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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os potenciais comunicativos da Internet

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Dia desses, estive em um Simpósio de Comunicação promovido por uma faculdade particular de São Paulo. A apresentação foi um pouco bisonha para os padrões acadêmicos brasileiros (a platéia teve que cantar o Hino Nacional, e houve um sorteio de livros da editora da instituição no final das falas), mas as duas exposições foram bastante inspiradoras. Hoje, trago algumas reflexões a respeito  do primeiro dia desse Simpósio, que podem  auxiliar na compreensão da própria capacidade do blog de promover discussões e debates significativos. Mas já aviso que não sou especialista na área da comunicação, e minha discussão pode parecer especialmente superficial para quem o seja.

Discutindo o conceito de "comunicação", o palestrante Ciro Marcondes Filho questionou até que ponto nossa sociedade - usualmente tida como "da comunicação" - comunica-se de fato. Para essa análise, distinguiu a ação comunicativa da simples emissão de sinais, em primeiro lugar, e da informação, em segundo.

Para uma simples emissão de sinais romper suas limitações e alcançar o status de informação, faz-se necessária a atenção do outro. Assim, alguém que utiliza os sinais emitidos por outro para um dado fim (após uma busca pontual na internet, por exemplo) transforma-os em uma informação para ele. Trata-se, portanto, de algo que não existe em si mesmo, sendo um conceito relacional: depende tanto de um emissor quanto de um receptor, e só pode ser entendido sob a perspectiva da utilização desse último.

Porém, ainda não basta informar para comunicar: segundo Ciro, no processo comunicativo algo acontece com as partes envolvidas:  emissor e receptor se transformam com a ação, sendo tocados em seu desenrolar. Nesse sentido, faz-se necessária uma espécie de "abertura ao novo" por parte dos dois, uma propensão a transformar-se com os sinais emitidos por seus interlocutores.

É nesse ponto que o palestrante diferenciou a capacidade comunicativa de interações do tipo face a face, físicas, daquelas virtualmente tocadas: no primeiro caso, haveria a possibilidade, em tempo real, de percepção de transformações ocorridas no interlocutor. Mudanças repentinas de opinião, concordâncias e discordâncias, insights inesperados, alterações na expressão facial e na postura corporal e outros sinais menores: pode-se notar o quanto o indivíduo foi tocado pela conversa no momento mesmo em que ela ocorre, pela simples observação da face do outro e pela dinâmica da própria conversação.

Já a grande maioria das formas de comunicação virtual - por exemplo, das típicas redes sociais, como os murais do Facebook - não permitiriam um controle apurado sobre os impactos causados pelos sinais emitidos. Aquele que escreve um tweet ou atualiza seu mural com alguma informação, própria ou compartilhada, têm uma capacidade fortemente limitada de percepção sobre possíveis transformações que tenha causado nos leitores dos sinais. Depende, por vezes, de respostas simplórias às suas ações online, previamente programadas, como a marca do "curtir" do Facebook - que, na realidade, diz-nos muito pouco a respeito. E o que pensar quando nossos amigos online NÃO curtem, compartilham ou comentam nossas mensagens? Há total ausência de resposta, como se discursássemos no escuro, sem saber se alguém nos está ouvindo - ou, mais profundamente, se esse mesmo alguém está sendo "tocado".

De todo modo, parece que, por muitas vezes, não é exatamente isso que importa; grande parte das intenções de uso das redes sociais parece condicionada à mera emissão de sinais unilaterais, e não a uma real comunicação, capaz de estender um diálogo relevante, com potencial de transformação individual. Alguém que escreve sobre seu dia-a-dia, sobre seus hábitos mais íntimos, por exemplo, parece suprir uma outra necessidade: a da auto-afirmação, do simples "aparecer", do mostrar-se vivo, existente, em uma sociedade que "apaga" aqueles que não se esforçam ativamente para aparecerem da algum modo. Nesse sentido, e evitando-se generalizações, pode-se afirmar que muitos usuários da internet dela apropriam-se para compensar malogros existenciais, colocando-se em evidência em um contexto de ausência de sentido das ações pessoais, cotidianamente sentida no mundo tido como "real".

Mas seria possível uma superação do mero papel da internet enquanto "prova de existência" dos indivíduos nela imersos? Seria ela capaz de fomentar uma real comunicação, possibilitadora de mudanças nas mentes dos internautas pela promoção de debates de substância? Ciro Marcondes, demonstrando certa limitação ao propor, tão somente, um retorno ao "encanto" das interações face a face e um "freio" na agitada vida contemporânea, não consegue analisar a fundo alternativas mais viáveis. Uma idealização das interações físicas pode beneficiar aqueles capazes de refletir sobre a utilização de seu tempo de vida, mas ignora os potenciais trazidos por essas novas formas de "comunicação", além de inviabilizar um olhar crítico, porém realista do futuro.

Assim, algumas questões permanecem sem resposta pelo palestrante: como utilizar as novas ferramentas disponibilizadas pela tecnologia para fomentar uma real comunicação, sem cair no simplismo de descartá-la de antemão, idealizando um modelo inalcançável? E em que medida certas formas de emissão de sinais já em operação no mundo virtual são capazes de fomentar essa comunicação transformadora? Quais as reais limitações dessa capacidade?

