domingo, 30 de janeiro de 2011

O amor alienado por São Paulo

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No começo dessa semana, a cidade de São Paulo comemorou mais um ano de existência. Foi uma excelente oportunidade para muitos paulistanos expressarem o "grande amor" que sentem pela "terra da garoa" (embora devesse perder esse título há tempos - devendo ser chamada, talvez, de "terra das tempestades e dos calores absurdos"). Mas como compreender tal amor por um verdadeiro inferno urbano como esse, com seu caos viário, sua poluição, violência, desigualdade extrema e anos de incompetência administrativa - que resultam, por sua vez, em enchentes devastadoras e recorrentes?



Só consigo pensar em duas hipóteses: uma alienação compensadora, que também poderia ser chamada de "auto-enganação"; e uma alienação deveras conveniente, resultante de posições privilegiadas, em especial no que tange ao uso do espaço urbano. 

No primeiro caso, falo das pessoas que sofrem verdadeiramente com o caos urbano paulistano e, ainda assim, amam a cidade. Adoram-na apesar dos pesares, a despeito de todo o mal que lhe causam - valorizando, por sua vez, suas qualidades, tais como: as oportunidades de trabalho, o cosmopolitismo e a agitada vida noturna. Para mim, impossível não vir à mente a imagem da "mulher de malandro": aquela que apanha todo dia, mas que "ainda ama o marido", dizendo aos demais e a si própria, por exemplo, que "ele é uma boa pessoa quando não bebe... o problema é que ele bebe demais, e aí acaba me batendo. Mas depois ele pede desculpas, me dá um buquê de rosas e fica tudo bem! Até o dia seguinte..."

A comparação pode parecer um pouco exagerada, mas quando, por exemplo, passo um total de 4h30min dentro de  ônibus lotado a 33ºC, como na sexta-feira, ou quando dois dos ônibus em que embarco se envolvem em acidentes nas movimentadas ruas de São Paulo (como na quinta), não tenho vontade de dizer que "amo essa cidade", mas sim de abandoná-la permanentemente. E o que dizer dos sujeitos que encaram situações iguais ou piores que essas todos os dias, embarcando em trens abarrotados por horas até alcançar o conforto do lar? E dos milhares de moradores de rua que sofrem uma intensa luta cotidiana, apenas para comer decentemente? E aqueles que perdem tudo que possuem toda a vez que chove com alguma intensidade? Como ainda amar a cidade??? Seria porque, no fim-de-semana, podemos "beber para esquecer" os males urbanos, escolhendo entre as milhares de opções de lazer esparramadas pela cidade? Ou porque ela nos oferece a "oportunidade" de nos escravizarmos junto ao mercado de trabalho, de modo que possamos "usufruir" de todos os aspectos negativos do tráfego cotidiano?



Assim, entre aqueles que vivenciam os problemas cotidianos de São Paulo e ainda a amam, só consigo vislumbrar uma alienação de seus aspectos negativos em prol daqueles positivos. É claro que há muita riqueza cultural na cidade, mas ela não pode compensar todos os seus males, a não ser pela inevitável desvalorização da qualidade de vida enquanto valor: considerar que São Paulo vale à pena, para mim, é nivelar por baixo a própria vivência humana tolerável. 

Mas existe outra espécie de "amante" da cidade: aquele que não se apropria, por suas condições espaciais, de seus pedaços menos simpáticos - vias mais congestionadas, áreas afetadas por enchentes, etc. É particularmente fácil (e conveniente) "adorar" São Paulo quando se vive em áreas residenciais de alto padrão, por exemplo, tais como: Alto de Pinheiros, Itaim Bibi, Jardim Europa, Higienópolis, entre outras. Situação que se agrava quando o indivíduo em questão trabalha em uma região próxima de casa, enfrentanto uma situação de trânsito cotidiana bem menos caótica do que aquela vivida por uma grande massa de paulistanos.

É claro que não podemos generalizar, pois ainda existem muitos que habitam áreas mais favorecidas, e mesmo assim enfrentam grandes intempéries no dia-a-dia; mas, além de serem apenas uma parte dos casos entre os favorecidos, é evidente que paulistanos de diversas classes e regiões são afetados em diferentes graus pelas mazelas da cidade; logo, os prejuízos na qualidade de vida do funcionário que se desloca de sua residência em Pinheiros para uma empresa na Berrini  são bem menos significativos do que de alguém que desloca-se a cada dia do Itaim Paulista, extremo leste da cidade, para uma região central.

Similarmente, é óbvio que o acesso a serviços e aparatos de lazer é extremamente desigual - tanto no que tange às diferenças de renda, quando das de localidade. E essas diferentes formas de apropriação do lado "bom"da cidade também podem trazer consequências distintas para a avaliação da mesma: aqueles com fácil acesso às regiões de Pinheiros, Bela Vista, Vila Madalena, Moóca, ou Tatuapé (para aquela "cervejinha do happy-hour"), podem ter uma avaliação mais positiva sobre sua cidade do que aqueles que não possuem tal acesso.

