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sábado, 5 de março de 2011

A devassidão da Sandy e a lógica da sociedade de consumo

4 comentários:
Dia desses, um novo comercial sacudiu as redes sociais: uma campanha desenvolvida pela cervejaria Devassa, em que um suposto modelo de pureza e bom-mocismo, Sandy, aparecia revelando um suposto lado "devasso". Exibindo um penteado diferente, a cantora simula uma lap dance em um palco, perante uma grande platéia masculina.



Não tardou para que várias pessoas discutissem a atuação da ex-sertaneja e o conteúdo simbólico do comercial. Entre as principais reações, destaca-se a falta de convencimento da representação de Sandy como "devassa": sua imagem de pureza parece ter penetrado tão profundamente no inconsciente de seu público, que ele simplesmente não engole quando ela foge do papel. Apontam que ela própria não estava convencida da personagem, incorporando com pouquíssimo sucesso a safadeza que lhe foi imputada. Na reportagem a seguir, chegam a contestar a "habilidade" da garota com o copo:



Outros discutem a triste adaptação da imagem da Sandy a um padrão formatado de submissão ao prazer masculino - a incorporação da artista à lógica machista, igualmente presente em populares revistas "femininas", como a Nova (que recomendam às mulheres explorar, de forma absolutamente técnica, habilidades e comportamento que servem especificamente para maximizar os prazeres do parceiro sexual). Como exemplo dessas críticas, indico a última postagem de Tica Moreno.

Mas há outro modo de compreender a utilização do "lado devasso" da artista em um comercial de cerveja. A interpretação que ofereço não é de todo antagônica à visão feminista: não há dúvidas de que a intenção da cervejaria era associar um padrão específico de mulher (que serve aos interesses carnais masculinos mais  banais) ao consumo de cerveja propriamente dito.

Mas se a intenção era somente exibir um padrão de sexualidade adaptado ao prazer masculino, por que escolheriam uma garota que é comumente associada à pureza, virgindade e ao bom comportamento (à submissão sem graça às regras masculinas e ao modelo de "Amélia", portanto)? Não era mais fácil manter a Paris Hilton como garota-propaganda, ou adotar outra modelo-atriz com uma devassa reputação pregressa?

Na verdade, o comercial diz mais sobre a sociedade contemporânea do que os primeiros comentários a seu respeito fazem supor. E o fato de escolherem a Sandy como garota-propaganda é a chave para compreendermos a estratégia de marketing da empresa: explorar uma imagem de ambivalência e de cinismo,  em que são reveladas formas múltiplas de existência, que simulam uma transgressão da norma vigente. Assim, a idéia parece ser de, por meio de uma figura santificada como a da Sandy, explorar o lado "perverso" de cada um de nós, um aspecto que contradiz - sem excluir - o lado bonzinho, que segue um padrão fixado de conduta moral. Sandy não é, assim, uma figura de pura devassidão, mas uma pessoa múltipla, em certo sentido bi-polar, que possui tanto um lado santo, quando um lado "pervertido", por assim dizer. Norma e "transgressão da norma" em uma mesma representação social.

Em uma sociedade capitalista em que os vínculos com os objetos são frágeis, é sábio aproveitar-se dessa fragilidade. Com a redução da importância e da capacidade de convencimento e de identificação de conteúdos normativos, as formas de publicidade que exploram imagens "típico-ideais" de sujeitos (como os antigos comerciais de margarina, que mostravam a típica família nuclear americana - um casal branco feliz, com um casal de filhos e um cachorro, morando na praia) caducam, sendo substituídas por propagandas que exploram, muito mais, o caráter ambíguo ou múltiplo dos indivíduos. Conseguem, assim, atingir um público muito mais amplo: não só aqueles que identificam-se a um padrão, como os que "rebelam-se" contra ele. A negação das velhas estratégias de publicidade acaba, então, sendo igualmente colonizada pelo sistema publicitário.



Assim, a Sandy parece transgredir a sua própria imagem ao agir de modo "devasso"; enquanto outros comerciais chegam a aproveitar-se da retórica da revolução para difundir sua lógica consumista nada revolucionária (lembram-se do comercial "revolução dos dedos", da Vivo, ou da "revolução da esfiha" do Habibs? O último, ainda consegui puxar do YouTube...). Vende-se a idéia, dessa forma, de que estaríamos "transgredindo" a sociedade ao consumir alguns de seus produtos.