É nesse ponto que retomo a análise sobre o papel dos blogs. Interpretações simplistas - otimistas ou pessimistas - poderiam ser tecidas a respeito de seu potencial: considerando o sentido positivo que muitos lhes atribuem, eles seriam naturalmente capazes de promover importantes debates políticos, sociais e filosóficos; uma interpretação que seguisse a linha de raciocínio exposta por Ciro, por sua vez, resolveria a questão apontado que, assim como outros modos de emissão de sinais à distância, os blogs seriam incapazes de garantir uma real comunicação, ao invalidarem a possibilidade de percepção a respeito das transformações causadas nos leitores. Os modos de resposta às postagens - comentários e votos sobre a qualidade dos textos escritos - exporiam muita pouca informação a esse respeito, em comparação com as interações face a face, mais "palpáveis".

Saliento, uma vez mais, que essas visões simplistas deveriam ser evitadas. Desprezar ou idolatrar a comunicação online de antemão pode ser extremamente fácil; difícil é notar seus reais alcances e limitações. Ademais, os dias atuais tornam quase impossível fugir das novas tecnologias.

Pessoalmente, ainda acredito que vale a pena investir, apesar dos percalços, em tentativas de promoção de discussões no âmbito da virtualidade. Mas não escondo que torna-se mais fácil acreditar em tais potenciais comunicativos, em especial do chamado blog, quando há possibilidade de diálogo na seção de comentários: só ela (ou um encontro físico com um leitor) pode provar, ao menos em alguma medida ínfima, que não sou apenas mais um internauta discursando no escuro para uma platéia ausente ou inteiramente desinteressada.

Pedro Mancini















segunda-feira, 14 de março de 2011

A queda do muro das redes e a a reunificação das identidades virtuais

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Em outras ocasiões, já escrevi sobre como as novas formas de sociabilidade online estimulam uma percepção de fragmentação das identidades pessoais. Precisando administrar inúmeros perfis virtuais, com suas redes de contato específicas, o indivíduo inserido em relações sociais intermediadas pela internet precisa demonstrar grande competência na arte de administrar papéis e ferramentas interativas: Facebook, Twitter, Orkut, Skype, MSN, e-mail - várias formas de comunicação são utilizadas simultaneamente, cada  qual com seus instrumentos particulares.A autora Sherry Turkle já estabeleceu um paralelo entre essa fragmentação do self e a própria dinâmica do sistema operacional Windows, da Microsoft: de forma similar a esse último (e, em partes, para adaptar-se a ele), o indivíduo precisa administrar várias "janelas" autônomas, com diferenças de micro-segundos de troca entre elas.

Há dois anos, porém, a revista Wired previu que a fragmentação da internet em várias redes sociais estava condenada: apostou que os muros que separam essas redes seriam diluídos em pouco tempo. Até hoje, essa previsão não se cumpriu: a maior promessa feita nesse sentido, o Google Wave, foi um fiasco e, por mais que o Facebook  disponibilize vários aplicativos de integração com outras redes (como o Twitter), essa relação não parece "natural", estando sujeita a bugs e imprecisões (re-twitadas, por exemplo, não são reproduzidas pelo aplicativo do Facebook). Reportagens, blogs e sites de vídeos também disponibilizam ferramentas de compartilhamento entre redes, mas ainda há um considerável caminho a percorrer. Continuamos a administrar redes sociais quase em isolado, preenchendo nossos dados em cada uma, dialogando com pessoas diferentes, e refazendo o procedimento de postagem de  fotos, textos e vídeos.

Talvez todo esse trabalho estimule o ciclo "ascenção-queda-estagnação" das redes sociais: sendo tão difícil administrar todas ao mesmo tempo, opta-se por priorizar apenas uma, a rede "do momento", e passa-se a desprezar as demais. Orkut, Second Life e Twitter, pelo menos, já passaram por esse processo - e ainda não há evidências de que o Facebook não terá o mesmo destino, decaindo e estagnando após um período de sucesso absoluto. Hoje, embora o Twitter continue a manter muitos adeptos, vislumbra-se um processo de evasão, e as vozes dos que ficam não parecem superar a muralha que cerca essa rede. Ainda há pouco diálogo entre tal micro-universo virtual e todos os demais.

Mesmo assim, acho que a previsão da Wired nunca esteve tão perto de se cumprir. A eclosão de aplicativos de compartilhamento mostra que a exigência por integração continua a crescer - partindo tanto de usuários, que utilizam tais aplicativos com maior freqüência,  quanto das próprias empresas, que melhor poderiam administrar as informações de seus usuários se essas fossem absolutamente integradas, ao invés de fragmentadas em comunidades independentes.

Enfim, acredito que a destruição dessa muralha trará grandes conseqüências para o papel da internet na constituição e experimentação de identidades. O estímulo ao exercício de modos diferentes de ser sofrerá limitações, uma vez que o indivíduo não mais falará para públicos diferentes em plataformas distintas, mas sim para a mesma rede de contatos - que terá ligações cada vez mais explícitas com os contatos do mundo físico. Assim, enquanto em um universo virtual repleto de redes sociais particulares podemos assumir papéis variados (um personagem para o Twitter, outro para o Facebook, e assim por diante), em um contexto em que o que escrevemos ecoa em todos os locais, inclusive no próprio ambiente físico, tendemos a assumir um único papel, o mais coerente possível com o assumido nas relações face a face. É impossível prever o quanto relações virtuais baseadas no anonimato ainda deterão importância nesse contexto, mas acredito que elas não representarão um grande contraponto à tendência pela "unificação" das identidades virtuais.

