira viveu momentos de profunda radicalização ideológica, com mobilizações nas ruas a favor de ambos os lados, movimentos armados e interferências da Igreja em assuntos de responsabilidade do Estado.

Finda a polarização ideológica entre Oriente e Ocidente, porém, a esquerda brasileira, seguindo a mundial, sofreu um doloroso processo de descrença sobre seu modelo de sociedade e de reformulação de sua atuação. A direita, desprovida de um rival ideológico à altura, também se arrefeceu, dominando a realidade brasileira com maior tranqüilidade, e de forma mais velada – mantendo aspectos mais radicais de sua ideologia escondidos debaixo do tapete. Junto com os Comunistas, os anti-comunistas também debandaram, provisoriamente, da política nacional.

A Nova República, obtida mediante um pacto conservador com as elites que compuseram o Regime Militar, sentiu-se livre para aplicar os mandamentos neoliberais impostos pelo “Consenso de Washington”; à esquerda, sobrou o papel de pura crítica ao modelo dominante, obtendo poucas vitórias e derrotas colossais – pagando o preço, enfim, por seu autoflagelo e por sua falência ideológica pós-URSS.

Reorganizada em torno da figura carismática de Lula, a esquerda finalmente voltou ao cenário político brasileiro conquistando, por voto, seu cargo mais importante. O PT, a partir daí, impôs sua própria agenda como “a” agenda esquerdista para o país, com todas as suas limitações – como a ausência de uma grande ruptura quanto às práticas mais nefastas de corrupção e fisiologismo. Direita e esquerda, porém, são posições relativas, e os petistas geriram um governo que aplicou medidas mais direcionadas ao combate à pobreza extrema e à desigualdade, dois dos maiores problemas estruturais do país; fizeram escolhas que, de fato, os distanciaram de políticos anteriores, especialmente os de orientação neoliberal. Contestaram o velho e conhecido discurso, presente inclusive nos militares, de “fazer o bolo crescer” antes de distribuí-lo, e decidiram já cortar uns pedacinhos desse bolo em prol dos mais famintos, inserindo-os no mercado consumidor.

A prova maior de que o Governo Lula-Dilma pode ser inserido na disputa ideológica mais ampla entre os espectros Direita-Esquerda, e que essa dicotomia não está de modo algum ultrapassada, é essa re-radicalização da política, que apontei inicialmente. Com a queda da supremacia de uma visão de mundo – a direitista, seja ela ultra liberal, seja ultra conservadora -, vista como “natural” desde o fim do Regime Militar, e o surgimento de visões antagônicas de gestão do Estado, como a proposta e aplicada por Lula, Dilma e aliados, as discussões de cunho ideológico saem dos bueiros e voltam a borbulhar. O medo de soluções anti-institucionais às disputas aflora, é claro: esteja esse pavor presente em uma hipotética atração dos governistas por um regime censor, ou vinculada à chance de antigos coronéis e novos perdedores eleitorais se aliarem por um golpe de Estado. Mas ainda prefiro esse estado de permanente tensão, do que um em que a forma de governar não pode ser contestada, sendo vista como “evidente”, imune à crítica e à competição com outras perspectivas; um estado social de apatia, dominado por um “mito” da vitória absoluta de uma direita mundialmente orientada.

Pedro Mancini

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Possibilidades de interpretação crítica sobre as relações mediadas por novas tecnologias

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Complementando a postagem anterior, exemplificarei algumas possibilidades de interpretação crítica sobre as relações sociais virtualmente consolidadas. É claro que, como já apontei, muitas das críticas tecidas contra as interações virtuais são preconceituosas e catastróficas, sem um aprofundamento real sobre os problemas que elas nos colocam; mesmo assim, apontam questões que merecem ser abordadas, embora usualmente ignoradas pelos defensores mais "fanáticos" das novas tecnologias.

