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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O jornalismo estúpido da Record

4 comentários:
Durante as últimas eleições, o papel da Rede Record de Televisão foi, em certo sentido, visionário. Destoando do monólogo usualmente estabelecido pelos principais meios de comunicação no Brasil (vulgarmente chamados de "PIG", uma sigla bem-humorada para "Partido da Imprensa Golpista"), com seu apoio integral às forças políticas liberais (na época, representadas mais diretamente pelo candidato José Serra), a emissora protagonizou uma cobertura mais favorável à candidatura Dilma Rousseff. Caiu, dessa forma, nos braços de boa parte da esquerda pró-PT.

Ao ignorar o fato de o alinhamento político-ideológico da emissora ser meramente circunstancial - e pautado por interesses próprios, que podem se alterar em outros contextos -, muitos passaram a proteger a rede do milionário Edir Macedo, evitando tecer críticas relevantes a posturas  condenáveis.Extasiados com a atuação de jornalistas histriônicos como Paulo Henrique Amorim, com sua (justíssima, de modo geral) cruzada contra a hipocrisia de tucanos e "democratas", e com reportagens pautadas em denúncias contra o "poderoso chefão" do futebol, Ricardo Teixeira, e contra a Revista Veja (saco de pancadas de todos os que tenham um mínimo de bom senso), muitos dos que adotam uma postura de oposição a emissoras como a Rede Globo isentam a Record do mesmo linchamento moral. Parece que os apontamentos feitos pelo aclamado documentário "Muito Além do Cidadão Kane", desenvolvido pela BBC de Londres, tornam a Globo a única "vilã" significativa entre as redes de comunicação brasileiras - e qualquer concorrente comercial torna-se automaticamente "heróina" da batalha contra o Golias da mídia nacional. 

De fato, os constantes conflitos entre a toda-poderosa Rede Globo e a TV Record são notórios. Em 2009, por exemplo, a rivalidade entre as emissoras transpareceu na cobertura jornalística de ambas, que recorreram a mútuas campanhas de difamação. Os ânimos atuais estão menos inflados; ainda assim, as redes continuam a a competir pela audiência, mesmo que a liderança da Globo ainda seja inquestionável (na ampla maioria dos horários).

Apesar de sua postura de contraposição à corporação da família Marinho, acompanho a avaliação de alguns jornalistas, menos entusiasmados com os atuais alinhamentos políticos da Record,  de que sua cobertura jornalística é, em muitos aspectos, AINDA pior e mais manipuladora do que a de outras redes, incluindo a Globo. Os críticos da emissora do velho bispo Macedo já perceberam sua disposição pela imitação descarada do formato da emissora da família Marinho; mesmo os nomes dos programas são extremamente similares. O "Domingo Espetacular" é uma imitação descarada do velho "fantástico"; o "Repórter Record" copia o "Globo Repórter", e o "Hoje em Dia" inspira-se no "Bom Dia Brasil", entre outros nítidos exemplos. 


Mas esse não é o maior dos problemas. Nem mesmo critico (ao menos nessa postagem) o fato de a emissora Record ser gerenciada por um magnata religioso. O assunto do dia é o próprio "método" de comunicação com o telespectador. A despeito de suas eventuais atuações políticas de conteúdo, em geral o dia do jornalismo da Record parece um Cidade Alerta sem fim. A todo momento, o telespectador é bombardeado por notícias policiescas cotidianas - desde o jornal matinal até os que preenchem o horário do fim de noite. Mesmo em programas matinais que misturam bate-papos descontraídos com proto-celebridades, receitas de bolos e dicas de estética, costumam-se vincular notícias sobre atropelamentos e até brigas de vizinhos como se fossem casos de repercussão internacional!

Na emissora, parece que a vida cotidiana torna-se, mais do que nunca, um grande espetáculo, de caráter nefasto na maioria dos casos, quando assassinatos e situações mais escabrosas são explorados à exaustão. É claro que notícias mais relevantes ao conjunto da sociedade, como as de caráter político e econômico, são as primeiras a perder tempo e espaço com a ênfase exagerada no micro cotidiano. Afinal, como o modismo dos "realities policiais" (em que as ações das forças de segurança estaduais são registradas e exibidas aos telespectadores) aponta, é muito mais interessante e "rentável" para a televisão destacar a vida como um exitante e dramático filme de ação, suspense e terror, narrado por preocupados e indignados apresentadores de telejornais. Há aqui algo ainda mais digno de nota na abordagem jornalística da Record: reparem que, no momento em que as notícias são transmitidas, os apresentadores fazem-nos o "favor" de serem "representantes" de nossos sentimentos, indignações e agonias. Ao fim de cada narrativa de uma mãe que afogou o filho ou de um rapaz que assassinou a namorada e estourou os miolos em seguida, as graciosas apresentadoras do Jornal da Record balançam suas cabecinhas em um sinal de reprovação, seguindo uma frase do tipo "que horror, né gente?" (apenas para que sua colega abra um sorrisão, anunciando a entrada da Rodada do Brasileirão na pauta do Jornal). Ao telespectador, não resta sequer tecer suas próprias emoções, após uma interpretação mínima da situação apresentada, sendo-lhe já fornecida a forma mais "apropriada" de manifestação emocional.

A equipe do Jornal Nacional, da Rede Globo, já foi criticada por tachar o telespectador médio brasileiro de "Homer Simpson", em referência ao ignorante e facilmente manipulável personagem criado por Matt Groening. Mas o que pensa de seu público uma emissora que, além de mastigar a notícia de modo a torná-la mais "digerível" por esse suposto "telespectador médio", manipulando e mascarando a  realidade em suas transmissões, ainda enxerga-o como incapaz de até mesmo manifestar suas próprias emoções de modo minimamente autônomo?

Pedro Mancini


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maiores desenvolvimentos sobre a postagem anterior

Um comentário:

Minha última postagem rendeu algumas críticas ferozes sobre meu posicionamento a respeito dos conflitos no Rio. Claro que críticas são sempre esperadas quando escrevemos sobre assuntos tão polêmicos, e, em especial, quando almejamos nos esquivar de interpretações mais casuais. Mas elas não costumam surgir de forma tão direta - o que dificulta o debate, impossibilitando o desenrolar de melhores explicações, justificativas e até contra-ataques argumentativos. Ou seja: comentem, por favor! Nada alimenta mais um blogueiro do que a participação dos seus leitores (de preferência, uma participação que não se limite à avaliação das postagens publicadas).

Nas próximas linhas, dedicarei-me a esclarecer alguns pontos sobre o raciocínio aplicado na última postagem. Além disso, tecerei uma crítica sobre a postura que vejo presente em parte das análises sobre situações ocorridas no contexto brasileiro atual.

Para começar, os esclarecimentos. Ao focar-me na incompetência do Estado em gerir a situação carioca, não me referi à ineficácia do governo atual; apontei que se tratava de um problema de natureza muito mais profunda, que escapa à resolução de uma simples gestão temporal. Na verdade, é óbvio que a situação exigia uma ação forte do Estado (para além de seus aparatos policiais) e que o Governo, tanto estadual quanto federal, agiu, a princípio, do modo que lhe cabia. Tomou decisões, na verdade, que mostraram uma coragem e vontade política que esteve ausente em governos passados, baseadas em critérios razoáveis: compensando a história ausência de aparatos estatais na periferia, criou um programa de polícia comunitária -as UPPs - que poderia intermediar a entrada de escolas, saneamento básico e vários outros serviços nas regiões mais afetadas pela desigualdade e, conseqüentemente, pela violência urbana. É claro que, por trás das intervenções policiais mais clássicas, encabeçadas pelo BOPE, estava sub-entendida uma concepção de criminalização da pobreza, uma simplificação de que os moradores da favela devem ser tratados como bandidos, concretamente ou potencialmente; mas esse é um problema histórico de representação social em vigência no Brasil, e não se pode esperar que um simples governo temporal cause grandes mudanças nesse pensamento.

Infelizmente, contudo, continuo sendo pessimista no que tange à possibilidade de o Estado resolver definitivamente a questão da segurança pública da capital fluminense com o tipo de ação visto nas últimas semanas. O "oba-oba" exibido pela mídia, que obscurece a possibilidade de plena apreensão da questão, mascara a necessidade de iniciativas mais profundas, que ataquem diretamente a questão da desigualdade e da exclusão sociais, eliminando a criminalidade pela raiz. O problema é muito mais sério do que os jornais fazem parecer, e, antes de uma comemoração antecipada, é necessário um aprofundamento das ações de penetração do Estado em comunidades periféricas. E temo que isso não ocorra pela perpetuação da imagem de "plena vitória", aplacada por vários setores pela grande mídia, como se o Rio já estivesse totalmente livre de seus males graças à atuação "heróica" do BOPE, em ações de intervenção que suportam a atuação das UPPs.

Continuo achando, ainda, que existem interesses que validam essa representação (da vitória incontestável das forças de segurança sobre a criminalidade). Temo que nisso, porém, tenha sido mal interpretado: não vislumbro uma "conspiração" na apreensão clássica do termo, com um grupo social específico exercendo secretamente seu poder sobre todo o resto da sociedade. Acredito, na verdade, que estamos imersos em uma enorme teia de interesses múltiplos, que, por vezes, convergem pelos mesmos objetivos táticos. Nesse caso, vemos algumas forças políticas com interesses articulados por vender uma representação de resolução absoluta sobre uma séria questão de segurança pública. 

