segunda-feira, 9 de julho de 2012

A "luta do século" da sociedade do espetáculo

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Na madrugada entre sábado e domingo, ocorreu aquela que foi considerada a "luta do século" da UFC, o torneio mundial de lutas marciais mistas. Nela, o "herói brasileiro" Anderson Silva (vulgo "Spider") enfrentou o seu "arquirival" americano, o sociólogo (!) de Oregon Chael Sonnen, que teria sido o lutador mais próximo de vencer Silva em uma luta dois anos antrás. Mas, como leigo evidente no assunto, não estou aqui para discutir os acontecimentos de ontem em si mesmos, com as especificidades das técnicas de luta empregadas por ambos os lutadores. Antes, gostaria de colocar em debate a importância simbólica que foi conferida a esse embate pelo mundo - e, em especial, no Brasil.

O que mais me surpreendeu no evento esportivo de ontem foi sua capacidade de mobilização do público nacional. Mesmo aqueles que não se dizem fãs desse tipo de luta fizeram questão de abrir mão de seu sono para assistir o embate. No Facebook, vários contatos expuseram suas expectativas, tento alguns deles arquitetado encontros entre amigos para acompanhar os pontapés ao vivo pela televisão. Mas qual seria a explicação para tamanha atenção a esse esporte, da noite para o dia?

A mídia cobriu os eventos anteriores à luta com rigor. Sonnen, considerado um "fanfarrão", pode ser tido como um representante vivo da ideologia mega-competitiva americana, com seu subsequente estímulo ao orgulho pessoal e nacional: arrogante, transmitiu a típica imagem do "malvado metido à besta", que "fala mais que a boca", ou "fala muito e faz pouco"; o mimado alienado do país do Primeiro Mundo, pronto para pisar em qualquer um que cruzar a sua escalada ambiciosa pelo estrelato. O lutador provocou Anderson Silva em toda oportunidade que teve, de forma aberta e direta. Chegou a afirmar que "passaria a mão na bunda" da esposa do brasileiro e que a mandaria fritar um bife para saciar sua gula

Anderson, por sua vez, encarnou a imagem típica do "herói", o "bom moço" do Terceiro Mundo que apareceria para "calar a boca" do americano, mas apresentando grande "humildade" e um "espírito zen" a gerar inveja até a alguns monges budistas. Ao contrário de Sonnen, o "Spider" era mais do tipo que "fazia" antes de ficar só "falando". Sobre suas costas, ainda estava todo o orgulho de uma nação, diretamente afrontada pelo lutador-fanfarrão (Sonnen havia zombado da pobreza do Brasil durante uma de suas provocações ao brasileiro); Anderson deveria "limpar a honra ferida" do país. Um grande espetáculo estava sendo armado desde semanas antes da luta, como se fortes emoções (de ódio, inveja, vingança, amor à pátria) brotassem espontaneamente entre os envolvidos quando, na realidade, haviam sido meticulosamente planejas e manufaturadas para agregar telespectadores, patrocínios e - enfim - dinheiro, muito dinheiro.

Antes e prosseguir, resta uma colocação: é claro que  a figura do "herói nacional" nunca pode permanecer, no Brasil, apenas na esfera da "bom-mocidade" exagerada. Um bondoso pode rapidamente ser taxado de "trouxa", de "otário", por deixar os outros pisarem em sua honra. Assim, Silva, provavelmente orientado por excelentes agentes, também fez questão de colocar mais "lenha na fogueira" nas disputas simbólicas com Sonnen, negando o caráter "trouxa" de sua personalidade: respondeu às provocações e, na rádio, prometeu quebrar todos os dentes do rival, ensinando-o, assim, a ter mais respeito por tudo e todos. Por fim, chegou a dar uma leve ombrada na face do rival, no clássico ritual da "foto com encarada" entre os lutadores. Anderson ganhava, assim, mais alguns milhares de fãs brasileiros até então hesitantes em se tornar espectadores desse esporte.