É possível, por exemplo, questionar o conteúdo das relações estabelecidas e mantidas por ferramentas tecnológicas mais recentes. O sociólogo Dominique Wolton é um dos que pensam nesse sentido, considerando que vivemos em uma "sociedade individualista de massas", potencializada por redes sociais como o Facebook. Negando a idéia segundo a qual a internet fomentaria um debate democrático, com o convívio de indivíduos que pensam de modos distintos, estimulando, portanto, a formação de sociedades virtuais globais, Wolton considera que as redes sociais e outras ferramentas de interação mais recentes fomentam modos comunitários de associação - formados por indivíduos que pensam de forma equivalente e possuem interesses comuns. De fato, o Twitter, por exemplo, têm se manifestado como um exemplo típico dessa forma de sociabilidade: pessoas "seguem" aqueles que pensam como elas, e criam verdadeiras "panelinhas comunitárias", agredindo aqueles que pensam de forma distinta, ao invés de conviverem pacificamente com eles. O período eleitoral salientou essa característica do Twitter, e cultivou sementes de discórdia que ainda perduram - como as últimas manifestações xenófobas contra nordestinos, encabeçadas por jovens de classe média do Sul e Sudeste do país. Essas formas de intolerância comunitária encontram nas redes sociais a possibilidade de propagação, dada a convivência de indivíduos que compartilham de suas opiniões (inconfessáveis em público), e um ambiente propício para exercitar seus dogmas (por meio de agressões verbais contra adeversários, vistas, de modo ilusório, como imunes à punição legal). 

O sociólogo francês vai mais longe: pontua que as formas de interação virtuais não fomentam relações de profundidade, "verdadeiras"; pelo contrário, estimularia aquilo que ele chama de "solidão interativa", onde a conectividade exagerada convive com uma falta de laços sociais significativos. Pontua, ainda, que a comunicação "de fato", aprofundada, é escassa nas relações virtuais, dado que esta exigiria não apenas a emissão unilateral de opiniões, como um retorno da recepção - uma resposta dos interlocutores. Nesse momento, me identifico com o pensador, já que percebo essa situação em meu próprio blog: por mais que eu publique, não consigo fomentar muita discussão entre meus leitores, que raramente comentam meus escritos. E essa é uma situação muito comum, ao menos entre os blogs menos famosos. 

Como já indiquei, contudo, não temos que mergulhar de cabeça nessas críticas nefastas sobre as relações estabelecidas pelas novas tecnologias; temos, ao contrário, que problematizá-las, retirando delas o que fizer mais sentido - e repudiando os exageros e deficiências de apreensão. Assim, é passível que crítica que o sociólogo não qualifique as relações virtuais, taxando-as, simplesmente, de "falsas" ou pouco profundas. Que espécies de relações se formam e se mantém nas redes sociais? Esse questionamento foi evitado pelo pensador (ao menos nesse texto introdutório que linquei), que parte de um conceito ideal daquilo que seria uma relação social "verdadeira" ou "profunda". Assim, as relações virtuais resumem-se a uma "não-relação", por não cumprirem os requisitos imputados pelo autor (de profundidade e constância). 

Além disso, não podemos ignorar que a difusão das novas tecnologias também acarretou em claros benefícios: hoje em dia, um blog pessoal, por exemplo, pode ter alcance global, e a informação acaba sendo muito mais difundida. É claro que essas formas de comunicação mais modernas são passíveis de críticas - boatos, preconceitos e outras informações danosas são tão ou mais espalhadas pela internet do que informações úteis -, mas o que necessitamos é de um entendimento mais aprofundado sobre as formas e conteúdos típicos desses meios. 

Trafegando pela vertente frankfurtiana, o filósofo alemão Christoph Türcke, por sua vez, analisa a sociedade contemporânea pela perspectiva da sensualidade inerente a seus mecanismos. Para ele, a sociedade do pós-guerra transformou-se em uma "sociedade da sensação", imersa em um excitamento contínuo, com efeitos similares ao das drogas.

Nesse sentido, as ferramentas tecnológicas aparecem como fonte de injeções sensuais, alienantes e entorpecentes, que inculcam em seus usuários, com toda essa "magia" hiper-real, uma relação de dependência. Diz o filósofo, em entrevista para a Folha:

Vício como fenômeno particular --como dependência física de certas substâncias (drogas)-- está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia.

Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela.

Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos.

O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Mais uma vez, as análises ultra-ácidas sobre a tecnologia devem ser relativizadas. Manuel Castells, com suas limitações, demonstrou que a taxação do uso da internet como "vício", embora fácil, não é tão verdadeira assim; os indivíduos, para ele, não deixam de se relacionar socialmente por conta de sua imersão nos mundos virtuais. Pelo contrário, tenderiam a interagir com maior freqüência com seus amigos e familiares mais íntimos, pelo uso das ferramentas comunicativas mais recentes. 