Talvez, portanto, tenha deixado as palavras pesarem além da conta, chamando as ações no Rio de "grande farsa"; de fato, elas ocorreram, e provavelmente colaboraram para que a situação carioca melhore a curto, médio e longo prazos. Mas esses atos policiais foram, sem dúvida, super explorados - e até mesmo superestimados - pela mídia e pela sociedade. Possivelmente motivados pela ânsia de mostrar que "a vida imita a arte", trazendo os efeitos desenvolvidos em Tropa de Elite 1 e 2 para uma dada exibição sobre a realidade cotidiana, o dia-a-dia de policiais e moradores do Complexo do Alemão foram exibidos à exaustão, antes, durante e após a "invasão final e definitiva". Misturavam-se cenas da "Tropa de Elite real" com um gigantesco Big Brother, com a vigilância contínua do dia-a-dia dos cidadãos do Complexo em meio aos conflitos armados. E, sinceramente, não acredito que toda a comoção desencadeada seja neutra de significado: atende a demandas e interesses de certos setores sociais (pelo jeito, muitos, e muito relevantes). O maior problema, como já afirmei, é que o excesso de atenção à "imagem" do que ocorreu no Rio de Janeiro pode bloquear uma visão real dos fatos, que vislumbre as condições reais da proliferação da violência na periferia urbana.

Agora, um outro ponto: parece-me que um simples comportamento mais "pessimista" desperta uma série de associações político-ideológicas que nem sempre são verdadeiras. Graças à minha última postagem, sofri a comparação - talvez alimentada por resquícios da radicalização vivida pelo país nas últimas eleições - entre meu pensamento e a postura eleitoral de 2006 de Geraldo Alckmin, que procurava, a todo custo, argumentos para atacar o Governo Lula. Bem, faço aqui uma crítica a respeito da postura de boa parte da massa otimista com o governo atual: em sua ânsia por rebater a ferocidade da oposição, que agiu de forma extremamente violenta nos últimos meses, os lulistas e dilmistas mais radicais, ainda pensando de forma maniqueísta, desqualificam qualquer apontamento mais negativo sobre a realidade brasileira atual. Parece sempre um "papinho" da oposição, desesperada em agredir o governo presente.

Ora, é evidente que, mesmo se considerarmos os incontestáveis pontos positivos da administração petista - em especial, sua competência na aplicação de medidas de combate à exclusão social mais absoluta - vários problemas ainda afligem o país, não podendo ser facilmente resolvidos por um simples governo temporal. Além disso, havemos de manter o senso crítico, apontando os erros da administração de Lula e da futura presidenta Dilma  -  que, até então, não foram poucos. Houve falhas admistrativas de grandes proporções, que escapam do simples "blá-blá-blá" vomitado pela mídia em momentos eleitorais. Há, em suma, que "se colocar os pingos nos ´is´": Sim, o governo atual é mais competente no combate a problemas críticos da sociedade brasileira, em comparação com governos passados; e não, ele não consegue eliminar todos os problemas estruturais do país, e ainda está sujeito a graves insuficiências, que devem ser apontadas, sem se menosprezar os avanços alcançados. A militância não deve ser apagada por sua própria fidelidade ao governo; deve apenas ser melhor direcionada, mais precisa.

O que fiz, portanto, não foi nenhum exercício de oposição míope ao Governo. Em primeiro lugar, porque reconheço que as medidas tomadas foram corajosas e necessárias, concentrando minhas críticas à posterior imagem, criada e alimentada pela mídia, a respeito da situação carioca. Com todas as limitações a que estão sujeitos, os governos municipal, estadual e federal fizeram a parte deles. Em segundo lugar, porque critiquei, igualmente, uma questão que vejo como estrutural na sociedade, consolidada nas instituições e nas representações sociais em vigência, e que escapam de um combate governamental direto. Problemas de Estado e de "consciência coletiva", para utilizar a terminologia do velho Durkheim; não de governo ou de indivíduos que se unem com objetivos conspiratórios, simplesmente. Tratei, dessa forma, de preconceitos arraigados entre vários setores e explorados pela mídia em exaustão, e formas de pensar e agir que se atrelam ao Estado de forma absolutamente parasitória, contaminando sua gestão. Os governos terão muito mais trabalho no combate a esses inimigos do que tiveram, em aparência, na luta contra o tráfico do Alemão...

Pedro Mancini










quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A derrota (provisória e limitada) do radicalismo desconcertado

Nenhum comentário:
O resultado das eleições não significou, simplesmente, a vitória de um projeto político sobre outro. Aliás, uma das críticas feitas à campanha do Serra foi, justamente, a respeito da ausência de um projeto político próprio. Creio que, para além disso, o resultado das urnas pode ser interpretado, parcialmente, como uma derrota relativa e provisória de um fundamentalismo moral, ideológico e até religioso acionado pelo próprio processo eleitoral, que buscou a desqualificação e demonização absolutos da candidata petista e de seus aliados. 

Essa vitória não foi absoluta, e nem pode ser simplificada como resultado de um simples embate entre um lado "razoável" e outro "radical": pautando-se em análises preconceituosas e sem fundamento sobre o adversário, militantes e simpatizantes do PT, como disse em minha última postagem, também tentaram desqualificar moralmente o candidato José Serra; esta foi uma tática generalizada durante o segundo turno eleitoral.

Mas houve diferenças importantes na adoção dos discursos radicais pelos dois: tendo progressivamente sua imagem colada à do Presidente Lula, Dilma Rousseff rapidamente ultrapassou seu rival nas intenções de voto no primeiro turno, consolidando sua liderança na disputa. Dependente da popularidade do atual Presidente, que já lhe garantiu votos suficientes para sua eleição - embora não no primeiro turno -, a candidata não precisou partir para a baixaria tanto quanto Serra; só o fez, efetivamente, como resposta aos ataques tucanos, percebendo que os últimos surtiram algum efeito (o suficiente para impedir uma vitória avassaladora do PT). Ainda assim, recorreu mais a uma apelação com argumentações políticas programáticas (como a taxação de Serra da alcunha de "privatista"), expondo a biografia política do ex-governador paulista e de seu partido, do que a uma apelação moralmente carregada sobre características pessoais do candidato. 

Partiu de José Serra, portanto, a iniciativa de se apropriar dos sentimentos mais obscuros e primários de seu eleitorado: o ódio religioso, o moralismo, o pavor desmedido e a demonização do adversário. Percebendo que não iria conquistar muitos votos se mantivesse uma associação forçada com o Governo Lula, prendendo-se aos seus sucessos, o tucano deu uma guinada violenta em sua abordagem, e passou a fuzilar o partido rival, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade - a TPF e outras alas religiosas radicais, como setores  evangélicos e católicos. Trouxe à tona a questão do aborto, posando de autoridade no quesito "defesa dos costumes cristãos", e aproveitou uma velha associação entre o PT, o terrorismo, e até o narcotráfico (explorada sob a figura agressiva de Índio da Costa, vice de Serra). É claro que a figura de José Dirceu, o demonizado-mor, não poderia faltar na estratégia do medo encabeçada pela campanha tucana. Os métodos de divulgação de seus ataques foram ainda mais obscuros do que seus conteúdos: e-mails e panfletos apócrifos, com ataques pessoais e manipulações de informações das mais bizonhas.Uma verdadeira campanha subterrânea.

Nos momentos finais da campanha, a sociedade esteve fortemente dividida, graças à exploração desses temas moralistas; Serra consegui arrebanhar o ódio de alguns setores, acionando um "estado de guerra" ideológico. De fato, a sociedade segmentou-se entre direita e esquerda, mas com um forte viés irracional, emotivo e moralista - em que as visões políticas de cada classe e espectro ideológico apareceram nas sombras, fundamentando, de modo muito indireto, os preconceitos morais. A desaprovação de políticas voltadas à população mais pobre foi convertida, assim, em ódio contra um partido "imoral", fisiológico, assistencialista e populista.

O tucano perdeu as eleições mesmo adotando essa estratégia, mas estabeleceu uma trincheira de resistência contra o Governo eleito - ação que o próprio tucano atribuiu a seus militantes, em seu discurso de derrota. Nessa sua rancorosa fala pós-eleitoral, ele não deixa dúvidas: continuará se portando como o baluarte da justiça, da moral e do "bem", tentando centralizar a oposição ao Governo Lula sob sua figura. Quer manter a divisão do país, estabelecida durante sua campanha agressiva, para manter-se enquanto voz política da direita.

Parte da população apoiadora da oposição ficou ainda mais raivosa com sua derrota, e esse sentimento ampliado de ódio continuará a ser explorado pelo ex-governador de São Paulo. Apenas um dia após a vitória da Dilma, proliferaram-se, inclusive, manifestações de xenofobia, primordialmente contra os nordestinos - na suposição de que eles seriam os únicos responsáveis pela vitória do PT nas urnas. Vale lembrar: Dilma ganhou com uma margem de mais de 12 milhões de votos, dos quais 10 milhões foram do NE; ou seja, ela teria ganho o processo eleitoral mesmo se desconsiderássemos todos os votos nordestinos. Aliás, mesmo se considerássemos apenas os estados do Sul e do Sudeste. Vejamos as principais manifestações xenófobas, proliferadas pelo Twitter:



Vemos, assim, que a onda de afirmações negativas deflagradas pela oposição, encabeçada por Serra desde o início da campanha eleitoral, especialmente por vias virtuais, baseia-se em preconceitos infantis e suposições falsas e incoerentes. A manipulação de informações é a base dessa estratégia: graças à distorção de dados, podemos imputar a "máscara do demônio" em nosso adversário, ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria imagem. A rotulação de Dilma como "terrorista" é um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno: com a manipulação de informações sobre sua participação na resistência à Ditadura Militar, a partir de dados emitidos pelo próprio regime da época, e a camuflagem do fato de o o próprio Serra ter sido classificado como terrorista e fichado pelo militares, faz com que circule a idéia de que a Dilma seja uma "criminosa" - enquanto o Serra seria um aguerrido combatente da Ditadura. Se virmos com clareza sua ficha no DOPS, contudo, não encontraremos tantas diferenças assim entre o Serra e a Dilma de antigamente - ambos vinculados à extrema esquerda, com simpatias pelo regime cubano, e ambos tratados como revolucionários perigosos pelos dirigentes do passado.


