Mostrando postagens com marcador individualismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador individualismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de março de 2013

Sinais corporais e o pavor pelo insosso

5 comentários:
Uma das maiores forças que levam muitas pessoas a tomarem certas atitudes com relação ao próprio corpo e a moldar seu comportamento em público é um enorme pavor por se parecer insosso aos olhos dos outros. Explico. 

Em uma sociedade profundamente marcada pelas aparências e por um individualismo qualitativo exacerbado e voltado "para fora", não há exigência mais constante para a vida social do que a de se parecer "descolado", "sedutor" e "interessante". E o uso do "parecer", aqui, não é banal: deve-se portar e emitir SINAIS EXTERIORES CLAROS, APARENTES, capazes de IDENTIFICAR AS CARACTERÍSTICAS "DESCOLADAS" da personalidade individual. Podem entrar em cena, aqui, as inúmeras tatuagens que permeiam os corpos plásticos contemporâneos, o cuidado extremado com o corpo em geral, o uso de piercings e outras marcas visíveis, que trazem a informação de que o indivíduo portador é "corajoso", "alternativo" e que "tem personalidade".



Itens de vestuário mais "personalizados" parecem cumprir função similar de destaque do indivíduo em meio à massa da indiferença (e, dialeticamente, de conformação e identificação a certos grupos sociais). As roupas, assim, também podem exprimir sinais corporais de um "eu performático" voltado inteiramente para se provar a posse de características pessoais socialmente valorizadas - que, de outro modo, desapareceriam no universo preto e branco da intimidade insulada.

É claro que, por um lado, falo de um fenômeno já discutido exaustivamente pela Sociologia, pela Psicologia e  por disciplinas relacionadas: a velha dialética da socialização composta, concomitantemente, por movimentos de conformação e diferenciação. Quem adota um estilo estético preocupa-se, ao mesmo tempo, em se sentir inserido nos grupos com os quais se relaciona  (e, nesse sentido, "pega mal" não se mostrar descolado ou antenado com a moda) e em destacar-se individualmente desse grupo como um ser de personalidade própria, inconfundível com qualquer outro.

Para exemplificar, a vontade de se tatuar pode traduzir a necessidade de conformação e identificação a grupos (genéricos ou específicos) de tatuados - tidos, pela sociedade, como indivíduos mais "descolados" que a média; já o desenho selecionado para se tatuar pode derivar de uma experiência íntima própria, capaz de conferir um sentido único a essa marca e exprimir uma identidade pessoal inconfundível ao portador perante os demais. Mas  parece que, nos dias atuais, o segundo movimento da dialética da socialização - a diferenciação ou individualização propriamente dita - predomina sobre a mera conformação ou adequação aos grupos (mais na intenção do que na prática, já que chegamos a um ponto em que se tornou difícil considerar que uma tatuagem destaque qualquer um perante uma massa de indivíduos portando o mesmo tipo de sinal corporal). Aqueles que marcam o corpo parecem, para mim, mais motivados por uma vontade de diferenciação do que de mera conformação social; e essa necessidade é indissociável da exposição pública de sinais personalizados e individualizantes.

Do mesmo modo que não basta ter opiniões próprias e tocar atividades cotidianas sem expô-las nas redes sociais (videm postagem anterior), já não basta possuir hobbies e passar por experiências pessoais tidas como biograficamente enriquecedoras: é preciso ESCANCARAR essas vivências, direta ou indiretamente; transformar-se em um aparato simbólico ambulante de indicação dessas experiências íntimas. Tais sinais servem como indício "irrefutável" de que somos pessoas interessantes, com experiências de vida significativas - que não merecem, portanto, ser classificadas como "insossas", "sem sal" ou sem graça. Tatuagens, piercings e roupas "maneiras" podem se reduzir, assim, ao papel de atestados simbólicos de que somos pessoas com quem vale a pena se relacionar. 



Não desprezo, aqui, as experiências particulares que se externalizam em marcas corporais: hobbies, relacionamentos, experiências religiosas, músicas, bandas e filmes favoritos... temas que nos envolvem, nos marcam, nos seduzem. Todos compomos mentalmente nossas biografias, conferimos artificialmente nossas identidades pessoais, com base nessas experiências e gostos.  O interessante, para mim, é essa aparente obsessão em criar e carregar sinais que "materializam" essas experiências, traduzindo-as em formas físicas observáveis a olho nu; como se elas fossem capazes de transcender a esfera da imaterialidade, dos sonhos e da memória, ao serem transpostas para a pele - e, nesse estado, percebidas, observadas e elogiadas aos olhos da sociedade. Não basta viver ou sonhar: é preciso registrar e exibir. E eis que convertemo-nos, indiretamente, em peças publicitárias de nós mesmos: exteriorizando vivências, acreditamos que não seremos abandonados, como mercadorias obsoletas e insossas, na prateleira do competitivo mercado de orgulhos em que estamos imersos.

Pedro Mancini

sexta-feira, 1 de março de 2013

Relacionamentos superficiais

4 comentários:
É claro que, como sociólogo, sempre tento transformar questões pessoais em problemáticas sociológicas, exercitando a velha "imaginação" teoricamente inerente à profissão. Mas é especialmente delicado realizar esse exercício quando falamos de certos temas, como relacionamentos. Nesses casos, fica ainda mais difícil saber até que ponto falamos de um problema coletivo, difundido pela sociedade (ou parcelas dela), ou se a questão só pode ser notada em nosso próprio mundo pessoal.  

Pretendo, mesmo assim, navegar pelos mares inóspitos do amor e do relacionamento, sofrendo sérios riscos de naufrágios analíticos. Mas quem se importa?

Começo, como sempre, compartilhando algumas impressões. Ok, não sou a pessoa mais fácil do mundo para lidar - apesar de já ter melhorado muito nos últimos anos, de acordo com minha própria (logo, duvidosa) avaliação. Mas me parece que os "outros" estão, muitas vezes, ainda mais difíceis. Aparentemente, há um medo generalizado de entrega, de compreensão e interação plena com o Outro - independentemente do tipo de relação afetiva que pensamos. Há uma clara dificuldade comunicativa entre os que se dizem abertos para ficar, namorar, ter um caso... se relacionar, enfim. Então, questiono-me: que tipo de relacionamento procuram? Quais são suas possibilidades e limitações? E o que aquilo que "não procuram", que evitam desesperadamente, pode nos dizer a respeito das dinâmicas da sociedade atual?

O interessante é que o pavor que essas pessoas demonstram parece aliado, contraditoriamente, a uma necessidade de se provar o quanto são libertários, "abertos ao novo" e descolados. Mera casca, pelo jeito.

Ok, falo de um perfil específico: uma parcela dos solteiros da casa dos 30. Importante pontuar isso, já que muitos percebem um movimento de progressivo conservadorismo entre os mais jovens (crianças e adolescentes).

Mas voltemos aos trintões: A percepção que tenho é de uma contradição entre o discurso de liberdade e realização sexual  e a dificuldade extrema de um envolvimento efetivo. É como se todos conseguissem falar de sexo abertamente, mas sem praticá-lo senão superficialmente;  como se fossem virtualmente carinhosos, sem estabelecer diálogos profícuos no tete-à-tete; como se adorassem perguntar como você está pelo chat, sem se preocupar genuinamente com a resposta ou com o que lhe acontece na vida física. É muito fácil transmitir a imagem de um ser liberal, bondoso e preocupado com a vida de seus semelhantes no discurso, mas parece ser extremamente difícil e doloroso abrir-se a ponto de, na prática, compartilhar sentimentos e afetos mais densos.

É claro que só percebo esse movimento quando ajo na direção contrária: incomodado com uma dada situação, como o distanciamento "real" de uma parceira presente no discurso, vejo-me conversando com a parede - preso em uma "comunicação" de mão única. Assim, noto que minha recém-adquira (e ainda muito relativa) facilidade de comunicação e de exposição de sensações não é partilhada por meus pares. O carinho das palavras tecladas desaparece na conversa pelo telefone e na constante esquiva ao encontro pelo mundo de asfalto.Na tentativa de dissipar a sedutora névoa dos "carinhosismos" su perficiais e descobrir "o que rola de verdade" com o próximo, deparo-me com um ser passivo, medroso como uma criança de 6 anos que, sendo repreendida por uma "arte", apresenta uma postura meramente defensiva e reativa. Um ser desprotegido, vulnerável, sentimentalmente desnudo - por mais que, usualmente, se apresente como um Golias do autoconhecimento e da segurança emotiva.

Essa dificuldade relacional se expressa, também, em uma postura de agressividade passiva: não há qualquer abertura para o diálogo, qualquer brecha para uma comunicação em duas vias, para a construção de um ponto comum em meio a divergências cotidianas. Existe, tão somante, o confronto de pontos de vista tratados não só como inconciliáveis, mas incomunicáveis! Há  o silêncio do Outro; um silêncio que não  traduz a concordância, mas a dificuldade e covardia comunicativa.  Ao mesmo tempo, há o tratamento  do ponto de vista do interlocutor - aquele que se expõe, cuja perspectiva acaba sendo a única apresentada - como algo a se reagir e revidar, e não compreender e analisar. Não há substratos, não há matéria prima para o aprendizado de um novo ponto de vista ou opinião. E então reflito: se isso ocorre no âmbito dos relacionamentos afetivos, como essas pessoas pensam sobre questões mais amplas, como a política? Será que há possibilidades de construção de algo "novo" no ambiente público, já que essas possibilidades já são limitadas na esfera da intimidade intersubjetiva?