De todo modo, o ponto que almejo destacar é o seguinte: inevitável que aqueles que "amam" São Paulo, entendida enquanto um complexo urbano com algum sentido unificado, está agindo de forma mais ou menos alienada. Sua alienação pode ser fruto de um sistema individual de defesa, em que precisamos nos "enganar" de que moramos em um bom lugar para esquecer onde vivemos de fato; mas também pode derivar de uma posição confortável na cidade, que permite um simples ignorar de suas condições negativas.  Não vejo problemas em gostar de sub culturas ou locais específicos de São Paulo, mas apreender de modo positivo uma visão generalizada da mesma não passa de um excesso de miopia.

Durante minha vida pré-acadêmica, um professor de Geografia do Cursinho Objetivo - o Professor Nogueira -, com todo o jeito de "animador de torcida" típico dos professores dessas instituições preparatórias para o vestibular, dizia uma coisa interessante: "Não entendo essa coisa de 'orgulho' ou 'vergonha' de ser brasileiro. Nós não escolhemos em que país nascemos! Ninguém diz: 'Eu tenho orgulho de ser um vertebrado! Simplesmente nascemos assim". Por trás dessa idéia, está a noção de que só devemos sentimentos de orgulho ou vergonha aquilo que concerne às nossas próprias decisões individuais - e não aquilo que nos é imposto externamente. Isso não significa, porém, uma simples indiferença com relação às condições a que estamos submetidos contra nossa vontade; em verdade, permite-nos um olhar realista e afastado dessas situações, um reconhecimento de suas qualidades e defeitos com um menor número de ilusões. Acredito que o mesmo possa ser dito sobre São Paulo: ao invés de cultivarmos sentimentos enganadores de simples "orgulho", "amor", "raiva" ou "vergonha", devemos nos afastar minimamente dessas intempéries emocionais e apreender com algum realismo as condições da cidade, com seus prós e contras. Apenas mediante esse exercício de afastamento e choque de realidade, os paulistanos poderão abrir os olhos para as condições sub humanas a que muitas vezes estão submetidos, APESAR das boas formas de apropriação urbana possíveis, cada dia mais raras e menos reconfortantes.

Pedro Macini

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estratégias interativas e o convívio familiar saudável

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Viagens de férias: sempre ótimos momentos para exercer a chamada "observação sociológica de boteco". Especialmente quando há presença de familiares.

A despeito de ser visto, por vezes, como a "ovelha negra" da família (ao menos no quesito ideológico), tentei interagir com a mesma em minhas férias, quando fui convidado a passar uns dias na casa de praia de minha tia.

Esse meu interesse não surgiu do nada, é verdade; nessa altura da vida, momento de grandes transições pessoais, começo a perceber o quão importante é um vínculo comunitário, como aquele típico das relações de parentesco (e outras, que nos são "impostas" pelas circunstâncias - de vizinhança, comunidade nacional, entre outras, em que se predomina um forte caráter emotivo). Embora as relações de tipo societário (relações profissionais, por exemplo, baseadas no convívio com o diferente e pautadas por ações mais racionais que propriamente emotivas) garantam, mais plenamente, o estabelecimento da individualidade, a falta de ligações comunitárias torna especialmente difícil trafegar pelos perigosos mares da fria sociedade de indivíduos anônimos e amizades pouco profundas - hoje, expandida pelo universo das redes sociais.

Mas se comunicar, atualmente, com a família ou outros "companheiros de comunidade", em uma sociedade tão fragmentada como a nossa, exige um verdadeiro malabarismo interativo. Como cada indivíduo tende a possuir uma opinião política, religião, time de futebol, além de vínculos com grupos e instituições distintos, interagir de forma positiva, não-conflitiva, com pessoas ligadas a você apenas por um laço comunitário demanda grande esforço. É difícil, em outras palavras, dar ênfase ao que possui em comum com um grupo quanto tantas outras coisas possuem de diferente. Qualquer deslize na interação, e inicia-se uma acalorada discussão sobre temas polêmicos, com resultados potencialmente catastróficos para os relacionamentos sociais envolvidos (ao menos a curto prazo). É claro que existem arenas específicas para que idéias antagônicas se enfrentem frontalmente, administradas pelas capacidades argumentativas dos envolvidos; mas não acredito que o ambiente praiano, onde a maior intenção seria o apaziguamento pessoal das agitações da vida urbana, seja o palco mais indicado para esse embate de idéias.

Assim, caso exista a vontade de passar um tempo agradável com a família, é de vital importância saber lidar com todas as estratégias e ritos de interação que regem nossa sociedade moderna - muito bem analisados, no que tange à sociedade americana, pelo canadense Erving Goffman (em obras como "A representação do Eu na vida cotidiana", "Relations in Public" e "Interaction Ritual").