É claro que os dois participaram do movimento de resistência de modos distintos: Serra era militante do movimento estudantil e foi um dos fundadores facção esquerdista Ação Popular, com viés católico, e conquistou o cargo de presidente da UNE apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro. Indo para o exílio após o golpe, regressou definitivamente ao país somente em 1975. Dilma, por sua vez, militou em um movimento mais aguerrido, que chegou a desenvolver ações violentas contra o Estado - a VAR Palmares .  Foi presa em 1970, torturada nos porões da Ditadura, e liberta dois anos depois. Apesar de suas diferenças, ambos os personagens que concorreram à Presidência foram classificados como "terroristas subversivos" pelo Estado - e esse fato é absolutamente desprezado pelos difamadores de Dilma, de modo que apenas a petista seja vista como extremista e vinculada ao terror político (sendo que não há nenhuma comprovação de que tenha participado diretamente de quaisquer ações armadas).

Esse radicalismo preconceituoso é que foi momentaneamente derrotado, após ter sido conjurado pelos tucanos. Como indiquei no começo, todavia, não verificamos uma derrota absoluta e inexorável desse monstro da intolerância e irracionalidade; na verdade, seria mais correto indicar que ele foi desperto durante a campanha eleitoral, e que, embora não tenha garantido a vitória daquele que o acordou, permanece ativo, mais furioso do que nunca, com a bordoada que levou das urnas. Prova disso é a já mencionada explosão xenófoba, que ainda persiste.

O radicalismo continuará, assim, armando a oposição. Mas terá de enfrentar uma força oposta tão ou mais poderosa, que prega a racionalidade e a moderação, e que saiu forte das urnas: a mesma força que resultou em um linchamento moral e jurídico dos "twiteiros" xenófobos e na aniquilação das ambições eleitorais de Serra. Pela primeira vez na história brasileira recente, o moralismo radical encontra forte resistência na sociedade: a voz da mídia não é mais absoluta e monolítica, diversificando progressivamente seus posicionamentos, e os demonizados do passado voltam de suas tumbas para se defender das acusações regressas. (Vide o caso de José Dirceu, que, após ser moralmente linchado e até levar bengaladas de um cidadão raivoso, peita de frente jornalistas do programa Roda Viva, demonstrando grande habilidade oratória e política - independentemente de seu grau de culpa nos casos mencionados.)

É claro que esse movimento, pela volta da razão e rejeição da demonização de adversários, comporta os seus próprios riscos: no caso, o favorecimento de um conformismo racional e um aumento da banalização de práticas políticas condenáveis, como a corrupção propriamente dita. Afinal, quando neutralizamos as emoções, reduzimos nossa capacidade de nos revoltarmos contra injustiças. É preciso, portanto, saber dosar as emoções, antes de querer sufocá-las, apenas; submetê-las, permanentemente, a uma revisão crítica racional, utilizando-as de acordo com nossas crenças fundamentadas, e sem nos deixarmos dominar por elas.

Acho que temos muito mais a ganhar do que a perder, se julgarmos os participantes da vida pública de modo fundamentado, analisando seus projetos políticos e visão de sociedade, sem cair em preconceitos reducionistas - ou então na armadilha de considerar os nossos representantes como uma massa homogênea (com base no preceito do "todos são iguais"). E parte fundamental desse comportamento razoável depende de um controle relativo sobre nossos impulsos, que, quando dominam as ações, nos tornam especialmente vulneráveis a manipulações de forças políticas obscuras, além de nos cegar para uma visão mais objetiva sobre os acontecimentos. Esperemos que a consciência continue a prevalecer sobre essa barbárie, apesar dos esforços teimosos de parte da oposição em utilizar sentimentos bárbaros (de ódio e pavor, principalmente) para benefício próprio, mesmo após as combativas eleições de outubro.

Pedro Mancini 






sábado, 30 de outubro de 2010

Posicionamentos políticos em tempos eleitorais conturbados:o domínio da irracionalidade

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O nível de polarização e radicalismo atingido pela disputa eleitoral obstrui análises amplas sobre a situação política atual. Mais do que isso, deprime qualquer analista que pretenda desenvolver uma interpretação minimamente racional sobre o momento presente. A apelação constante, de todos os lados, para tingir o adversário de “mau” esgotou os humores daqueles que não se contentam em ingressar numa competição apaixonada e sem muita mediação lógica.

Além disso, em um processo eleitoral tão radicalizado, já considerado por muitos o mais baixo da história política nacional, cada indivíduo se vê obrigado a assumir uma posição relativamente constrangedora. Não existe posicionamento inteiramente livre de críticas: mesmo o não posicionamento, viabilizado pelos votos nulo e em branco, pode ser visto como ingênuo e passivo.

Nas linhas seguintes, tentarei estabelecer um panorama geral dos posicionamentos políticos mais relevantes durante o período eleitoral – tentando escapar, o quanto for possível, da parcialidade que também me contagia (evidentemente).

Parte do eleitorado, mais fiel ao seu candidato, o defende cegamente, rejeitando críticas a ele e direcionando pesados ataques contra o candidato rival. São, em geral, os agentes mais ativos de ataques com viés calunioso. Desconfio, porém, que essa seja uma parcela minoritária – boa parte do eleitorado não é militante “cego” de candidato X ou Y. Muitos, na verdade, acabam se posicionando em um dos lados do espectro competitivo por exclusão, ou seja, por rejeitar por completo um dos candidatos em disputa.

 Tanto Serra quanto Dilma sofrem com isso: por um lado, há uma grande massa de eleitores anti-Dilma e anti-PT, concentrados nas regiões Sudeste e Sul, unidos pelo repúdio aos projetos e posturas políticas do governo atual. Acredita que Dilma personifica tudo o que há “de mal” no país: o fisiologismo estatal, a corrupção, as negociatas com adversários políticos do passado, o apoio a movimentos sociais que “espoliam a propriedade privada”, a defesa pela legalização de “males morais” (como o aborto, as drogas e os casamentos entre homossexuais), entre outros. Obviamente, não se trata de uma massa homogenia: estão presentes, aqui, tanto religiosos radicais, quanto liberais dos mais seculares, defensores de um Estado laico, moderno (do ponto de vista neoliberal) e inserido na ordem econômica global. Há aqueles mais irracionais, que associam a imagem de Dilma à de uma criminosa terrorista (por ter se levantado contra o Regime Militar) ou “assassina de crianças” (vide a própria Mônica Serra), e aqueles que, de modo mais ponderado, se assustam com atitudes do PT governista verdadeiramente passíveis de crítica – a conivência com a corrupção, sua política de alianças, e o favorecimento de militantes na distribuição de cargos do Estado.

De outro lado, há aqueles que, embora não concordem plenamente com as propostas e posturas políticas petistas, preferem estas àquelas usualmente levadas a cabo pelos demo-tucanos. Associam o candidato José Serra a políticas de privatização e sucateamento do Estado, assim como a uma postura de intolerância aos movimentos sociais e à defesa de um Estado neoliberal policialesco, baseado na ausência de políticas públicas efetivas, no desemprego e na repressão brutal à massa empobrecida (e a qualquer um que proteste contra as políticas em voga). Essas  práticas seriam reconhecidas em governos encabeçados pelo PSDB – tanto na presidência passada de FHC, quanto nos governos estaduais. E o governo Serra em São Paulo, por sua vez, seria a maior encarnação dessa visão de Estado e de sociedade do partido tucano.

Infelizmente, porém, um debate mais detalhado sobre a “natureza” das políticas defendidas por cada lado do espectro eleitoral é enormemente prejudicado pela baixaria generalizada - que centralizou, rapidamente, as discussões da campanha política. No reducionismo e no individualismo interpretativo que transforma cada um dos candidatos no “maior dos males”, aqueles que escolhem um dos lados são imediatamente considerados fiéis seguidores de seus candidatos, sem que se considere qualquer possibilidade de existência de um “apoio crítico”: um apoio relativo, e não absoluto, em que se admite uma escolha “tática” pelo candidato “melhor” ou “menos ruim”, com base em determinados critérios.

Assim, nessa polarização infantil, qualquer um que admita o voto na candidata petista é imediatamente associado à imagem de “petista”, “burro”, ou visto como “pelego” ou uma figura que “mama nas tetas do governo”. Por outro lado, qualquer apoiador de Serra, independentemente de seus motivos, é visto como “reacionário”, “neoliberal” ou “de direita”. É possível que uma ou outra dessas classificações seja, parcialmente, verdadeira; contudo, trata-se de  categorizações precárias e maldosas que obscurecem o debate, contribuindo para a reprodução do discurso do ódio mútuo, da radicalização política e, conseqüentemente, da ausência quase absoluta da possibilidade de diálogo entre forças políticas de grande representatividade.

É claro que também existem muitos que se recusam a assumir a defesa de qualquer um dos lados, anulando seu voto. Pelo que percebo, muitos deles são de esquerda, mas não acreditam haver diferenças substantivas entre a candidata de centro-esquerda e José Serra – o próprio Plínio de Arruda assume essa visão. Desenvolvendo uma perspectiva global sobre a política nacional, não acreditam que os dois candidatos que alcançaram o segundo turno representem chances reais de mudança do SISTEMA político em vigência; posicionamento esse que lembra o do diretor José Padilha, expresso em Tropa de Elite 2.