Voltando às explicações para essa suposta falta de interação "real", encontro-me teorizando novamente sobre o grau de insegurança de muitos de nós, que vendem uma imagem totalmente incoerente com aquilo que sustentam nas interações. O risco iminente de desvendamento das emoções e personalidades camufladas por essa estratégia de auto-manipulação resulta em um medo paralisante e uma fuga desesperada. De certo modo, é como se apenas as relações baseadas em trocas superficiais de informação valessem verdadeiramente a pena, e qualquer pressão por significância arrastasse a (tentativa de?) relação  para o bueiro. Será que, nos conturbados dias narcisistas de hoje, não há graça na significância de relações concretas?

Convoco, por fim, os interlocutores de plantão a me ajudarem: seriam as minhas experiências por demais individuais, ou seriam elas minimamente partilhadas? Por mais que não possamos falar de um problema "apenas" individual ou "apenas" coletivo, até que ponto estou dando um peso excessivamente social para uma questão deveras pessoal? Perguntas para as quais meu grau de envolvimento direto não permitem repostas diretas e imediatas.



Pedro Mancini

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ardilosas, porém amadas: As contradições e perversidades das postagens virtuais

7 comentários:



Alguns fatores, nos últimos dias, fizeram-me relembrar desse espaço semi-abandonado: conheci (mais) uma pessoa que possui seu próprio blog, e me identifiquei com sua alegria em difundir os pensamentos pela rede. Além disso, notei minha ansiedade por sentir meu pensar cotidianamente devorado pelas responsabilidades profissionais, e o quão interessante e curioso é retomar aquilo que escrevemos meses e anos atrás. 

Relembrando nossos escritos anteriores, podemos reviver um pouco das alegrias e frustrações do passado - e refletir sobre as aflições relacionadas à posse de um blog e um perfil do Facebook. A princípio, a análise de nossa escrita virtual pode ser uma ótima forma de fazer um "balanço" sobre as mudanças que ocorreram em nossa forma de pensar, e captar aquilo que nada ou pouco mudou, conferindo alguma unidade à nossa conturbada biografia. E foram, enfim, essas constatações que me fizeram voltar à ativa. 


Mas escrever em um blog - e, paralelamente, manter-se ativo no Facebook ou outras redes - é tão estimulante quanto arriscado. Por isso, trata-se de uma fonte potencial  de  ansiedades cavalares. O outro lado desse papel "biográfico" das postagens é, na verdade, o tema de hoje. 

De uma perspectiva, o autor de postagens virtuais sente-se "vivo"ao entrar aparentemente em contato com todo um universo de possíveis interlocutores: não mais guarda suas opiniões e convicções para si, mas as expõe para uma rede de contatos (ou para qualquer um que se interesse), o que pode lhe conferir uma enorme sensação de liberdade e  de coesão identitária: existimos quando escrevemos e, mais ainda, quando o fazemos em público. O "olhar do outro" cumpre um papel essencial na formação de identidades, como tantos autores já concluíram.

O caráter público das postagens reforça a impressão de pertencimento ao mundo. Não se percebendo como recolhido a uma bolha individual, incapaz de fomentar qualquer debate substantivo com o outro, o autor de um blog, por exemplo, pode se sentir mais vivo nesse ambiente do que na reclusão do quarto em que redige suas postagens. O isolamento e a invisibilidade social podem lhe atormentar na vida física, mas nos céus da virtualidade há a nítida noção de que se é menos invisível aos frios olhos da sociedade atual. 

Há, contudo, uma armadilha nesse raciocínio: afinal, impressões não escapam do âmbito das ilusões. A sensação de liberdade, identidade e existência que o blog e, em medida similar, as próprias redes sociais favorecem não dialoga com a realidade dos fatos: A liberdade, tanto para o redator de blogs quanto para os indivíduos que interagem no circo da vida física, é condicionada e massivamente limitada.  

Assim, estamos condenados a não escrever a primeira coisa que nos vêm à mente; afinal, somos continuamente sujeitos ao controle do olhar alheio. Nossas postagens nos expõem, pessoal e profissionalmente; e, quando paramos para refletir sobre o tema, emerge a noção de pisarmos em ovos a cada palavra redigida no universo virtual. Cada opinião emitida pode nos condenar, prejudicando, em maior ou menor grau, nossa imagem social em alguma esfera de existência (pessoal, amorosa, profissional, escolar...). Compartilhar uma foto, um vídeo ou um "meme", ou então escrever um desabafo por simples impulso, pode resultar no término do namoro ou em uma demissão sumária - apenas para assinalar algumas das possibilidades mais radicais e palatáveis. 

Por mais que ignoremos essa questão, publicando o que pensamos com relativa sinceridade, não podemos evitar consequências negativas sobre o modo como as pessoas nos veem no dia a dia de fora das telas. Há uma perversão por trás disso: as redes sociais, blogs e outras formas virtuais de comunicação, ao nos estimular a expor publicamente questões de foro  íntimo, obscurecem nossa percepção sobre o controle a que estamos sujeitos. A proteção das telas esconde-nos o quanto estamos expostos e vulneráveis na rede e, na alegria da escrita, podemos facilmente cair no erro de revelar informações, percepções ou sentimentos que poderão ser mal interpretados, vistos por quem nos prejudicarão ou por aqueles que se magoarão, a despeito de nossas reais intenções.

Em uma sociedade em que, mais do que nunca, nos incita a expor nossas aflições e alegrias diárias - "No que você está pensando?", o Facebook nos questiona -  é deveras fácil e tentador perder a medida e permitir que o esforço por um pífio reconhecimento virtual se traduza em grandes (embora, muitas vezes, invisíveis)  prejuízos para a vida física. 

Tal como o "barato" trazido por qualquer droga lícita ou ilícita, o uso da internet para expor intimidades traz seus próprios e devastadores efeitos colaterais. O problema está na visibilidade de tais efeitos: não atingem tanto o nosso corpo e mente,  mas são potenciais destruidores das impalpáveis máscaras sociais que lutamos para construir e sustentar em nosso dia a dia.  Difícil  se dar conta do quanto podemos sabotar nossos próprios personagens por ações aparentemente tão inocentes - como uma piada, um desabafo ou uma indireta virtualmente endereçados...


Pedro Mancini

domingo, 29 de julho de 2012

A importância do sofrimento para o amadurecimento pessoal

11 comentários:

Aqui estou eu para, mais uma vez, escrever sobre um assunto bem abrangente: a importância do sofrimento para o amadurecimento individual. Tive essa ideia após passar, eu mesmo, por um período de perdas consideráveis em minha esfera pessoal. Tenho plena consciência de que terei momentos muito mais difíceis que esse, mas também sei o quanto dores como as que eu passei estavam fazendo falta em minha vida.

É claro que, em geral (com a interessante exceção dos masoquistas), ninguém gosta de sofrer. Vivemos, em grande parte, evitando ao máximo sentir qualquer espécie de dor. Basta que afastemos um pouco o olhar para percebermos, porém, o papel construtivo que o sofrimento pode assumir para a trajetória biográfica daqueles que sofrem.

O que é o sofrimento? Para além da mera dor física ou emocional, é a sensação de que perdemos algo, às vezes de modo irremediável. É a percepção de que perdemos o controle de algo que nos era caro, que tínhamos como certo, garantido, inabalável. É a admissão de nossa impotência e do caráter efêmero da vida, que escapa de nossas mais prepotentes (e inconscientes) ilusões de controle sobre aquilo que, na verdade, é muito mais incontrolável do que poderíamos admitir.

Aquele que foge do sofrimento, e de certa forma é bem sucedido na arte de evitá-lo, está somente seguindo um instinto infantil de autopreservação. Podemos continuar adotando essa atitude por muito tempo, mas a verdade é que a dor é um processo inevitável - embora relativamente adiável - de nossa formação. Como seres humanos, temos o trágico hábito de nos apegar a objetos, ideias e outros seres de modo intenso, de entregarmos nossa alma em busca do acalanto perdido quando nossa progenitora nos expeliu de seu corpo.  Iludimo-nos, então, acreditando que tudo aquilo a que nos apegamos é eterno, indestrutível, e que está sob nosso irrestrito controle. Iludimo-nos de que não corremos o risco de perder o que amamos.

É claro que, racionalmente, isso pode parecer absurdo. Sabemos, conscientemente, que tudo possui uma "data de validade", uma chance de se esfarelar perante nossos olhos. Mas quem dera fôssemos seres absolutamente racionais! Percebo, hoje, o quanto essa carapaça de "racionalidade" que nos cerca não passa, em muitos sentidos, disso - uma mera carapaça, obscurecendo nossa natureza altamente irracional. Por mais que nos convençamos de que nossa razão é o farol que orienta nossas ações, somos movidos (e reinados) por muitas outras forças internas, obscuras e fora desse "controle" que tanto visamos.

Mas voltemos ao assunto em pauta. Eis que a vida, consciente de sua crueldade, acaba por revelar o nosso erro, e o sofrimento intenso acaba por nos acometer. Que desgraça! Sangramos, sentimos, temos nossos mundos totalmente abalados - como o bebê que perde, repentinamente, o conforto uterino. Como pensar no lado positivo de toda essa dor??



A mágica reside no fato de que, ao convencer-nos de nossa impotência em preservar aquilo que nos é precioso, o sofrimento nos fornece a chance de encarar a vida de modo mais intenso e maduro. Tendemos a nos tornar mais infelizes, é verdade - afinal, estamos fadados a nos conformar ao fato de que, mais cedo ou mais tarde, perderemos contato com tudo que nos torna felizes - mas essa consciência nos faz cultivar de modo mais significativo o apego a esses bens tão efêmeros. Convencidos de que perderemos as coisas que amamos, lutamos mais para preservá-las e para cultivar nossa relação com elas - antes que seja tarde demais e nos tornemos ainda mais infelizes pela culpa de não termos aproveitado o bastante aquilo que, já sabíamos, acabaria por nos abandonar no final.