Entre os dois analistas, um catastrófico e outro otimista, fico, novamente, com um meio-termo: o indivíduo usuário das tecnologias virtuais não está isolado do mundo, alienado de sua própria existência material; antes, está consideravelmente mais ligado a esse mundo do que no passado - ao menos em termos quantitativos, pelo número de relações e contatos estabelecidos. Por outro lado, devemos nos questionar: como o indivíduo se relaciona com seu universo, quando esse relacionamento é mediado por  novas tecnologias? Podemos simplesmente falar de uma "não-relação", ou podemos, ao contrário, explorar mais a fundo esses novos tipos de interação, sem recair em reducionismos simplistas - vinculados ora a um otimismo, ora a um pessimismo desmedidos?

Pedro Mancini

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Religião e política nas eleições 2010: O uso de Deus no vale-tudo eleitoral

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Não restam dúvidas: questões religiosas colonizaram totalmente o debate político-eleitoral. E o pior: por iniciativa de um agrupamento político que nasceu com idéias ditas "progressistas", em contraposição a um regime militar de cunho conservador, e que conta com um quadro de intelectuais e empresários modernosos. Como explicar essa guinada absurda em direção à extrema-direita, reacionária e fundamentalista, que se opõe à descriminalização da homofobia e a políticas sociais que provenham atendimento às mães que decidam abortar?

Ora, a reposta, a primeira vista, seria óbvia: puro oportunismo eleitoral. E é isso mesmo - em momento de desespero, correndo o risco de derrota logo no primeiro turno, Serra radicalizou nos minutos finais da campanha, aproveitando-se da ferocidade religiosa de boa parte do eleitorado brasileiro. Somando forças com as denúncias contra Erenice, o fator religioso conseguiu não somente empurrar as eleições para o segundo turno, como reduzir drasticamente a vantagem de Dilma sobre seu rival. 

Mas não questiono, aqui, as óbvias motivações tucanas para reacender o debate religioso; mais difícil é compreender o sucesso dessa estratégia, considerando o suposto caráter progressista do PSDB e de seu eleitorado, concentrado em setores das classes média e alta, que, em boa parte, não são lá muito religiosos (em geral, são aqueles que demonstram sua religiosidade quando casam na Igreja). Muitos, aliás, não questionam a necessidade de um Estado moderno e laico. (Vale lembrar que o próprio Serra, quando Ministro da Saúde, legalizou o aborto em alguns casos específicos, como nas gravidezes resultantes de estupro ou que coloquem em risco a vida da mãe.) Assim, seria de se suspeitar a continuidade de seu apoio a um candidato que abraça bandeiras extremistas e passa a namorar com setores fundamentalistas.

A única explicação que consigo encontrar é a seguinte: o eleitorado peesedebista demoniza os petistas de modo tal que está disposto a fazer qualquer negócio para derrotá-los. Engraçado que esse tipo de comportamento do "vale tudo", dos "fins justificando os meios", vez ou outra é imputada aos petistas, pelos próprios tucanos, para fins de agressão e desqualificação. José Dirceu, o bicho-papão do PT, já sofreu muito com essa análise: ele seria um militante tão fervoroso, acreditaria tanto em um "novo mundo" socialista, que estaria disposto a QUALQUER COISA para atingir seus objetivos, inclusive afundar-se em um lamaçal de corrupção. Tudo isso por seus ideais. 

Pois bem. Ironicamente, o PSDB sofre do mesmo mal imputado a seus adversários. Pela queda do PT e para colocar-se mais uma vez no poder, vende sua alma ao fundamentalismo cristão. O sucesso dessa aproximação relaciona-se, por sua vez, tanto a falta de religiosidade de seu eleitorado clássico (esses "progressistas" das classes média e alta), quanto pelo excesso de religiosidade de um potencial eleitorado de Dilma. 

Em outras palavras: enquanto o ódio do eleitorado peesedebista pelo PT é maior do que sua vinculação religiosa, o amor de parte do eleitorado por Dilma seria menor do que seu fervor cristão. Assim, o PSDB acaba perdendo poucos eleitores, enquanto o PT corre risco de perder um número bem maior, sendo associado a bandeiras rejeitadas por templos e igrejas. Para os não-religiosos, os tucanos vendem simplesmente a idéia de que Dilma tem "duas caras", mudando de posições a respeito do assunto. Serra e sua equipe perceberam isso e partiram para o ataque: têm muito menos a perder do que a ganhar com esse jogo, ao menos eleitoralmente falando. Os princípios que se danem. 