Coloco-me, aqui, entre aqueles que contestam o idealismo presente entre os que anulam seu voto a partir desse raciocínio. Questiono-me, na verdade, se a abstenção na defesa de qualquer lado não seria o posicionamento “mais fácil” a se adotar. É claro que, como já apontei, quem age desse modo sujeita-se a ser chamado de “passivo” e “cego”, mas sofrerá críticas menos ferozes do que aqueles que escolhem um dos lados, sendo massacrados pelo lado oposto. Além disso, acho que o pensamento que impera nesses sujeitos possui algumas incorreções.

Ora, é fato que o sistema não mudará por meio das eleições; os atores dessa grande “festa democrática” já estão inseridos no sistema - tal como a “festa” em si. Mesmo assim, é cegueira total igualar os projetos políticos e visões de sociedade dos dois partidos em disputa –não são apenas diferentes na forma, como causam impactos muito distintos, reais e objetivos, na situação do país e de sua população. E posicionar-se na disputa não significa, de acordo com minha argumentação, um apoio absoluto e acrítico a um dos candidatos e seu projeto, e nem uma abstenção da luta pela mudança de todo o sistema político e social, defendida com unhas e dentes por militantes da ala mais à esquerda do espectro político-eleitoral.

Eu, particularmente, sou contra o pensamento do “quanto pior melhor”, presente em muitos desses militantes, que torcem para provar que “todos os candidatos servis ao sistema são iguais, tendendo a piorar a situação da população trabalhadora". Acho que é possível melhorar, de modo objetivo – embora sujeito a críticas sobre sua forma e alcance  - a situação da grande massa da população brasileira a partir de dentro do sistema, como demonstrou o Governo Lula. Claro que são mudanças limitadas, se comparadas àquelas resultantes de uma alteração brusca no sistema econômico, político e social;  mas só por isso devem ser menosprezadas? E mais: uma adesão pragmática à defesa de mudanças inerentes ao sistema significaria uma indiferença ou negação da luta mais ampla pela alteração dessa estrutura política, que filtra e limita possibilidades mais amplas de mudanças? O pragmatismo exclui, necessariamente, o idealismo da mente do eleitorado? Pessoalmente, acredito que não. Por isso votarei na candidata Dilma Rousseff, prestando-lhe apoio crítico,  e sem perder de vista a luta contra o sistema ao qual ela está, tanto quanto Serra, submetida (embora o PT se aproveite de sua lógica de forma mais benéfica à maioria da população do que a aliança demo-tucana).

Espero que, com o fim desse momento eleitoral tão conturbado e cheio de farpas, tenhamos maiores chances de discutir essas questões de forma minimamente ponderável. Por hora, porém, temo que a ferida aberta pela enorme agressividade entre os candidatos demorará a cicatrizar, e que essa grande irracionalidade eleitoral prossiga, no mínimo, por boa parte do governo eleito. Em meio a tal polarização, ainda será muito difícil não ser classificado como "petista roxo" por apoiá-lo estrategicamente...e talvez por isso tantos prefiram manter-se na neutralidade.


Pedro Mancini

sábado, 23 de outubro de 2010

Bolas de papel, Marcelo Tas e a falácia da neutralidade midiática

3 comentários:
Apesar da tentação em escrever diretamente sobre a patética tentativa da TV Globo em transformar uma bolinha de papel em um rolo de fita capaz de ferir um ser humano, tratarei do assunto de forma mais indireta, discutindo a falácia do discurso da "neutralidade midiática". 

Evidente que, quando falamos da Rede Globo, poucos serão aqueles (se é que ainda existem) que contestarão a parcialidade de seus jornalistas e editores-chefe. Não é à tôa que, regularmente, a emissora é execrada no Twitter por milhares de usuários, e que já tenha rendido um documentário sobre seus esforços de manipulação dos telespectadores brasileiros. Ainda assim, corre a visão, entre muitos setores da sociedade, de que a Globo seria apenas uma exceção, em termos de parcialidade da mídia (assim como a Revista Veja e, de modo similar mas não idêntico, a Carta Capital); Enquanto a cada dia menos pessoas caem no discurso neutro vendido por alguns desses órgãos, que posam como "donos da verdade" que não escolhem lados  (a Carta Capital seria uma exceção ao admitir seu posicionamento político próximo ao PT, assim como o Estadão recentemente admitiu apoio ao candidato José Serra), vários outros veículos e órgãos da imprensa ainda posam e são vistos como "imparciais" ou "independentes". Às vezes, essa pretensão é exposta no próprio slogan do veículo, como no caso da revista IstoÉ. Outro caso notório pode ser encontrado nos programas televisivos de humor, especialmente quando possuem  atuação no universo político. Para explorar um pouco essa questão, contarei sobre uma experiência pessoal recente. 

Semana passada, tive a chance de assistir a palestra de uma figura notável do universo midiático brasileiro atual: Marcelo Tas, apresentador do CQC. Sua fala tratava sobre redes sociais, daí meu interesse em assistir; contudo, Tas não deixou de comentar sobre assuntos políticos, frente a uma platéia composta por alunos do ensino médio, vindo a argumentar contra a censura da imprensa e tecendo críticas ao Presidente Lula. Os posicionamentos do apresentador, para mim, não representaram nenhuma novidade ou problema. O que me chamou a atenção foi quando ele indicou que "existem ALGUNS" órgãos de imprensa PARCIAIS, que atuam politicamente a favor de certos agrupamentos políticos. Não somente nessa fala, mas em várias outras, percebi claramente, em Marcelo Tas, tentativas de vender a si mesmo, ao seu programa e à sua emissora a imagem de baluardes de "neutralidade axiológica": Eles estariam ACIMA da sociedade, observando-a e a julgando de "fora", como positivistas à la Comte ou Durkheim (já há muito contestados por sua "ingenuidade" em buscar apreender a realidade social de forma absolutamente neutra). Portando-se dessa forma, o apresentador equilibra-se em uma tênue e pouco definida linha divisória entre a mais pura ingenuidade e a simples má fé: possivelmente, tenta enganar a si próprio e a seus telespectadores, ao posar  de "representante da sociedade civil" - e não como voz de determinados setores dessa sociedade, vinculados a certos interesses de classe. O mesmo ocorre com o CQC, programa de Marcelo Tas que, apesar de seu tratamento inovador com a política, acaba, ironicamente, abraçando o valor jurássico da "neutralidade" da atuação jornalístico-humorista. 

O tipo de visão que critico, aqui, só se fundamenta mediante a "fuga" de um a questão fundamental: a sociedade não é um "bolo disforme", representado por uma virtual "sociedade civil" que aglomera todos os interesses e fala em nome da Nação; na verdade, e isso deveria ser trivial, estamos inseridos em uma sociedade multiforme, segmentada, onde vários interesses competem e se aliam, de acordo com as circunstâncias. Ora, os órgãos da imprensa estão muito longe de escapar de tal lógica, embora vendam a imagem de fazê-lo; em  maior ou menor medida, de forma mais ou menos explícita, defendem uma certa visão, política e ideologicamente marcada,  associada as suas posições estruturais nessa sociedade multifacetária.

De todo modo, é visível que a conjuntura atual desfavorece, progressivamente, a supremacia desse aparato ideológico. A difusão de formas de comunicação e sociabilidade online - muito bem representadas pelas redes sociais e blogs pessoais - fez eclodir o acesso a novas interpretações e pontos de vista que, muitas vezes, enfrentam frontalmente as perspectivas hegemônicas dos meios de comunicação tradicionais (emissoras de TV, rádios, revistas semanais e jornais diários). Não mais detendo o monopólio sobre a informação, esses meios não conseguem sustentar a imagem de neutralidade, que rui na mesma medida  em que os posicionamentos apresentados como "fatos" se vêem confrontados com perspectivas opostas.

A crise do discurso da neutralidade chegou a um ponto, na verdade, que vemos a própria mídia tradicional se contradizer sobre os mesmos acontecimentos: assim, foi o SBT quem iniciou o processo de desmascaramento da Globo no caso na bolinha de papel; e, enquanto vemos uma "blindagem" do candidato tucano feita pela Veja, Folha de S. Paulo, Globo, etc., a revista IstoÉ - enquanto posa de independente-  destaca-se do status quo ao direcionar duas matérias de capa seguidas à condenação das estratégias eleitorais oportunistas do PSDB (em especial, o uso da questão do aborto na discussão política, já tratado em minhas postagens passadas) e às denúncias de corrupção dentro da campanha tucana (materializada no caso Paulo Preto). Como acreditar na neutalidade da imprensa, quando seus órgãos apresentam perspectivas mutuamente excludentes sobre os fenômenos, mesmo quando não admitem algum grau de parcialidade?

Ignorando a obviedade da ruína desse discurso, a maior parte da mídia insiste em sua manutenção. Acredito, porém, que o progressivo desmascaramento da neutralidade forçará os veículos à  rápida adaptação, caso queiram manter um grau razoável de credibilidade e de aceitação de seu próprio público. Creio, ainda, que esse é movimento deveras positivo para um aumento progressivo da genuína liberdade de expressão, baseada no enfrentamento - sem a hipocrisia da "imparcialidade" - de idéias assumidamente antagônicas sobre "fatos" que são, na verdade, inseparáveis de interpretações já marcadas por preferências e ideologias, mesmo relativamente ocultas à primeira vista.

Para resumir a raiz de minha argumentação, a multiplicação das fontes de informação cumpre papel imprescindível na ruptura do discurso da "mídia imparcial, soberana e independente", que, por sua vez, é inimiga (ao meu ver) da liberdade de expressão em seu caráter mais plural e libertário, fundamentada no livre acesso às interpretações múltiplas sobre os fatos, com a escolha do público sobre aquelas que se mostrarem mais  adequadas e pertinentes - que façam mais sentido para espectadores, leitores e ouvintes. Tal exercício é impossível quando a mídia de massas tem uma só voz, vendida como difusora da "verdade dos fatos" e vista como "desprovida de parcialidade". Como diria o ditado, "pior que não ler nenhum jornal é ler apenas um jornal"; e o tempo em que todas as fontes de informação detinham um só discurso, agindo como apenas um jornal, ficou no passado. À mídia tradicional, resta adaptar-se, admitindo seus posicionamentos, ou sofrer com uma contínua redução de seu público.