De toda forma, difícil crer que esse movimento resultará em uma redução do uso das redes, ou em uma banalização desse uso, com a eclosão de uma sensação de mesmidade e tédio entre os usuários: creio, pelo contrário, que disso resultará um novo patamar do uso da internet, onde os indivíduos serão tentados a produzir muito mais informações a respeito de si mesmos, e com mais freqüência. Já vemos, principalmente no Facebook e no Twitter, esse tipo de pressão, em que a exibição de informações pessoais, o compartilhamento de vídeos, fotos e notícias, as re-twitadas de trend topics e o uso da própria ferramenta "curtir" (do Facebook) são usadas para medir o grau de participação pessoal na rede e a popularidade individual do sujeito. Com o fim da necessidade de gerenciar mil comunidades concomitantemente, acredito que sobrará mais tempo e disposição para muitos entrarem nesse engalfinhamento competitivo por mais "produção pessoal" e popularidade, resultando em um aumento massivo na participação virtual.

É claro, aos meus olhos, que mesmo que esse movimento represente uma redução do fomento  à multiplicidade identitária no uso da internet, ainda há uma compatibilidade entre ele e o processo de difusão de identidades plásticas entre os indivíduos imersos na sociedade contemporânea (de acordo com argumentação presente nos textos mais recentes do filósofo Vladimir Safatle). Em outras palavras, embora menos múltiplas, as identidades exercidas na internet tenderão a se tornar mais flexíveis do que nunca, adaptando-se com grande velocidade às tendências e modismos globais e locais, por meio da alimentação contínua de informações, tanto nos perfis quanto nas caixas de diálogo público das contas dos usuários das redes.

Pedro Mancini






sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Público, privado e íntimo no uso da internet: falência de uma promessa pós-moderna

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Desde seus primórdios até alguns anos atrás, a internet aparecia, para seus usuários, como uma espécie de "dimensão paralela", onde cada um de nós poderia "se realizar", expondo suas vontades e desejos mais íntimos. O anonimato, que tinha forte peso, protegia a imagem do indivíduo no mundo de fora das telas enquanto navegava pela rede. Os chats de encontros amorosos e sexuais bombaram, prometendo a realização de fantasias cotidianamente recalcadas. 

Assim, a internet era vista como um ambiente onde os indivíduos poderiam expor sua intimidade; de certo modo, era uma extensão da vida privada, com a grande diferença de que as relações eram voluntariamente estabelecidas (enquanto na esfera privada doméstica, por exemplo, grande parte das relações, salvo as amorosas e de amizade, era obrigatória - com os familiares, em especial). Com os contatos estabelecidos online, esperava-se um compartilhamento de interesses e intimidades similares ao de amizades e casos sexuais da vida física. 

Mas, com o desenvolvimento da internet e o engolfamento das relações físicas por ela, o caráter "íntimo" de seu uso ficou mais obscuro, difícil de discernir. Hoje, com a difusão das redes sociais e a redução da relevância do anonimato, não é mais possível garantir que as ações de um indivíduo na rede passarão incólumes em suas relações sociais de fora das telas do PC ou do celular: o seu empregador poderá saber de suas folias na noite, sua namorada poderá bisbilhotar seus scraps no Orkut e encanar com seus contatos no Facebook, fotos comprometedoras poderão se esparramar pelo mundo a uma grande velocidade, amizades poderão ser perdidas por um simples deslize. 

Os embricamentos entre público e privado ocorrem em vários níveis: no universo micro-social das menores interações, com diálogos privados expostos para outrens não diretamente envolvidos, e até nas vendas de informações pessoais de administradores de redes sociais para grandes corporações (vide o caso do próprio Facebook). É por isso que alguns já tem apontado para a impossibilidade de se pensar a sociabilidade das redes sociais a partir de conceitos fixos como os de "público" e "privado"; na verdade, as relações virtualmente fundamentadas se baseiam em princípios de ambas as esferas, não podendo ser classificadas por apenas um lado do espectro (as informações são, muitas vezes, compartilhadas publicamente, embora possuam conteúdo privado ou de foro íntimo). 

Muitos indivíduos já se deram conta das armadilhas inerentes a esse pensamento ingênuo, de que se pode "agir de modo livre" na internet. Usam, assim, as redes sociais de forma mais cautelosa, preocupados com a preservação de suas imagens offline, instrinsecamente ligadas ao seu comportamento virtual cotidiano. No Facebook de hoje esse auto-controle é mais visível do que, por exemplo, no Orkut de anos atrás; ainda vemos alguns deslizes graves, contudo, em redes como o Twitter (como nos casos de manifestações xenófobas, já discutidas em outra postagem desse blog - caso típico de exibição pública de opiniões privadas, que acarreta em fortes represálias para seus autores, já que possuem alcance público). Grande parte dos usuários já sabe, porém, que qualquer informação emitida poderá futuramente ser usada contra o usuário emissor, quando apropriada por um inimigo potencial ou real. A partir dessa preocupação, surgiram inúmeras recomendações de conduta online, que vão desde a previsão e prevenção de ataques pedófilos contra usuários mais jovens, até simples recomendações de etiqueta - códigos de conduta específicos para os meios de comunicação virtuais, que visam maximizar a convivência e minimizar as exposições de intimidades. Recentemente, o blog "Tec", da Folha de São Paulo, difundiu algumas dessas recomendações, objetivadas em todo um código de comportamento, apelidada de "netqueta":

"(...) E no que consiste a netqueta? É uma maneira de registrar certas condutas em redes sociais e locais semelhantes no ciberespaço, de modo que não incomode os demais.