Nítidos de nossa impotência, também desconfio que somos mais capazes de enxergar as outros coisas e pessoas por si próprias- e não como uma mera extensão de nossos desejos, de nosso mundo particular. Conscientes de que tudo, no final, é efêmero e escapa de nosso controle, tendemos a admitir que todas as coisas possuem um movimento próprio, autônomo daquilo que gostaríamos que fossem. Somos capazes, então, de adotar uma postura geral mais "humilde", admitindo que o mundo se move independentemente - e muitas vezes contrário - à nossa vontade. Em suma, o sofrimento é capaz de nos abrir os olhos para a natureza múltipla e inconstante da realidade.

É claro que não se trata de um movimento universal inevitável - nem todos tiram lições significativas do sofrimento. Mas acredito se tratar de uma tendência e de uma (dolorosa) oportunidade de crescimento. Não é fácil abrir mão da felicidade trazida pela ilusão do controle sobre a vida - mas somente com esse abandono tornamo-nos indivíduos minimamente maduros, conscientes de nossas limitações e capazes de perceber o "outro" em sua especificidade. Enquanto somos abraçados pelo conforto dessa ilusão uterina, de um mundo sem dores, não passamos de infantes presos a uma relação narcisista. Pré-indivíduos felizes, embora incapazes de admitir nossa incompreensão face as sutilezas da vida.

Pedro Mancini



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os potenciais comunicativos da Internet

2 comentários:
Dia desses, estive em um Simpósio de Comunicação promovido por uma faculdade particular de São Paulo. A apresentação foi um pouco bisonha para os padrões acadêmicos brasileiros (a platéia teve que cantar o Hino Nacional, e houve um sorteio de livros da editora da instituição no final das falas), mas as duas exposições foram bastante inspiradoras. Hoje, trago algumas reflexões a respeito  do primeiro dia desse Simpósio, que podem  auxiliar na compreensão da própria capacidade do blog de promover discussões e debates significativos. Mas já aviso que não sou especialista na área da comunicação, e minha discussão pode parecer especialmente superficial para quem o seja.

Discutindo o conceito de "comunicação", o palestrante Ciro Marcondes Filho questionou até que ponto nossa sociedade - usualmente tida como "da comunicação" - comunica-se de fato. Para essa análise, distinguiu a ação comunicativa da simples emissão de sinais, em primeiro lugar, e da informação, em segundo.

Para uma simples emissão de sinais romper suas limitações e alcançar o status de informação, faz-se necessária a atenção do outro. Assim, alguém que utiliza os sinais emitidos por outro para um dado fim (após uma busca pontual na internet, por exemplo) transforma-os em uma informação para ele. Trata-se, portanto, de algo que não existe em si mesmo, sendo um conceito relacional: depende tanto de um emissor quanto de um receptor, e só pode ser entendido sob a perspectiva da utilização desse último.

Porém, ainda não basta informar para comunicar: segundo Ciro, no processo comunicativo algo acontece com as partes envolvidas:  emissor e receptor se transformam com a ação, sendo tocados em seu desenrolar. Nesse sentido, faz-se necessária uma espécie de "abertura ao novo" por parte dos dois, uma propensão a transformar-se com os sinais emitidos por seus interlocutores.

É nesse ponto que o palestrante diferenciou a capacidade comunicativa de interações do tipo face a face, físicas, daquelas virtualmente tocadas: no primeiro caso, haveria a possibilidade, em tempo real, de percepção de transformações ocorridas no interlocutor. Mudanças repentinas de opinião, concordâncias e discordâncias, insights inesperados, alterações na expressão facial e na postura corporal e outros sinais menores: pode-se notar o quanto o indivíduo foi tocado pela conversa no momento mesmo em que ela ocorre, pela simples observação da face do outro e pela dinâmica da própria conversação.

Já a grande maioria das formas de comunicação virtual - por exemplo, das típicas redes sociais, como os murais do Facebook - não permitiriam um controle apurado sobre os impactos causados pelos sinais emitidos. Aquele que escreve um tweet ou atualiza seu mural com alguma informação, própria ou compartilhada, têm uma capacidade fortemente limitada de percepção sobre possíveis transformações que tenha causado nos leitores dos sinais. Depende, por vezes, de respostas simplórias às suas ações online, previamente programadas, como a marca do "curtir" do Facebook - que, na realidade, diz-nos muito pouco a respeito. E o que pensar quando nossos amigos online NÃO curtem, compartilham ou comentam nossas mensagens? Há total ausência de resposta, como se discursássemos no escuro, sem saber se alguém nos está ouvindo - ou, mais profundamente, se esse mesmo alguém está sendo "tocado".

De todo modo, parece que, por muitas vezes, não é exatamente isso que importa; grande parte das intenções de uso das redes sociais parece condicionada à mera emissão de sinais unilaterais, e não a uma real comunicação, capaz de estender um diálogo relevante, com potencial de transformação individual. Alguém que escreve sobre seu dia-a-dia, sobre seus hábitos mais íntimos, por exemplo, parece suprir uma outra necessidade: a da auto-afirmação, do simples "aparecer", do mostrar-se vivo, existente, em uma sociedade que "apaga" aqueles que não se esforçam ativamente para aparecerem da algum modo. Nesse sentido, e evitando-se generalizações, pode-se afirmar que muitos usuários da internet dela apropriam-se para compensar malogros existenciais, colocando-se em evidência em um contexto de ausência de sentido das ações pessoais, cotidianamente sentida no mundo tido como "real".

Mas seria possível uma superação do mero papel da internet enquanto "prova de existência" dos indivíduos nela imersos? Seria ela capaz de fomentar uma real comunicação, possibilitadora de mudanças nas mentes dos internautas pela promoção de debates de substância? Ciro Marcondes, demonstrando certa limitação ao propor, tão somente, um retorno ao "encanto" das interações face a face e um "freio" na agitada vida contemporânea, não consegue analisar a fundo alternativas mais viáveis. Uma idealização das interações físicas pode beneficiar aqueles capazes de refletir sobre a utilização de seu tempo de vida, mas ignora os potenciais trazidos por essas novas formas de "comunicação", além de inviabilizar um olhar crítico, porém realista do futuro.

Assim, algumas questões permanecem sem resposta pelo palestrante: como utilizar as novas ferramentas disponibilizadas pela tecnologia para fomentar uma real comunicação, sem cair no simplismo de descartá-la de antemão, idealizando um modelo inalcançável? E em que medida certas formas de emissão de sinais já em operação no mundo virtual são capazes de fomentar essa comunicação transformadora? Quais as reais limitações dessa capacidade?

É nesse ponto que retomo a análise sobre o papel dos blogs. Interpretações simplistas - otimistas ou pessimistas - poderiam ser tecidas a respeito de seu potencial: considerando o sentido positivo que muitos lhes atribuem, eles seriam naturalmente capazes de promover importantes debates políticos, sociais e filosóficos; uma interpretação que seguisse a linha de raciocínio exposta por Ciro, por sua vez, resolveria a questão apontado que, assim como outros modos de emissão de sinais à distância, os blogs seriam incapazes de garantir uma real comunicação, ao invalidarem a possibilidade de percepção a respeito das transformações causadas nos leitores. Os modos de resposta às postagens - comentários e votos sobre a qualidade dos textos escritos - exporiam muita pouca informação a esse respeito, em comparação com as interações face a face, mais "palpáveis".

Saliento, uma vez mais, que essas visões simplistas deveriam ser evitadas. Desprezar ou idolatrar a comunicação online de antemão pode ser extremamente fácil; difícil é notar seus reais alcances e limitações. Ademais, os dias atuais tornam quase impossível fugir das novas tecnologias.

Pessoalmente, ainda acredito que vale a pena investir, apesar dos percalços, em tentativas de promoção de discussões no âmbito da virtualidade. Mas não escondo que torna-se mais fácil acreditar em tais potenciais comunicativos, em especial do chamado blog, quando há possibilidade de diálogo na seção de comentários: só ela (ou um encontro físico com um leitor) pode provar, ao menos em alguma medida ínfima, que não sou apenas mais um internauta discursando no escuro para uma platéia ausente ou inteiramente desinteressada.

Pedro Mancini















segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estação Angélica, Churrascão e os falsos argumentos de seus opositores

5 comentários:
Resolvi sair de meu recesso auto-imposto por um instante para emitir minha opinião sobre o protesto ocorrido na Avenida Angélica, no último sábado


Muitos já escreveram sobre as razões dessa mobilização: o recuo do Governo do Estado de São Paulo da decisão de construir a Estação Angélica, supostamente devido à pressão de um grupo de moradores do bairro de Higienópolis (em meio a alguns comentários altamente preconceituosos). Mas hoje quero dar ênfase à  outra questão: as formas que a intolerância e o preconceito se revestem, camuflando-se com argumentos que, quando postos à prova, se dissolvem facilmente. 

Isso pode ser percebido não somente quando alguns dos contrários à estação do metrô insistem sobre a falta de necessidade da mesma, alegando, erroneamente, que há estações suficientemente próximas a serem utilizadas (se visitarmos qualquer metrópole européia que esses mesmos indivíduos provavelmente elogiam, veremos estações separadas por distâncias  muito menores do que as presentes). Podemos notar a transmutação do preconceito, igualmente, quando analisamos os discursos contrários à própria manifestação organizada pelo Facebook

Como se sabe, vários jovens revoltados com o recuo do Estado organizaram, via redes sociais, uma manifestação inusitada para protestar tanto junto às autoridades, quando contra os posicionamentos de representantes de moradores do bairro. Veio daí a idéia do "Churrascão da Gente Diferenciada", em referência às declarações de uma senhora moradora de Higienópolis que demostrava medo em imaginar seu bairro coberto de "drogados, mendigos" e afins

Algumas manifestações tímidas na internet condenaram essa atitude espontânea dos organizadores do evento, imediatamente taxando-os de "vândalos" que queriam causar "baderna" em um bairro nobre de São Paulo. Muitos dos contrários ao "Churrascão" quiseram deixar claro não ser contrários à implantação do metrô, considerando injusto serem "responsabilizados" pela manifestação preconceituosa de alguns moradores azedos; outros apareceram com o argumento de sempre, segundo o qual "o espaço público não deve ser ocupado por manifestantes"; outros, por fim, insistiam que apenas os habitantes do bairro tinham o direito de decidir sobre o futuro dos arredores, devendo ser sua opinião respeitada e acatada pelos demais. 

