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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A tolerância desigual de Simmel e a "carteirada" de DaMatta

3 comentários:
Hoje, trago uma  reflexão desenvolvida pelo famoso sociólogo Georg Simmel, em fins do século XIX, mais que ainda me parece bastante atual. O enxerto é de um dos artigos que compôs a coletânea "A Filosofia do Amor", com vários textos tratando somente da temática amorosa - de um ponto de vista sociológico, trabalhado, de modo brilhante, em forma de ensaio. Recomendo a leitura para todos os públicos: é um livro que aguça diretamente nossa capacidade de observação crítica da sociedade, com a apresentação de pontos de vista extremamente ousados para a época. O artigo de onde extraí o parágrafo a seguir trata, especificamente, da temática da prostituição; creio, contudo, que as perspectivas que apresenta podem ser levadas à compreensão de outros fenômenos (como, por exemplo, a criminalidade em si), mesmo nos dias presentes:


"É um caráter constante de nossa sociedade cobrar as mais elevadas exigências, em matéria de firmeza de caráter e de resistência às tentações, precisamente daqueles a quem ela mais priva das condições da moralidade. Ela pede ao proletário faminto mais respeito pela propriedade de outrem do que aos barões da Bolsa ou aos pilantras da nobreza; e exige do trabalhador uma modéstia e uma simplicidade máximas, enquanto lhe põe cotidianamente diante dos olhos a tentação do luxo de todos os que ele fez enriquecer; ela se horroriza muito mais com a criminalidade das prostitutas do que com a de qualquer outra categoria, sem pensar que deve ser muito mais difícil para o excluído superar a tentação de agir mal do que para aquele que se acha confortavelmente instalado em seu seio". 


Mais interessante é pensar como essa visão se adaptaria à realidade brasileira e suas especificidades, de acordo, por exemplo, com a perspectiva que Roberto DaMatta, apresenta em "Carnavais, Malandros e Heróis". Será que o fenômeno exposto por Simmel não se agravaria em um ambiente altamente estratificado como o brasileiro, em que os mais favorecidos utilizam-se de seu status para obter vantagens diretas de instituições que deveriam tratar a todos com igualdade? Será que não somos ainda mais tolerantes com comportamentos "desviantes" dos privilegiados, em comparação com os assumidos pelos excluídos?

É claro que, em muitos meios, borbulham indignações quanto aos privilégios de que políticos e "autoridades" se munem (como promotores de justiça que se envolvem em acidentes com a certeza de não serem propriamente punidos). Mas podemos pensar até que ponto, e para muitos, essa indignação não passa de certa "inveja" cultivada por aqueles que não podem deter os mesmos privilégios, ao invés de uma indignação ampla e consolidada sobre as desigualdades desse sistema personalista em que nos encontramos. Afinal, como as pesquisas mostram, os brasileiros adoram dar suas "carteiradas" e aplicar "jeitinhos" - ou o famosos "você sabe com quem está falando?" - na primeira oportunidade que têm, ao mesmo tempo em que não se comformam com as carteiradas e os jeitinhos aplicados por outrens.

De todo modo, essa relação especial do brasileiro com o jeitinho e outros privilégios de status parece casar perfeitamente com a visão de Simmel, ao menos em uma primeira olhadela.

Pedro Mancini








quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Rio de Janeiro: entre a incompetência arrastada e a grande farsa

13 comentários:
Mais uma vez, depois de algum tempo, tive que abandonar o blog por uns dias. Explico-me: o fim-de-semestre foi realmente conturbado, e tive de lidar não só com uma certa "correria acadêmica", como com uma série de outros problemas, inclusive de cunho técnico-informático. 

Embora o pior já tenha, aparentemente, passado, ainda não estou 100% recuperado dessa "ressaca" de fim de ano; mas já devo estar bom o suficiente para escrever algumas coisas - o que, inclusive, me serve como um bom remédio contra meu atual estado de letargia 

Estou minimamente apto, portanto, a tecer algumas reflexões bem superficiais sobre o que aconteceu - e ainda acontece - na cidade do Rio de Janeiro. Perdoem-me, porém, por imprecisões e indecisões: nesse meu isolamento do mundo virtual, afastei-me igualmente de análises mais pormenorizadas sobre a situação carioca, pautando-me, tão somente, em impressões pessoais obtidas mediante uma análise mínima sobre reportagens vinculadas na mídia tradicional.