Mais ainda, que não prejudique o próprio internauta --lembre-se: empresas checam as redes sociais em busca de “antecedentes” dos futuros profissionais ou candidatos a emprego. Já faz parte da cartilha de consultorias, e da própria internet.

Então, antes de postar aquela foto de lingerie um tanto quanto, hum, “sensual”, no seu Facebook, Twitter ou Orkut, dê uma lida rápida nas dicas dadas aqui embaixo (...):




 Evite colocar fotos simulando nudez, ou fotos de roupas íntimas. Não é sexy, é exposição demais --redes sociais também são como um encontro entre pessoas, então é como se você tirasse a roupa em um ambiente público. Lembre-se da capacidade de multiplicação da internet! Você pode se arrepender daqui a alguns anos, mas o Google pode continuar expondo essas fotos quando se busca pelo seu nome. Fotos de nudez explícita, nunca. Lembre-se: existem brechas em sites sociais que, inclusive, permitem o compartilhamento de imagens com pessoas que não são suas amigas por lá.

- Pule as descrições e pormenores de sua vida, em qualquer rede. As pessoas não se interessam por isso, e você cai no risco de ganhar um “hide” ou um “unfollow” dos seus amigos virtuais.
- Fotos de balada, fazendo pose de "poderoso", "jet-setter" ou "insider" podem dizer bem o oposto disso. Be careful!
- Não vale postar ensaios fotográficos amadores, feitos na escada de incêndio do seu prédio ou na sala de casa. Pelo simples fato de que não é bom ou bonito, é amador, por mais que você seja o Brad Pitt (ou Angelina Jolie, tanto faz)! Mas atenção: ensaios divertidos, com bom-humor e bom-senso sempre são bem-vindos.
- Diga não ao Photoshop. Retoques malfeitos podem ressoar pior do que uma beleza natural.
- Repudie fotos de si próprio no espelho e fotos de si mesmo sem olhar para a câmera. É meio forçado...
- Evite frases de efeito da Clarice Lispector. É uma grande escritora, sim, mas a leia antes. Conheça. Muito do que se difunde como sendo de sua autoria não é.
- Dentro disso, não tente impressionar demonstrando conhecimento sobre coisas que você não domina. Não é feio não saber das coisas. Sócrates, um dos filósofos mais brilhantes da nossa história (e era analfabeto, vejam só), resume: “só sei que nada sei”. Não é clichê, é real.
- Não tire foto de qualquer coisa e poste em redes sociais. Uma samambaia que é empolgante para um não é, certamente, para muitos outros.
- Saia fora de descrições minuciosas sobre as suas viagens. Seja sucinto. E poste um monte de fotos depois, elas falam por si só. Acessa somente quem quiser vê-las. E fim de papo (...)".


Pois é, navegar pelas redes sociais ficou muito mais sem graça, de certo ponto de vista: esse tipo de conjunto de regras de conduta, como o exposto pela Folha, limita enormemente as possibilidades do agir  espontâneo e livre, promessa vendida pelas ferramentas desenvolvidas na sociedade dita "pós-moderna". Vemos que, enquanto as novas formas de comunicação virtuais não são absorvidas pelas esferas mais "físicas" de interação, essa promessa até que se cumpre minimamente: Quando a esfera virtual se mantém como uma espécie de "dimensão paralela", deslocada de nossas relações físicas, tendemos a nos manifestar de modo menos limitado, buscando mostrar "quem de fato somos" pela exposição de depoimentos, opiniões e até imagens e vídeos que revelam características que - em geral - só exibimos para nossos contatos físicos mais íntimos. O anonimato foi uma das ferramentas empregadas para viabilizar esse "isolamento" do mundo virtual sobre o mundo físico. Conforme o universo virtual é absorvido pelas outras esferas - quando nossos chefes, amigos, amores e vizinhos também compõem nossa rede de contatos e/ou podem acessar livremente as informações que emitimos -, contudo, vemo-nos cada vez mais amarrados a regras de sociabilidade muito similares àquelas que balizam nosso comportamento em ambientes públicos da vida cotidiana. E, assim, a promessa da "pós-modernidade" perde boa parte de seu sentido.



Pedro Mancini
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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Possibilidades de interpretação crítica sobre as relações mediadas por novas tecnologias

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Complementando a postagem anterior, exemplificarei algumas possibilidades de interpretação crítica sobre as relações sociais virtualmente consolidadas. É claro que, como já apontei, muitas das críticas tecidas contra as interações virtuais são preconceituosas e catastróficas, sem um aprofundamento real sobre os problemas que elas nos colocam; mesmo assim, apontam questões que merecem ser abordadas, embora usualmente ignoradas pelos defensores mais "fanáticos" das novas tecnologias.