Bem, a própria forma como a manifestação decorreu já anula os receios desesperados dos que acusaram-na de "puro vandalismo": absolutamente nenhuma ocorrência violenta foi registrada, em uma manifestação bem-humorada, que contou com bem menos adeptos do que o esperado (menos de 1.000 estiveram presentes), a maioria composta por jovens das classes média e alta. É claro que não acho que as características da mobilização desqualificam suas intenções ou mesmo seu sucesso: é sabido que o número de pessoas que confirmam presenças em eventos pelo Facebook sempre é bem maior do que as que comparecem de fato. Além disso, a manifestação foi programada para um sábado, dia em que os trabalhadores do bairro, que  seriam os principais beneficiados pela construção da estação, por lá não trafegariam. E uma grande parte da população das classes mais baixas ainda não utiliza o Facebook e outras redes sociais como o Twitter com tanta frequência para participar em massa de um evento por lá arquitetado. De todo modo, foi um pequeno, porém firme passo, de forte conteúdo simbólico, em direção a um futuro pautado por mobilizações e protestos coletivos pela cidade, organizados via Internet.


Mas voltando às argumentações contrárias à referida mobilização.Qualquer um com um mínimo de senso crítico pode detectar algumas contradições graves nesses discursos. De alguns, vi partir tanto o argumento de que cabe aos moradores de Higienópolis decidir sobre a construção da estação, quanto a idéia de que a via pública não deveria ser ocupada por manifestantes. Mas vejam: ou consideramos Higienópolis uma região privada, ou pública! A contradição é evidente quando reivindicamos se tratar de uma via pública, mas que detém autonomia para tomar suas próprias decisões, indiferente à opinião de moradores de outros bairros que frequentam, por motivos profissionais ou pessoais, a região do entorno da Avenida Angélica. Higienópolis não é um feudo, meus caros.

E é evidente que cada um dos argumentos em isolado também pode ser desmantelado. Em primeiro lugar, a Cidade de São Paulo não pode ser vista como um conjunto de pequenos reinos independentes entre si, do mesmo modo que não podemos falar, em tempos de globalização, de uma nação absolutamente isolada das demais. Estamos falando de um emaranhado urbano complexo, em que moradores de um bairro distante precisam se deslocar por quilômetros para alcançar seus locais de trabalho, onde nos deslocamos para comparecer a consultas médicas, e para muitos outros fins. Assim, nenhum bairro é "propriedade" de seus moradores, sendo apenas uma parcela de um espaço público uno e indivisível.  A decisão a respeito da construção do metrô não concerne apenas aos moradores de Higienópolis, portanto (que também seriam beneficiados, obviamente), tampouco a um conjunto pouco representativo dos mesmos (apenas cerca de 6% dos moradores do bairro assinaram a petição contrária ao Metrô), mas ao conjunto de habitantes da cidade. 

Com isso, resolvemos a questão de a Avenida Angélica constituir-se como espaço público ou como ambiente privado dos moradores do entorno. Mas, considerando que falamos de um espaço público e de interesse social, como avaliar uma mobilização que interrompe o seu fluxo, prejudicando a livre circulação de moradores e trabalhadores pela região? Como espaço público, a Avenida poderia ser apropriada dessa forma por um punhado de manifestantes inconformados?

Novamente, entramos em uma falácia sustentada por fraquíssimos alicerces. Se retomarmos o conceito fundamente da noção de espaço público, veremos que a ele concerniam os interesses coletivos da cidade, sendo ele indissociável da noção de política. Desse modo, não faz nenhum sentido reclamar da apropriação política do espaço público: é para isso que ele serve! No caso específico que discuto, para viabilizar uma manifestação por melhores condições de transporte para o conjunto da população paulistana. Trata-se de um movimento com uma autenticidade e legitimidade evidentes, não se resumindo à defesa de interesses privados, seja de empresas, seja de categorias profissionais - sendo que mesmo elas, já aproveito para afirmar, também têm o direito de se manifestar pela defesa de seus direitos. Uma democracia não deve se resumir à atividade eleitoral, corrompida e relativamente deslegitimada há tempos; para se aproximar de forma mais efetiva de seu tipo-ideal, mobilizações como a que ocorreu no sábado último são fundamentais, possibilitando a expressão efetiva - e não meramente formal - de anseios da sociedade, e a pressão produtiva das autoridades competentes. É claro que moradores de Higienópolis têm o direito de manifestar-se contra a instauração do Metrô em seu bairro (pois mais torpe e preconceituoso que seja o motivo); mas igual direito possuem outros indivíduos moradores de São Paulo. 

Com isso, volto à questão original: boa parte dos argumentos contrários à mobilização pelo Metrô na Angélica, oriundos de alguns moradores da própria região de Higienópolis, não passam de mecanismos para mascarar seus reais posicionamentos, muitas vezes pautados por um bairrismo tacanho ou por um  preconceito puro, fundado em uma idéia fabricada de usuários do transporte público como miseráveis e "delinquentes" (digo fabricada, pois a heterogeneidade dos usuários desse transporte é gritante, perpassando todas as classes sociais). Se ao menos  mais moradores preconceituosos e bairristas (vejam que não generalizo, pois sei que se trata de uma minoria) fossem como aquela suposta senhora que assumiu seu repúdio à "gente diferenciada", ao menos teríamos uma elite mais sincera, que não esconderia seu lado obscuro pelo uso de argumentos tão dissolúveis. 

Pedro Mancini





sexta-feira, 15 de abril de 2011

A decadência da humildade em tempos de fragmentação social

5 comentários:
Em minha última postagem, estabeleci um paralelo entre a paixão juvenil e a experiência pessoal, para apontar como a primeira é mais valorizada nos dias atuais; hoje, traço um raciocínio semelhante para ressaltar que a questão de "fechar a mente para a vida" não é determinada pela idade, e que existem outros fatores a se levar em consideração.

Acho que uma das grandes ironias da sociedade contemporânea é que, conforme cresce a fragmentação social - e, conseqüentemente, as inseguranças individuais - mais uma parcela dos indivíduos radicaliza seu modo de pensar. Kenneth Gergen é um dos autores que escreve sobre o processo de fragmentação da realidade e do próprio “eu” contemporâneo – que ele qualificou como “saturado”. Para ele,

 “A condição pós-moderna, de modo mais genérico, é marcada por uma pluralidade de vozes competindo pelo direito à realidade – de serem aceitas como expressões legítimas da Verdade e o Bem. Enquanto as vozes aumentam em poder e presença, tudo que parecia apropriado, bem-pensado e bem entendido é subvertido. No mundo pós-moderno nos tornamos cada vez mais conscientes de que objetos sobre os quais falamos não estão ´no mundo´ tanto quanto são produtos de perspectivas” (GERGER, Kenneth: “The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life”, p. 7. Nova Iorque: BasicBooks, 1991).

Gergen aponta, portanto, que ao contrário da modernidade, em que algumas poucas perspectivas totalizantes sobre a realidade competiam pelo domínio ideológico, hoje fica mais difícil detectar um número pequeno e bem constituído de "vozes" sobre a sociedade em que vivemos; temos, ao invés disso, inúmeros sussurros espalhados pelo espectro social, que competem entre si e povoam nossas mentes, saturando-as de informações e pontos de vista. 


Uma outra conseqüência dessa fragmentação de modos de encarar a realidade  é a difusão da insegurança: não podemos mais contar, afinal, com uma "grande muleta" ideológica para nos sustentar - ao menos, não com uma muleta maciça e resistente. Não existe uma única religião dominante, uma única ideologia hegemônica, indiscutível, que nos ampare; temos que nos contentar com múltiplas perspectivas incertas, continuamente contestadas, vítimas fáceis da ironia. Sua religião, sua posição política, não passa de mais uma entre dezenas de outras possíveis - e como ter a certeza de que se joga do lado certo?  


Ora, é difícil lidar com a erosão das certezas instituídas, apontada por Gergen. Para aqueles que detém sabedoria suficiente para conviver com aqueles que pensam de modo distinto, essa é uma ótima chance de se desenvolver - de aprender com a voz discordante, aceitando, com humildade, as prováveis limitações de sua própria perspectiva. Já para os mais carentes de certezas, uma alternativa menos indolor e, infelizmente, usualmente adotada é a de agarrar-se a uma dessas perspectivas de forma extrema, a ponto de desconsiderar todas as demais -  e, em último caso, pregar a aniquilamento daqueles que se situam no "outro lado". Agarrar-se a uma ideologia extremista para ser uma saída possível à fragmentação social, portanto.