Eis, enfim, o meu ponto com a postagem de hoje: o imensurável poder de persuação de uma "sociedade do espetáculo" que, por meio de diversos mecanismos, consegue hipnotizar uma grande massa de espectadores, seduzindo-os de modo altamente eficaz, com uma profundidade e abrangência supreendentes. Assim, as mais pacíficas almas sentiram-se na obrigação moral de assistir, ao menos por uma noite, um dos esportes mais violentos da atualidade, persuadidos por emoções das mais primárias, diretamente provocadas pelo teatro midiático protagonizado pelos lutadores: ódio ao rival, patriotismo distorcido, medo de humilhação, orgulho, dentre outras. As estúpidas - mas de certo modo geniais - provocações de Sonnen cumpriram seu papel: atingiram a grande massa brasileira e garantiram um público massivo aos canais de televisão que transmitiram a contenda. Aposto que, por mais que tenha apanhado, Sonnen também saiu vitorioso desse confronto épico, assim como todas as outras partes diretamente envolvidas: a UFC, Anderson, os agentes, os patrocinadores da luta, apostadores, as redes de transmissão, e muitos outros. E, é claro, os próprios brasileiros ganharam uma boa desculpa para reunir os amigos e acumular, por alguns minutos e de modo osmótico, doses moderadas de adrenalina passiva. 

O desfecho da luta favorece meus argumentos; no final, nada tão surpreendente aconteceu. O malvado perdeu. O herói nacional ganhou. O melhor - e mais previsível - resultado ideológico nesse tipo de espetáculo meticulosamente arquitetado. O homem "dedicado", "zen", "sofredor" e "popular" venceu o "arrogante do Primeiro Mundo", capaz de qualquer ação monstruosa para adquirir o sucesso imediato. A luta pode ter sido mais "real" do que as velhas lutas-livre, mas os personagens são os mesmos, assim como o elevado poder de persuasão sobre os telespectadores, presos por relações de afeto e desafeto com os heróis e vilões do ringue. Anderson não fez Sonnen "engolir todos os dentes", pois isso feriria a própria lógica institucional a que está submetido. No fim, portanto, a fala na rádio e a "ombrada" na pesagem não passaram de provocações meramente simbólicas, ao invés de se constituírem como promessas a serem concretizadas - tanto que a única (e, mais uma vez, bem pensada) atitude de Anderson Silva após a luta foi a de pedir aplausos para seu rival, dando-lhe uma sutil alfinetada verbal. Mais uma vez, o ídolo se consolidava em moldes profundamente "brazucas": trabalhador, disciplinado, mas meio "malandro", "tirador de onda". Taí o o irônico convite para o churrasco que não me deixa mentir.

E um brinde à mais uma vitória esplêndida... da sociedade do espetáculo. 

Pedro Mancini




domingo, 17 de junho de 2012

Morte e desencantamento na FFLCH: Sobre o falecimento do Prof. Antônio Flávio Pierucci

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Essa semana foi celebrada a missa de sétimo dia do falecimento de um grande professor (em que fiquei muito triste por estar impossibilitado de comparecer) - Antônio Flávio Pierucci,  um dos maiores especialistas em Sociologia da Religião e na obra de Max Weber que o Brasil já produziu. Mas não estou aqui para falar dos feitos acadêmicos do excelente professor e pesquisador Pierucci; e sim de suas qualidades pessoais.

Mas quem sou eu para falar alguma coisa, poderia-se pensar? Conhecia ele mais do que vários de meus colegas de faculdade, que cursaram a graduação tendo a honra de assistir as suas aulas descontraídas, apesar de extremamente enriquecedoras? Não. Não sou ninguém notadamente especial entre o círculo de amizades de Pierucci: apenas MAIS UM aluno que ele conhecia pelo nome e comprimentava pelos corredores da faculdade com boa vontade e transparência raras e invejáveis. Não apenas lembrava meu nome anos após uma participação em seu curso de Sociologia IV, como lembrava das conversas que havíamos tido àquela época. E isso, não tenho dúvidas, ocorreu com inúmeros colegas de curso.

A maior virtude de Flávio Pierucci, para mim, não estava em sua produção acadêmica - que, não me entendam mal, é indiscutivelmente importantíssima, mas que já foi destacada pelos usuais veículos de comunicação, embora ainda superficialmente. Sua maior qualidade encontrava-se por detrás do pesquisador e professor: seu lado humano, desapegado às relações burocrático-informais que permeiam um ambiente como aquele que frequentava até muito recentemente: os corredores da Universidade. Em um local em que somos "apenas mais um aluno", com um número de matrícula que nos posiciona em uma massa de milhares de matrículas, e em que nos encontramos na mais baixa posição hierárquica da rígida estratificação universitária, Pierucci possuía a habilidade inata de romper as barreiras estatutárias e apresentar-se como um ser humano para seus alunos, para além de um "simples" reprodudor de conhecimentos teóricos. Aproximava-se de cada um de nós como um colega pessoal, e não como um ser que vive em um inviolável Monte Olimpo, pairando sobre nossas cabeças. Tinha o dom de fazer cada um entre centenas de alunos se sentir um pouco mais especial, um pouco mais do que um mero número de matrícula em uma comunidade acadêmica altamente burocratizada (burocracia essa habilmente tematizada pelo estudioso em que Pierucci mais se especializou, o velho Max Weber). Não era o único professor a deter esse dom - tive a sorte de me relacionar com uma orientadora com qualidades semelhantes - mas era um dos poucos, e daqueles que o faziam de modo mais hábil e natural.