Essa percepção foi importada do filósofo uspiano Vladimir Safatle, que estuda, justamente, a publicidade contemporânea e a retórica do consumo. Assim, a estratégia da Devassa não é tão nova, mesmo se considerarmos esse aspecto da bipolaridade, e é bem menos ousada e criativa do que as inicialmente desenvolvidas com a intenção de explorar essa ambivalência (como as marcas Versace e Calvin Klein, especialmente em suas campanhas das décadas de 1990 e 2000). A diferença, com relação à marca brasileira, está em que os dois pólos de ambiguidade explorados são baseadas em imagens machistas: a mulher pura e submissa, de um lado, e a "gostosa" e perversa, boa de cama, por outro. Pureza e safadeza na mesma pessoa (uma santa na rua, uma puta na cama) - a imagem da "mulher perfeita" para o homem comum.Mesmo assim, vende-se a representação de uma marca que costesta a lógica operante da "boa-sociedade", representada pelo bom-mocismo da cantora, violado pelos poucos segundos de duração do comercial. Uma contestação de fachada, que revela, na verdade, um outro padrão de conduta baseado no prazer masculino (mas que pode, contraditoriamente, estar presente na mais comportada das mulheres). Algo bem menos ousado do que a ambiguidade sexual explorada no passado recente pela Versace, que

"(...) se resume a fotos de um casal na cama ou em um quarto com decoração carregada e pretensões de luxo. (...) Nós sempre sabemos quem é um dos parceiros (um homem ou uma mulher bem vestidos em posição de autoconfiança, tédio e domínio da situação), mas nunca sabemos quem é o outro, já que sempre aparece sem rosto, jogado em um canto para denotar que foi usado em um jogo sexual, com roupas íntimas femininas e traços de corpo masculino. Implicações de um lesbianismo lipstick, de homossexualismo e de ambiguidade sexual são evidentes. Note-se que este apelo ao embaralhamento de papéis sexuais não é direcionado para um target homossexual. O target da Versace é composto basicamente de mulheres com mais de 30 anos" (SAFATLE, 2006, p. 61).

Vejam um exemplo dessas propagandas:

De toda forma, e apesar da limitação e teimosia brasileira em continuar a explorar uma imagem machista sobre a mulher, o objetivo dessas campanhas e daquela da Devassa tem suas similaridades: a busca por uma flexibilização de padrões de identificação. Mais uma vez citando Safatle, 

"A publicidade contemporânea e a cultura de massa está repleta de padrões de condutas construído através de figuras para as quais convergem disposições aparentemente contrárias. Mulheres, ao mesmo tempo, lascivas e puras, crianças, ao mesmo tempo, adultas e infantis, marcas tradicionais e modernas.(...) Uma época como esta permite que marcas tragam, ao mesmo tempo, a enunciação da transgressão e da norma. Até porque os sujeitos estão presos a esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a norma e desejar sua transgressão. A publicidade compreendeu isto. Daí porque atualmente ela fala a eles visando este ponto em que transgressão e norma se inbricam" (ibidem, p. 59-60)

É uma pena que a transgressão da norma, para nós, tenha sido tão falsificada a ponto de se resumir à imagem de uma mulher que recusa-se a se limitar à figura machista de santa, apenas para explorar o aspecto igualmente impositivo da mulher enquanto objeto devasso para um puro consumo masculino. Cabe a nós, meros mortais, mostrar o verdadeiro significado da transgressão (se é que ela ainda existe),quando nem a norma, nem a sua suposta "violação" nos parece justa - submetendo-nos, ao invés de nos libertar, aos aspectos mais opressivos da lógica do consumo. 



Pedro Mancini

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A derrota (provisória e limitada) do radicalismo desconcertado

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O resultado das eleições não significou, simplesmente, a vitória de um projeto político sobre outro. Aliás, uma das críticas feitas à campanha do Serra foi, justamente, a respeito da ausência de um projeto político próprio. Creio que, para além disso, o resultado das urnas pode ser interpretado, parcialmente, como uma derrota relativa e provisória de um fundamentalismo moral, ideológico e até religioso acionado pelo próprio processo eleitoral, que buscou a desqualificação e demonização absolutos da candidata petista e de seus aliados. 

Essa vitória não foi absoluta, e nem pode ser simplificada como resultado de um simples embate entre um lado "razoável" e outro "radical": pautando-se em análises preconceituosas e sem fundamento sobre o adversário, militantes e simpatizantes do PT, como disse em minha última postagem, também tentaram desqualificar moralmente o candidato José Serra; esta foi uma tática generalizada durante o segundo turno eleitoral.

Mas houve diferenças importantes na adoção dos discursos radicais pelos dois: tendo progressivamente sua imagem colada à do Presidente Lula, Dilma Rousseff rapidamente ultrapassou seu rival nas intenções de voto no primeiro turno, consolidando sua liderança na disputa. Dependente da popularidade do atual Presidente, que já lhe garantiu votos suficientes para sua eleição - embora não no primeiro turno -, a candidata não precisou partir para a baixaria tanto quanto Serra; só o fez, efetivamente, como resposta aos ataques tucanos, percebendo que os últimos surtiram algum efeito (o suficiente para impedir uma vitória avassaladora do PT). Ainda assim, recorreu mais a uma apelação com argumentações políticas programáticas (como a taxação de Serra da alcunha de "privatista"), expondo a biografia política do ex-governador paulista e de seu partido, do que a uma apelação moralmente carregada sobre características pessoais do candidato. 