É nisso, em boa parte, que se baseia a difusão de movimentos fundamentalistas de toda sorte em plena sociedade ocidental. Alguns países não mais se surpreendem quando um gay é espancado na rua, ou um jovem afetado por anos de bullyng rebela-se contra a sociedade a ponto de cometer assassinatos em massa. Todos esses “anti-heróis” procuram agarrar-se em “verdades absolutas”, estejam elas em uma ideologia político-social – como o nazismo, ainda capaz de seduzir jovens “saudosistas” de uma sociedade “organizada” e “pura” – ou em um santuário totalmente pessoal (indivíduos com o ego inflado, que se veem como “gênios incompreendidos” em uma sociedade fria e insensível às suas necessidades). Wellington Menezes de Oliveira seria somente mais um exemplo do último caso, como os grupos de recistas e homofóbicos  - tão ativos  atualmente- exemplificam o primeiro. Ainda há que se considerar, evidentemente, a filiação de indivíduos a grupos religiosos pautados pelo fanatismo e pelo ódio às diferenças - alguns de seus porta-vozes costumam, também, aproveitar qualquer oportunidade para revelar posturas agressivas.

Acredito que o processo de negação da diversidade e de supervalorização de uma perspectiva determinada sobre todas as demais não pode ser vislumbrado apenas nas situações extremas: terrorismo, movimentos neonazistas, homofobia, racismo, etc. Vemos a tentativa de se agarrar em certezas em várias situações cotidianas que pareceriam inofensivas. Muitos, por exemplo, enclausuram-se em uma visão superestimada de sua própria imagem. São os “convencidos” ou “metidos”, que se transformam nos próprios objetos de adoração. Hoje, eles parecem se multiplicar a uma forma alucinante – alimentados pelas possibilidades de auto-promoção trazidas pelas tão faladas redes sociais. Alguns comentários do Facebook e do Twitter são verdadeiros deleites nesse aspecto, mostrando claramente como alguns indivíduos se deslumbram com a ilusão de estarem fixados em um pedestal que os mantém acima dos “cidadãos comuns”.

Parece que a "humildade", valorizada em tempos pré-modernos, é hoje considerada um defeito, algo a se evitar; antes de mais nada, a ordem é “amar-se”, valorizar-se, vender uma imagem positiva de si próprio, ter orgulho e auto-estima elevados. É evidente que esse movimento possui grandes vantagens, além de ter cumprido um importante papel histórico. Valorizar-se como indivíduo destacado do "social" contém elevado teor libertário, protegendo e armando o sujeito contra opressões externas; a partir do momento em que nos valorizamos, tornamo-nos mais imunes a imposições sobre nosso comportamento. Desse modo, as relações de dominação, outrora dependentes de uma imposição externa, conquistada pela espada, devem hoje se concentrar bem mais em uma "submissão voluntária" de seu público. Uma interiorização da ideologia dos dominantes entre os dominados, embora sempre tenha existido, nunca foi tão necessária às relações de dominação. Assim, as grandes marcas devem mais do que nunca "conquistar" seu público-alvo, e até torná-lo seu próprio porta-voz (difundindo a marca nas redes sociais, por exemplo). O consumidor deve adorar o "estilo de vida" vendido pela Coca-cola e pelo McDonalds, e não mais ser um simples comprador de mercadorias.

Mas voltemos ao assunto principal. Ao mesmo tempo em que adquire forças libertárias em outros contextos, um maior amor-próprio, quando alimentado pelas profundas inseguranças trazidas pela fragmentação social, pode resultar em um aterrorizante radicalismo individualista: buscando refúgio em um mundo individual de certezas, em geral fantasioso, o indivíduo corta qualquer comunicação real com o mundo exterior. A outra opção, como já sugerido, não é menos assustadora: a filiação a grupos radicais de caráter comunitário, como bandos de skinheads ou fanáticas facções religiosas. Seja superestimando sua imagem individual e seus conhecimentos no mundo virtual, seja filiando-se a grupos radicais, ou invadindo uma escola armado até os dentes, o cidadão em questão possui uma profunda certeza de que está "absolutamente correto", acima de todos os demais "seres mortais". Quando alimentado pelo sentimento de vingança contra opressões sofridas, como o trágico caso da escola de Realengo, o indivíduo amedrontado pode tornar-se um agressor impetuoso do status quo que tanto teme e demoniza - por “não compreendê-lo” nem fornecer respostas claras e justas para a vida. Rancoroso, deixa de aproveitar a possibilidade de crescimento a partir do diálogo com o Outro, para se fechar em um mundo de ignorância e convencimento, protegendo-se, de dentro de sua bolha, da maldade vista no mundo externo. Acaba iludindo-se com a idéia de ser um Deus entre os homens. Não passa, na verdade, de um ser humano, dentre muitos outros, apavorado com a possibilidade de ser mais um componente da massa. E isso, em meio a um ambiente onde um único ponto de vista não é mais fornecido de antemão como "o correto" ou "verdadeiro". Por baixo de sua carapaça, o mais feroz terrorista não passa de um ser contaminado pelos efeitos mais nefastos da contemporaneidade.




Pedro Mancini 

segunda-feira, 14 de março de 2011

A queda do muro das redes e a a reunificação das identidades virtuais

3 comentários:
Em outras ocasiões, já escrevi sobre como as novas formas de sociabilidade online estimulam uma percepção de fragmentação das identidades pessoais. Precisando administrar inúmeros perfis virtuais, com suas redes de contato específicas, o indivíduo inserido em relações sociais intermediadas pela internet precisa demonstrar grande competência na arte de administrar papéis e ferramentas interativas: Facebook, Twitter, Orkut, Skype, MSN, e-mail - várias formas de comunicação são utilizadas simultaneamente, cada  qual com seus instrumentos particulares.A autora Sherry Turkle já estabeleceu um paralelo entre essa fragmentação do self e a própria dinâmica do sistema operacional Windows, da Microsoft: de forma similar a esse último (e, em partes, para adaptar-se a ele), o indivíduo precisa administrar várias "janelas" autônomas, com diferenças de micro-segundos de troca entre elas.

Há dois anos, porém, a revista Wired previu que a fragmentação da internet em várias redes sociais estava condenada: apostou que os muros que separam essas redes seriam diluídos em pouco tempo. Até hoje, essa previsão não se cumpriu: a maior promessa feita nesse sentido, o Google Wave, foi um fiasco e, por mais que o Facebook  disponibilize vários aplicativos de integração com outras redes (como o Twitter), essa relação não parece "natural", estando sujeita a bugs e imprecisões (re-twitadas, por exemplo, não são reproduzidas pelo aplicativo do Facebook). Reportagens, blogs e sites de vídeos também disponibilizam ferramentas de compartilhamento entre redes, mas ainda há um considerável caminho a percorrer. Continuamos a administrar redes sociais quase em isolado, preenchendo nossos dados em cada uma, dialogando com pessoas diferentes, e refazendo o procedimento de postagem de  fotos, textos e vídeos.

Talvez todo esse trabalho estimule o ciclo "ascenção-queda-estagnação" das redes sociais: sendo tão difícil administrar todas ao mesmo tempo, opta-se por priorizar apenas uma, a rede "do momento", e passa-se a desprezar as demais. Orkut, Second Life e Twitter, pelo menos, já passaram por esse processo - e ainda não há evidências de que o Facebook não terá o mesmo destino, decaindo e estagnando após um período de sucesso absoluto. Hoje, embora o Twitter continue a manter muitos adeptos, vislumbra-se um processo de evasão, e as vozes dos que ficam não parecem superar a muralha que cerca essa rede. Ainda há pouco diálogo entre tal micro-universo virtual e todos os demais.

Mesmo assim, acho que a previsão da Wired nunca esteve tão perto de se cumprir. A eclosão de aplicativos de compartilhamento mostra que a exigência por integração continua a crescer - partindo tanto de usuários, que utilizam tais aplicativos com maior freqüência,  quanto das próprias empresas, que melhor poderiam administrar as informações de seus usuários se essas fossem absolutamente integradas, ao invés de fragmentadas em comunidades independentes.

Enfim, acredito que a destruição dessa muralha trará grandes conseqüências para o papel da internet na constituição e experimentação de identidades. O estímulo ao exercício de modos diferentes de ser sofrerá limitações, uma vez que o indivíduo não mais falará para públicos diferentes em plataformas distintas, mas sim para a mesma rede de contatos - que terá ligações cada vez mais explícitas com os contatos do mundo físico. Assim, enquanto em um universo virtual repleto de redes sociais particulares podemos assumir papéis variados (um personagem para o Twitter, outro para o Facebook, e assim por diante), em um contexto em que o que escrevemos ecoa em todos os locais, inclusive no próprio ambiente físico, tendemos a assumir um único papel, o mais coerente possível com o assumido nas relações face a face. É impossível prever o quanto relações virtuais baseadas no anonimato ainda deterão importância nesse contexto, mas acredito que elas não representarão um grande contraponto à tendência pela "unificação" das identidades virtuais.

De toda forma, difícil crer que esse movimento resultará em uma redução do uso das redes, ou em uma banalização desse uso, com a eclosão de uma sensação de mesmidade e tédio entre os usuários: creio, pelo contrário, que disso resultará um novo patamar do uso da internet, onde os indivíduos serão tentados a produzir muito mais informações a respeito de si mesmos, e com mais freqüência. Já vemos, principalmente no Facebook e no Twitter, esse tipo de pressão, em que a exibição de informações pessoais, o compartilhamento de vídeos, fotos e notícias, as re-twitadas de trend topics e o uso da própria ferramenta "curtir" (do Facebook) são usadas para medir o grau de participação pessoal na rede e a popularidade individual do sujeito. Com o fim da necessidade de gerenciar mil comunidades concomitantemente, acredito que sobrará mais tempo e disposição para muitos entrarem nesse engalfinhamento competitivo por mais "produção pessoal" e popularidade, resultando em um aumento massivo na participação virtual.