Talvez a estratégia mais indicada, para esses casos, seja a da "evitação": simplesmente "fugir" de conversas polêmicas, que, sabidamente, podem fazer os ânimos se exaltarem. Sabendo que ninguém na casa compartilhava meu posicionamento político, evitar falar sobre o assunto protegeria tanto a minha face (já que eu não posaria como "radicalóide" ou "comuna fétido") perante a família, quanto a face de meus familiares - que não seriam acusados de "elitistas" ou "reacionários". Estabelece-se, assim, uma trégua político-ideológica, em prol de um convívio familiar apaziguado.

Aqui, cabe tecer dois comentários paralelos:

Em primeiro lugar, por que se esforçar tanto para fugir de polêmicas? Como já disse no começo da postagem, acredito que todos nós precisamos de algum suporte comunitário para suportar as pressões exercidas pela sociedade em seu aspecto mais impessoal - dependente de escolhas que são, com freqüência, acompanhadas de riscos. Mas há algo a mais a considerar: somos todos seres múltiplos, exercendo inúmeros papéis sociais simultâneos - não temos uma identidade fixa e pré-estabelecida, mas "exercemos" identidades diferentes, de acordo com as circunstâncias (ou, em outras palavras, com o ambiente de interação em que estamos imersos). Assim, eu sou um blogueiro, esquerdista moderado, filho, universitário, amigo, namorado, entre muitas outras coisas. E, por mais que os atores de cada grupo em que me relaciono - colegas de faculdade, namorada, parentes - possam conhecer mais de um aspecto de minha personalidade, é impossível expressar todos os meus aspectos em cada arena de interação.

Desse modo, não só é possível, como "natural" exibir apenas aspectos específicos de nossa personalidade àqueles com quem dialogamos. No caso de minhas férias, concentrei-me em revelar minha identidade de parente, desabilitando todas as características que poderiam me ligar ao "ativista político", em especial. Aspectos não tão polêmicos, como os inerentes à minha posição de sociólogo, não foram tão evitados - me dei o luxo, por exemplo, de analisar criticamente os vícios de meus parentes pelo Big Brother e pela novela das nove.

Importante ressaltar que isso não se trata, para mim, de uma falsidade ou mentira: não neguei, nem ocultei absolutamente, minhas posições político-ideológicas. Apenas não deixei que minha identidade política prevalecesse, supressando  seu exercício em meio ao ambiente familiar. Só com isso pude evidenciar aspectos pouco trabalhados de minha psiquê, como minha identidade enquanto parente, desnuda da influência de outros aspectos pessoais.

O segundo comentário relevante - que também ajuda a negar a falsidade de meu comportamento-, diz respeito à diferença entre o silêncio subserviente e a disciplina interativa. O fato de eu escolher atuar, apenas ou principalmente, como um parente, não significa que anulei totalmente outras características de minha personalidade. Felizmente, existem estratégias de interação que permitem que mostremos nossas diferenças e demonstremos nosso orgulho sem, por isso, ameaçarmos fortemente o bom convívio social; provocações pontuais, brincadeiras e "alfinetadas" permitem-nos evitar a subserviência, deixando claro que não concordamos com aqueles que interagimos - mas, antes, encontramo-nos em um provisório estado de trégua. É como se disséssemos: "Olha, estou sendo diplomático, mas isso não significa que concorde com você".

Assim, minhas opiniões político-ideológicas, assim como as de meus parentes, puderam extravasar na forma de micro-provocações, xistes e "tiradas". Graças a essas ferramentas comunicativas, mantivemos tanto nosso orgulho (com demonstrações claras de que não vendemos nossos posicionamentos) quanto a viabilidade de uma interação saudável. Em outras palavras: não foi necessário "entrar no tapa" (física ou verbalmente). Essa é uma façanha que não seria facilmente alcançada em fases anteriores, em que a única coisa que importava, para mim, era consolidar-me enquanto um indivíduo com idéias políticas próprias - alguém que colocava a boa convivência familiar abaixo da auto-validação identitária. Ou seja: talvez só estejamos aptos à convivência comunitária pacífica, em um contexto de ampla diferenciação social, se tivermos desenvolvido suficientemente nossa identidade, a ponto de deixarmos de lado, por um momento, a nossa fome por aprovação social.

Pedro Mancini


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O estresse contemporâneo e o declínio da tolerência ao sossego

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Incrível como o ritmo frenético da sociedade contemporânea é capaz de disciplinar nossos corpos e mentes. Tive uma demonstração clara disso em minha pequena viagem de férias (algo que não fazia há tempos). 

Há anos sentia falta de uma viagem com a família, em um ambiente tranqüilo, para esquecer um pouco as agitações da vida cotidiana.  Mas não achava que seria tão difícil me adaptar a uma rotina diferente, depois de tanto tempo em um ambiente que tolhe profundamente minha produtividade com suas múltiplas demandas: durante dois ou três dias, depois que cheguei ao meu destino, meu próprio corpo mostrou dificuldades me se adaptar, estranhando os novos ares de tranqüilidade. No primeiro dia, problemas gástricos me afligiram; no segundo, acordei com a boca inexplicavelmente inchada. E ainda tive uma forte dor de cabeça entre o segundo e o terceiro dia de viagem.