Aliás, também lamento que, agarrado à lógica eleitoral, ao PT nada reste a não ser recuar diante das carapaças que lhe colocam. Sabendo do enorme peso da religião para o eleitorado brasileiro, não se dá ao luxo de debater a descriminalização do aborto, defendendo com maior vigor sua posição original. Seria uma ação arriscadíssima para ele, com enormes chances de resultar em uma derrota fenomenal nas urnas. Mas não revertamos o jogo sujo: quem trouxe o debate religioso à tona, de forma banal e visando atiçar os instintos mais primitivos dos cristãos, foi o PSDB. Enquanto o PT é obrigado a recuar de seus princípios, o PSDB colocou os dele em liquidação de modo claro e ativo, trazendo Deus para o seu vale-tudo eleitoral.  

(*Obs: Sobre o mesmo tema, indico ainda a leitura de um texto de Vladimir Safatle intitulado: "A República Fundamentalista Cristã").

 
Pedro Mancini


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

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Desenvolvo um assunto um pouco menos polêmico hoje, mas sobre o qual tenho interesse acadêmico mais imediato. Já me recomendaram, inclusive, me aprofundar sobre esse tema em minha dissertação.

Trago, por isso, a tradução de uma postagem de um blog em inglês, que destaca o desenvolvimento de uma análise sociológica sobre a chamada "Civilização Warcraft". Desconheço a qualidade do estudo discutido; à primeira vista, me parece uma "viagem" à lá Pierre Lévy  (tanto que foi em seu Twitter que descobri o link do original em inglês), muito filosófica e com grandes pretensões de antecipação do futuro "de toda a civilização ocidental". Mesmo assim, trata-se de uma das inúmeras possibilidades de interpretação do vasto universo representado pelas novas redes de interação propagadas pela Internet, e que demonstra o quanto ainda falta ser estudado.

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Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

O sociólogo William Sims Bainbridge, conhecido por seu  trabalho de exploração da Sociologia da Religião, publicou um novo livro intitulado "A Civilização Warcraft: Ciências sociais em um mundo virtual". Uma abordagem estranha demais? Given Bainbridge é um membro fundador de uma organização pró-vôo espacial, conhecida como Ordem dos Engenheiros Cósmicos, um nome propício para uma guilda de World of Warcraft, então essa pode ser uma viagem não tão louca assim.

 Segue a descrição da editora sobre seu último trabalho:

"World of Warcraft é mais que um jogo. Não há objetivo final, nenhuma mão vencedora, nenhuma princesa a ser resgatada. WoW contém mais de 5000 aventuras possíveis, jogos dentro do jogo, e abrange centenas de reinos paralelos separados (por servidores de computador, cada um suportando 4000 jogadores simultaneamente). WoW é um mundo virtual envolvente, dentro do qual as personagens devem sobreviver em um ambiente perigoso, assumir identidades, lutar para entender e se comunicar, aprender a usar tecnologia, e competir por recursos escassos. Para além da fantasia e da ficção científica, conforme muitos notaram, isso não difere totalmente do mundo de hoje. No "A Civilização Warcraft", o sociólogo William Sims Bainbridge vai mais longe, argumentando que WoW pode ser visto não apenas como uma alegoria dos tempos de hoje, mas também como um protótipo do amanhã, de um futuro humano real, no qual grupos similares a tribos vão se engajar em combates por recursos escassos, construir alianças temporárias na base de interesses pessoais mútuos, e buscar um conjunto de valores que transcendem a necessidade da guerra.

Bainbridge explorou diretamente o universo complexo de Warcraft, passando mais de 2300 horas por lá, criando vinte e dois caracteres de todas as dez raças, as dez classes, e profissões variadas. Cada capítulo começa com a narrativa de uma personagem, e então continua a explorar um tema social mais amplo - como religião, aprendizado, cooperação, economia, ou identidade pelas lentes da experiência dessa personagem.

O que torna WoW um lugar especialmente bom para buscar insights sobre a civilização ocidental, de acordo com Bainbridge, é que ele liga passado e futuro. É fundado na tradição cultural ocidental, e ainda antecipa os mundos virtuais que poderemos criar em tempos vindouros".

Estou genuinamente curioso sobre os conteúdos do livro, se um sociólogo pode percorrer a Civilização Warcraft para estudá-la por mais de duas mil horas, apenas para descobrir a curva de Bell da insanidade.