É possível, por exemplo, questionar o conteúdo das relações estabelecidas e mantidas por ferramentas tecnológicas mais recentes. O sociólogo Dominique Wolton é um dos que pensam nesse sentido, considerando que vivemos em uma "sociedade individualista de massas", potencializada por redes sociais como o Facebook. Negando a idéia segundo a qual a internet fomentaria um debate democrático, com o convívio de indivíduos que pensam de modos distintos, estimulando, portanto, a formação de sociedades virtuais globais, Wolton considera que as redes sociais e outras ferramentas de interação mais recentes fomentam modos comunitários de associação - formados por indivíduos que pensam de forma equivalente e possuem interesses comuns. De fato, o Twitter, por exemplo, têm se manifestado como um exemplo típico dessa forma de sociabilidade: pessoas "seguem" aqueles que pensam como elas, e criam verdadeiras "panelinhas comunitárias", agredindo aqueles que pensam de forma distinta, ao invés de conviverem pacificamente com eles. O período eleitoral salientou essa característica do Twitter, e cultivou sementes de discórdia que ainda perduram - como as últimas manifestações xenófobas contra nordestinos, encabeçadas por jovens de classe média do Sul e Sudeste do país. Essas formas de intolerância comunitária encontram nas redes sociais a possibilidade de propagação, dada a convivência de indivíduos que compartilham de suas opiniões (inconfessáveis em público), e um ambiente propício para exercitar seus dogmas (por meio de agressões verbais contra adeversários, vistas, de modo ilusório, como imunes à punição legal). 

O sociólogo francês vai mais longe: pontua que as formas de interação virtuais não fomentam relações de profundidade, "verdadeiras"; pelo contrário, estimularia aquilo que ele chama de "solidão interativa", onde a conectividade exagerada convive com uma falta de laços sociais significativos. Pontua, ainda, que a comunicação "de fato", aprofundada, é escassa nas relações virtuais, dado que esta exigiria não apenas a emissão unilateral de opiniões, como um retorno da recepção - uma resposta dos interlocutores. Nesse momento, me identifico com o pensador, já que percebo essa situação em meu próprio blog: por mais que eu publique, não consigo fomentar muita discussão entre meus leitores, que raramente comentam meus escritos. E essa é uma situação muito comum, ao menos entre os blogs menos famosos. 

Como já indiquei, contudo, não temos que mergulhar de cabeça nessas críticas nefastas sobre as relações estabelecidas pelas novas tecnologias; temos, ao contrário, que problematizá-las, retirando delas o que fizer mais sentido - e repudiando os exageros e deficiências de apreensão. Assim, é passível que crítica que o sociólogo não qualifique as relações virtuais, taxando-as, simplesmente, de "falsas" ou pouco profundas. Que espécies de relações se formam e se mantém nas redes sociais? Esse questionamento foi evitado pelo pensador (ao menos nesse texto introdutório que linquei), que parte de um conceito ideal daquilo que seria uma relação social "verdadeira" ou "profunda". Assim, as relações virtuais resumem-se a uma "não-relação", por não cumprirem os requisitos imputados pelo autor (de profundidade e constância). 

Além disso, não podemos ignorar que a difusão das novas tecnologias também acarretou em claros benefícios: hoje em dia, um blog pessoal, por exemplo, pode ter alcance global, e a informação acaba sendo muito mais difundida. É claro que essas formas de comunicação mais modernas são passíveis de críticas - boatos, preconceitos e outras informações danosas são tão ou mais espalhadas pela internet do que informações úteis -, mas o que necessitamos é de um entendimento mais aprofundado sobre as formas e conteúdos típicos desses meios. 

Trafegando pela vertente frankfurtiana, o filósofo alemão Christoph Türcke, por sua vez, analisa a sociedade contemporânea pela perspectiva da sensualidade inerente a seus mecanismos. Para ele, a sociedade do pós-guerra transformou-se em uma "sociedade da sensação", imersa em um excitamento contínuo, com efeitos similares ao das drogas.

Nesse sentido, as ferramentas tecnológicas aparecem como fonte de injeções sensuais, alienantes e entorpecentes, que inculcam em seus usuários, com toda essa "magia" hiper-real, uma relação de dependência. Diz o filósofo, em entrevista para a Folha:

Vício como fenômeno particular --como dependência física de certas substâncias (drogas)-- está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia.

Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela.

Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos.

O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Mais uma vez, as análises ultra-ácidas sobre a tecnologia devem ser relativizadas. Manuel Castells, com suas limitações, demonstrou que a taxação do uso da internet como "vício", embora fácil, não é tão verdadeira assim; os indivíduos, para ele, não deixam de se relacionar socialmente por conta de sua imersão nos mundos virtuais. Pelo contrário, tenderiam a interagir com maior freqüência com seus amigos e familiares mais íntimos, pelo uso das ferramentas comunicativas mais recentes. 


Entre os dois analistas, um catastrófico e outro otimista, fico, novamente, com um meio-termo: o indivíduo usuário das tecnologias virtuais não está isolado do mundo, alienado de sua própria existência material; antes, está consideravelmente mais ligado a esse mundo do que no passado - ao menos em termos quantitativos, pelo número de relações e contatos estabelecidos. Por outro lado, devemos nos questionar: como o indivíduo se relaciona com seu universo, quando esse relacionamento é mediado por  novas tecnologias? Podemos simplesmente falar de uma "não-relação", ou podemos, ao contrário, explorar mais a fundo esses novos tipos de interação, sem recair em reducionismos simplistas - vinculados ora a um otimismo, ora a um pessimismo desmedidos?

Pedro Mancini

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A derrota (provisória e limitada) do radicalismo desconcertado

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O resultado das eleições não significou, simplesmente, a vitória de um projeto político sobre outro. Aliás, uma das críticas feitas à campanha do Serra foi, justamente, a respeito da ausência de um projeto político próprio. Creio que, para além disso, o resultado das urnas pode ser interpretado, parcialmente, como uma derrota relativa e provisória de um fundamentalismo moral, ideológico e até religioso acionado pelo próprio processo eleitoral, que buscou a desqualificação e demonização absolutos da candidata petista e de seus aliados. 