Pedro Mancini




domingo, 17 de outubro de 2010

Manipulações político-eleitorais sobre o aborto: o caso da Revista Veja

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Desculpem por me manter na temática eleitoral (e, mais ainda, na temática específica do uso eleitoral do aborto), mas, dada a última capa da Revista Veja, não pude resistir.

Trata-se, em minha opinião, da tentativa de manipulação do eleitorado mais patética e desprovida de fundamento, de fácil desmonte  por qualquer indivíduo minimamente informado sobre o funcionamento da política e sobre as diferenças entre políticas públicas, aprovações de leis e opiniões pessoais de candidatos. 

Bem, não consegui ainda a foto original da capa, mas vou descrevê-la brevemente. Ela é dividida em duas partes, uma superior e outra inferior, de modo que possamos lê-la de duas perspectivas diferentes. A Dilma aparece dos dois lados, sendo um deles com um fundo branco, e outro, com fundo vermelho. 

No lado de baixo, é exposta uma frase, atribuída à candidata petista, que revela um posicionamento supostamente pessoal, íntimo, da mesma: "Eu, pessoalmente, sou contra. Não acredito que haja uma mulher que não considere o aborto uma violência". No lado superior, por seu turno, é revelada uma frase, da mesma candidata, repudiando a criminalização da prática abortiva: "Acho que tem de haver a descriminização do aborto. Acho um absurdo que não haja". A primeira frase foi dita em 2009, e a segunda, dois anos antes.

O argumento da revista é tão simples quanto fraco, e não deixa dúvidas sobre sua parcialidade. Vende-se que a candidata tem "duas caras", por mudar de discurso com relação à temática do aborto, teoricamente por motivações eleitorais. A  infantilidade do "erro" (para dizer o melhor) está na confusão entre opinião particular e concepções mais gerais sobre a sociedade, relacionadas com opiniões sobre a validade de determinadas leis e políticas públicas. Em outras palavras: ser pessoalmente contra o aborto não tem o mesmo significado que defender a proibição da opção de outras mulheres por sua realização. Afinal, viver em uma democracia é saber conviver com as diferenças de credo e de opinião - e um de seus pressupostos é permitir que esse outro, que pensa de modo diferente, conduza sua vida do modo que lhe bem convir, desde que essa condução não interfira na vida alheia. Isso é tão banal, que não mereceria, por si, muita discussão. Mas, infelizmente, o atual nível do debate eleitoral exige esse tipo de esclarecimento. No que tange ao aborto, na concepção de seus defensores, o direito de condução sobre a própria vida incluiria a decisão da mulher sobre um feto que ainda não poderia ser considerado um ser humano, sendo, portanto, uma parte de seu próprio corpo.

É claro que, no auge da "intimização" da política, muitos estão mais interessados nas opiniões pessoais de seus candidatos, especialmente no que tange a questões polêmicas, do que em seus programas de governo e concepções de sociedade. Por isso, eles ganham muito manipulando tais informações. Eu sei bem, por exemplo, que a Dilma é pessoalmente a favor do aborto, mas se viu obrigada a emitir outra opinião para não perder muitos eleitores. Do mesmo modo, já há a notícia de que Mônica Serra, a mulher do candidato do PSDB que disse por aí que a rival do marido era a favor da "morte de criancinhas", teria realizado um aborto no Chile; sem contar que, como já mencionei na última postagem, o próprio tucano foi o grande responsável pela implantação de normas técnicas de regulamentação do aborto em casos específicos, quando ainda era Ministro da Saúde. Hoje, porém, posa de grande figura religiosa, abraçando a bandeira de padres e pastores.

De todo modo, fico feliz ao ver que a candidata petista não tenha recuado de todo de suas opiniões sobre a descrimização do aborto, ao menos por hora, como bem mostra esse trecho do primeiro debate televisivo desse segundo turno:


* Obs: Há indícios de que o monopólio de um único candidato sobre a mídia esteja acabando: Logo após a Revista Veja publicar a matéria de capa mencionada, a Revista IstoÉ  lançou uma similar, mas com a figura de José Serra. Nela, são comparadas duas falas do tucano, uma negando conhecimento sobre Paulo Preto (que desviou mais de R$4mi da campanha do PSDB) e outra chamando o homem de "uma pessoa muito competente". Essa ousadia da Época em contestar o status quo midiático de apoio ao Serra também pôde ser vista na TV Record, que poderá pagar multa por colocar no ar uma reportagem que, supostamente, beneficiou a candidata Dilma Roussef. Juntamente com a multiplicação das fontes de informação, possibilitada pela proliferação das ferramentas de internet, e com o alcance de revistas opostas à grande mídia, como Carta Capital e Caros Amigos, novos modos de reportar o mundo político começam a destruir a visão monolítica que ainda impera nos meios de comunicação. 



Pedro Mancini


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Religião e política nas eleições 2010: O uso de Deus no vale-tudo eleitoral

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Não restam dúvidas: questões religiosas colonizaram totalmente o debate político-eleitoral. E o pior: por iniciativa de um agrupamento político que nasceu com idéias ditas "progressistas", em contraposição a um regime militar de cunho conservador, e que conta com um quadro de intelectuais e empresários modernosos. Como explicar essa guinada absurda em direção à extrema-direita, reacionária e fundamentalista, que se opõe à descriminalização da homofobia e a políticas sociais que provenham atendimento às mães que decidam abortar?

Ora, a reposta, a primeira vista, seria óbvia: puro oportunismo eleitoral. E é isso mesmo - em momento de desespero, correndo o risco de derrota logo no primeiro turno, Serra radicalizou nos minutos finais da campanha, aproveitando-se da ferocidade religiosa de boa parte do eleitorado brasileiro. Somando forças com as denúncias contra Erenice, o fator religioso conseguiu não somente empurrar as eleições para o segundo turno, como reduzir drasticamente a vantagem de Dilma sobre seu rival. 

Mas não questiono, aqui, as óbvias motivações tucanas para reacender o debate religioso; mais difícil é compreender o sucesso dessa estratégia, considerando o suposto caráter progressista do PSDB e de seu eleitorado, concentrado em setores das classes média e alta, que, em boa parte, não são lá muito religiosos (em geral, são aqueles que demonstram sua religiosidade quando casam na Igreja). Muitos, aliás, não questionam a necessidade de um Estado moderno e laico. (Vale lembrar que o próprio Serra, quando Ministro da Saúde, legalizou o aborto em alguns casos específicos, como nas gravidezes resultantes de estupro ou que coloquem em risco a vida da mãe.) Assim, seria de se suspeitar a continuidade de seu apoio a um candidato que abraça bandeiras extremistas e passa a namorar com setores fundamentalistas.

A única explicação que consigo encontrar é a seguinte: o eleitorado peesedebista demoniza os petistas de modo tal que está disposto a fazer qualquer negócio para derrotá-los. Engraçado que esse tipo de comportamento do "vale tudo", dos "fins justificando os meios", vez ou outra é imputada aos petistas, pelos próprios tucanos, para fins de agressão e desqualificação. José Dirceu, o bicho-papão do PT, já sofreu muito com essa análise: ele seria um militante tão fervoroso, acreditaria tanto em um "novo mundo" socialista, que estaria disposto a QUALQUER COISA para atingir seus objetivos, inclusive afundar-se em um lamaçal de corrupção. Tudo isso por seus ideais. 

Pois bem. Ironicamente, o PSDB sofre do mesmo mal imputado a seus adversários. Pela queda do PT e para colocar-se mais uma vez no poder, vende sua alma ao fundamentalismo cristão. O sucesso dessa aproximação relaciona-se, por sua vez, tanto a falta de religiosidade de seu eleitorado clássico (esses "progressistas" das classes média e alta), quanto pelo excesso de religiosidade de um potencial eleitorado de Dilma. 

Em outras palavras: enquanto o ódio do eleitorado peesedebista pelo PT é maior do que sua vinculação religiosa, o amor de parte do eleitorado por Dilma seria menor do que seu fervor cristão. Assim, o PSDB acaba perdendo poucos eleitores, enquanto o PT corre risco de perder um número bem maior, sendo associado a bandeiras rejeitadas por templos e igrejas. Para os não-religiosos, os tucanos vendem simplesmente a idéia de que Dilma tem "duas caras", mudando de posições a respeito do assunto. Serra e sua equipe perceberam isso e partiram para o ataque: têm muito menos a perder do que a ganhar com esse jogo, ao menos eleitoralmente falando. Os princípios que se danem. 

Aliás, também lamento que, agarrado à lógica eleitoral, ao PT nada reste a não ser recuar diante das carapaças que lhe colocam. Sabendo do enorme peso da religião para o eleitorado brasileiro, não se dá ao luxo de debater a descriminalização do aborto, defendendo com maior vigor sua posição original. Seria uma ação arriscadíssima para ele, com enormes chances de resultar em uma derrota fenomenal nas urnas. Mas não revertamos o jogo sujo: quem trouxe o debate religioso à tona, de forma banal e visando atiçar os instintos mais primitivos dos cristãos, foi o PSDB. Enquanto o PT é obrigado a recuar de seus princípios, o PSDB colocou os dele em liquidação de modo claro e ativo, trazendo Deus para o seu vale-tudo eleitoral.  

(*Obs: Sobre o mesmo tema, indico ainda a leitura de um texto de Vladimir Safatle intitulado: "A República Fundamentalista Cristã").