É claro, aos meus olhos, que mesmo que esse movimento represente uma redução do fomento  à multiplicidade identitária no uso da internet, ainda há uma compatibilidade entre ele e o processo de difusão de identidades plásticas entre os indivíduos imersos na sociedade contemporânea (de acordo com argumentação presente nos textos mais recentes do filósofo Vladimir Safatle). Em outras palavras, embora menos múltiplas, as identidades exercidas na internet tenderão a se tornar mais flexíveis do que nunca, adaptando-se com grande velocidade às tendências e modismos globais e locais, por meio da alimentação contínua de informações, tanto nos perfis quanto nas caixas de diálogo público das contas dos usuários das redes.

Pedro Mancini






sábado, 5 de março de 2011

A devassidão da Sandy e a lógica da sociedade de consumo

4 comentários:
Dia desses, um novo comercial sacudiu as redes sociais: uma campanha desenvolvida pela cervejaria Devassa, em que um suposto modelo de pureza e bom-mocismo, Sandy, aparecia revelando um suposto lado "devasso". Exibindo um penteado diferente, a cantora simula uma lap dance em um palco, perante uma grande platéia masculina.



Não tardou para que várias pessoas discutissem a atuação da ex-sertaneja e o conteúdo simbólico do comercial. Entre as principais reações, destaca-se a falta de convencimento da representação de Sandy como "devassa": sua imagem de pureza parece ter penetrado tão profundamente no inconsciente de seu público, que ele simplesmente não engole quando ela foge do papel. Apontam que ela própria não estava convencida da personagem, incorporando com pouquíssimo sucesso a safadeza que lhe foi imputada. Na reportagem a seguir, chegam a contestar a "habilidade" da garota com o copo:



Outros discutem a triste adaptação da imagem da Sandy a um padrão formatado de submissão ao prazer masculino - a incorporação da artista à lógica machista, igualmente presente em populares revistas "femininas", como a Nova (que recomendam às mulheres explorar, de forma absolutamente técnica, habilidades e comportamento que servem especificamente para maximizar os prazeres do parceiro sexual). Como exemplo dessas críticas, indico a última postagem de Tica Moreno.

Mas há outro modo de compreender a utilização do "lado devasso" da artista em um comercial de cerveja. A interpretação que ofereço não é de todo antagônica à visão feminista: não há dúvidas de que a intenção da cervejaria era associar um padrão específico de mulher (que serve aos interesses carnais masculinos mais  banais) ao consumo de cerveja propriamente dito.

Mas se a intenção era somente exibir um padrão de sexualidade adaptado ao prazer masculino, por que escolheriam uma garota que é comumente associada à pureza, virgindade e ao bom comportamento (à submissão sem graça às regras masculinas e ao modelo de "Amélia", portanto)? Não era mais fácil manter a Paris Hilton como garota-propaganda, ou adotar outra modelo-atriz com uma devassa reputação pregressa?

Na verdade, o comercial diz mais sobre a sociedade contemporânea do que os primeiros comentários a seu respeito fazem supor. E o fato de escolherem a Sandy como garota-propaganda é a chave para compreendermos a estratégia de marketing da empresa: explorar uma imagem de ambivalência e de cinismo,  em que são reveladas formas múltiplas de existência, que simulam uma transgressão da norma vigente. Assim, a idéia parece ser de, por meio de uma figura santificada como a da Sandy, explorar o lado "perverso" de cada um de nós, um aspecto que contradiz - sem excluir - o lado bonzinho, que segue um padrão fixado de conduta moral. Sandy não é, assim, uma figura de pura devassidão, mas uma pessoa múltipla, em certo sentido bi-polar, que possui tanto um lado santo, quando um lado "pervertido", por assim dizer. Norma e "transgressão da norma" em uma mesma representação social.

Em uma sociedade capitalista em que os vínculos com os objetos são frágeis, é sábio aproveitar-se dessa fragilidade. Com a redução da importância e da capacidade de convencimento e de identificação de conteúdos normativos, as formas de publicidade que exploram imagens "típico-ideais" de sujeitos (como os antigos comerciais de margarina, que mostravam a típica família nuclear americana - um casal branco feliz, com um casal de filhos e um cachorro, morando na praia) caducam, sendo substituídas por propagandas que exploram, muito mais, o caráter ambíguo ou múltiplo dos indivíduos. Conseguem, assim, atingir um público muito mais amplo: não só aqueles que identificam-se a um padrão, como os que "rebelam-se" contra ele. A negação das velhas estratégias de publicidade acaba, então, sendo igualmente colonizada pelo sistema publicitário.



Assim, a Sandy parece transgredir a sua própria imagem ao agir de modo "devasso"; enquanto outros comerciais chegam a aproveitar-se da retórica da revolução para difundir sua lógica consumista nada revolucionária (lembram-se do comercial "revolução dos dedos", da Vivo, ou da "revolução da esfiha" do Habibs? O último, ainda consegui puxar do YouTube...). Vende-se a idéia, dessa forma, de que estaríamos "transgredindo" a sociedade ao consumir alguns de seus produtos.




Essa percepção foi importada do filósofo uspiano Vladimir Safatle, que estuda, justamente, a publicidade contemporânea e a retórica do consumo. Assim, a estratégia da Devassa não é tão nova, mesmo se considerarmos esse aspecto da bipolaridade, e é bem menos ousada e criativa do que as inicialmente desenvolvidas com a intenção de explorar essa ambivalência (como as marcas Versace e Calvin Klein, especialmente em suas campanhas das décadas de 1990 e 2000). A diferença, com relação à marca brasileira, está em que os dois pólos de ambiguidade explorados são baseadas em imagens machistas: a mulher pura e submissa, de um lado, e a "gostosa" e perversa, boa de cama, por outro. Pureza e safadeza na mesma pessoa (uma santa na rua, uma puta na cama) - a imagem da "mulher perfeita" para o homem comum.Mesmo assim, vende-se a representação de uma marca que costesta a lógica operante da "boa-sociedade", representada pelo bom-mocismo da cantora, violado pelos poucos segundos de duração do comercial. Uma contestação de fachada, que revela, na verdade, um outro padrão de conduta baseado no prazer masculino (mas que pode, contraditoriamente, estar presente na mais comportada das mulheres). Algo bem menos ousado do que a ambiguidade sexual explorada no passado recente pela Versace, que

"(...) se resume a fotos de um casal na cama ou em um quarto com decoração carregada e pretensões de luxo. (...) Nós sempre sabemos quem é um dos parceiros (um homem ou uma mulher bem vestidos em posição de autoconfiança, tédio e domínio da situação), mas nunca sabemos quem é o outro, já que sempre aparece sem rosto, jogado em um canto para denotar que foi usado em um jogo sexual, com roupas íntimas femininas e traços de corpo masculino. Implicações de um lesbianismo lipstick, de homossexualismo e de ambiguidade sexual são evidentes. Note-se que este apelo ao embaralhamento de papéis sexuais não é direcionado para um target homossexual. O target da Versace é composto basicamente de mulheres com mais de 30 anos" (SAFATLE, 2006, p. 61).

Vejam um exemplo dessas propagandas:

De toda forma, e apesar da limitação e teimosia brasileira em continuar a explorar uma imagem machista sobre a mulher, o objetivo dessas campanhas e daquela da Devassa tem suas similaridades: a busca por uma flexibilização de padrões de identificação. Mais uma vez citando Safatle, 

"A publicidade contemporânea e a cultura de massa está repleta de padrões de condutas construído através de figuras para as quais convergem disposições aparentemente contrárias. Mulheres, ao mesmo tempo, lascivas e puras, crianças, ao mesmo tempo, adultas e infantis, marcas tradicionais e modernas.(...) Uma época como esta permite que marcas tragam, ao mesmo tempo, a enunciação da transgressão e da norma. Até porque os sujeitos estão presos a esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a norma e desejar sua transgressão. A publicidade compreendeu isto. Daí porque atualmente ela fala a eles visando este ponto em que transgressão e norma se inbricam" (ibidem, p. 59-60)

É uma pena que a transgressão da norma, para nós, tenha sido tão falsificada a ponto de se resumir à imagem de uma mulher que recusa-se a se limitar à figura machista de santa, apenas para explorar o aspecto igualmente impositivo da mulher enquanto objeto devasso para um puro consumo masculino. Cabe a nós, meros mortais, mostrar o verdadeiro significado da transgressão (se é que ela ainda existe),quando nem a norma, nem a sua suposta "violação" nos parece justa - submetendo-nos, ao invés de nos libertar, aos aspectos mais opressivos da lógica do consumo. 



Pedro Mancini

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Multiplicidade: por Senban Babii

Nenhum comentário:
Depois de muito tempo, trago novamente uma tradução de uma postagem sobre a temática de dentidades pessoais em meio à sociedade contemporânea, do ponto de vista de novos ambientes virtuais de sociabilidade. No caso, a autora (da qual já publiquei uma tradução) é usuária da realidade virtual Second Life (a qual estudo em meu mestrado), e desenvolve reflexões muito interessante sobre o caráter de multiplicidade de identidades estabelecidas atualmente - fragmentadas no uso de inúmeres redes sociais e ambientes de interação.

Como não são muitos aqueles que conhecem as nuanças da realidade virtual em que a autora está imersa, pode ser difícil entender alguns termos e comentários. Os "avatares" são as representações visuais adotadas pelos indivíduos usuários, e Sanban Babii é o nome do avatar da autora, e não seu nome físico "real" (Lauren Jones). Tendo isso em vista, já se tornba um pouco mais fácil aos pouco conhecedores entender a postagem a seguir, que, na verdade, tece relexões que escapam, em larga medida às limitadas especificidades do Second Life.
***************************************************************************
Multiplicidade

"Ah, se apenas um mundo pudesse conter multiplicidade... Em nossa cultura, infelizmente, a multiplicidade é freqüentemente interpretada como duplicidade e, em uma era de roubo de identidade, checagem de antecedentes criminais e detectores de metal, não querer enganar não parece contar muito". 