Pedro Mancini (tradução da postagem do blog MMOCRUNCH, escrita por Fabian e datada de 05/04/2010)





sexta-feira, 26 de março de 2010

A conformação dos sub proletários

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São frequentes as situações em que me surpreendo com a grande apatia que atinge boa parte da população metropolitana de São Paulo. Simplesmente não consigo entender como as pessoas suportam viver nessa cidade,  viajando em ônibus lotados por várias regiões, todos os dias. Aguentando os horrores do tráfego, especialmente nos dias de chuva, e quando das constantes quedas de carretas em rodovias (e muitos outros acidentes diários). Isso sem contar, é claro, várias outras situações desesperadoras, como a falta de acesso a serviços públicos essenciais, insegurança, enchentes, condições precárias de moradia, educação e saúde, etc.


Nos meus vícios burgueses de pensamento, questiono, quando me sentindo uma salsicha em conserva na condução, em um trânsito totalmente parado: "Pôxa, por que esse pessoal não se revolta? Por que não sai às ruas, exigindo condições MÍNIMAS de sobrevivência, para que não se estresse mais na viagem de ida e volta ao trabalho, do que no próprio trabalho?" E concluo que o nosso sistema é tão opressivo, que arranca qualquer vontade de ação da grande massa dos trabalhadores urbanos mais vulneráveis. 

Pois bem. Dia desses, na USP, assisti um debate muito interessante, a respeito de um novo artigo do ilustre ex-porta voz da República, André Singer, intitulado: "As raízes ideológicas e sociais do Lulismo", com a presença do próprio autor, que me ajudou a desenvolver melhores reflexões sobre o tema. A despeito de suas análises sobre o Governo Lula, o que mais marcou em sua fala, para mim, foi sua interpretação a respeito da aversão da grande massa (daquilo que ele chamou de "sub-proletariado", resgatando interpretações marxistas), à qualquer forma direta de confrontação política.

Segundo essa idéia, os componentes desse sub-proletariado, que abrangeria uma série de tipos sociais como desempregados, trabalhadores informais, sub-empregados e micro comerciantes, como camelôs, dentre outros, são por demais vulneráveis para poderem arriscar as condições mínimas que já conquistaram. Assim, os sub-empregados, por exemplo, sem contarem com sindicatos ou outras forças de proteção coletiva, ficam à mercê de seus patrões de uma forma muito mais clara do que um empregado estável e sindicalizado, que possui instrumentos bem arquitetados de luta social ao dispor de sua categoria profissional.

Desse modo, os sub-proletários percebem que ganham muito mais negociando e barganhando com seus patrões, do que enfrentando diretamente as formas de autoridade que os circundam -- inclusive nosso Estado que, como sabemos, assume um caráter particularmente repressivo quando lida com movimentos sociais que possuem pouco capital social e político. Viria daí o espírito conciliatório dessa massa de sub-empregados de nosso capitalismo periférico sub-desenvolvido, que muitos atribuem a um "conservadorismo" particular.

Acredito, então, que podemos generalizar essa situação típica dos sub-proletários para outros aspectos de sua existência, como a falta de reações mais enfáticas contra situações desesperadoras, tais como as já apontadas: trânsito, baixas condições de moradia, falta de qualidade e acesso a serviços públicos essenciais, entre muitas outras. Antes de ser uma atitude conservadora - pois, acredito eu, esse pessoal QUER melhorar de vida e luta para isso -, trata-se de um comportamento cauteloso, adotado pela população mais fragilizada e vulnerável à ações punitivas seja do Estado, seja do mercado de trabalho a que está submetida.

Segundo Singer, as políticas sociais nas quais o Governo Lula investiu tendem a reverter essa situação, na medida em que melhoraram as condições de vida das classes menos favorecidas (a multidão componente das classes "D" e "E" que passaram à chamada classe "C"), inserindo-as, em massa, no mercado de trabalho formal. Se essa ascensão social se reverter, de fato, em uma situação de maior proteção social a  esses trabalhadores, com a sindicalização em massa e maior estabilidade profissional, por exemplo, acredito, como André Singer especula, que poderá haver um acirramento da luta de classes no Brasil (com relação a um aumento da luta institucional por melhores condições, é bom dizer, e não com perspectivas de uma revolução marxista -- como, por incrível que pareça, muitos ainda acreditam ser possível nos anos vindouros!). Porém, mesmo com todo meu otimismo, custo a acreditar que isso ocorra tão cedo, se considerarmos que não podemos desprezar a contínua difusão de mecanismos neoliberais de controle sobre mercado de trabalho, como a terceirização e a criminalização dos movimentos sociais, que continuam a fragilizar a classe trabalhadora de forma absoluta e inquestionável.