Não pude deixar de pensar que meu corpo simplesmente rejeitava o novo ambiente, adaptando-se com grande lentidão às novas circunstâncias. Como ele poderia entender que, de uma hora para outra, havia abandonado um clima nocivo e com inúmeras distrações, e ingressado em uma área mais pacífica e amena, onde eu poderia encarar minha própria alma sem ser ter a visão obscurecida por toda espécie de obstáculos?

É claro que, eventualmente, acabei por me adaptar de forma plena. No quarto dia, minhas férias atingiram o seu ápice: minha noite de sono foi perfeita, acordei disposto como há tempos não ficava, e aproveitei o dia ao máximo: tomei sol, passeei, e até interagi com meus pequenos primos de segundo grau, com quem passei horas jogando baralho e jogos de tabuleiro. No fim, meu corpo aceitou todos os prazeres que aquelas férias lhe podiam proporcionar.

Mas o ritmo frenético da sociedade contemporânea não nos penetra de forma superficial; encrava-se nas entranhas de nossa alma. Assim, em pouco tempo já comecei a sentir a angústia típica de um afastamento desse mundo moderno, uma verdadeira crise de abstinência: preocupação com o tempo de produção perdido na praia, com as finanças, com questões profissionais menores, etc. Começara o declínio das férias: excesso de chuva, sobrecarga de jogos de tabuleiro, e sintomas  de estresse pela falta de estresse. Era hora de voltar à realidade.

E, realmente, parece que o ambiente conspirava a favor de todo esse meu desenvolvimento mental: agraciou-me com um excelente clima nos primeiros dias, atingindo seu ápice no momento em que meus sintomas de adequação à tranqüilidade se apaziguavam; decepcionou-me com suas variações climáticas quando fui acometido por ansiedades; e voltou a me animar com muito sol no dia de meu retorno à cidade grande. Voltei, enfim, com a impressão que descansei quase na exata medida que precisava e poderia - tendo, talvez, extrapolado um pouco a medida.

Mas meu corpo, eterno insatisfeito, iria novamente passar por um período de re-adequação. Sentindo o impacto de ser removido de um ambiente com o qual tinha acabado de se acostumar, para regressar a um local com um ritmo totalmente distinto, voltei a sentir alguns pequenos distúrbios - em especial, um princípio de gripe. No dia seguinte, é claro, já havia melhorado - o que apenas reforça a tese da adaptação.

Para resumir bem a questão, o estresse, em uma sociedade que nos conecta a inúmeras demandas concomitantes a todo tempo, envolve-nos de forma tal que coloniza até o que chamaríamos, outrora, de nosso "horário livre". Não existe mais como escapar: até mesmo em nosso descanso, somos impelidos a produzir - e a pressão materializa-se, nos poucos momentos em que somos bem-sucedidos nessa fuga da realidade, na forma de uma auto-pressão que pode se tornar insuportável. Eventualmente, após um choque de adaptação, nosso corpo pode até tolerar uns momentos de paz, é verdade; mas nossa tolerância ao sossego pode ter sido irreversivelmente reduzida ao mínimo.

Pedro Mancini

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Público, privado e íntimo no uso da internet: falência de uma promessa pós-moderna

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Desde seus primórdios até alguns anos atrás, a internet aparecia, para seus usuários, como uma espécie de "dimensão paralela", onde cada um de nós poderia "se realizar", expondo suas vontades e desejos mais íntimos. O anonimato, que tinha forte peso, protegia a imagem do indivíduo no mundo de fora das telas enquanto navegava pela rede. Os chats de encontros amorosos e sexuais bombaram, prometendo a realização de fantasias cotidianamente recalcadas. 

Assim, a internet era vista como um ambiente onde os indivíduos poderiam expor sua intimidade; de certo modo, era uma extensão da vida privada, com a grande diferença de que as relações eram voluntariamente estabelecidas (enquanto na esfera privada doméstica, por exemplo, grande parte das relações, salvo as amorosas e de amizade, era obrigatória - com os familiares, em especial). Com os contatos estabelecidos online, esperava-se um compartilhamento de interesses e intimidades similares ao de amizades e casos sexuais da vida física. 

Mas, com o desenvolvimento da internet e o engolfamento das relações físicas por ela, o caráter "íntimo" de seu uso ficou mais obscuro, difícil de discernir. Hoje, com a difusão das redes sociais e a redução da relevância do anonimato, não é mais possível garantir que as ações de um indivíduo na rede passarão incólumes em suas relações sociais de fora das telas do PC ou do celular: o seu empregador poderá saber de suas folias na noite, sua namorada poderá bisbilhotar seus scraps no Orkut e encanar com seus contatos no Facebook, fotos comprometedoras poderão se esparramar pelo mundo a uma grande velocidade, amizades poderão ser perdidas por um simples deslize. 