Partiu de José Serra, portanto, a iniciativa de se apropriar dos sentimentos mais obscuros e primários de seu eleitorado: o ódio religioso, o moralismo, o pavor desmedido e a demonização do adversário. Percebendo que não iria conquistar muitos votos se mantivesse uma associação forçada com o Governo Lula, prendendo-se aos seus sucessos, o tucano deu uma guinada violenta em sua abordagem, e passou a fuzilar o partido rival, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade - a TPF e outras alas religiosas radicais, como setores  evangélicos e católicos. Trouxe à tona a questão do aborto, posando de autoridade no quesito "defesa dos costumes cristãos", e aproveitou uma velha associação entre o PT, o terrorismo, e até o narcotráfico (explorada sob a figura agressiva de Índio da Costa, vice de Serra). É claro que a figura de José Dirceu, o demonizado-mor, não poderia faltar na estratégia do medo encabeçada pela campanha tucana. Os métodos de divulgação de seus ataques foram ainda mais obscuros do que seus conteúdos: e-mails e panfletos apócrifos, com ataques pessoais e manipulações de informações das mais bizonhas.Uma verdadeira campanha subterrânea.

Nos momentos finais da campanha, a sociedade esteve fortemente dividida, graças à exploração desses temas moralistas; Serra consegui arrebanhar o ódio de alguns setores, acionando um "estado de guerra" ideológico. De fato, a sociedade segmentou-se entre direita e esquerda, mas com um forte viés irracional, emotivo e moralista - em que as visões políticas de cada classe e espectro ideológico apareceram nas sombras, fundamentando, de modo muito indireto, os preconceitos morais. A desaprovação de políticas voltadas à população mais pobre foi convertida, assim, em ódio contra um partido "imoral", fisiológico, assistencialista e populista.

O tucano perdeu as eleições mesmo adotando essa estratégia, mas estabeleceu uma trincheira de resistência contra o Governo eleito - ação que o próprio tucano atribuiu a seus militantes, em seu discurso de derrota. Nessa sua rancorosa fala pós-eleitoral, ele não deixa dúvidas: continuará se portando como o baluarte da justiça, da moral e do "bem", tentando centralizar a oposição ao Governo Lula sob sua figura. Quer manter a divisão do país, estabelecida durante sua campanha agressiva, para manter-se enquanto voz política da direita.

Parte da população apoiadora da oposição ficou ainda mais raivosa com sua derrota, e esse sentimento ampliado de ódio continuará a ser explorado pelo ex-governador de São Paulo. Apenas um dia após a vitória da Dilma, proliferaram-se, inclusive, manifestações de xenofobia, primordialmente contra os nordestinos - na suposição de que eles seriam os únicos responsáveis pela vitória do PT nas urnas. Vale lembrar: Dilma ganhou com uma margem de mais de 12 milhões de votos, dos quais 10 milhões foram do NE; ou seja, ela teria ganho o processo eleitoral mesmo se desconsiderássemos todos os votos nordestinos. Aliás, mesmo se considerássemos apenas os estados do Sul e do Sudeste. Vejamos as principais manifestações xenófobas, proliferadas pelo Twitter:



Vemos, assim, que a onda de afirmações negativas deflagradas pela oposição, encabeçada por Serra desde o início da campanha eleitoral, especialmente por vias virtuais, baseia-se em preconceitos infantis e suposições falsas e incoerentes. A manipulação de informações é a base dessa estratégia: graças à distorção de dados, podemos imputar a "máscara do demônio" em nosso adversário, ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria imagem. A rotulação de Dilma como "terrorista" é um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno: com a manipulação de informações sobre sua participação na resistência à Ditadura Militar, a partir de dados emitidos pelo próprio regime da época, e a camuflagem do fato de o o próprio Serra ter sido classificado como terrorista e fichado pelo militares, faz com que circule a idéia de que a Dilma seja uma "criminosa" - enquanto o Serra seria um aguerrido combatente da Ditadura. Se virmos com clareza sua ficha no DOPS, contudo, não encontraremos tantas diferenças assim entre o Serra e a Dilma de antigamente - ambos vinculados à extrema esquerda, com simpatias pelo regime cubano, e ambos tratados como revolucionários perigosos pelos dirigentes do passado.


É claro que os dois participaram do movimento de resistência de modos distintos: Serra era militante do movimento estudantil e foi um dos fundadores facção esquerdista Ação Popular, com viés católico, e conquistou o cargo de presidente da UNE apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro. Indo para o exílio após o golpe, regressou definitivamente ao país somente em 1975. Dilma, por sua vez, militou em um movimento mais aguerrido, que chegou a desenvolver ações violentas contra o Estado - a VAR Palmares .  Foi presa em 1970, torturada nos porões da Ditadura, e liberta dois anos depois. Apesar de suas diferenças, ambos os personagens que concorreram à Presidência foram classificados como "terroristas subversivos" pelo Estado - e esse fato é absolutamente desprezado pelos difamadores de Dilma, de modo que apenas a petista seja vista como extremista e vinculada ao terror político (sendo que não há nenhuma comprovação de que tenha participado diretamente de quaisquer ações armadas).