Pedro Mancini

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mais sobre Brandão

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Para quem quiser saber um pouco mais sobre a vida política e acadêmica de Gildo Marçal Brandão, recomendo a última postagem de Luis Nassif. Segue uma parte do texto, retirado por ele da Folha de S. Paulo:

Morreu anteontem aos 61 anos o cientista político Gildo Marçal Brandão. Professor de ciência política da USP, ex-jornalista e ex-militante comunista, Brandão descansava com a família na praia da Baleia, em São Sebastião, quando sentiu-se mal e, por volta de 21h, morreu. Ele tinha uma cardiopatia grave e já fora submetido a cirurgia de revascularização.

Natural de Alagoas, Brandão graduou-se em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco. No final dos anos 70, veio para São Paulo, onde lecionou na Unesp e, em seguida, na Escola de Sociologia e Política, na PUC e finalmente na USP. Também era dirigente da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais).


Pedro Mancini

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A biografia de Xuxa pela ótica de uma brasilianista

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A indicação de leitura de hoje vai para o livro da americana Amelia Simpson, "Xuxa: The Mega-Marketing of Gender, Race, and Modernity" ("Xuxa: Mega-Marketing de Gênero, Raça e Modernidade").

Apesar de se tratar de uma observadora "outsider", externa à cultura brasileira, a autora traz reflexões interessantíssimas sobre a configuração da cultura midiática nacional, analisando, especificamente, a biografia da maior celebridade que a mídia verde-e-amarela já criou: "Xuxa", a eterna personagem de Maria da Graça Meneghel.

Como se não bastante os "insights" a respeito da adoração da figura da Xuxa, no Brasil, e sua função de conservação ideológica das presentes relações entre os sexos e as raças, a leitura da obra se Simpson é divertidíssima - especialmente para aqueles que, como eu, viveram nas "espetaculares" (em toda a acepção da palavra) décadas de 1980 e 1990. Sua acidez, seu senso de sarcasmo e sua brilhante capacidade de descrição, tanto de fotografias de época quanto da estrutura de operação dos programas apresentados pela "Rainha dos Baixinhos", garantirão não apenas reflexões profundas sobre nossa realidade e o poder da mídia na manutenção da ordem simbólica vigente, mas também boas risadas e uma certa (e contraditória) sensação de nostalgia.

Em alguns momentos, é certo, a autora parece "forçar" sua argumentação, permitindo, por parte do leitor, contestações sobre certas conclusões pontuais. Além disso, a obra causa um certo mal-estar ao transmitir a idéia de quer a figura de Xuxa nada foi além de uma grande construção simbólica: consciente e cuidadosamente forjada, nos seus mínimos detalhes, de modo a cumprir certas funções culturais de grande amplitude, Xuxa aparece como um ícone hiper-real, uma fantoche que serve a interesses ideológicos. Para Simpson, por exemplo, até mesmo a crítica constante sobre a problemática e paradoxal relação de Xuxa com os "baixinhos" - acusações de que ela seria ríspida com as crianças - seria fruto de uma estratégia dos "administradores" dessa figura simbólica, com fins de sexualizá-la (associando-a à figura de uma "moleca", uma "ninfeta" que, embora esteja no mesmo nível das crianças, é fortemente erotizada), afastando-a de qualquer identificação com uma "mãe protetora" assexuada e pueril.

Desse modo, a análise acaba por seguir uma linha pós-estruturalista que poderia ser aproximada a perspectivas inescapáveis sobre a realidade, como as de Michel Foucault e Jean Baudrillard. Em verdade, uma comparação entre o livro de Simpson e a obra de Baudrillard, "Simulacros e Simulação", é quase inevitável: aos olhos dos dois autores, torna-se impossível saber a diferença entre o "real" e o "irreal" - em verdade, o real aparece como morto, substituído pelo conceito de "hiper-real", uma distorção exagerada do real. No caso específico aqui tratado, como desvencilhar o que seria "verdade" sobre a história de Xuxa, daquilo que seria orquestradamente criado e gerido por homens por detrás das cortinas? Mais importante do que esse questionamento, o problema é que essa distinção parece ter perdido o sentido, já que torna-se impossível percebê-la.

Pessoalmente, acredito que esse tipo de abordagem contém sérios obstáculos para uma análise crítica propositiva sobre a sociedade moderna. Afinal, se a realidade morreu, perdida em meio à simulação, em que poderemos nos agarrar na luta pela mudança social? Vale a pena lutar, se tudo já está acabado? Essa luta existiria, ou seria mais uma luta simulada, em prol de um movimento maior, inquestionável e inescapável, sobre o qual não temos qualquer controle, mas apenas a ilusão de controle?