Os embricamentos entre público e privado ocorrem em vários níveis: no universo micro-social das menores interações, com diálogos privados expostos para outrens não diretamente envolvidos, e até nas vendas de informações pessoais de administradores de redes sociais para grandes corporações (vide o caso do próprio Facebook). É por isso que alguns já tem apontado para a impossibilidade de se pensar a sociabilidade das redes sociais a partir de conceitos fixos como os de "público" e "privado"; na verdade, as relações virtualmente fundamentadas se baseiam em princípios de ambas as esferas, não podendo ser classificadas por apenas um lado do espectro (as informações são, muitas vezes, compartilhadas publicamente, embora possuam conteúdo privado ou de foro íntimo). 

Muitos indivíduos já se deram conta das armadilhas inerentes a esse pensamento ingênuo, de que se pode "agir de modo livre" na internet. Usam, assim, as redes sociais de forma mais cautelosa, preocupados com a preservação de suas imagens offline, instrinsecamente ligadas ao seu comportamento virtual cotidiano. No Facebook de hoje esse auto-controle é mais visível do que, por exemplo, no Orkut de anos atrás; ainda vemos alguns deslizes graves, contudo, em redes como o Twitter (como nos casos de manifestações xenófobas, já discutidas em outra postagem desse blog - caso típico de exibição pública de opiniões privadas, que acarreta em fortes represálias para seus autores, já que possuem alcance público). Grande parte dos usuários já sabe, porém, que qualquer informação emitida poderá futuramente ser usada contra o usuário emissor, quando apropriada por um inimigo potencial ou real. A partir dessa preocupação, surgiram inúmeras recomendações de conduta online, que vão desde a previsão e prevenção de ataques pedófilos contra usuários mais jovens, até simples recomendações de etiqueta - códigos de conduta específicos para os meios de comunicação virtuais, que visam maximizar a convivência e minimizar as exposições de intimidades. Recentemente, o blog "Tec", da Folha de São Paulo, difundiu algumas dessas recomendações, objetivadas em todo um código de comportamento, apelidada de "netqueta":

"(...) E no que consiste a netqueta? É uma maneira de registrar certas condutas em redes sociais e locais semelhantes no ciberespaço, de modo que não incomode os demais.

Mais ainda, que não prejudique o próprio internauta --lembre-se: empresas checam as redes sociais em busca de “antecedentes” dos futuros profissionais ou candidatos a emprego. Já faz parte da cartilha de consultorias, e da própria internet.

Então, antes de postar aquela foto de lingerie um tanto quanto, hum, “sensual”, no seu Facebook, Twitter ou Orkut, dê uma lida rápida nas dicas dadas aqui embaixo (...):




 Evite colocar fotos simulando nudez, ou fotos de roupas íntimas. Não é sexy, é exposição demais --redes sociais também são como um encontro entre pessoas, então é como se você tirasse a roupa em um ambiente público. Lembre-se da capacidade de multiplicação da internet! Você pode se arrepender daqui a alguns anos, mas o Google pode continuar expondo essas fotos quando se busca pelo seu nome. Fotos de nudez explícita, nunca. Lembre-se: existem brechas em sites sociais que, inclusive, permitem o compartilhamento de imagens com pessoas que não são suas amigas por lá.

- Pule as descrições e pormenores de sua vida, em qualquer rede. As pessoas não se interessam por isso, e você cai no risco de ganhar um “hide” ou um “unfollow” dos seus amigos virtuais.
- Fotos de balada, fazendo pose de "poderoso", "jet-setter" ou "insider" podem dizer bem o oposto disso. Be careful!
- Não vale postar ensaios fotográficos amadores, feitos na escada de incêndio do seu prédio ou na sala de casa. Pelo simples fato de que não é bom ou bonito, é amador, por mais que você seja o Brad Pitt (ou Angelina Jolie, tanto faz)! Mas atenção: ensaios divertidos, com bom-humor e bom-senso sempre são bem-vindos.
- Diga não ao Photoshop. Retoques malfeitos podem ressoar pior do que uma beleza natural.
- Repudie fotos de si próprio no espelho e fotos de si mesmo sem olhar para a câmera. É meio forçado...
- Evite frases de efeito da Clarice Lispector. É uma grande escritora, sim, mas a leia antes. Conheça. Muito do que se difunde como sendo de sua autoria não é.
- Dentro disso, não tente impressionar demonstrando conhecimento sobre coisas que você não domina. Não é feio não saber das coisas. Sócrates, um dos filósofos mais brilhantes da nossa história (e era analfabeto, vejam só), resume: “só sei que nada sei”. Não é clichê, é real.
- Não tire foto de qualquer coisa e poste em redes sociais. Uma samambaia que é empolgante para um não é, certamente, para muitos outros.
- Saia fora de descrições minuciosas sobre as suas viagens. Seja sucinto. E poste um monte de fotos depois, elas falam por si só. Acessa somente quem quiser vê-las. E fim de papo (...)".