Primeiramente, admito que já estive entre aqueles um pouco mais otimistas: achei a idéia por trás das chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) muito interessante, buscando uma integração entre agentes estatais de segurança e comunidade local e aliando ações de cunho repressivo a medidas de desenvolvimento de outros aparatos institucionais do Estado nas regiões ocupadas (escolas, saneamento básico, postos de saúde, etc). Evidente que, como a maioria dos projetos, difícil levar a idéia para a prática com toda a eficácia inicialmente planejada; mas, enquanto tipo-ideal, as UPPs são realmente curiosas e inovadoras - Especialmente como contraponto ao bárbaro BOPE, voltado única e exclusivamente à mais brutal repressão, com uma ideologia de total separação não só entre o policial e a comunidade, mas entre seu papel social de "caveira" e sua própria humanidade interior.

Vista sob esse prisma, a série de ataques articulada pelo crime organizado, que resultaram na intervenção de várias forças de segurança no Rio de Janeiro, seriam reações desesperadas ao sucesso da implementação das UPPs - além, é claro, à sinistra ocupação de várias comunidades por milicianos anti-tráfico, bem retratada pelo filme "Tropa de Elite 2". O crime organizado, em suma, perdera terreno, e tinha que mostrar, de algum modo, que ainda estava no controle, e que o Estado (e "adjacências" ilegais, como as milícias) não avançaria mais um passo sem lidar com forte resistência. 

Após retaliação dos criminosos, com a queima de veículos por toda a capital fluminense, o Estado resolveu agir com vigor. Pela primeira vez em décadas de combate contra facções criminosas que dominam as favelas cariocas, vários órgãos de segurança do Estado, bem como múltiplos setores da sociedade, uniram-se por uma mesma causa: a remoção do Rio de Janeiro do seu estado de anomia social, com os constantes embates entre facções, milícias e policiais. O contexto prometia uma solução permanente para a problemática da violência urbana carioca.

A cobertura da mídia sobre a ação da Polícia e do Exército no Complexo do Alemão representou muito bem esse caráter de "momento decisivo" da luta contra o crime e de união de toda a "sociedade civil" em torno dos mesmos propósitos; pela primeira vez após o radicalismo ideológico fomentado pelas eleições presidenciais, a sociedade brasileira parecia falar em uma só voz. Uma voz de apoio incondicional às ações do BOPE, mais uma vez convocado para as batalhas mais difíceis, e de esperança quanto a uma solução  não-paliativa.

Em uma dada semana, as principais revistas semanais de notícias reproduziram esse pensamento: Veja, IstoÉ e ÉPOCA retrataram o momento carioca pelo viés da luta do BOPE contra o "mal" dos traficantes, e com um tom de otimismo com relação ao futuro da cidade. Nos discursos do cotidiano, também era difícil encontrar vozes distoantes. Todos os que vêem o caos carioca de longe parecem pensar de forma razoavelmente parecida, qual seja:  interpretando a situação como uma simplória luta entre o "bem" e o "mal". Com esse raciocínio, elimina-se a crítica à brutalidade do BOPE, por exemplo: nesse momento de crise, deixa de ter importância uma análise sobre a moralidade de sua atuação, e ele é simplesmente categorizado como compondo o "lado do bem", lutando pelo "cidadão" que o Estado tanto gosta: ordeiro, aceitando a exploração pelo mercado de trabalho, ao invés de rebelar-se contra o mesmo.






Por fim, a mídia noticiou o pleno sucesso da operação de ocupação do Complexo. As facções foram desmanteladas de modo muito mais rápido e fácil do que previsto pela maioria, senão por todos. Agora, só resta perseguir os prováveis fugitivos e encontrar armas e drogas deixadas para trás. O crime organizado sofrera uma derrota humilhante.

Fujo, porém, das interpretações mais casuais sobre a atuação do Estado mediante os últimos acontecimentos: ao invés de me parecer um sucesso óbvio, a operação serviu para confirmar uma grande ineficácia das instituições brasileiras, ao menos em sua apreensão racional, baseada nos preceitos ocidentais da justiça e da igualdade de todos perante a lei. Uma ineficácia não do  governo atual, mas muito mais profunda, de Estado mesmo. Afinal, das duas uma: ou o crime estava bem menos articulado do que o previsto, e poderia ser vencido há muito tempo - e o teria sido, se não fosse conveniente ao Estado mantê-lo e permitir seu desenvolvimento; ou, e essa é a alternativa mais terrível, o crime está muito mais emaranhado na realidade social do que aparentava, e todas as ações dos últimos dias não passaram da mera simulação de uma batalha épica contra um inimigo muito mais poderoso, de atuação capilar.

Pensando sob a última perspectiva, o problema da segurança pública não foi diretamente atacado. Tudo não passou de ilusões e manipulações, de uma grande farsa, alimentada por uma rede de "interesses escrotos" (palavras utilizadas pelo Capitão Nascimento para caracterizar o "sistema" que combate em ´Tropa 2´). Continuo defendendo, portanto, que não existe algo como uma "opinião pública" homogênea, com um só interesse: as últimas ações policiais beneficiaram certos setores em detrimento a outros (e não estou falando de uma mera dicotomia "cidadãos de bem" X "bandidos"), como toda decisão política, por mais que a imagem de uma unidade de pensamento tenha sido formada. Alguns dos interesses por detrás dessa farsa parcial podem ter vindo da preocupação com a imagem da cidade que sediará eventos das Olimpíadas e da Copa do Mundo de Futebol, nos próximos anos. Mas acredito que muitos outros interesses escusos estejam envolvidos.

Se essa visão se confirmar, vimos apenas a consumação de mais uma medida paliativa e provisória para o Rio, criada sob a máscara da "resolução final", da "luta épica contra o mal". E assim, a sujeira é mais uma vez empurrada para debaixo do tapete, de modo absolutamente conveniente para os interessados mais poderosos: enquanto alguns criminosos são desalojados, vários outros mantém seus domínios, inclusive os milicianos, em plena re-expansão. E o pior: os problemas sociais reais, que afligem as comunidades periféricas, não são manejados; a polícia aparece, espanta os traficantes e, após o furor sócio-midiático inicial, se recolhe, se corrompe ou ambos. As preocupações iniciais das UPPs, de trazer o Estado inteiro (e não sua parcela repressiva, exclusivamente) esvanecem no ar. A exclusão social se mantém, mas apaziguam-se os ânimos mais acirrados da população e da mídia, sedentas por um frágil estado de paz imediata.


Pedro Mancini 


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A derrota (provisória e limitada) do radicalismo desconcertado

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O resultado das eleições não significou, simplesmente, a vitória de um projeto político sobre outro. Aliás, uma das críticas feitas à campanha do Serra foi, justamente, a respeito da ausência de um projeto político próprio. Creio que, para além disso, o resultado das urnas pode ser interpretado, parcialmente, como uma derrota relativa e provisória de um fundamentalismo moral, ideológico e até religioso acionado pelo próprio processo eleitoral, que buscou a desqualificação e demonização absolutos da candidata petista e de seus aliados. 

Essa vitória não foi absoluta, e nem pode ser simplificada como resultado de um simples embate entre um lado "razoável" e outro "radical": pautando-se em análises preconceituosas e sem fundamento sobre o adversário, militantes e simpatizantes do PT, como disse em minha última postagem, também tentaram desqualificar moralmente o candidato José Serra; esta foi uma tática generalizada durante o segundo turno eleitoral.

Mas houve diferenças importantes na adoção dos discursos radicais pelos dois: tendo progressivamente sua imagem colada à do Presidente Lula, Dilma Rousseff rapidamente ultrapassou seu rival nas intenções de voto no primeiro turno, consolidando sua liderança na disputa. Dependente da popularidade do atual Presidente, que já lhe garantiu votos suficientes para sua eleição - embora não no primeiro turno -, a candidata não precisou partir para a baixaria tanto quanto Serra; só o fez, efetivamente, como resposta aos ataques tucanos, percebendo que os últimos surtiram algum efeito (o suficiente para impedir uma vitória avassaladora do PT). Ainda assim, recorreu mais a uma apelação com argumentações políticas programáticas (como a taxação de Serra da alcunha de "privatista"), expondo a biografia política do ex-governador paulista e de seu partido, do que a uma apelação moralmente carregada sobre características pessoais do candidato. 

Partiu de José Serra, portanto, a iniciativa de se apropriar dos sentimentos mais obscuros e primários de seu eleitorado: o ódio religioso, o moralismo, o pavor desmedido e a demonização do adversário. Percebendo que não iria conquistar muitos votos se mantivesse uma associação forçada com o Governo Lula, prendendo-se aos seus sucessos, o tucano deu uma guinada violenta em sua abordagem, e passou a fuzilar o partido rival, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade - a TPF e outras alas religiosas radicais, como setores  evangélicos e católicos. Trouxe à tona a questão do aborto, posando de autoridade no quesito "defesa dos costumes cristãos", e aproveitou uma velha associação entre o PT, o terrorismo, e até o narcotráfico (explorada sob a figura agressiva de Índio da Costa, vice de Serra). É claro que a figura de José Dirceu, o demonizado-mor, não poderia faltar na estratégia do medo encabeçada pela campanha tucana. Os métodos de divulgação de seus ataques foram ainda mais obscuros do que seus conteúdos: e-mails e panfletos apócrifos, com ataques pessoais e manipulações de informações das mais bizonhas.Uma verdadeira campanha subterrânea.

Nos momentos finais da campanha, a sociedade esteve fortemente dividida, graças à exploração desses temas moralistas; Serra consegui arrebanhar o ódio de alguns setores, acionando um "estado de guerra" ideológico. De fato, a sociedade segmentou-se entre direita e esquerda, mas com um forte viés irracional, emotivo e moralista - em que as visões políticas de cada classe e espectro ideológico apareceram nas sombras, fundamentando, de modo muito indireto, os preconceitos morais. A desaprovação de políticas voltadas à população mais pobre foi convertida, assim, em ódio contra um partido "imoral", fisiológico, assistencialista e populista.

O tucano perdeu as eleições mesmo adotando essa estratégia, mas estabeleceu uma trincheira de resistência contra o Governo eleito - ação que o próprio tucano atribuiu a seus militantes, em seu discurso de derrota. Nessa sua rancorosa fala pós-eleitoral, ele não deixa dúvidas: continuará se portando como o baluarte da justiça, da moral e do "bem", tentando centralizar a oposição ao Governo Lula sob sua figura. Quer manter a divisão do país, estabelecida durante sua campanha agressiva, para manter-se enquanto voz política da direita.

Parte da população apoiadora da oposição ficou ainda mais raivosa com sua derrota, e esse sentimento ampliado de ódio continuará a ser explorado pelo ex-governador de São Paulo. Apenas um dia após a vitória da Dilma, proliferaram-se, inclusive, manifestações de xenofobia, primordialmente contra os nordestinos - na suposição de que eles seriam os únicos responsáveis pela vitória do PT nas urnas. Vale lembrar: Dilma ganhou com uma margem de mais de 12 milhões de votos, dos quais 10 milhões foram do NE; ou seja, ela teria ganho o processo eleitoral mesmo se desconsiderássemos todos os votos nordestinos. Aliás, mesmo se considerássemos apenas os estados do Sul e do Sudeste. Vejamos as principais manifestações xenófobas, proliferadas pelo Twitter:



Vemos, assim, que a onda de afirmações negativas deflagradas pela oposição, encabeçada por Serra desde o início da campanha eleitoral, especialmente por vias virtuais, baseia-se em preconceitos infantis e suposições falsas e incoerentes. A manipulação de informações é a base dessa estratégia: graças à distorção de dados, podemos imputar a "máscara do demônio" em nosso adversário, ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria imagem. A rotulação de Dilma como "terrorista" é um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno: com a manipulação de informações sobre sua participação na resistência à Ditadura Militar, a partir de dados emitidos pelo próprio regime da época, e a camuflagem do fato de o o próprio Serra ter sido classificado como terrorista e fichado pelo militares, faz com que circule a idéia de que a Dilma seja uma "criminosa" - enquanto o Serra seria um aguerrido combatente da Ditadura. Se virmos com clareza sua ficha no DOPS, contudo, não encontraremos tantas diferenças assim entre o Serra e a Dilma de antigamente - ambos vinculados à extrema esquerda, com simpatias pelo regime cubano, e ambos tratados como revolucionários perigosos pelos dirigentes do passado.


É claro que os dois participaram do movimento de resistência de modos distintos: Serra era militante do movimento estudantil e foi um dos fundadores facção esquerdista Ação Popular, com viés católico, e conquistou o cargo de presidente da UNE apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro. Indo para o exílio após o golpe, regressou definitivamente ao país somente em 1975. Dilma, por sua vez, militou em um movimento mais aguerrido, que chegou a desenvolver ações violentas contra o Estado - a VAR Palmares .  Foi presa em 1970, torturada nos porões da Ditadura, e liberta dois anos depois. Apesar de suas diferenças, ambos os personagens que concorreram à Presidência foram classificados como "terroristas subversivos" pelo Estado - e esse fato é absolutamente desprezado pelos difamadores de Dilma, de modo que apenas a petista seja vista como extremista e vinculada ao terror político (sendo que não há nenhuma comprovação de que tenha participado diretamente de quaisquer ações armadas).

Esse radicalismo preconceituoso é que foi momentaneamente derrotado, após ter sido conjurado pelos tucanos. Como indiquei no começo, todavia, não verificamos uma derrota absoluta e inexorável desse monstro da intolerância e irracionalidade; na verdade, seria mais correto indicar que ele foi desperto durante a campanha eleitoral, e que, embora não tenha garantido a vitória daquele que o acordou, permanece ativo, mais furioso do que nunca, com a bordoada que levou das urnas. Prova disso é a já mencionada explosão xenófoba, que ainda persiste.

O radicalismo continuará, assim, armando a oposição. Mas terá de enfrentar uma força oposta tão ou mais poderosa, que prega a racionalidade e a moderação, e que saiu forte das urnas: a mesma força que resultou em um linchamento moral e jurídico dos "twiteiros" xenófobos e na aniquilação das ambições eleitorais de Serra. Pela primeira vez na história brasileira recente, o moralismo radical encontra forte resistência na sociedade: a voz da mídia não é mais absoluta e monolítica, diversificando progressivamente seus posicionamentos, e os demonizados do passado voltam de suas tumbas para se defender das acusações regressas. (Vide o caso de José Dirceu, que, após ser moralmente linchado e até levar bengaladas de um cidadão raivoso, peita de frente jornalistas do programa Roda Viva, demonstrando grande habilidade oratória e política - independentemente de seu grau de culpa nos casos mencionados.)

É claro que esse movimento, pela volta da razão e rejeição da demonização de adversários, comporta os seus próprios riscos: no caso, o favorecimento de um conformismo racional e um aumento da banalização de práticas políticas condenáveis, como a corrupção propriamente dita. Afinal, quando neutralizamos as emoções, reduzimos nossa capacidade de nos revoltarmos contra injustiças. É preciso, portanto, saber dosar as emoções, antes de querer sufocá-las, apenas; submetê-las, permanentemente, a uma revisão crítica racional, utilizando-as de acordo com nossas crenças fundamentadas, e sem nos deixarmos dominar por elas.

Acho que temos muito mais a ganhar do que a perder, se julgarmos os participantes da vida pública de modo fundamentado, analisando seus projetos políticos e visão de sociedade, sem cair em preconceitos reducionistas - ou então na armadilha de considerar os nossos representantes como uma massa homogênea (com base no preceito do "todos são iguais"). E parte fundamental desse comportamento razoável depende de um controle relativo sobre nossos impulsos, que, quando dominam as ações, nos tornam especialmente vulneráveis a manipulações de forças políticas obscuras, além de nos cegar para uma visão mais objetiva sobre os acontecimentos. Esperemos que a consciência continue a prevalecer sobre essa barbárie, apesar dos esforços teimosos de parte da oposição em utilizar sentimentos bárbaros (de ódio e pavor, principalmente) para benefício próprio, mesmo após as combativas eleições de outubro.

Pedro Mancini 






domingo, 12 de setembro de 2010

Palhaços na política

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As grandes falhas de nosso sistema político ganham maior evidência a cada horário eleitoral.Um dos sinais mais óbvios dessas deficiências, que saltam aos olhos de todos, são as candidaturas "palhaças" e as "anti-candidaturas": candidatos famosos, na maioria das vezes sem propostas objetivas, que esperam ganhar as eleições com o apoio de seu carisma e dos fãs que conquistam. No caso das anti-candidaturas, conta-se, ainda, com supostos "votos de protesto" de eleitores desiludidos com o sistema político-eleitoral. Em geral, trata-se de  tipos engraçados ou com outras qualidades extra-políticas, que cativam seu público por algum talento ou característica pessoal. Inúmeros exemplos dessas candidaturas podem ser listados: Enéas, Havanir, Clodovil, Dinei, Sérgio Mallandro, e os mais atuais Tiririca, Maguila, Mulher Pêra e Mulher Melão.

Em outros momentos, essas candidaturas limitavam-se, quase absolutamente, a partidos menores, que aproveitavam "micro celebridades" para alcançar um lugarzinho na câmara ou para barganhar apoios políticos com partidos de maior relevância. Em geral, apoiavam a direita e a centro-direita: partidos como PSDB, DEM e PMDB. Agora, mais do que nunca, além de os grandes partidos também contarem com essas proto-celebridades, a centro-esquerda, simbolizada por PT e aliados, utiliza esse mesmo tipo de candidatura a seu favor, de forma direta ou indireta. Tiririca, a título de exemplo, é representante de um partido aliado de Aloizio Mercadante em São Paulo - o PR. A Mulher Pêra, por sua vez, conta com o apoio explícito do senador petista Eduardo Suplicy. Vejam os respectivos vídeos:









Essa aliança entre esquerda moderada e partidos menores, com suas candidaturas de "palhaçada" e suas anti-candidaturas, são uma boa demonstração do quanto a centro-esquerda brasileira aprendeu a ser pragmática, aderindo inteiramente às mazelas de nosso sistema político-eleitoral em prol de melhores possibilidades de governança. Essa postura não deixa de ter suas vantagens, como maior garantia de conquista de posições políticas e maior apoio parlamentar, benefícios esses que, se desprezados, resultariam em um isolamento desses partidos no espectro mais marginal do cenário político.


A incorporação relativa da imoralidade pela esquerda é igualmente uma demonstração de que o aparecimento de candidaturas palhaças, que fazem deboche com a política brasileira, não é um fenômeno isolado, dependente de "mal-caratismos" individuais; é, obviamente, um problema estrutural, de modo que todas as agremiações políticas de importância rendem-se a sua lógica para cativar o eleitor. 

E que não se enganem aqueles que consideram que um voto em Tiririca é um voto de "protesto": essa possibilidade já se extinguiu há um bom tempo. Foi-se o tempo de candidaturas-fantoche assumidas como a do Rinoceronte Cacareco, que simbolizavam, de fato, a insatisfação dos brasileiros com a política nacional. Nosso sistema político-eleitoral é muito flexível, tendo se adaptado com absoluto sucesso à idéia de "candidaturas de protesto", de modo que os sujeitos mais atrelados à lógica política mais podre são indiretamente beneficiados  pelos votos recebidos pelos "palhaços" de seus partidos. O caso de Tiririca é emblemático: um voto nesse comediante beneficiará candidatos como Valdemar Costa Neto, político que renunciou em 2005 para não ser removido à força de seu cargo parlamentar. Ironicamente, aquele que acredita estar "driblando" o sistema ao votar em Tiririca estará, de fato, colaborando de modo bem definido para a manutenção de sua lógica sistêmica.

Algumas vezes, contudo, é possível vislumbrar um pedacinho de ética no fim do túnel. O candidato ao governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores, Aloizio Mercadante, reclamou diretamente ao PR a respeito do conteúdo da "anti-candidatura" de Tiririca, que compromete a já muito debilitada imagem do político brasileiro. Há de se lamentar que críticas dessa espécie se reduzam aos candidatos com discursos mais esdrúxulos; os mais hipócritas, como Maguila, que fingem ter plataformas políticas mais sérias do que as do palhaço, parecem estar mais seguros da contestação pública e de quaisquer retaliações de partidos aliados. 


Essa tendência por candidaturas dos tipos apontados não cessará enquanto não houver uma reforma política séria em nosso país. Até lá, só nos resta tomar a postura mais coerente de votar em candidatos com propostas REAIS e CONCRETAS de mudança, políticos de conteúdo bem definido: essa sim seria uma atitude mais próxima daquele quase utópico "voto de protesto" que tantos buscam, com a grande vantagem de sua viabilidade e maior possibilidade de impacto junto à sociedade.


Pedro Mancini



domingo, 21 de fevereiro de 2010

DEM: A queda da máscara

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Sei que ainda estou devendo a segunda parte das minhas experiências no Carnaval, mas não dá para simplesmente ignorar as últimas notícias sobre a cassação do mandato de Gilberto Kassab, que pegou a todos de surpresa. 

É claro que a decisão ainda pode (e deverá) ser revertida, pois Kassab irá recorrer da decisão em várias instâncias. Mas, junto com a prisão do governador do DF, José Roberto Arruda, e a ameaça de cassação do mandato de seu vice, Paulo Octávio, a cassação de Kassab causa uma fissura irreparável na imagem de seu partido, o Democratas.

Ironicamente um filho da ditadura que jura, atualmente, ser o fiel paladino da democracia em nosso país, o DEM (outrora PFL) estava, desde a eleição de Lula no plano Federal, vestindo a máscara da integridade, da dignidade e do respeito às contas públicas. Usava essa máscara para vociferar contra as corrupções cometidas pelo PT e seus aliados, posando como defensor inquestionável da moralidade pública.

É claro que muitos de seus membros têm um histórico de ilegalidades já comprovadas - vide o falecido "coroné" Antônio Carlos Magalhães - mas, com o apoio da mídia, vários desses fatos foram simplesmente jogados para baixo do tapete, em prol de uma imagem de inviolabilidade ética dos partidos que se opõem ao PT. 

Agora, contudo, acusações de improbidades administrativas atingem um nível que impede qualquer camuflagem: a corrupção escancarada do Governo Arruda e a ilegalidade das doações para a campanha de Kassab estraçalham, finalmente, a máscara da moralidade que a oposição vestia. O PSDB, é verdade, ainda atravessaquase intocável a situação presente  - sem dúvida, devido à sua habilidade de manter as acusações contra seus membros no plano da irrelevância, com suporte quase integral da grande mídia. Mas fica difícil acreditar que a queda da imagem de seu maior aliado não respingará na carapaça moralista do partido de José Serra.

A generalização da exposição das ilegalidades e casos de corrupção pode, quem sabe, enfraquecer uma forma individualizada de analisar a política, que teme em simplificar a questão da corrupção ao plano das personalidades individuais dos políticos - como se o problema se resumisse à constituição "naturalmente imoral" de alguns governantes, e de seus respectivos partidos. 

Ora, deveria ser mais do que óbvio que esse gravíssimo problema da política nacional não se resume à moralidade de seus agentes, tratando-se, antes disso, de um problema sistêmico. PT, PMDB, DEM, PSBD, PPS, etc, etc... uma vez que alcancem o poder, todos estão sujeitos às regras estruturais que o sustenta. Pouquíssima capacidade de manobra é conferida àqueles que procuram manter seus princípios éticos incólomes. Todos devem vender, ao menos parcialmente, sua moral para se adequar a tal sistema - indissociável, da forma como está estruturado, de atuações imorais aos olhos da população. 

Apenas uma reforma política séria, profunda e de grandes proporções - que estabeleça, por exemplo, o financiamento exclusivamente público das campanhas - poderá ter alguma chance contra a corrupção generalizada que, há  séculos, assola nosso país. Mesmo que não eliminemos o monstro tão cedo, é importante que, ao menos, o enfraqueçamos para viabilizar sua morte futura, privando-o das proteínas e carboidratos que o mantém tão saudável. As últimas ações da justiça, atuando sem diferenciar partidos e forças políticas,  criam boas esperanças nesse sentido (só para constar, o mesmo juiz que pediu a cassação de Kassab também acusou Marta Suplicy e o tucano Geraldo Alckmin pela mesma espécie de irregularidade das doações de campanha de 2008).

Pedro Mancini