Quem sou eu? Isso não depende de minha concha física, mas sim de onde estou, com quem e sob quais circunstâncias. 

Imagine que eu já ao meu local de trabalho amanhã e me identifique como Senban Babii quando atenda o telefone. Isso seria uma mentira? Bem, na verdade não seria. mas poderia ser considerado o eu "errado" para a situação, e seriam baixas as chances de ser reconhecida. As pessoas também poderiam pensar que sou estranha, em algum sentido.

No mundo físico, conceitos tradicionais de self e da percepção dos selves dos outros foram restritos pelo fato de normalmente existir apenas um de nós. Então, qualquer coisa que escape da norma histórica é freqüentemente vista como incomum e usualmente percebida como enganosa, psicologicamente anormal ou como simples jogos infantis de "faz de conta". "Por que você não pode simplesmente ser você mesmo?" é o grito das massas tentando segurar-se em seus modos tradicionais e confortáveis de perceber o mundo. Tentam amarrar-nos a um só "self", e, quando possuímos múltiplos pseudônimos ou auto-expressões, buscam juntá-los em vastos bancos de dados de redes sociais como o Facebook. Na verdade, visam amarrar-nos a um único self para seu próprio benefício, e não o nosso.  

Claro que a multiplicidade não é uma coisa nova. O conceito de um pseudônimo ou um nome de guerra tem séculos de existência, por exemplo. Mas historicamente, como cultura, associamos multiplicidade a pessoas bigâmicas ou vigaristas, indivíduos que se empreendem para enganar; e assim, como cultura, somos obcecados a encontrar quem realmente está por trás de um codinome, ao invés de perceber que o codinome não é necessariamente um modo de disfarçar intenções, mas sim um rótulo para designar o elemento do self descentrado de uma pessoa. Ajudaria a me conhecer melhor se você soubesse que meu nome real é, de fato, diferente?  Causa-lhe incômodo, quando você pensou ter descascado uma camada de identidade, que de fato a próxima camada em si também era uma casca que separa você do núcleo? O truque é parar de pensar em camadas que circundam um self central nuclear, e perceber que a identidade é feita de uma nuvem; amorfa, fluída, simultaneamente digital e progressivamente dispersa.

Em alguma medida, a multiplicidade pode ser uma forma de auto-proteção (mas agora, a multiplicidade incorpora um necessário caráter de duplicidade), conforme ingressamos na era da conexão em redes. Considere a inclusão recente de "nomes de exibição" no Second Life. No passado, éramos capazes de manter um firewall ou talvez uma porta corta-fogo entre avatares alternativos, simplesmente mantendo esses avatares sem conexões entre si para serem rastreados. Agora, a idéia é ser encorajado a possuir um único avatar com nomes múltiplos, adotados de acordo com as circunstâncias ou escolhas.; mas por baixo disso ainda há o mesmo avatar, e então, para alguém com a motivação e as ferramentas adequadas, é possível juntar os pontos que ligam nossos selves descentrados. Claro que nada impede que alguém crie, mesmo assim, avatares alternativos, mas culturalmente começamos a ser guiados a "um avatar-múltiplas expressões", de modo que um avatar se torna um ponto fixo para as pessoas se prenderem. Também é digno de nota considerar como todo elemento de nossas vidas se torna vagorosamente conectado e "lincado" por companhias como o Google que, em teoria, amarram nossos endereços de e-mail para que possamos simplificar o acesso a eles - mas, na realidade,  trabalham para que organizações possam juntar nossos dados a fim de melhor comodificar nossas vidas.

É interessante, aqui, considerar o conceito "transmundial", a idéia de manter uma identidade por múltiplos espaços e plataformas. Em certa medida, eu gosto dessa idéia, e você poderá encontrar Senban Babii em vários lugares diferentes. Mas a verdade é que ela é a mesma pessoa, ou melhor, o mesma expressão de um aspecto de  meu self nesses lugares. Nesses espaços, é correto trazer o aspecto Senban Babii para a dianteira, mas pode não ser apropriado trazê-lo parta o ambiente de trabalho. Então, mesmo que eu ache que o conceito transmundial possua mérito, não creio que ele se mantém, necessariamente, como uma filosofia.

Poderia ser argumentado, ao invés disso, que apesar das múltiplas identidades, permanecemos o mesmo indivíduo por detrás dos olhos. Em algum nível, realmente concordo com isso, mas com algumas ressalvas que eu devo esmiuçar em um blog futuro. Na verdade, continuaremos sendo nós mesmos. Mas talvez a multiplicidade nos permita explorar aspectos isolados de nossos selves. E isso não nos leva novamente para a idéia de avatares sendo objetos com os quais podemos pensar?

Traduzido de: Senban Babii 

 Por: Pedro Mancini

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estratégias interativas e o convívio familiar saudável

2 comentários:
Viagens de férias: sempre ótimos momentos para exercer a chamada "observação sociológica de boteco". Especialmente quando há presença de familiares.

A despeito de ser visto, por vezes, como a "ovelha negra" da família (ao menos no quesito ideológico), tentei interagir com a mesma em minhas férias, quando fui convidado a passar uns dias na casa de praia de minha tia.

Esse meu interesse não surgiu do nada, é verdade; nessa altura da vida, momento de grandes transições pessoais, começo a perceber o quão importante é um vínculo comunitário, como aquele típico das relações de parentesco (e outras, que nos são "impostas" pelas circunstâncias - de vizinhança, comunidade nacional, entre outras, em que se predomina um forte caráter emotivo). Embora as relações de tipo societário (relações profissionais, por exemplo, baseadas no convívio com o diferente e pautadas por ações mais racionais que propriamente emotivas) garantam, mais plenamente, o estabelecimento da individualidade, a falta de ligações comunitárias torna especialmente difícil trafegar pelos perigosos mares da fria sociedade de indivíduos anônimos e amizades pouco profundas - hoje, expandida pelo universo das redes sociais.

Mas se comunicar, atualmente, com a família ou outros "companheiros de comunidade", em uma sociedade tão fragmentada como a nossa, exige um verdadeiro malabarismo interativo. Como cada indivíduo tende a possuir uma opinião política, religião, time de futebol, além de vínculos com grupos e instituições distintos, interagir de forma positiva, não-conflitiva, com pessoas ligadas a você apenas por um laço comunitário demanda grande esforço. É difícil, em outras palavras, dar ênfase ao que possui em comum com um grupo quanto tantas outras coisas possuem de diferente. Qualquer deslize na interação, e inicia-se uma acalorada discussão sobre temas polêmicos, com resultados potencialmente catastróficos para os relacionamentos sociais envolvidos (ao menos a curto prazo). É claro que existem arenas específicas para que idéias antagônicas se enfrentem frontalmente, administradas pelas capacidades argumentativas dos envolvidos; mas não acredito que o ambiente praiano, onde a maior intenção seria o apaziguamento pessoal das agitações da vida urbana, seja o palco mais indicado para esse embate de idéias.

Assim, caso exista a vontade de passar um tempo agradável com a família, é de vital importância saber lidar com todas as estratégias e ritos de interação que regem nossa sociedade moderna - muito bem analisados, no que tange à sociedade americana, pelo canadense Erving Goffman (em obras como "A representação do Eu na vida cotidiana", "Relations in Public" e "Interaction Ritual").

Talvez a estratégia mais indicada, para esses casos, seja a da "evitação": simplesmente "fugir" de conversas polêmicas, que, sabidamente, podem fazer os ânimos se exaltarem. Sabendo que ninguém na casa compartilhava meu posicionamento político, evitar falar sobre o assunto protegeria tanto a minha face (já que eu não posaria como "radicalóide" ou "comuna fétido") perante a família, quanto a face de meus familiares - que não seriam acusados de "elitistas" ou "reacionários". Estabelece-se, assim, uma trégua político-ideológica, em prol de um convívio familiar apaziguado.

Aqui, cabe tecer dois comentários paralelos:

Em primeiro lugar, por que se esforçar tanto para fugir de polêmicas? Como já disse no começo da postagem, acredito que todos nós precisamos de algum suporte comunitário para suportar as pressões exercidas pela sociedade em seu aspecto mais impessoal - dependente de escolhas que são, com freqüência, acompanhadas de riscos. Mas há algo a mais a considerar: somos todos seres múltiplos, exercendo inúmeros papéis sociais simultâneos - não temos uma identidade fixa e pré-estabelecida, mas "exercemos" identidades diferentes, de acordo com as circunstâncias (ou, em outras palavras, com o ambiente de interação em que estamos imersos). Assim, eu sou um blogueiro, esquerdista moderado, filho, universitário, amigo, namorado, entre muitas outras coisas. E, por mais que os atores de cada grupo em que me relaciono - colegas de faculdade, namorada, parentes - possam conhecer mais de um aspecto de minha personalidade, é impossível expressar todos os meus aspectos em cada arena de interação.

Desse modo, não só é possível, como "natural" exibir apenas aspectos específicos de nossa personalidade àqueles com quem dialogamos. No caso de minhas férias, concentrei-me em revelar minha identidade de parente, desabilitando todas as características que poderiam me ligar ao "ativista político", em especial. Aspectos não tão polêmicos, como os inerentes à minha posição de sociólogo, não foram tão evitados - me dei o luxo, por exemplo, de analisar criticamente os vícios de meus parentes pelo Big Brother e pela novela das nove.

Importante ressaltar que isso não se trata, para mim, de uma falsidade ou mentira: não neguei, nem ocultei absolutamente, minhas posições político-ideológicas. Apenas não deixei que minha identidade política prevalecesse, supressando  seu exercício em meio ao ambiente familiar. Só com isso pude evidenciar aspectos pouco trabalhados de minha psiquê, como minha identidade enquanto parente, desnuda da influência de outros aspectos pessoais.