Pois é, navegar pelas redes sociais ficou muito mais sem graça, de certo ponto de vista: esse tipo de conjunto de regras de conduta, como o exposto pela Folha, limita enormemente as possibilidades do agir  espontâneo e livre, promessa vendida pelas ferramentas desenvolvidas na sociedade dita "pós-moderna". Vemos que, enquanto as novas formas de comunicação virtuais não são absorvidas pelas esferas mais "físicas" de interação, essa promessa até que se cumpre minimamente: Quando a esfera virtual se mantém como uma espécie de "dimensão paralela", deslocada de nossas relações físicas, tendemos a nos manifestar de modo menos limitado, buscando mostrar "quem de fato somos" pela exposição de depoimentos, opiniões e até imagens e vídeos que revelam características que - em geral - só exibimos para nossos contatos físicos mais íntimos. O anonimato foi uma das ferramentas empregadas para viabilizar esse "isolamento" do mundo virtual sobre o mundo físico. Conforme o universo virtual é absorvido pelas outras esferas - quando nossos chefes, amigos, amores e vizinhos também compõem nossa rede de contatos e/ou podem acessar livremente as informações que emitimos -, contudo, vemo-nos cada vez mais amarrados a regras de sociabilidade muito similares àquelas que balizam nosso comportamento em ambientes públicos da vida cotidiana. E, assim, a promessa da "pós-modernidade" perde boa parte de seu sentido.



Pedro Mancini
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A reflexividade do reveillon e balanço do blog

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Quem me conhece, sabe que estou longe de gostar de dias comemorativos baseados, tão somente, em uma tradição - especialmente quando vinculadas a motivações religiosas, como o Natal. Mas não irei, hoje, criticar as comemorações do suposto dia de nascimento de Cristo. A crítica ao Natal, moda nas redes sociais, não me motiva a ser mais um a falar, por exemplo, sobre as contaminações capitalistas da data ou a falta de veracidade histórica do dia que teria sido, na verdade, escolhido para concorrer com festividades pagãs.

Falarei, na verdade, sobre uma outra data comemorativa, que valorizo muito mais do que o Natal ou outros eventos religiosos tradicionais, e que ainda está por vir: o ano novo. Embora também tenha sido estabelecido pela sociedade a partir de critérios arbitrários, a cerimônia do reveillon ocidental possui a grande vantagem de poder ser apropriada individualmente. Todos os demais feriados que me lembro têm a função única de acentuar solidariedades de dados agrupamentos sociais - tanto os feriados católicos quanto, por exemplo, os de cunho étnico ou racial,  que visam solidificar os laços de união dos componentes da mesma comunidade de pessoas. Já o ano-novo é um feriado que possuiria como função principal a difusão da reflexividade em vários níveis de existência: planeta, país, grupo social, instituição, etc. Todos são convidados a pensar sobre sua atuação e os principais acontecimentos que os afligiram em um período de (salvo exceções que nunca compreendi totalmente) 365 dias. Refletimos sobre o mundo e o país, com ajuda dos programas televisivos "retrospectivos"; grupos em que estamos envolvidos, como empresas e outras agremiações sociais ou políticas, desenvolvem "balanços" sobre seu desempenho no ano; e, no que tange às histórias individuais, a reflexividade está presente no interior de cada "pulador de ondas" do dia 1º de janeiro, por meio de promessas para o próximo período e meditações, de várias espécies, centradas na interpretação dos avanços e retrocessos ocorridos durante o ano prestes a findar.

Nesses momentos, podemos repensar cada passo do ano, de forma racional e secular, mesmo ignorando todas as superstições típicas da época (usar roupas brancas, comer lentilhas, pular sete ondas, etc., etc., etc.). Essa característica reflexiva do ano novo é muito bem objetivada na já mencionada "lista de promessas", por muitos elaborada horas antes da virada; por mais que as promessas ali feitas não sejam cumpridas no ano vindouro, ela nos dá as balizas para "manobrarmos" durante a nova jornada anual, estabelece objetivos a serem focados, capazes de orientar nossas ações e decisões de conseqüência a médio e longo prazos.

Pondo em prática minhas crenças pessoais, de que pensar reflexivamente sobre as próprias ações têm seu lado positivo, possibilitando um desenvolvimento contínuo, aproveito esse momento para fazer um "balanço" anual do blog.

Para começar, vemos que a produtividade de meu blog aumentou substantivamente em 2010: de apenas 10 postagens em 2009, atingi 45 no ano presente. Número simbolicamente infeliz, por sua associação político partidária, mas que representa um aumento de 350% no número de postagens. Em comparação com um ano mais produtivo, 2008, o aumento também foi enorme: de 24 para 45, 87,5% a mais. Uma maior diferença  pode ser vista na média mensal de postagens: em 2009, praticamente não escrevi durante todo o ano; publiquei apenas uma postagem nos meses de Janeiro de Julho, e 8 vezes (um recorde para meu blog) apenas durante o mês de dezembro. Essa elevada produtividade nos últimos momentos do ano anunciaram o que se podia esperar de 2010: um elevado número de publicações. A média, então, elevou-se de 0,83 postagem por mês para 3,75 - quase atingindo minha meta de 4 publicações por mês, ou uma postagem por semana.