 
Pedro Mancini


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Avaliação do primeiro turno e sobre a "terceira via" do PV

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Concluído o primeiro turno das eleições, é hora de todas as partes envolvidas fazerem seus balanços. Arrisco-me aqui a expor minhas próprias opiniões, assim como algumas perspectivas sobre os movimentos eleitorais para o segundo turno.

O resultado da eleição presidencial foi claramente ruim para a centro-esquerda, encabeçada pelo PT, que esperava uma vitória logo no primeiro turno. Dizem alguns, com alguma razão, que ele foi bom para a democracia brasileira, já que possibilitou um debate mais aprofundado sobre as propostas dos dois candidatos principais e impediu uma "ultra-glorificação" adiantada sobre a figura de Dilma Roussef.

Concordaria mais com essa análise se o adiamento da decisão eleitoral se devesse, apenas, à falta de adesão acrítica e absoluta da população - inclusive da esquerda - ao governo petista, que está muito longe de ser considerado excelente. Apesar de seus impressionantes e incontestáveis avanços sociais, o governo atual também ficou marcado por financiar o combate à miséria sem golpear as elites econômicas e por inegáveis e sérios casos de corrupção (que, embora tenham sido inflados pela mídia, não deixem de ser muito reais). Considerando a idéia de que o primeiro turno das eleições permite que votemos naquele candidato que mais se aproxime de nossos ideais, e não no "menos pior", seria compreensível, portanto, que o eleitorado que prefere Dilma a Serra, mas que tivessem fortes críticas à atuação política do PT, optasse por votar em um outro candidato - Marina ou Plínio, no caso.

Fiquei chocado, contudo, com a análise de que o fiel da balança, na queda dos votos para o PT, foi a questão religiosa: difundiu-se a percepção de que Dilma seria a favor do aborto, o que teria resultado em uma enorme migração de votos de cristãos, em especial para a candidata Marina Silva. Se essa avaliação se confirmar, há de se lamentar que dogmas religiosos ainda detenham tanta força política, em um ataque ao caráter laico do Estado brasileiro. Além disso, não foi exatamente um embate de propostas que levou a campanha ao segundo turno - foi, antes, uma onda sombria de agressões, acusações e jogos baixos de todo tipo (como a associação de Dilma com a figura da "assassina de criancinhas"). 

De todo modo, é inegável que a esquerda subestimou o papel e o poder de atração de Marina Silva nessas eleições. Na verdade, pouco sabemos sobre o comportamento político de seus eleitores, e por isso a surpresa do adiamento da decisão presidencial: apesar de todos os ataques contra a candidata petista, avaliou-se corretamente que a população não levava a figura de Serra a sério como uma alternativa, mas ignorou-se a capacidade de a candidatura Marina agregar aqueles comovidos pelas acusações realizadas pela campanha do tucano e de seus aliados midiáticos. 

Há a visão de que boa parte do eleitorado de Marina seja composto de simpatizantes da esquerda que não se vêem representados na figura da Dilma. De acordo com tal visão, haveria a tendência de migração desse eleitorado para a petista no segundo turno, já que ela representaria uma opção "menos pior" do que aquela representada por José Serra. 

Parte da esqueda, contudo, parte de outra visão: de que o eleitorado de Marina é composto pelas classes média e alta, por setores de elite da sociedade, que vêm na candidata uma oposição mais concreta contra o governo petista, por eles desprezado. Seriam, portanto, virtuais simpatizantes da direita, mas que não se convenceram com o comportamento esquizofrênico de Serra no primeiro turno (ora colando-se à imagem do Presidente, ora isolando-se em uma posição de criticidade ácida e denuncismo). No segundo turno, porém, esse eleitorado ainda preferiria o ex-governador paulista à "ex-terrorista" (aja aspas, por favor!) Dilma, representante-mor do "grande mal" petista.

Qual visão estaria correta? Em minha humilde opinião, ambas. E esse é o grande "às na manga" do PV, partido de Marina Silva: colocando-se "acima da direita e da esquerda", esse partido consegue agregar simpáticos de todos os lados do espectro político. Mantendo a sua carapaça ecológica, camufla sua posição real nesse espectro - suas propostas político-econômicas muito mais próximas do neoliberalismo peesedebista são obscurecidas pela agenda verde. Na verdade, a "terceira via" do PV é, em grande parte, uma grande ilusão. Quem quiser ler mais sobre o assunto, recomendo a leitura do texto de Vladimir Safatle sobre o assunto.

O PV é, ao mesmo tempo, um partido muito parecido com o velho PMDB - embora muito mais competente do que este em suas malandragens. Também posa de "neutro" no panorama político, conseguindo, com isso, aliar-se de acordo com contextos específicos, sendo muito mais efetivo em uma negociação de cargos com outros partidos (PT e PSDB, por exemplo). A vantagem é que, ao contrário do PMDB, com sua nulidade de conteúdo, o PV monopoliza a agenda ecológica - um troféu valioso para qualquer partido. Afinal, só posará de ecologicamente correto quem tiver o aval dessa agremiação, e com esse aval, garante-se o apoio de um grande número de "eleitores jovens e descolados", que realmente acham que o "PMDB verde do século XXI" representa alguma grande novidade para além da simples preservação ambiental.

* Obs: É claro que o comportamento do PV apresenta seus efeitos colaterais:  a tendência ao racha interno, dada a existência de múltiplos interesses por alianças. Na definição (ou indefinição) do apoio da Marina para o segundo turno, uma guerra interna já tomou curso entre os políticos verdes: aliados do PSDB em São Paulo de um lado, pregadores da neutralidade de outro, e talvez alguns mais simpáticos ao PT aqui e ali. No fim das contas, o resultado dessa luta não interessará tanto para os rumos da Nação: resultará em distribuições de cargos para os verdes alegres que, ainda sim, não poderão garantir uma fidelidade permanente para o lado vencedor.

Pedro Mancini


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Impressões sobre o último debate e o "espírito democrático" de José Serra

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Publico, com algum atraso, minhas impressões sobre o último debate entre candidatos à Presidência da República, realizado dia 12 de setembro pela RedeTV! e Folha de SP.

Como comentou Luis Nassif em tempo real, via Tweetcam, o debate simbolizou o fim melancólico da campanha de José Serra. O tucano insistiu na tecla da violação do sigilo fiscal de sua filha e outras acusações, sem tentar convencer o eleitor de que possui propostas concretas para administrar o país. Ao contrário do que a mídia noticiou, a estratégia de Serra foi um fracasso: nos primeiros blocos, ele ficou totalmente isolado, ninguém entrou em sua onda (a não ser alguns jornalistas), e acabou levando uma "sapatada" até do Plínio (que afirmou não ter "nada a ver" com as denúncias do Tucano e lamentou que o mesmo tenha baixado tanto o nível da campanha, alegando, com razão, que deveriam estar discutindo propostas políticas concretas). Sua posição, no atual quadro político, apenas ficou mais confusa para o eleitor - já que o candidato vive alternando ataques de fúria e elogios à administração petista, em uma tentativa malabarista de manter os ataques atrelados à figura de Dilma, poupando o presidente, e mantendo os elogios à Lula, desconsiderando Dilma.

Não que a candidata do PT ou mesmo Marina Silva tenham se destacado positivamente: o Serra é que foi muito infeliz. Aliás, o momento mais patético do debate foi quando ele insistiu ser um "democrata", que "respeita seus adversários políticos", insinuando que a petista não o faria. Bem, não precisamos nem discutir os bastidores da política, os afastamentos de jornalistas desfavoráveis a Serra, para contestar essas afirmações: seu jeitinho "trator", anti-democrático e de desrespeito por opiniões contrárias e pela oposição tem sido muito evidente. Vejamos apenas alguns exemplos se sua postura pública:

1) Pela primeira vez desde o Regime Militar, o tucano escolheu, para reitor da USP, um candidato que não foi escolhido como preferido pela própria Universidade, desrespeitando essa chamada "democracia" que diz valorizar;
2) Já demonstrou, inúmeras vezes, desrespeito com jornalistas, quando questionado, sempre buscando desmoralizá-los e associá-los à "vil oposição". Vejamos alguns vídeos do YouTube:









3) Em inúmeros casos, Serra demonstrou intolerância absoluta com movimentos sociais e grevistas, associando-os à uma oposição "malévola", vista como fonte de intrigas e "inimiga do povo": um total desrespeito tanto com as reivindicações dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, quanto com a própria oposição. Como exemplo, cito o caso da greve da Polícia Civil, que acarretou em um conflito sério com a Polícia Militar nas ruas de São Paulo, mais uma vez fruto da incapacidade de diálogo do tucano. Na época, Serra saiu no Datena responsabilizando o PT e centrais sindicais partidarizadas pelo confronto, como se a polícia nem tivesse motivos para fazer reivindicações e movimentos de greve. Cheguei a publicar uma postagem a respeito desse episódio, mas infelizmente não localizei o vídeo de Serra no Datena.
4) Mostrou desrespeito, igualmente, com seus críticos da Internet, classificando todos os seus blogs opositores como "blogs sujos" (vale lembrar que, ao mesmo tempo, o PSDB se apropria das ferramentas da internet a seu favor, mandando seus simpatizantes, por exemplo, votarem em massa em seu candidato como o "melhor do debate" logo após esses eventos). Desqueaifica os opositores, simplesmente vinculando-os a interesses partidários e eleitorais.

Não venham, portanto, me dizer que Serra possui qualquer "espírito democrático" ou que "respeita a oposição", não tratando-a como "inimiga do país"!