Esse radicalismo preconceituoso é que foi momentaneamente derrotado, após ter sido conjurado pelos tucanos. Como indiquei no começo, todavia, não verificamos uma derrota absoluta e inexorável desse monstro da intolerância e irracionalidade; na verdade, seria mais correto indicar que ele foi desperto durante a campanha eleitoral, e que, embora não tenha garantido a vitória daquele que o acordou, permanece ativo, mais furioso do que nunca, com a bordoada que levou das urnas. Prova disso é a já mencionada explosão xenófoba, que ainda persiste.

O radicalismo continuará, assim, armando a oposição. Mas terá de enfrentar uma força oposta tão ou mais poderosa, que prega a racionalidade e a moderação, e que saiu forte das urnas: a mesma força que resultou em um linchamento moral e jurídico dos "twiteiros" xenófobos e na aniquilação das ambições eleitorais de Serra. Pela primeira vez na história brasileira recente, o moralismo radical encontra forte resistência na sociedade: a voz da mídia não é mais absoluta e monolítica, diversificando progressivamente seus posicionamentos, e os demonizados do passado voltam de suas tumbas para se defender das acusações regressas. (Vide o caso de José Dirceu, que, após ser moralmente linchado e até levar bengaladas de um cidadão raivoso, peita de frente jornalistas do programa Roda Viva, demonstrando grande habilidade oratória e política - independentemente de seu grau de culpa nos casos mencionados.)

É claro que esse movimento, pela volta da razão e rejeição da demonização de adversários, comporta os seus próprios riscos: no caso, o favorecimento de um conformismo racional e um aumento da banalização de práticas políticas condenáveis, como a corrupção propriamente dita. Afinal, quando neutralizamos as emoções, reduzimos nossa capacidade de nos revoltarmos contra injustiças. É preciso, portanto, saber dosar as emoções, antes de querer sufocá-las, apenas; submetê-las, permanentemente, a uma revisão crítica racional, utilizando-as de acordo com nossas crenças fundamentadas, e sem nos deixarmos dominar por elas.

Acho que temos muito mais a ganhar do que a perder, se julgarmos os participantes da vida pública de modo fundamentado, analisando seus projetos políticos e visão de sociedade, sem cair em preconceitos reducionistas - ou então na armadilha de considerar os nossos representantes como uma massa homogênea (com base no preceito do "todos são iguais"). E parte fundamental desse comportamento razoável depende de um controle relativo sobre nossos impulsos, que, quando dominam as ações, nos tornam especialmente vulneráveis a manipulações de forças políticas obscuras, além de nos cegar para uma visão mais objetiva sobre os acontecimentos. Esperemos que a consciência continue a prevalecer sobre essa barbárie, apesar dos esforços teimosos de parte da oposição em utilizar sentimentos bárbaros (de ódio e pavor, principalmente) para benefício próprio, mesmo após as combativas eleições de outubro.

Pedro Mancini 






domingo, 17 de outubro de 2010

Manipulações político-eleitorais sobre o aborto: o caso da Revista Veja

5 comentários:
Desculpem por me manter na temática eleitoral (e, mais ainda, na temática específica do uso eleitoral do aborto), mas, dada a última capa da Revista Veja, não pude resistir.

Trata-se, em minha opinião, da tentativa de manipulação do eleitorado mais patética e desprovida de fundamento, de fácil desmonte  por qualquer indivíduo minimamente informado sobre o funcionamento da política e sobre as diferenças entre políticas públicas, aprovações de leis e opiniões pessoais de candidatos. 

Bem, não consegui ainda a foto original da capa, mas vou descrevê-la brevemente. Ela é dividida em duas partes, uma superior e outra inferior, de modo que possamos lê-la de duas perspectivas diferentes. A Dilma aparece dos dois lados, sendo um deles com um fundo branco, e outro, com fundo vermelho. 

No lado de baixo, é exposta uma frase, atribuída à candidata petista, que revela um posicionamento supostamente pessoal, íntimo, da mesma: "Eu, pessoalmente, sou contra. Não acredito que haja uma mulher que não considere o aborto uma violência". No lado superior, por seu turno, é revelada uma frase, da mesma candidata, repudiando a criminalização da prática abortiva: "Acho que tem de haver a descriminização do aborto. Acho um absurdo que não haja". A primeira frase foi dita em 2009, e a segunda, dois anos antes.

O argumento da revista é tão simples quanto fraco, e não deixa dúvidas sobre sua parcialidade. Vende-se que a candidata tem "duas caras", por mudar de discurso com relação à temática do aborto, teoricamente por motivações eleitorais. A  infantilidade do "erro" (para dizer o melhor) está na confusão entre opinião particular e concepções mais gerais sobre a sociedade, relacionadas com opiniões sobre a validade de determinadas leis e políticas públicas. Em outras palavras: ser pessoalmente contra o aborto não tem o mesmo significado que defender a proibição da opção de outras mulheres por sua realização. Afinal, viver em uma democracia é saber conviver com as diferenças de credo e de opinião - e um de seus pressupostos é permitir que esse outro, que pensa de modo diferente, conduza sua vida do modo que lhe bem convir, desde que essa condução não interfira na vida alheia. Isso é tão banal, que não mereceria, por si, muita discussão. Mas, infelizmente, o atual nível do debate eleitoral exige esse tipo de esclarecimento. No que tange ao aborto, na concepção de seus defensores, o direito de condução sobre a própria vida incluiria a decisão da mulher sobre um feto que ainda não poderia ser considerado um ser humano, sendo, portanto, uma parte de seu próprio corpo.