Essa vitória não foi absoluta, e nem pode ser simplificada como resultado de um simples embate entre um lado "razoável" e outro "radical": pautando-se em análises preconceituosas e sem fundamento sobre o adversário, militantes e simpatizantes do PT, como disse em minha última postagem, também tentaram desqualificar moralmente o candidato José Serra; esta foi uma tática generalizada durante o segundo turno eleitoral.

Mas houve diferenças importantes na adoção dos discursos radicais pelos dois: tendo progressivamente sua imagem colada à do Presidente Lula, Dilma Rousseff rapidamente ultrapassou seu rival nas intenções de voto no primeiro turno, consolidando sua liderança na disputa. Dependente da popularidade do atual Presidente, que já lhe garantiu votos suficientes para sua eleição - embora não no primeiro turno -, a candidata não precisou partir para a baixaria tanto quanto Serra; só o fez, efetivamente, como resposta aos ataques tucanos, percebendo que os últimos surtiram algum efeito (o suficiente para impedir uma vitória avassaladora do PT). Ainda assim, recorreu mais a uma apelação com argumentações políticas programáticas (como a taxação de Serra da alcunha de "privatista"), expondo a biografia política do ex-governador paulista e de seu partido, do que a uma apelação moralmente carregada sobre características pessoais do candidato. 

Partiu de José Serra, portanto, a iniciativa de se apropriar dos sentimentos mais obscuros e primários de seu eleitorado: o ódio religioso, o moralismo, o pavor desmedido e a demonização do adversário. Percebendo que não iria conquistar muitos votos se mantivesse uma associação forçada com o Governo Lula, prendendo-se aos seus sucessos, o tucano deu uma guinada violenta em sua abordagem, e passou a fuzilar o partido rival, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade - a TPF e outras alas religiosas radicais, como setores  evangélicos e católicos. Trouxe à tona a questão do aborto, posando de autoridade no quesito "defesa dos costumes cristãos", e aproveitou uma velha associação entre o PT, o terrorismo, e até o narcotráfico (explorada sob a figura agressiva de Índio da Costa, vice de Serra). É claro que a figura de José Dirceu, o demonizado-mor, não poderia faltar na estratégia do medo encabeçada pela campanha tucana. Os métodos de divulgação de seus ataques foram ainda mais obscuros do que seus conteúdos: e-mails e panfletos apócrifos, com ataques pessoais e manipulações de informações das mais bizonhas.Uma verdadeira campanha subterrânea.

Nos momentos finais da campanha, a sociedade esteve fortemente dividida, graças à exploração desses temas moralistas; Serra consegui arrebanhar o ódio de alguns setores, acionando um "estado de guerra" ideológico. De fato, a sociedade segmentou-se entre direita e esquerda, mas com um forte viés irracional, emotivo e moralista - em que as visões políticas de cada classe e espectro ideológico apareceram nas sombras, fundamentando, de modo muito indireto, os preconceitos morais. A desaprovação de políticas voltadas à população mais pobre foi convertida, assim, em ódio contra um partido "imoral", fisiológico, assistencialista e populista.

O tucano perdeu as eleições mesmo adotando essa estratégia, mas estabeleceu uma trincheira de resistência contra o Governo eleito - ação que o próprio tucano atribuiu a seus militantes, em seu discurso de derrota. Nessa sua rancorosa fala pós-eleitoral, ele não deixa dúvidas: continuará se portando como o baluarte da justiça, da moral e do "bem", tentando centralizar a oposição ao Governo Lula sob sua figura. Quer manter a divisão do país, estabelecida durante sua campanha agressiva, para manter-se enquanto voz política da direita.

Parte da população apoiadora da oposição ficou ainda mais raivosa com sua derrota, e esse sentimento ampliado de ódio continuará a ser explorado pelo ex-governador de São Paulo. Apenas um dia após a vitória da Dilma, proliferaram-se, inclusive, manifestações de xenofobia, primordialmente contra os nordestinos - na suposição de que eles seriam os únicos responsáveis pela vitória do PT nas urnas. Vale lembrar: Dilma ganhou com uma margem de mais de 12 milhões de votos, dos quais 10 milhões foram do NE; ou seja, ela teria ganho o processo eleitoral mesmo se desconsiderássemos todos os votos nordestinos. Aliás, mesmo se considerássemos apenas os estados do Sul e do Sudeste. Vejamos as principais manifestações xenófobas, proliferadas pelo Twitter:



Vemos, assim, que a onda de afirmações negativas deflagradas pela oposição, encabeçada por Serra desde o início da campanha eleitoral, especialmente por vias virtuais, baseia-se em preconceitos infantis e suposições falsas e incoerentes. A manipulação de informações é a base dessa estratégia: graças à distorção de dados, podemos imputar a "máscara do demônio" em nosso adversário, ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria imagem. A rotulação de Dilma como "terrorista" é um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno: com a manipulação de informações sobre sua participação na resistência à Ditadura Militar, a partir de dados emitidos pelo próprio regime da época, e a camuflagem do fato de o o próprio Serra ter sido classificado como terrorista e fichado pelo militares, faz com que circule a idéia de que a Dilma seja uma "criminosa" - enquanto o Serra seria um aguerrido combatente da Ditadura. Se virmos com clareza sua ficha no DOPS, contudo, não encontraremos tantas diferenças assim entre o Serra e a Dilma de antigamente - ambos vinculados à extrema esquerda, com simpatias pelo regime cubano, e ambos tratados como revolucionários perigosos pelos dirigentes do passado.