Além de aumentar a produtividade, mudei, substancialmente, a aparência do blog. Por várias vezes, fiz pequenas alterações visuais para melhorar a experiência do eleitor, até o blog ficar do jeitinho atual, com o qual ingressará no novo ano.Claro que no meio do caminho tropecei algumas vezes, inclusive porque não sou nenhum especialista em edição de blogs; chegaram até a puxar minha orelha, pela dificuldade em ler as postagens, quando o blog adotou uma aparência mais escura. Mas, no fim, acredito que mudamos para melhor.

Todas essas alterações, aliadas à aplicação de estratégias de divulgação nas redes sociais, fizeram com que meu blog passasse da categoria "lido por ninguém" ou "ligo apenas pelos dois melhores amigos" para a categoria "ligo por QUASE ninguém" ou "lido por meus amigos e mais alguns cidadãos curiosos e interessados". Mas a verdade é que nunca cheguei a investir pesado na propaganda: recusei vários métodos de divulgação que achava intrusivos ou "malandros" demais. Quando acho que publiquei algo que não é de interesse geral, por exemplo, não costumo divulgar a postagem entre minha rede de contatos (como não farei com a postagem atual). Valorizo manter poucos leitores que verdadeiramente interagem com o blog, mais do que contar com muitos visitantes que acharão meu espacinho virtual desinteressante e nunca voltarão ou participarão das discussões. Por isso, acredito que consegui avançar na medida certa, sem expandir o blog demasiadamente, de modo que não poderia controlá-lo e mantê-lo minimamente interessante. É claro que, conforme fique seguro sobre a qualidade das minhas postagens, poderei investir em mais estratégias de propaganda. Vejamos se isso se realizará no ano de 2011.

Agora, algumas palavras, justamente, sobre a contribuição dos leitores. Contei 53 comentários nessa ano de 2010, mas os meus próprios estão incluídos na conta (respostas aos comentários dos visitantes): Uma média de 1,17 comentários por postagem. Se, por um lado, fico muito feliz em ter suscitado alguma discussão, por outro admito que esperava que os debates ocorressem em maior número, e que fossem mais extensos. Não é muito boa a sensação de que a escrita do blog não passa de um exercício narcisista, em que um monólogo é estabelecido, antes de um real intercâmbio com os visitantes; desde o início, deixei claro que a intenção de meu blog pessoal era a difusão do livre debate de idéias. Parte dessa falta de participação se dá por problemas típicos da sociedade da informação, acredito, onde a real discussão é muito prejudicada, em detrimento do exercício egoísta e fragmentado de exposição pura e simples de opiniões. Mas estou esperançoso de que essa tendência poderá mudar aos poucos, e conto com um diálogo muito mais intenso entre editor e leitor nos próximos meses. E farei de tudo para promovê-lo, na medida do possível.

Digo "na medida do possível" porque, como os mais próximos de mim sabem, esse ano será "paulera".Além da procura por um emprego, deverei me dedicar à redação final de minha dissertação de mestrado. Temo que isso, inevitavelmente, prejudique minha produção; mas meu amor pelo blog permanece, o que permite que eu lute com todas as minhas forças para mantê-lo muito ativo.

Quero registrar meu obrigado a todos que me honraram com sua visita. Segundo meu contador, vocês fizeram meu número de visitantes subir para mais de 2000; um número bastante humilde em meio à blogosfera, mas que, dada a natureza do blog, me enche de felicidade. Valeu mesmo! E que venha 2011...

Pedro Mancini 



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O "pior dia do ano": lamentos pouco justificados

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Hoje, utilizarei o espaço desse blog de uma forma um tanto distinta da habitual: descreverei o dia que considero, sem muitas dúvidas, o pior do ano para mim. A partir daí, pode ser até que desenvolva algumas reflexões mais amplas, sobre a vida na metrópole (explícitas ou implícitas); mas o principal objetivo é mesmo, admito, o puro desabafo.

O dia já começou mal, antes mesmo do sol raiar: tomado pelo calor, tive grandes dificuldades para dormir. E tinha que acordar cedo, para me deslocar até o centro e solicitar, em um prédio do SUS, um remédio de alto custo. Para mim, o local era desconhecido e quase inacessível: perto do Largo do Glicério. Pois bem, fui até a Praça da Sé e, de lá, andei uns 20min até o local; lá chegando, peguei uns 40min de fila para solicitar cadastro de solicitação de remédios, apenas para descobrir que tinha um documento faltando. Bem, pensei, ao menos já me informei de todos os detalhes burocráticos sobre o procedimento. Da próxima vez, não haverá falhas. Mas é claro que o dia estava apenas começando: percebi o quanto ele seria longo quando me vi um tanto perdido entre os viadutos do Largo do Glicério, procurando algum metrô nas proximidades. Senso de localização nunca foi meu forte, afinal.