É claro que, no auge da "intimização" da política, muitos estão mais interessados nas opiniões pessoais de seus candidatos, especialmente no que tange a questões polêmicas, do que em seus programas de governo e concepções de sociedade. Por isso, eles ganham muito manipulando tais informações. Eu sei bem, por exemplo, que a Dilma é pessoalmente a favor do aborto, mas se viu obrigada a emitir outra opinião para não perder muitos eleitores. Do mesmo modo, já há a notícia de que Mônica Serra, a mulher do candidato do PSDB que disse por aí que a rival do marido era a favor da "morte de criancinhas", teria realizado um aborto no Chile; sem contar que, como já mencionei na última postagem, o próprio tucano foi o grande responsável pela implantação de normas técnicas de regulamentação do aborto em casos específicos, quando ainda era Ministro da Saúde. Hoje, porém, posa de grande figura religiosa, abraçando a bandeira de padres e pastores.

De todo modo, fico feliz ao ver que a candidata petista não tenha recuado de todo de suas opiniões sobre a descrimização do aborto, ao menos por hora, como bem mostra esse trecho do primeiro debate televisivo desse segundo turno:


* Obs: Há indícios de que o monopólio de um único candidato sobre a mídia esteja acabando: Logo após a Revista Veja publicar a matéria de capa mencionada, a Revista IstoÉ  lançou uma similar, mas com a figura de José Serra. Nela, são comparadas duas falas do tucano, uma negando conhecimento sobre Paulo Preto (que desviou mais de R$4mi da campanha do PSDB) e outra chamando o homem de "uma pessoa muito competente". Essa ousadia da Época em contestar o status quo midiático de apoio ao Serra também pôde ser vista na TV Record, que poderá pagar multa por colocar no ar uma reportagem que, supostamente, beneficiou a candidata Dilma Roussef. Juntamente com a multiplicação das fontes de informação, possibilitada pela proliferação das ferramentas de internet, e com o alcance de revistas opostas à grande mídia, como Carta Capital e Caros Amigos, novos modos de reportar o mundo político começam a destruir a visão monolítica que ainda impera nos meios de comunicação. 



Pedro Mancini


sábado, 18 de setembro de 2010

La maison en petit cubes

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Nos últimos dias, estou especialmente sensível a animações e outras obras artísticas. O vídeo a seguir me tocou, especialmente, por representar de forma mágica o quanto enterramos nossas lembranças em nosso sub consciente, vivendo sem ter uma noção total de tudo aquilo que passamos, todas as experiências que deixamos para trás. Isso não vale apenas para senhores de idade, como o velhinho da animação; nem tampouco se aplica apenas a dadas memórias do passado. Algumas vezes, de fato, parece que esquecemos quem fomos - e quem ainda SOMOS. Nosso Eu parece realmente submerso, amedrontador, desconhecido: apenas mergulhando em sua imensidão obscura poderemos revivê-lo de algum modo. 

Bem, essa foi apenas a associação que fiz a partir do vídeo francês, dividido em duas partes. Essa leitura fez muito sentido para mim, mas o encanto da obra é muito valioso para ser reduzido a uma única perspectiva interpretativa. Que cada um faça a sua. 







Pedro Mancini

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Impressões sobre o último debate e o "espírito democrático" de José Serra

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Publico, com algum atraso, minhas impressões sobre o último debate entre candidatos à Presidência da República, realizado dia 12 de setembro pela RedeTV! e Folha de SP.

Como comentou Luis Nassif em tempo real, via Tweetcam, o debate simbolizou o fim melancólico da campanha de José Serra. O tucano insistiu na tecla da violação do sigilo fiscal de sua filha e outras acusações, sem tentar convencer o eleitor de que possui propostas concretas para administrar o país. Ao contrário do que a mídia noticiou, a estratégia de Serra foi um fracasso: nos primeiros blocos, ele ficou totalmente isolado, ninguém entrou em sua onda (a não ser alguns jornalistas), e acabou levando uma "sapatada" até do Plínio (que afirmou não ter "nada a ver" com as denúncias do Tucano e lamentou que o mesmo tenha baixado tanto o nível da campanha, alegando, com razão, que deveriam estar discutindo propostas políticas concretas). Sua posição, no atual quadro político, apenas ficou mais confusa para o eleitor - já que o candidato vive alternando ataques de fúria e elogios à administração petista, em uma tentativa malabarista de manter os ataques atrelados à figura de Dilma, poupando o presidente, e mantendo os elogios à Lula, desconsiderando Dilma.