É claro que os dois participaram do movimento de resistência de modos distintos: Serra era militante do movimento estudantil e foi um dos fundadores facção esquerdista Ação Popular, com viés católico, e conquistou o cargo de presidente da UNE apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro. Indo para o exílio após o golpe, regressou definitivamente ao país somente em 1975. Dilma, por sua vez, militou em um movimento mais aguerrido, que chegou a desenvolver ações violentas contra o Estado - a VAR Palmares .  Foi presa em 1970, torturada nos porões da Ditadura, e liberta dois anos depois. Apesar de suas diferenças, ambos os personagens que concorreram à Presidência foram classificados como "terroristas subversivos" pelo Estado - e esse fato é absolutamente desprezado pelos difamadores de Dilma, de modo que apenas a petista seja vista como extremista e vinculada ao terror político (sendo que não há nenhuma comprovação de que tenha participado diretamente de quaisquer ações armadas).

Esse radicalismo preconceituoso é que foi momentaneamente derrotado, após ter sido conjurado pelos tucanos. Como indiquei no começo, todavia, não verificamos uma derrota absoluta e inexorável desse monstro da intolerância e irracionalidade; na verdade, seria mais correto indicar que ele foi desperto durante a campanha eleitoral, e que, embora não tenha garantido a vitória daquele que o acordou, permanece ativo, mais furioso do que nunca, com a bordoada que levou das urnas. Prova disso é a já mencionada explosão xenófoba, que ainda persiste.

O radicalismo continuará, assim, armando a oposição. Mas terá de enfrentar uma força oposta tão ou mais poderosa, que prega a racionalidade e a moderação, e que saiu forte das urnas: a mesma força que resultou em um linchamento moral e jurídico dos "twiteiros" xenófobos e na aniquilação das ambições eleitorais de Serra. Pela primeira vez na história brasileira recente, o moralismo radical encontra forte resistência na sociedade: a voz da mídia não é mais absoluta e monolítica, diversificando progressivamente seus posicionamentos, e os demonizados do passado voltam de suas tumbas para se defender das acusações regressas. (Vide o caso de José Dirceu, que, após ser moralmente linchado e até levar bengaladas de um cidadão raivoso, peita de frente jornalistas do programa Roda Viva, demonstrando grande habilidade oratória e política - independentemente de seu grau de culpa nos casos mencionados.)

É claro que esse movimento, pela volta da razão e rejeição da demonização de adversários, comporta os seus próprios riscos: no caso, o favorecimento de um conformismo racional e um aumento da banalização de práticas políticas condenáveis, como a corrupção propriamente dita. Afinal, quando neutralizamos as emoções, reduzimos nossa capacidade de nos revoltarmos contra injustiças. É preciso, portanto, saber dosar as emoções, antes de querer sufocá-las, apenas; submetê-las, permanentemente, a uma revisão crítica racional, utilizando-as de acordo com nossas crenças fundamentadas, e sem nos deixarmos dominar por elas.

Acho que temos muito mais a ganhar do que a perder, se julgarmos os participantes da vida pública de modo fundamentado, analisando seus projetos políticos e visão de sociedade, sem cair em preconceitos reducionistas - ou então na armadilha de considerar os nossos representantes como uma massa homogênea (com base no preceito do "todos são iguais"). E parte fundamental desse comportamento razoável depende de um controle relativo sobre nossos impulsos, que, quando dominam as ações, nos tornam especialmente vulneráveis a manipulações de forças políticas obscuras, além de nos cegar para uma visão mais objetiva sobre os acontecimentos. Esperemos que a consciência continue a prevalecer sobre essa barbárie, apesar dos esforços teimosos de parte da oposição em utilizar sentimentos bárbaros (de ódio e pavor, principalmente) para benefício próprio, mesmo após as combativas eleições de outubro.

Pedro Mancini 






terça-feira, 10 de agosto de 2010

Twitter e o tribalismo político

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A contaminação do Twitter pela campanha eleitoral têm demonstrado que a consolidação da Internet enquanto um espaço de relacionamento e intercâmbio deperspectivas heterogêneas (com fins de obtenção de consensos e comuns-acordos) ainda não se cumpriu. 

Não há mais dúvida de que a Internet se fundamentou como um instrumento global de comunicação e difusão de informação, a ponto de os políticos e celebridades não poderem se dar ao luxo de ignorá-la - devendo apropriar-se de seus mecanismos o máximo  que puderem. Assim, candidatos com contas no Twitter brotaram às centenas, espalhando suas convicções político-ideológicas aos quatro ventos. Aqueles que não aderirem integralmente ao universo virtual, correm sérios riscos de povoarem a marginalidade do imaginário popular.

A despeito da ocupação da Internet por gente de todo tipo - desde o mais comum dos mortais até a mais idolatrada celebridade contemporânea  -, o que vemos não é tanto um gigantesco intercâmbio entre convicções plurais, rumo a um elevado debate, em que todos põe à prova suas idéias, arriscando-se a rever seus preconceitos no contato com o diferente. Muito pelo contrário, a  rede mundial de computadores - e, em especial, o Twitter - parece refletir a fragmentação do social entre inúmeros grupelhos de opinião, muito pouco dispostos ao diálogo com o Outro. 