Salvo essas colocações, o livro não deixa de possuir inúmeros créditos, sendo de fato um convite à polêmica e ao mundo "hiper-real" potencializado pela mídia nos tempos contemporâneos. E isso, a despeito de a obra ter sido escrita ainda em 1994, e a imagem de Xuxa estar, hoje, muito reduzida, em comparação à Xuxa daqueles tempos. Podemos ainda pensar, por exemplo, se o atual enfraquecimento da imagem da personagem deve-se ao esgotamento da estratégia que a fundamentou, ou se, na verdade, Maria da Graça Meneghel, devido à sua idade e outras condições, simplesmente não pode mais cumprir o papel que lhe fora outorgado.

Seja como for, a saída foi a mesma: Xuxa converteu-se numa sombra do que já foi, apesar de fãs irredutíveis e histéricos ainda a apoiarem, a ponto de ser ridicularizada por seus comentários no Twitter e deter, na mídia, uma pequena fração do tempo comercial que já deteve em seus anos de ouro. A tendência, arrisco-me a dizer, é que sua imagem continue "em banho maria" até sua morte (que trará um fervor nacional provisório), para ser reutilizada de tempos em tempos, por alguns anos, em singelas homenagens, até, por fim, sua imagem sucumbir no esquecimento. O mesmo fim, aliás, que tiveram e provavelmente terão "astros" midiáticos efêmeros similares, como Michael Jackson e Britney Spears.

Pedro Mancini

*Obs: Fato curioso, e que torna difícil não suspeitar de conspirações midiáticas, é que esse livro tenha tido menos repercussão no Brasil (apesar de sua temática) do que no exterior. Hoje, ainda, a Playboy em que Meneghel posou nua hoje é artigo de colecionador, e tanto essa publicação erótica, quanto o filme ainda mais caliente "Amor, Estranho Amor" (claramente pedofílico) mal podem ser mencionados nos circuitos de TV e na mídia impressa. Aliás, o documentário da BBC que retrata a TV Globo sofreu similar falta de atenção, sendo resgatado, de modo pontual, apenas por seus inimigos diretos (leia-se TV Record), em tentativas para desgastar sua imagem. Provas de que nem mesmo imagens poderosas como as de Xuxa e da Globo, no Brasil, estão absolutamente isentas de tropeços e arranhões.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Postagem sobre identidade fragmentada em meio ao uso da Internet: Lauren Jones

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Econtrei, via o blog do jornalista-usuário do Second Life Wagner James Au, o New World Notes, uma postagem interessante sobre a fragmentação das identidades possibilitada pelo uso do computador. Nela, há uma interessante analogia entre a forma como atualmente as pessoas mais conectadas à rede administram seus papéis sociais pelo computador, por um lado, e o Sistema Operacional Windows (com sua separação "multi-tarefária" via janelas), por outro. Essas metáforas, por sua vez, foram buscadas no livro da autora Sherry Turkle, intitulado "Life On The Screen"("A Vida na Tela").

A tradução é minha, e foi adaptada para aqueles que não estão tão envolvidos com o mundo virtual. Como não sou nenhum especialista em traduções, ela não deve estar essas coisas, mas valeu a tentativa (quem quiser opinar a respeito, sugerir alterações na forma da tradução, sintam-se livres, ok?)...

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Pelos anos em que tenho sido usuária de computador, ouvi com frequência – assim como vocês também devem ter ouvido – que as pessoas se valorizam excessivamente, especialmente desde o advento da Internet. De fato, desde o surgimento da Internet, as pessoas estão, progressivamente, investindo maiores porções de si em suas vidas cibernéticas, imputando-as um peso igual àquele conferido à parte mais convencional de suas vidas. Isso pode ser difícil para algumas pessoas engolirem e, como sempre, correntes da Internet surgiram para ridicularizar toda a ideia. Essas correntes podem ser consideradas derivadas do pensamento “negócio sério” (da sigla “SRS BNSS”, derivada da gíria “Serious Business”, usada para qualificar aqueles que levam as coisas excessivamente a sério), é claro.

Em certa medida, pode-se ver porque, historicamente, as pessoas desenvolveram esse tipo de idéia. Até muito recentemente, a Humanidade era algo como uma entidade "unitarefária". Nós podemos atuar em papéis diferentes em tempos diferentes (por exemplo, sermos parente, professor, criança, vilão, pirata espacial, e assim por diante) mas, na prática, nós interpretamos esses papéis um de cada vez, em série.