Não que a candidata do PT ou mesmo Marina Silva tenham se destacado positivamente: o Serra é que foi muito infeliz. Aliás, o momento mais patético do debate foi quando ele insistiu ser um "democrata", que "respeita seus adversários políticos", insinuando que a petista não o faria. Bem, não precisamos nem discutir os bastidores da política, os afastamentos de jornalistas desfavoráveis a Serra, para contestar essas afirmações: seu jeitinho "trator", anti-democrático e de desrespeito por opiniões contrárias e pela oposição tem sido muito evidente. Vejamos apenas alguns exemplos se sua postura pública:

1) Pela primeira vez desde o Regime Militar, o tucano escolheu, para reitor da USP, um candidato que não foi escolhido como preferido pela própria Universidade, desrespeitando essa chamada "democracia" que diz valorizar;
2) Já demonstrou, inúmeras vezes, desrespeito com jornalistas, quando questionado, sempre buscando desmoralizá-los e associá-los à "vil oposição". Vejamos alguns vídeos do YouTube:









3) Em inúmeros casos, Serra demonstrou intolerância absoluta com movimentos sociais e grevistas, associando-os à uma oposição "malévola", vista como fonte de intrigas e "inimiga do povo": um total desrespeito tanto com as reivindicações dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, quanto com a própria oposição. Como exemplo, cito o caso da greve da Polícia Civil, que acarretou em um conflito sério com a Polícia Militar nas ruas de São Paulo, mais uma vez fruto da incapacidade de diálogo do tucano. Na época, Serra saiu no Datena responsabilizando o PT e centrais sindicais partidarizadas pelo confronto, como se a polícia nem tivesse motivos para fazer reivindicações e movimentos de greve. Cheguei a publicar uma postagem a respeito desse episódio, mas infelizmente não localizei o vídeo de Serra no Datena.
4) Mostrou desrespeito, igualmente, com seus críticos da Internet, classificando todos os seus blogs opositores como "blogs sujos" (vale lembrar que, ao mesmo tempo, o PSDB se apropria das ferramentas da internet a seu favor, mandando seus simpatizantes, por exemplo, votarem em massa em seu candidato como o "melhor do debate" logo após esses eventos). Desqueaifica os opositores, simplesmente vinculando-os a interesses partidários e eleitorais.

Não venham, portanto, me dizer que Serra possui qualquer "espírito democrático" ou que "respeita a oposição", não tratando-a como "inimiga do país"!

 Em resumo, José Serra demonstrou mais uma vez, no debate, uma enorme hipocrisia; até aí, contudo, muitos políticos o fazem, inclusive os demais presentes. Mas a manutenção de sua postura agressiva mostrou, mais do que nunca, seu desespero perante o quadro eleitoral, em que sua campanha falha redondamente em se apresentar como uma alternativa concreta ao governo atual  ao público eleitor. Nem mesmo em seu reduto político, São Paulo, Serra conseguiu manter a dianteira. Desmoralizado, resignou-se a ataques baixos, utilizando a violação do sigilo de sua filha para tentar desestabilizar a candidatura petista.De fato, um fim que beira entre o melancólico e o repugnante.

Pedro Mancini 

sábado, 21 de agosto de 2010

Classe Média - Max Gonzaga

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Hoje, gostaria apenas de relembrar uma música ousada e com excelente conteúdo, repleta de ironias a respeito do modo de pensar predominante em nossa maravilhosa classe média. Achei que seria adequado trazê-la novamente à tona, nesse conturbado momento de efervescência político-eleitoral, especialmente na internet - em boa parte colonizada por esses estratos médios de que a música fala. 



Pedro Mancini

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Twitter e o tribalismo político

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A contaminação do Twitter pela campanha eleitoral têm demonstrado que a consolidação da Internet enquanto um espaço de relacionamento e intercâmbio deperspectivas heterogêneas (com fins de obtenção de consensos e comuns-acordos) ainda não se cumpriu. 

Não há mais dúvida de que a Internet se fundamentou como um instrumento global de comunicação e difusão de informação, a ponto de os políticos e celebridades não poderem se dar ao luxo de ignorá-la - devendo apropriar-se de seus mecanismos o máximo  que puderem. Assim, candidatos com contas no Twitter brotaram às centenas, espalhando suas convicções político-ideológicas aos quatro ventos. Aqueles que não aderirem integralmente ao universo virtual, correm sérios riscos de povoarem a marginalidade do imaginário popular.

A despeito da ocupação da Internet por gente de todo tipo - desde o mais comum dos mortais até a mais idolatrada celebridade contemporânea  -, o que vemos não é tanto um gigantesco intercâmbio entre convicções plurais, rumo a um elevado debate, em que todos põe à prova suas idéias, arriscando-se a rever seus preconceitos no contato com o diferente. Muito pelo contrário, a  rede mundial de computadores - e, em especial, o Twitter - parece refletir a fragmentação do social entre inúmeros grupelhos de opinião, muito pouco dispostos ao diálogo com o Outro. 