O segundo comentário relevante - que também ajuda a negar a falsidade de meu comportamento-, diz respeito à diferença entre o silêncio subserviente e a disciplina interativa. O fato de eu escolher atuar, apenas ou principalmente, como um parente, não significa que anulei totalmente outras características de minha personalidade. Felizmente, existem estratégias de interação que permitem que mostremos nossas diferenças e demonstremos nosso orgulho sem, por isso, ameaçarmos fortemente o bom convívio social; provocações pontuais, brincadeiras e "alfinetadas" permitem-nos evitar a subserviência, deixando claro que não concordamos com aqueles que interagimos - mas, antes, encontramo-nos em um provisório estado de trégua. É como se disséssemos: "Olha, estou sendo diplomático, mas isso não significa que concorde com você".

Assim, minhas opiniões político-ideológicas, assim como as de meus parentes, puderam extravasar na forma de micro-provocações, xistes e "tiradas". Graças a essas ferramentas comunicativas, mantivemos tanto nosso orgulho (com demonstrações claras de que não vendemos nossos posicionamentos) quanto a viabilidade de uma interação saudável. Em outras palavras: não foi necessário "entrar no tapa" (física ou verbalmente). Essa é uma façanha que não seria facilmente alcançada em fases anteriores, em que a única coisa que importava, para mim, era consolidar-me enquanto um indivíduo com idéias políticas próprias - alguém que colocava a boa convivência familiar abaixo da auto-validação identitária. Ou seja: talvez só estejamos aptos à convivência comunitária pacífica, em um contexto de ampla diferenciação social, se tivermos desenvolvido suficientemente nossa identidade, a ponto de deixarmos de lado, por um momento, a nossa fome por aprovação social.

Pedro Mancini


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Público, privado e íntimo no uso da internet: falência de uma promessa pós-moderna

3 comentários:
Desde seus primórdios até alguns anos atrás, a internet aparecia, para seus usuários, como uma espécie de "dimensão paralela", onde cada um de nós poderia "se realizar", expondo suas vontades e desejos mais íntimos. O anonimato, que tinha forte peso, protegia a imagem do indivíduo no mundo de fora das telas enquanto navegava pela rede. Os chats de encontros amorosos e sexuais bombaram, prometendo a realização de fantasias cotidianamente recalcadas. 

Assim, a internet era vista como um ambiente onde os indivíduos poderiam expor sua intimidade; de certo modo, era uma extensão da vida privada, com a grande diferença de que as relações eram voluntariamente estabelecidas (enquanto na esfera privada doméstica, por exemplo, grande parte das relações, salvo as amorosas e de amizade, era obrigatória - com os familiares, em especial). Com os contatos estabelecidos online, esperava-se um compartilhamento de interesses e intimidades similares ao de amizades e casos sexuais da vida física. 

Mas, com o desenvolvimento da internet e o engolfamento das relações físicas por ela, o caráter "íntimo" de seu uso ficou mais obscuro, difícil de discernir. Hoje, com a difusão das redes sociais e a redução da relevância do anonimato, não é mais possível garantir que as ações de um indivíduo na rede passarão incólumes em suas relações sociais de fora das telas do PC ou do celular: o seu empregador poderá saber de suas folias na noite, sua namorada poderá bisbilhotar seus scraps no Orkut e encanar com seus contatos no Facebook, fotos comprometedoras poderão se esparramar pelo mundo a uma grande velocidade, amizades poderão ser perdidas por um simples deslize. 

Os embricamentos entre público e privado ocorrem em vários níveis: no universo micro-social das menores interações, com diálogos privados expostos para outrens não diretamente envolvidos, e até nas vendas de informações pessoais de administradores de redes sociais para grandes corporações (vide o caso do próprio Facebook). É por isso que alguns já tem apontado para a impossibilidade de se pensar a sociabilidade das redes sociais a partir de conceitos fixos como os de "público" e "privado"; na verdade, as relações virtualmente fundamentadas se baseiam em princípios de ambas as esferas, não podendo ser classificadas por apenas um lado do espectro (as informações são, muitas vezes, compartilhadas publicamente, embora possuam conteúdo privado ou de foro íntimo). 

Muitos indivíduos já se deram conta das armadilhas inerentes a esse pensamento ingênuo, de que se pode "agir de modo livre" na internet. Usam, assim, as redes sociais de forma mais cautelosa, preocupados com a preservação de suas imagens offline, instrinsecamente ligadas ao seu comportamento virtual cotidiano. No Facebook de hoje esse auto-controle é mais visível do que, por exemplo, no Orkut de anos atrás; ainda vemos alguns deslizes graves, contudo, em redes como o Twitter (como nos casos de manifestações xenófobas, já discutidas em outra postagem desse blog - caso típico de exibição pública de opiniões privadas, que acarreta em fortes represálias para seus autores, já que possuem alcance público). Grande parte dos usuários já sabe, porém, que qualquer informação emitida poderá futuramente ser usada contra o usuário emissor, quando apropriada por um inimigo potencial ou real. A partir dessa preocupação, surgiram inúmeras recomendações de conduta online, que vão desde a previsão e prevenção de ataques pedófilos contra usuários mais jovens, até simples recomendações de etiqueta - códigos de conduta específicos para os meios de comunicação virtuais, que visam maximizar a convivência e minimizar as exposições de intimidades. Recentemente, o blog "Tec", da Folha de São Paulo, difundiu algumas dessas recomendações, objetivadas em todo um código de comportamento, apelidada de "netqueta":

"(...) E no que consiste a netqueta? É uma maneira de registrar certas condutas em redes sociais e locais semelhantes no ciberespaço, de modo que não incomode os demais.

Mais ainda, que não prejudique o próprio internauta --lembre-se: empresas checam as redes sociais em busca de “antecedentes” dos futuros profissionais ou candidatos a emprego. Já faz parte da cartilha de consultorias, e da própria internet.

Então, antes de postar aquela foto de lingerie um tanto quanto, hum, “sensual”, no seu Facebook, Twitter ou Orkut, dê uma lida rápida nas dicas dadas aqui embaixo (...):




 Evite colocar fotos simulando nudez, ou fotos de roupas íntimas. Não é sexy, é exposição demais --redes sociais também são como um encontro entre pessoas, então é como se você tirasse a roupa em um ambiente público. Lembre-se da capacidade de multiplicação da internet! Você pode se arrepender daqui a alguns anos, mas o Google pode continuar expondo essas fotos quando se busca pelo seu nome. Fotos de nudez explícita, nunca. Lembre-se: existem brechas em sites sociais que, inclusive, permitem o compartilhamento de imagens com pessoas que não são suas amigas por lá.

- Pule as descrições e pormenores de sua vida, em qualquer rede. As pessoas não se interessam por isso, e você cai no risco de ganhar um “hide” ou um “unfollow” dos seus amigos virtuais.
- Fotos de balada, fazendo pose de "poderoso", "jet-setter" ou "insider" podem dizer bem o oposto disso. Be careful!
- Não vale postar ensaios fotográficos amadores, feitos na escada de incêndio do seu prédio ou na sala de casa. Pelo simples fato de que não é bom ou bonito, é amador, por mais que você seja o Brad Pitt (ou Angelina Jolie, tanto faz)! Mas atenção: ensaios divertidos, com bom-humor e bom-senso sempre são bem-vindos.
- Diga não ao Photoshop. Retoques malfeitos podem ressoar pior do que uma beleza natural.
- Repudie fotos de si próprio no espelho e fotos de si mesmo sem olhar para a câmera. É meio forçado...
- Evite frases de efeito da Clarice Lispector. É uma grande escritora, sim, mas a leia antes. Conheça. Muito do que se difunde como sendo de sua autoria não é.
- Dentro disso, não tente impressionar demonstrando conhecimento sobre coisas que você não domina. Não é feio não saber das coisas. Sócrates, um dos filósofos mais brilhantes da nossa história (e era analfabeto, vejam só), resume: “só sei que nada sei”. Não é clichê, é real.
- Não tire foto de qualquer coisa e poste em redes sociais. Uma samambaia que é empolgante para um não é, certamente, para muitos outros.
- Saia fora de descrições minuciosas sobre as suas viagens. Seja sucinto. E poste um monte de fotos depois, elas falam por si só. Acessa somente quem quiser vê-las. E fim de papo (...)".


Pois é, navegar pelas redes sociais ficou muito mais sem graça, de certo ponto de vista: esse tipo de conjunto de regras de conduta, como o exposto pela Folha, limita enormemente as possibilidades do agir  espontâneo e livre, promessa vendida pelas ferramentas desenvolvidas na sociedade dita "pós-moderna". Vemos que, enquanto as novas formas de comunicação virtuais não são absorvidas pelas esferas mais "físicas" de interação, essa promessa até que se cumpre minimamente: Quando a esfera virtual se mantém como uma espécie de "dimensão paralela", deslocada de nossas relações físicas, tendemos a nos manifestar de modo menos limitado, buscando mostrar "quem de fato somos" pela exposição de depoimentos, opiniões e até imagens e vídeos que revelam características que - em geral - só exibimos para nossos contatos físicos mais íntimos. O anonimato foi uma das ferramentas empregadas para viabilizar esse "isolamento" do mundo virtual sobre o mundo físico. Conforme o universo virtual é absorvido pelas outras esferas - quando nossos chefes, amigos, amores e vizinhos também compõem nossa rede de contatos e/ou podem acessar livremente as informações que emitimos -, contudo, vemo-nos cada vez mais amarrados a regras de sociabilidade muito similares àquelas que balizam nosso comportamento em ambientes públicos da vida cotidiana. E, assim, a promessa da "pós-modernidade" perde boa parte de seu sentido.



Pedro Mancini
: