Hoje, trago uma reflexão desenvolvida pelo famoso sociólogo Georg Simmel, em fins do século XIX, mais que ainda me parece bastante atual. O enxerto é de um dos artigos que compôs a coletânea "A Filosofia do Amor", com vários textos tratando somente da temática amorosa - de um ponto de vista sociológico, trabalhado, de modo brilhante, em forma de ensaio. Recomendo a leitura para todos os públicos: é um livro que aguça diretamente nossa capacidade de observação crítica da sociedade, com a apresentação de pontos de vista extremamente ousados para a época. O artigo de onde extraí o parágrafo a seguir trata, especificamente, da temática da prostituição; creio, contudo, que as perspectivas que apresenta podem ser levadas à compreensão de outros fenômenos (como, por exemplo, a criminalidade em si), mesmo nos dias presentes:
"É um caráter constante de nossa sociedade cobrar as mais elevadas exigências, em matéria de firmeza de caráter e de resistência às tentações, precisamente daqueles a quem ela mais priva das condições da moralidade. Ela pede ao proletário faminto mais respeito pela propriedade de outrem do que aos barões da Bolsa ou aos pilantras da nobreza; e exige do trabalhador uma modéstia e uma simplicidade máximas, enquanto lhe põe cotidianamente diante dos olhos a tentação do luxo de todos os que ele fez enriquecer; ela se horroriza muito mais com a criminalidade das prostitutas do que com a de qualquer outra categoria, sem pensar que deve ser muito mais difícil para o excluído superar a tentação de agir mal do que para aquele que se acha confortavelmente instalado em seu seio".
Mais interessante é pensar como essa visão se adaptaria à realidade brasileira e suas especificidades, de acordo, por exemplo, com a perspectiva que Roberto DaMatta, apresenta em "Carnavais, Malandros e Heróis". Será que o fenômeno exposto por Simmel não se agravaria em um ambiente altamente estratificado como o brasileiro, em que os mais favorecidos utilizam-se de seu status para obter vantagens diretas de instituições que deveriam tratar a todos com igualdade? Será que não somos ainda mais tolerantes com comportamentos "desviantes" dos privilegiados, em comparação com os assumidos pelos excluídos?
É claro que, em muitos meios, borbulham indignações quanto aos privilégios de que políticos e "autoridades" se munem (como promotores de justiça que se envolvem em acidentes com a certeza de não serem propriamente punidos). Mas podemos pensar até que ponto, e para muitos, essa indignação não passa de certa "inveja" cultivada por aqueles que não podem deter os mesmos privilégios, ao invés de uma indignação ampla e consolidada sobre as desigualdades desse sistema personalista em que nos encontramos. Afinal, como as pesquisas mostram, os brasileiros adoram dar suas "carteiradas" e aplicar "jeitinhos" - ou o famosos "você sabe com quem está falando?" - na primeira oportunidade que têm, ao mesmo tempo em que não se comformam com as carteiradas e os jeitinhos aplicados por outrens.
De todo modo, essa relação especial do brasileiro com o jeitinho e outros privilégios de status parece casar perfeitamente com a visão de Simmel, ao menos em uma primeira olhadela.
Pedro Mancini
É claro que, em muitos meios, borbulham indignações quanto aos privilégios de que políticos e "autoridades" se munem (como promotores de justiça que se envolvem em acidentes com a certeza de não serem propriamente punidos). Mas podemos pensar até que ponto, e para muitos, essa indignação não passa de certa "inveja" cultivada por aqueles que não podem deter os mesmos privilégios, ao invés de uma indignação ampla e consolidada sobre as desigualdades desse sistema personalista em que nos encontramos. Afinal, como as pesquisas mostram, os brasileiros adoram dar suas "carteiradas" e aplicar "jeitinhos" - ou o famosos "você sabe com quem está falando?" - na primeira oportunidade que têm, ao mesmo tempo em que não se comformam com as carteiradas e os jeitinhos aplicados por outrens.
De todo modo, essa relação especial do brasileiro com o jeitinho e outros privilégios de status parece casar perfeitamente com a visão de Simmel, ao menos em uma primeira olhadela.
Pedro Mancini