 Em resumo, José Serra demonstrou mais uma vez, no debate, uma enorme hipocrisia; até aí, contudo, muitos políticos o fazem, inclusive os demais presentes. Mas a manutenção de sua postura agressiva mostrou, mais do que nunca, seu desespero perante o quadro eleitoral, em que sua campanha falha redondamente em se apresentar como uma alternativa concreta ao governo atual  ao público eleitor. Nem mesmo em seu reduto político, São Paulo, Serra conseguiu manter a dianteira. Desmoralizado, resignou-se a ataques baixos, utilizando a violação do sigilo de sua filha para tentar desestabilizar a candidatura petista.De fato, um fim que beira entre o melancólico e o repugnante.

Pedro Mancini 

domingo, 12 de setembro de 2010

Palhaços na política

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As grandes falhas de nosso sistema político ganham maior evidência a cada horário eleitoral.Um dos sinais mais óbvios dessas deficiências, que saltam aos olhos de todos, são as candidaturas "palhaças" e as "anti-candidaturas": candidatos famosos, na maioria das vezes sem propostas objetivas, que esperam ganhar as eleições com o apoio de seu carisma e dos fãs que conquistam. No caso das anti-candidaturas, conta-se, ainda, com supostos "votos de protesto" de eleitores desiludidos com o sistema político-eleitoral. Em geral, trata-se de  tipos engraçados ou com outras qualidades extra-políticas, que cativam seu público por algum talento ou característica pessoal. Inúmeros exemplos dessas candidaturas podem ser listados: Enéas, Havanir, Clodovil, Dinei, Sérgio Mallandro, e os mais atuais Tiririca, Maguila, Mulher Pêra e Mulher Melão.

Em outros momentos, essas candidaturas limitavam-se, quase absolutamente, a partidos menores, que aproveitavam "micro celebridades" para alcançar um lugarzinho na câmara ou para barganhar apoios políticos com partidos de maior relevância. Em geral, apoiavam a direita e a centro-direita: partidos como PSDB, DEM e PMDB. Agora, mais do que nunca, além de os grandes partidos também contarem com essas proto-celebridades, a centro-esquerda, simbolizada por PT e aliados, utiliza esse mesmo tipo de candidatura a seu favor, de forma direta ou indireta. Tiririca, a título de exemplo, é representante de um partido aliado de Aloizio Mercadante em São Paulo - o PR. A Mulher Pêra, por sua vez, conta com o apoio explícito do senador petista Eduardo Suplicy. Vejam os respectivos vídeos:









Essa aliança entre esquerda moderada e partidos menores, com suas candidaturas de "palhaçada" e suas anti-candidaturas, são uma boa demonstração do quanto a centro-esquerda brasileira aprendeu a ser pragmática, aderindo inteiramente às mazelas de nosso sistema político-eleitoral em prol de melhores possibilidades de governança. Essa postura não deixa de ter suas vantagens, como maior garantia de conquista de posições políticas e maior apoio parlamentar, benefícios esses que, se desprezados, resultariam em um isolamento desses partidos no espectro mais marginal do cenário político.


A incorporação relativa da imoralidade pela esquerda é igualmente uma demonstração de que o aparecimento de candidaturas palhaças, que fazem deboche com a política brasileira, não é um fenômeno isolado, dependente de "mal-caratismos" individuais; é, obviamente, um problema estrutural, de modo que todas as agremiações políticas de importância rendem-se a sua lógica para cativar o eleitor. 

E que não se enganem aqueles que consideram que um voto em Tiririca é um voto de "protesto": essa possibilidade já se extinguiu há um bom tempo. Foi-se o tempo de candidaturas-fantoche assumidas como a do Rinoceronte Cacareco, que simbolizavam, de fato, a insatisfação dos brasileiros com a política nacional. Nosso sistema político-eleitoral é muito flexível, tendo se adaptado com absoluto sucesso à idéia de "candidaturas de protesto", de modo que os sujeitos mais atrelados à lógica política mais podre são indiretamente beneficiados  pelos votos recebidos pelos "palhaços" de seus partidos. O caso de Tiririca é emblemático: um voto nesse comediante beneficiará candidatos como Valdemar Costa Neto, político que renunciou em 2005 para não ser removido à força de seu cargo parlamentar. Ironicamente, aquele que acredita estar "driblando" o sistema ao votar em Tiririca estará, de fato, colaborando de modo bem definido para a manutenção de sua lógica sistêmica.

Algumas vezes, contudo, é possível vislumbrar um pedacinho de ética no fim do túnel. O candidato ao governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores, Aloizio Mercadante, reclamou diretamente ao PR a respeito do conteúdo da "anti-candidatura" de Tiririca, que compromete a já muito debilitada imagem do político brasileiro. Há de se lamentar que críticas dessa espécie se reduzam aos candidatos com discursos mais esdrúxulos; os mais hipócritas, como Maguila, que fingem ter plataformas políticas mais sérias do que as do palhaço, parecem estar mais seguros da contestação pública e de quaisquer retaliações de partidos aliados. 


Essa tendência por candidaturas dos tipos apontados não cessará enquanto não houver uma reforma política séria em nosso país. Até lá, só nos resta tomar a postura mais coerente de votar em candidatos com propostas REAIS e CONCRETAS de mudança, políticos de conteúdo bem definido: essa sim seria uma atitude mais próxima daquele quase utópico "voto de protesto" que tantos buscam, com a grande vantagem de sua viabilidade e maior possibilidade de impacto junto à sociedade.


Pedro Mancini



terça-feira, 10 de agosto de 2010

Twitter e o tribalismo político

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A contaminação do Twitter pela campanha eleitoral têm demonstrado que a consolidação da Internet enquanto um espaço de relacionamento e intercâmbio deperspectivas heterogêneas (com fins de obtenção de consensos e comuns-acordos) ainda não se cumpriu. 

Não há mais dúvida de que a Internet se fundamentou como um instrumento global de comunicação e difusão de informação, a ponto de os políticos e celebridades não poderem se dar ao luxo de ignorá-la - devendo apropriar-se de seus mecanismos o máximo  que puderem. Assim, candidatos com contas no Twitter brotaram às centenas, espalhando suas convicções político-ideológicas aos quatro ventos. Aqueles que não aderirem integralmente ao universo virtual, correm sérios riscos de povoarem a marginalidade do imaginário popular.

A despeito da ocupação da Internet por gente de todo tipo - desde o mais comum dos mortais até a mais idolatrada celebridade contemporânea  -, o que vemos não é tanto um gigantesco intercâmbio entre convicções plurais, rumo a um elevado debate, em que todos põe à prova suas idéias, arriscando-se a rever seus preconceitos no contato com o diferente. Muito pelo contrário, a  rede mundial de computadores - e, em especial, o Twitter - parece refletir a fragmentação do social entre inúmeros grupelhos de opinião, muito pouco dispostos ao diálogo com o Outro. 

Os movimentos de "seguidores" que acompanho no Twitter embasam essa visão. Em geral, não estamos interessados em seguir aqueles com os quais não concordamos; as opiniões que expressam no Twitter só servem para nos irritar, quando expostas em nossa tela inicial. Se seguimos adversários, é pelo único prazer de poder atacá-lo verbalmente, agredí-lo e ridiculariza-lo perante todo o público virtual. que acompanhar a discussão. Trata-se, em verdade, de uma verdadeira guerra de idéias entre variadas facções que maios esbravejam que conversam. Serristas não seguem dilmistas, a não ser para ofendê-los, e vice-versa. Todos fecham-se em suas "tribos" ideológicas. 

A questão da exposição de idéias políticas não se restringe aos políticos profissionais. As celebridades devem ficar especialmente atentas a isso, caso queiram seguir a lógica quantitativa das redes sociais, que mede a popularidade pelo número objetivo de seguidores ( quanto mais, melhor). A exposição, por menor que seja, do favorecimento a um ou outro candidato ou corrente política pode gerar uma verdadeira debandada de seguidores, além de lotar a tela do artista em questão de xingamentos, agressões e questionamentos mil. daqueles que dele discordarem. Um posicionamento político-eleitoral precipitado, e um famoso qualquer pode limitar sua lista de seguidores aos adeptos de uma determinada posição - afinal, tcomo quis argumentar, tendemos a seguir somente nossos "iguais".

É claro que muitas celebridades - em geral, as maiores - conseguem se livrar desses particularismos. Além de evitarem ao máximo o "escape" de suas preferências político-partidárias, sua imagem parece plainar acima de qualquer crítica política. Nomes de celebridades mais conhecidas e idolatradas são blindados por uma espécie de aura mágica, e, ao invés de se tornarem escravos de seus seguidores virtuais, convertem-se em seus mestres: uma mera insinuação de um artista mega-pop pode dobrar a opinião pessoal de milhares de fãs-seguidores. 

Os maiores prejudicados pelos tribalismos político-ideológicos da internet são, assim, as celebridades menores, tal qual as "subcelebridades"; essas, desesperadas  pelas "migalhas" de seguidores do Twitter que as celebridades maiores espalham pelo enorme solo virtual, não têm uma imagem tão forte para se darem ao luxo de tomarem uma posição. Caso o façam, correm o sério risco de empacarem no arrebanhamento de seguidores, mantendo apenas os adeptos que com eles concordem. E nenhum pretendente a celebridade "universal" que se preza evita manter uma certa névoa de ambiguidade e neutralidade sobre si, ao firmar os pés de um lado determinado do espectro político. Uma neutralidade, embora sempre falsa e hipócrita, é a fóruma mais fácil para um artista manter sua rede de adeptos.