Os movimentos de "seguidores" que acompanho no Twitter embasam essa visão. Em geral, não estamos interessados em seguir aqueles com os quais não concordamos; as opiniões que expressam no Twitter só servem para nos irritar, quando expostas em nossa tela inicial. Se seguimos adversários, é pelo único prazer de poder atacá-lo verbalmente, agredí-lo e ridiculariza-lo perante todo o público virtual. que acompanhar a discussão. Trata-se, em verdade, de uma verdadeira guerra de idéias entre variadas facções que maios esbravejam que conversam. Serristas não seguem dilmistas, a não ser para ofendê-los, e vice-versa. Todos fecham-se em suas "tribos" ideológicas. 

A questão da exposição de idéias políticas não se restringe aos políticos profissionais. As celebridades devem ficar especialmente atentas a isso, caso queiram seguir a lógica quantitativa das redes sociais, que mede a popularidade pelo número objetivo de seguidores ( quanto mais, melhor). A exposição, por menor que seja, do favorecimento a um ou outro candidato ou corrente política pode gerar uma verdadeira debandada de seguidores, além de lotar a tela do artista em questão de xingamentos, agressões e questionamentos mil. daqueles que dele discordarem. Um posicionamento político-eleitoral precipitado, e um famoso qualquer pode limitar sua lista de seguidores aos adeptos de uma determinada posição - afinal, tcomo quis argumentar, tendemos a seguir somente nossos "iguais".

É claro que muitas celebridades - em geral, as maiores - conseguem se livrar desses particularismos. Além de evitarem ao máximo o "escape" de suas preferências político-partidárias, sua imagem parece plainar acima de qualquer crítica política. Nomes de celebridades mais conhecidas e idolatradas são blindados por uma espécie de aura mágica, e, ao invés de se tornarem escravos de seus seguidores virtuais, convertem-se em seus mestres: uma mera insinuação de um artista mega-pop pode dobrar a opinião pessoal de milhares de fãs-seguidores. 

Os maiores prejudicados pelos tribalismos político-ideológicos da internet são, assim, as celebridades menores, tal qual as "subcelebridades"; essas, desesperadas  pelas "migalhas" de seguidores do Twitter que as celebridades maiores espalham pelo enorme solo virtual, não têm uma imagem tão forte para se darem ao luxo de tomarem uma posição. Caso o façam, correm o sério risco de empacarem no arrebanhamento de seguidores, mantendo apenas os adeptos que com eles concordem. E nenhum pretendente a celebridade "universal" que se preza evita manter uma certa névoa de ambiguidade e neutralidade sobre si, ao firmar os pés de um lado determinado do espectro político. Uma neutralidade, embora sempre falsa e hipócrita, é a fóruma mais fácil para um artista manter sua rede de adeptos.

Regina Duarte, após proferir todo o seu "pavor" com relação ao vindouro Governo Lula, em 2002, converteu-se em um exemplo do que digo: Praticamente evaporou dos holofotes. Para relembrar:





A vítima da vez parece ser outra senhora global, a Maitê Proença - que já criou em uma verdadeira saia justa em um programa de mesmo nome, ofendendo os portugueses -, após atribuir ao machismo brasileiro a missão de "salvar" o povo brasileiro da candidata Dilma Roussef. Ela e Regina, com seus radicalismos tacanhos e patéticos, baseados em sentimentos rudimentares e absolutamente preconceituosos como - o medo e o ódio-, isolam-se muito mais do que aqueles que dão indicações mais discretas sobre seu posicionamento político-eleitoral (figuras como os integrantes do CQC, que ainda conseguem um sucesso relativo na tentativa de parecerem "neutros"). Vamos ver o que sobrará da já abalada imagem de Proença depois de mais essa declaração desastrosa, dada em entrevista ao Estado de São Paulo... Confiram:


O feminismo já era ou a mulher ainda precisa lutar contra as discriminações da sociedade?
A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria venha a calhar nesse momento de eleições, atiçando os machos selvagens e nos salvando da Dilma?

É claro que não são apenas os opositores do Governo Federal que têm sua imagem abalada após revelarem seu posicionamento político. Amantes do Governo Lula e do PT também sofrem, e muito. Entre alguns casos dessa espécie, cito as críticas sofridas pelo grupo O Teatro Mágico, que declarou apoio à candidatura Dilma, e o isolamento a que o jornalista Paulo Henrique Amorim se submeteu ao declarar uma guerra aberta contra os tucanos - assim como inúmeros outros jornalistas e blogueiros, que passaram a ser perseguidos, por exemplo, pela Revista Veja e outros órgãos graças ao seu posicionamento. Aliás, a própria Revista Veja, dado seu viés gritante, também se tornou um órgão de comunicação isolado, restrito à masturbação ideológica da velha classe média e  aos consultórios médicos e odontológicos.

Em resumo, há um preço alto a pagar pela violação da aparência de neutralidade, e isso se torna ainda mais visível e verdadeiro em redes sociais como o Twitter.