Na geração moderna, a Humanidade se transformou em um processador paralelo de multi tarefas. Nós não mais vivemos nossas vidas em séries, mas, ao invés, em paralelo, alternando entre janelas, para que possamos gerir existências paralelas e cumprir tarefas paralelas. Observem a imagem abaixo (eu fabriquei essa imagem simplesmente como ilustração, mas ela não está inteiramente distante da verdade, como irei explicar).

Nessa captura da minha área de trabalho, você pode ver que ao invés de estar simplesmente cuidando de uma tarefa por vez, eu estava, na verdade, cumprindo múltiplas tarefas simultâneas. Não há nada de novo nisso, é claro; pessoas são multifacetárias há muito tempo. Mas observemos a imagem mais de perto. O Second Life estava aberto, onde me envolvia numa discussão maluca no “infocuboAhern. Estava com o Skype online” e conversando pelo fone de ouvido com um familiar. Estava com o Facebook aberto, conferindo as mensagens. Estava editando uma imagem para enviar a um amigo por e-mail. Estava rodando o EVE Online na tela mais a fundo, programa que estou atualmente explorando para contribuir em um blog futuro. Estava com o Publisher 2007 aberto enquanto deixava algum trabalho pronto para a próxima semana. Estava com o sítio da BBC aberto, para checar as notícias do dia. Para além da tela, estava com meu computador portátil rodando enquanto eu (meio que) assistia um DVD ao fundo. Então, exatamente no mesmo instante, eu era uma exploradora cibernética, uma familiar, uma “networker” social, uma funcionária, uma pirata espacial, uma blogueira e uma fã de um dado filme. Cada um desses papéis requer um certo modo de pensar, e estamo-nos tornando marcadamente adeptos da manutenção dessas vidas paralelas. Alguns escritores atribuem esse fato à introdução do Windows como um sistema operacional. Em certo sentido, a idéia de um sistema operacional que processa, paralelamente, múltiplas tarefas é exatamente do que estamos falando. Sherry Turkle tinha isso a dizer em seu livro, “Life On The Screen”.

O desenvolvimento de janelas para interfaces de computador foi uma inovação técnica motivada pelo desejo de fazer as pessoas trabalharem mais eficientemente por meio da circulação por diferentes aplicativos. Mas na prática diária de muitos usuários de computador, as janelas tornaram-se uma poderosa metáfora para se pensar sobre o self como um sistema múltiplo, distribuído. O self não está mais apenas interpretando diferentes papéis, em configurações e tempos distintos, algo que uma mulher experimenta quando, por exemplo, ela se maquia como amante, prepara o café da manhã como mãe, e dirige até o trabalho como advogada. A vida prática de janelas é a de um self descentrado, que existe em muitos mundos e interpreta muitos papéis ao mesmo tempo. No teatro tradicional e em “role-playing games” com interpretações físicas, pode-se adentrar ou sair da personagem; MUDs, em contraste, oferecem identidades paralelas, vidas paralelas. A experiência desse paralelismo encoraja um surpreendente grau de igualdade no tratamento das vidas de dentro e de fora da tela. Experiências na Internet estendem a metáfora das janelas – agora a "Vida Real", em si, como Doug disse, pode ser “apenas mais uma janela”.

É claro que pode e deve existir debate sobre em que medida isso se traduz em um desenvolvimento positivo ou negativo, mas, de todo modo, isso é como as coisas são atualmente, e eu não sinto que irão mudar tão cedo.
Acho igualmente fascinante que mais e mais cibernautas estejam percebendo que suas presenças em espaços múltiplos devem ser estudadas e geridas. Grupos como “Transworlders” são um dos desenvolvimentos interessantes nesse sentido, sobre o qual devemos manter os olhos abertos.
Como uma nota pessoal, também acho fascinante que, conforme o tempo passa, perceba cada vez mais que sou a mesma pessoa, não importa para onde vá. Os vários pedaços de mim, que se espalham por múltiplos espaços, na verdade não são nada mais que meu self descentrado. E ISSO é que é, realmente, o “negócio sério”.

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Observação: As opiniões expostas nessa traduzão não refletem, necessariamente, minha opinião pessoal, e nem podem ser confundidas com interpretações de cunho acadêmico (assim como minhas próprias postagens!). De toda forma, porém, trazem provocações que não podem ser ignoradas por aqueles que pretendem estudar as complexas relações entre a administração de identidades pessoais e a Rede Mundial de Computadores.

Pedro Mancini