 Atravessando um desses viadutos, então,o fato mais marcante do dia me atingiu: um sujeito, vindo em sentido contrário, tira algo como uma comprida chave de fenda de um saco preto, e ameaça "me furar todinho" caso eu não lhe entregue todo o dinheiro de minha carteira. Estava bem no meio do viaduto, isolado da "terra firme", com pouco espaço para realizar qualquer manobra evasiva. Notável é que estava, também, sem dinheiro (com apenas R$2,00 na carteira), e tive provar essa "pobreza" ao assaltante. A seguir, mandou-me entregar o que tinha nos bolsos: mais uma vez, disse que nada possuía. Enfim, mandou-me entregar o meu aparelho de celular.

Nesse momento, admito que tentei, no calor do momento, pensar em alternativas que escapassem das ações  mais óbvias que se esperariam dessa interação social entre "assaltante" e "vítima": mediante ameaça, o assaltado entrega o objeto requerido pelo assaltante, que, consumado o roubo, cessa a interação e deixa o local com velocidade. Ao invés, tentei me esquivar do rapaz... mas tive uma sorte, travestida, inicialmente, de azar: o assaltante reagiu aos meus pensamentos e avançou com a arma branca que portava. Segurei a mesma, mas, agindo racionalmente, verifiquei que corria muitos riscos com a reação que esboçava. Eu tinha chances de conseguir escapar do assalto, de fato; mas, caso ele tivesse a chance de me ferir, estaria no meio de um elevado, com uma mureta me separando dos veículos que passavam na pista, e não poderia contar com nenhuma ajuda por um tempo considerável. Não valia a pena todo esse risco por um simples celular (que nem era dos melhores ou mais atuais), mas a idéia estúpida de reação realmente passou pela minha cabeça na exata hora do assalto. Burrice minha, mesmo - e sorte por não ter sido furado, afinal.

A história poderia ter acabado assim: perdi o celular, mas minha vida foi poupada, assim como minha carteira e minha mochila. Rapidamente liguei para pessoas próximas, solicitando que bloqueassem meu celular. A única preocupação que teria seria a de comprar outro aparelho - me conformei rapidamente com o fato de que nunca iria recuperar o meu antigo. Mas outro fato - infelizmente, como ficará claro - realimentou provisoriamente minhas esperanças. No momento em que eu adentrava o Metrô Term. Pedro II, um motoboy buzinou, chamando minha atenção. Disse que havia testemunhado a ação, e embora não pôde fazer nada no exato momento, seguiu o assaltante em fuga, e, avistando um carro da polícia, o acionou. Os policiais chegaram a abordar o sujeito, o revistaram, mas o mesmo estava limpo: já havia se livrado dos objetos que o  incriminariam, o celular e o objeto pontiagudo. Mesmo assim, achei que se eu mesmo falasse com a polícia, teria chances de recuperar meu aparelho. No que estava pensando?

Chamei, então, os agentes policiais. Após 40min de espera, liguei novamente e descobri que a viatura não me localizou; passaram do outro lado do Terminal. Aguardei mais uns 45min para eles me encontrarem de fato. Nesse ponto, já havia novamente perdido qualquer esperança de reverter a situação; e a polícia também estava cansada de me procurar. A única coisa que fez, então, foi me levar até a delegacia mais próxima, a primeira de São Paulo (1ºDP), perto do Paraíso. Lá, mais um martírio: um flagrante atrapalhou o atendimento, e esperei mais de três horas para conseguir fazer o B.O. E, ansioso com toda a situação, ainda consegui grampear meu próprio dedo enquanto ditava as informações ao policial (tenho mania de mexer em tudo que se encontra ao redor quando estou nervoso). Um temperinho final para meu dia de aventuras.

Por fim, como não poderia faltar, mais de 2h de trânsito. Ao todo, mais de 5h para resolver um simples caso de roubo de celular... sem direito a refeições durante todo o período. Após esse alvoroço, bem descansado, alimentado e banhado, penso que não sou um grande desafortunado. No final, não passo de mais um jovem "pequeno-burguês" me achando o maior dos azarados apenas por um dia ruim, em comparação com minha rotina ordinária; mas quantos não passam por uma situação igual, similar ou mesmo bem pior, muitas e muitas vezes ao ano, quiçá na maioria dos dias? Em uma análise fria, fui mesmo muito sortudo, comparativamente falando: poderia ter perdido todos os documentos e despender muitas horas a mais cancelando cartões e solicitando segundas vias; poderia ter sido morto ou ferido; poderia morar a três ou mais horas de ônibus do local; ou poderia, até mesmo, ser um sujeito tão excluído que seria capaz de assaltar um transeunte apenas para conquistar mais alguns minutos de felicidade hiper-real, pelo consumo de alguma droga pesada - correndo todos os riscos de ser apanhado e destruído pelo sistema durante a tentativa. E eis que, de repente, minha desgraça pareceu minúscula e patética.

 Pedro Mancini