Regina Duarte, após proferir todo o seu "pavor" com relação ao vindouro Governo Lula, em 2002, converteu-se em um exemplo do que digo: Praticamente evaporou dos holofotes. Para relembrar:





A vítima da vez parece ser outra senhora global, a Maitê Proença - que já criou em uma verdadeira saia justa em um programa de mesmo nome, ofendendo os portugueses -, após atribuir ao machismo brasileiro a missão de "salvar" o povo brasileiro da candidata Dilma Roussef. Ela e Regina, com seus radicalismos tacanhos e patéticos, baseados em sentimentos rudimentares e absolutamente preconceituosos como - o medo e o ódio-, isolam-se muito mais do que aqueles que dão indicações mais discretas sobre seu posicionamento político-eleitoral (figuras como os integrantes do CQC, que ainda conseguem um sucesso relativo na tentativa de parecerem "neutros"). Vamos ver o que sobrará da já abalada imagem de Proença depois de mais essa declaração desastrosa, dada em entrevista ao Estado de São Paulo... Confiram:


O feminismo já era ou a mulher ainda precisa lutar contra as discriminações da sociedade?
A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria venha a calhar nesse momento de eleições, atiçando os machos selvagens e nos salvando da Dilma?

É claro que não são apenas os opositores do Governo Federal que têm sua imagem abalada após revelarem seu posicionamento político. Amantes do Governo Lula e do PT também sofrem, e muito. Entre alguns casos dessa espécie, cito as críticas sofridas pelo grupo O Teatro Mágico, que declarou apoio à candidatura Dilma, e o isolamento a que o jornalista Paulo Henrique Amorim se submeteu ao declarar uma guerra aberta contra os tucanos - assim como inúmeros outros jornalistas e blogueiros, que passaram a ser perseguidos, por exemplo, pela Revista Veja e outros órgãos graças ao seu posicionamento. Aliás, a própria Revista Veja, dado seu viés gritante, também se tornou um órgão de comunicação isolado, restrito à masturbação ideológica da velha classe média e  aos consultórios médicos e odontológicos.

Em resumo, há um preço alto a pagar pela violação da aparência de neutralidade, e isso se torna ainda mais visível e verdadeiro em redes sociais como o Twitter.


Pedro Mancini

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre impostos, pedágios e "trololós"

Um comentário:
Dia desses, soube de mais uma iniciativa curiosa na Web: um site que estima o valor absoluto arrecadado pelos pedágios no Estado de São Paulo.

Sem dúvida, o referido site se inspirou na iniciativa anterior, protagonizada pelas classes média e alta, de estimativa do valor absoluto de arrecadamento de impostos do Governo - movimento que culminou na exposição de um telão com esses dados atualizados, e até com uma mobilização que culminou no barateamento de combustíveis por um dia. Tudo isso para protestar contra as altas taxas governamentais. O irônico é que as mesmas classes que criticam esse alto nível de impostos costuma apoiar governos - particularmente, o do PSDB - que mantém uma política de encarecimento de pedágios, que expoliam a população de forma similar.

Diferentemente dos impostos, porém, os valores arrecadados pelos pedágios são direcionados às concessionárias, ou seja, empresas privadas - que, além de manterem a qualidade das estradas, absorvem boas quantias de lucro de suas atividades. Os impostos são (ou ao menos DEVERIAM ser) direcionados APENAS para melhorias dos serviços públicos, ou seja, para o benefício da própria população. Essa é a função fundamental do Estado, servir o público; o objetivo primeiro de qualquer empresa privada, por sua vez, é o lucro - direcionado, obviamente, a uma parcela extremamente restrita da população.

Pior ainda, ao meu ver, é a mercantilização de direitos leva a cabo pelos pedágios (e por muitas outras políticas administrativas). Trata-se, em verdade, de algo que deveria ser mais ou menos óbvio: o DIREITO de ir e vir não pode ser COMERCIALIZADO sem deixar de ser direito, resumindo-se a uma mera mercadoria. A partir do momento que é cobrado do cidadão a passagem pelas rodovias, este é expropriado de um direito básico de locomoção, sendo obrigado a adquirí-lo - e cada vez que se locomover por  distâncias relativamente longas. Submete-se ao pedágio ou anda a pé ou de bicicleta por dezenas ou centenas de quilômetros para escapar da cobrança. Na prática, tira-se qualquer possibilidade do exercício do direito de ir e vir, ao menos no que tange a maiores distâncias.

Por essas razões, adotei o "pedagiômetro" em meu blog, na parte direita da tela. Aderi totalmente ao movimento. Aliás, a situação dos pedágios em São Paulo é tão absurda que mesmo setores da mídia que, geralmente, têm uma atuação conservadora, mobilizam-se  por vezes contra ela: o último caso foi do (ex-) apresentador do Roda Viva, Heródoto Barbeiro, que, questionando Serra sobre o preço abusivo dos pedágios,  obteve respostas agressivas e ridículas de seu entrevistado (em uma fala que buscou desqualificar as críticas ao Governo de São Paulo e à campanha petista, classificando-as como "trololós petistas". Talvez o candidato tenha aprendido tais táticas com personagens de destaque na História, como Hitler, que adorava culpar judeus por todos os males da Alemanha, ou Stálin, culpando trotskistas...). Curiosamente, o repórter foi, logo após esse programa, afastado de seu papel de apresentador, sendo imediatamente substituído por Marília Gabriela. Coincidência?

Segue o vídeo...

Pedro Mancini

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Alguns vícios da análise política contemporânea

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Em mais um ano eleitoral, estou cada dia mais chocado com a tendência à radicalização e a observações eleitorais viciadas.

 
Muitas das tendências de avaliação política atuais, como uma perspectiva intimista e personalista da vida pública, já foram percebidas por sociólogos como Richard Sennett em meados da década de 90; não são, portanto, uma grande novidade. Esses modos de pensar obscurecem visões mais racionais, baseadas na análise de planos de governo e propostas de políticas públicas. São, em suma, vícios que prejudicam a democracia e a civilidade. Analiso, aqui, e de forma apenas exploratória, um desses grandes vícios: uma visão da política que chamarei de "pessoal intimista", preocupada com um destrinchamento da vida privada, e até íntima, dos candidatos em questão.

 
Muitos eleitores pensam em seus candidatos apenas a partir de sua personalidade – ou melhor, de uma imagem idealizada do que SERIA essa personalidade, baseada em conhecimentos de fatos pontuais. Além de potencialmente irracional - por se pautar, muitas vezes, em uma IMPRESSÃO inconsciente sobre o candidato -, reproduzindo, de modo acrítico, preconceitos de classe inculcados em nosso inconsciente, essa forma de interpretação tende a simplificar o debate e obscurecer outros aspectos, que deveriam, esses sim, ser fundamentais nas escolhas políticas. Propostas de governo defendidas pelo partido do candidato ficam, com o domínio dessa perspectiva intimista, relegadas a um segundo plano.

 
Em outras palavras, essa forma de interpretação do quadro eleitoral peca por pressupor, intrinsecamente, que o candidato governará sozinho, contando apenas com seu "caráter", sua "personalidade". Assim, separamos os candidatos entre "honestos" e "íntegros", "bons" ou "mau caráteres", bem ou mal intencionados. Para tanto, focamos em sua "cara", em sua postura, em seus hábitos mais privados. Assim, Lula pode se ver reduzido a um "cachaceiro", a um "analfabeto ignorante", que, por essas características, merece meu repúdio. FHC, por outro lado, será avaliado como um "intelectual" que, "naturalmente", governa de forma racional e inteligente. Sob essa perspectiva, quem liga para as idéias por detrás da personalidade dos candidatos? Quem liga para as plataformas políticas, para os planos de governo, para a ideologia representada pelo partido representado pelo político? E para os resultados dessas políticas? Muito se perde com essa redução patética à personalidade (ou impressão de personalidade) dos candidatos a cargos públicos.

 
Essa personalização pode se manifestar tanto em avaliações positivas, quanto negativas: assim, o governo Lula pode ser bem avaliado porque "Lula é um de nós", ou a Dilma pode ser má avaliada, como possível governante, ao ser taxada de "criminosa" ou "terrorista" por ter lutado contra a Ditadura décadas atrás.

 
Essa, aliás, é outra grande ferramenta da simplificação e deturpação do debate político: a descontextualização. Aliada à avaliação personalista-otimista, a retirada dos fatos de seus contextos originais pode acarretar em resultados especialmente catastróficos. O exemplo mais atual, sem dúvida, é a agressão pela qual a candidata Dilma Roussef tem passado, nos últimos meses: por ser uma mulher de "personalidade forte" e de esquerda, que militou em um grupo mais radical durante a Ditadura Militar, ela tem sido avaliada, por setores mais radicais da classe média, como uma simples terrorista criminosa (perdoem-me pela redundância). Ora, a descontextualização é aqui óbvia: ignora-se a falta de legitimidade de um governo militar que torturava e assassinava seus opositores nos porões de prédios públicos, tratando aqueles que resistiam a essa estrutura como criminosos comuns. Como a própria Dilma já disse, naquele período era heróico enfrentar o regime – fosse mentindo para as autoridades, com fins de proteger colegas militantes, fosse resistindo militarmente. O contexto ERA de radicalização – tanto da direita, quanto da esquerda. Não havia, praticamente, possibilidade de resistir pacificamente: quem o fazia, era perseguido, preso e morto, como o jornalista Vladimir Herzog.

 
É claro que a mesma forma de violência nunca se justificaria nos tempos atuais, com instituições democráticas melhor estabelecidas, que permite a existência de oposições institucionalizadas. Mas transplantar os comportamentos políticos de uma época de exceção para os tempos atuais, condenando militantes da esquerda como se fossem simples criminosos, é simplesmente um jogo baixo e sujo demais – e mais um mecanismo de deturpação política, usado para justificar preconceitos ideológicos e de classe ulteriores. Seria ingênuo demais acreditar que o Brasil teria todos os seus problemas políticos resolvidos, se tais mecanismos (a análise "pessoal intimista" e a descontextualização, entre outros que não tratei no presente texto) deixassem de ter tanto peso na hora da análise e da decisão eleitorais; mas, sem dúvida alguma, seríamos um pouco mais racionais em nossas escolhas.

 
Pedro Mancini