Os movimentos de "seguidores" que acompanho no Twitter embasam essa visão. Em geral, não estamos interessados em seguir aqueles com os quais não concordamos; as opiniões que expressam no Twitter só servem para nos irritar, quando expostas em nossa tela inicial. Se seguimos adversários, é pelo único prazer de poder atacá-lo verbalmente, agredí-lo e ridiculariza-lo perante todo o público virtual. que acompanhar a discussão. Trata-se, em verdade, de uma verdadeira guerra de idéias entre variadas facções que maios esbravejam que conversam. Serristas não seguem dilmistas, a não ser para ofendê-los, e vice-versa. Todos fecham-se em suas "tribos" ideológicas. 

A questão da exposição de idéias políticas não se restringe aos políticos profissionais. As celebridades devem ficar especialmente atentas a isso, caso queiram seguir a lógica quantitativa das redes sociais, que mede a popularidade pelo número objetivo de seguidores ( quanto mais, melhor). A exposição, por menor que seja, do favorecimento a um ou outro candidato ou corrente política pode gerar uma verdadeira debandada de seguidores, além de lotar a tela do artista em questão de xingamentos, agressões e questionamentos mil. daqueles que dele discordarem. Um posicionamento político-eleitoral precipitado, e um famoso qualquer pode limitar sua lista de seguidores aos adeptos de uma determinada posição - afinal, tcomo quis argumentar, tendemos a seguir somente nossos "iguais".

É claro que muitas celebridades - em geral, as maiores - conseguem se livrar desses particularismos. Além de evitarem ao máximo o "escape" de suas preferências político-partidárias, sua imagem parece plainar acima de qualquer crítica política. Nomes de celebridades mais conhecidas e idolatradas são blindados por uma espécie de aura mágica, e, ao invés de se tornarem escravos de seus seguidores virtuais, convertem-se em seus mestres: uma mera insinuação de um artista mega-pop pode dobrar a opinião pessoal de milhares de fãs-seguidores. 

Os maiores prejudicados pelos tribalismos político-ideológicos da internet são, assim, as celebridades menores, tal qual as "subcelebridades"; essas, desesperadas  pelas "migalhas" de seguidores do Twitter que as celebridades maiores espalham pelo enorme solo virtual, não têm uma imagem tão forte para se darem ao luxo de tomarem uma posição. Caso o façam, correm o sério risco de empacarem no arrebanhamento de seguidores, mantendo apenas os adeptos que com eles concordem. E nenhum pretendente a celebridade "universal" que se preza evita manter uma certa névoa de ambiguidade e neutralidade sobre si, ao firmar os pés de um lado determinado do espectro político. Uma neutralidade, embora sempre falsa e hipócrita, é a fóruma mais fácil para um artista manter sua rede de adeptos.

Regina Duarte, após proferir todo o seu "pavor" com relação ao vindouro Governo Lula, em 2002, converteu-se em um exemplo do que digo: Praticamente evaporou dos holofotes. Para relembrar:





A vítima da vez parece ser outra senhora global, a Maitê Proença - que já criou em uma verdadeira saia justa em um programa de mesmo nome, ofendendo os portugueses -, após atribuir ao machismo brasileiro a missão de "salvar" o povo brasileiro da candidata Dilma Roussef. Ela e Regina, com seus radicalismos tacanhos e patéticos, baseados em sentimentos rudimentares e absolutamente preconceituosos como - o medo e o ódio-, isolam-se muito mais do que aqueles que dão indicações mais discretas sobre seu posicionamento político-eleitoral (figuras como os integrantes do CQC, que ainda conseguem um sucesso relativo na tentativa de parecerem "neutros"). Vamos ver o que sobrará da já abalada imagem de Proença depois de mais essa declaração desastrosa, dada em entrevista ao Estado de São Paulo... Confiram:


O feminismo já era ou a mulher ainda precisa lutar contra as discriminações da sociedade?
A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria venha a calhar nesse momento de eleições, atiçando os machos selvagens e nos salvando da Dilma?

É claro que não são apenas os opositores do Governo Federal que têm sua imagem abalada após revelarem seu posicionamento político. Amantes do Governo Lula e do PT também sofrem, e muito. Entre alguns casos dessa espécie, cito as críticas sofridas pelo grupo O Teatro Mágico, que declarou apoio à candidatura Dilma, e o isolamento a que o jornalista Paulo Henrique Amorim se submeteu ao declarar uma guerra aberta contra os tucanos - assim como inúmeros outros jornalistas e blogueiros, que passaram a ser perseguidos, por exemplo, pela Revista Veja e outros órgãos graças ao seu posicionamento. Aliás, a própria Revista Veja, dado seu viés gritante, também se tornou um órgão de comunicação isolado, restrito à masturbação ideológica da velha classe média e  aos consultórios médicos e odontológicos.

Em resumo, há um preço alto a pagar pela violação da aparência de neutralidade, e isso se torna ainda mais visível e verdadeiro em redes sociais como o Twitter.


Pedro Mancini

terça-feira, 21 de julho de 2009

Comparação

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Tive que postar essa grade pérola que o Twitter me forneceu...
Quem não conhece as obras dos autores, sugiro muitíssimo a leitura de ambas!
(A imagem ficou muito pequena e não tenho conhecimento nem paciência para aumentá-la rapidamente, então envio o link da mesma: http://fatpita.net/?i=1952.)