Pedro Mancini

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Gaiola das Cabeçudas

2 comentários:
Para descontrair um pouco, e provando que eu também tenho um pouco de senso de humor, publicarei, em minha primeira postagem de agosto, uma paródia engraçadinha feita pelos humoristas da MTV. Em geral, acho o programa deles muito fraco (a ponto deles o batizarem como "Comédia MTV" para que o reconhecéssemos como um programa de COMÉDIA). Esse foi um achado bem pontual, uma exceção que conseguiu tirar de mim algumas risadas. 

Aliás, essa fórmula de Stand Up Comedy - sobre a qual está fundado, parcialmente, esse programa da MTV - está um pouco sobrecarregada, não? Creio que sua difusão recente foi uma iniciativa muito interessante e inovadora para o humor televisivo - mesmo com as limitações de parte de seus integrantes. Mas seu impacto inicial fez a referida fórmula se multiplicar de forma exagerada pela mídia, esgotando-a. Brotaram programas baseados no Standy Up por todos os lados, com um nível decrescente de qualidade... Acho, inclusive, o vídeo a seguir só me agradou porque escapou dessa fórmula batida. 




Obs: Agora que acabei de qualificar, prometo voltar com meus textos em breve! Sob o estresse da avaliação vindoura, estava difícil escrever sobre qualquer coisa.

Pedro Mancini

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre impostos, pedágios e "trololós"

Um comentário:
Dia desses, soube de mais uma iniciativa curiosa na Web: um site que estima o valor absoluto arrecadado pelos pedágios no Estado de São Paulo.

Sem dúvida, o referido site se inspirou na iniciativa anterior, protagonizada pelas classes média e alta, de estimativa do valor absoluto de arrecadamento de impostos do Governo - movimento que culminou na exposição de um telão com esses dados atualizados, e até com uma mobilização que culminou no barateamento de combustíveis por um dia. Tudo isso para protestar contra as altas taxas governamentais. O irônico é que as mesmas classes que criticam esse alto nível de impostos costuma apoiar governos - particularmente, o do PSDB - que mantém uma política de encarecimento de pedágios, que expoliam a população de forma similar.

Diferentemente dos impostos, porém, os valores arrecadados pelos pedágios são direcionados às concessionárias, ou seja, empresas privadas - que, além de manterem a qualidade das estradas, absorvem boas quantias de lucro de suas atividades. Os impostos são (ou ao menos DEVERIAM ser) direcionados APENAS para melhorias dos serviços públicos, ou seja, para o benefício da própria população. Essa é a função fundamental do Estado, servir o público; o objetivo primeiro de qualquer empresa privada, por sua vez, é o lucro - direcionado, obviamente, a uma parcela extremamente restrita da população.

Pior ainda, ao meu ver, é a mercantilização de direitos leva a cabo pelos pedágios (e por muitas outras políticas administrativas). Trata-se, em verdade, de algo que deveria ser mais ou menos óbvio: o DIREITO de ir e vir não pode ser COMERCIALIZADO sem deixar de ser direito, resumindo-se a uma mera mercadoria. A partir do momento que é cobrado do cidadão a passagem pelas rodovias, este é expropriado de um direito básico de locomoção, sendo obrigado a adquirí-lo - e cada vez que se locomover por  distâncias relativamente longas. Submete-se ao pedágio ou anda a pé ou de bicicleta por dezenas ou centenas de quilômetros para escapar da cobrança. Na prática, tira-se qualquer possibilidade do exercício do direito de ir e vir, ao menos no que tange a maiores distâncias.

Por essas razões, adotei o "pedagiômetro" em meu blog, na parte direita da tela. Aderi totalmente ao movimento. Aliás, a situação dos pedágios em São Paulo é tão absurda que mesmo setores da mídia que, geralmente, têm uma atuação conservadora, mobilizam-se  por vezes contra ela: o último caso foi do (ex-) apresentador do Roda Viva, Heródoto Barbeiro, que, questionando Serra sobre o preço abusivo dos pedágios,  obteve respostas agressivas e ridículas de seu entrevistado (em uma fala que buscou desqualificar as críticas ao Governo de São Paulo e à campanha petista, classificando-as como "trololós petistas". Talvez o candidato tenha aprendido tais táticas com personagens de destaque na História, como Hitler, que adorava culpar judeus por todos os males da Alemanha, ou Stálin, culpando trotskistas...). Curiosamente, o repórter foi, logo após esse programa, afastado de seu papel de apresentador, sendo imediatamente substituído por Marília Gabriela. Coincidência?

Segue o vídeo...

Pedro Mancini

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Depoimento interessante de um veterano de guerra americano

Nenhum comentário:
Enquanto a inspiração para escrever sobre alguns acontecimentos mais recentes não vem - como sobre as "guerras subterrâneas" da mídia brasileira, ou sobre nossa felicidade com a infelicidade alheia (a da Argentina) em tempos de Copa do Mundo-, atualizo o blog publicando um depoimento interessante e comovente de um veterano de guerra americano, presente na invasão do Iraque. Assim, de quebra, torno esse blog um pouco mais movimentado!


(Agradeço à @nmromero, do Twitter, pela divulgação do vídeo.)




Pedro Mancini