Pierucci, enfim, era um dos poucos professores que conheci que eram capazes, naturalmente, de encantar um pouco esse desencantado, altamente racionalizado, universo acadêmico. A FFLCH acordou um pouco mais desencantada no mês de junho de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Escapes despretenciosos

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Aaaah... nada como uma boa desculpa para voltar a escrever. Obviamente, não faltaram pautas e questões polêmicas para fomentar o debate nesse blog: mas, como uma própria vítima da sociedade contemporêna que tanto gosto de estudar, não encontrava condições emocionais e práticas (tempo, resposabilidades profissionais e acadêmicas) para sentar a poupança e deixar fluir minhas opiniões publicamente.

Mas o problema não está, exatamente, no fato de não conseguir escrever em si mesmo, mas na culpa que é derivada dessa impossibilidade - e na ansiedade diante dessas dificuldades.Sintomas típicos de nossa sociedade, como comprovado pela difusão extrema de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos...(de eficácia real contestável, para piorar.)(Para quem quiser algumas fontes: Portal R7  e Rede Brasil Atual). 


Em diversas ocasiões, estimularam-me a voltar a escrever... e eu mesmo sinto muita falta desse hábito. Mas simplesmente não conseguia cumprí-lo, e isso gerava - ainda gera - um grande peso na alma. Uma dor que não é menor do que aquela gerada quando não cumpro qualquer responsabilidade cotidiana: quando não trabalho "como deveria", não estudo "como deveria", e até... "não me divirto como deveria"!!!!

Ora, e então entramos na seguinte questão: será que TUDO virou motivo de estresse e culpa, de modo que mesmo uma atividade (em tese) prazerosa, que deveria acalmar o espírito, adquire conotações de um "dever" que, em meio às exaustivas demandas profissionais e acadêmicas, gera um grande mal estar quando não  devidamente cumprida? Há, afinal, um escape REAL para o estresse ocasionado por esse estilinho de  vida típico do paulistano, caracterizado por uma dissolução quase completa da distinção entre dever e lazer, público e privado, desejo e obrigação? Será que nossas formas de "resistência", como um horariozinho de isolamento e de atividades "fora de pauta" (caminhadas, meditações, práticas de yoga, entre outras dezenas, centenas ou milhares de opções que mais confundem que nos orientam) não se convertem, sem notarmos, em mais uma linha de nossas intermináveis listas de deveres cotidianos? Se sim, trata-se de uma resistência de fato ou da mera colonização de nosso íntimo pela lógica da produtividade?

Bom, desabafos à parte, voltemos à questão principal: como e porque escrever agora nesse blog , após vários meses de. abandono? Depois de tantas promessas (aos outros e a mim mesmo) de voltar a expressar minhas ideias, como nasce a possibilidade de redigir nesse momento específico? Estaria eu com mais tempo livre? DEFINITIVAMENTE, NÃO!!!! Nunca tive tantas responsabilidades com outros - chefes e alunos - quanto atualmente. Tenho certeza que, se um aluno vir minha produção recente, se questionará: "mas como diabos esse sujeito não corrigiu minha lição e tem tempo para escrever em um blog"? Bem, meus caros, ocorre que eu notei as falhas desse modo de pensar e restaurei uma máxima que costumava repetir a conhecidos: "quanto menos tempo temos, mais tempo arranjamos". E percebi que válvulas de escape - por mais imperfeitas que sejam - são indispensáveis nos dias de hoje. Sem objetivos, sem metas, sem ocupar linhas de uma lista de tarefas: um escape de mentalidade. 

É claro que isso parece meio banal, a princípio; mas se existe algo (entre muitas outras coisas) que aprendi nos últimos dias, é que sabermos CONSCIENTE e RACIONALMENTE de algo é BEM diferente da capacidade de SENTIRMOS esse algo, digerindo-o de fato, apropriando-se de sua essência, internalizando algum conhecimento. Comigo, algo do tipo de passou com minha percepção sobre como entendia o "lazer": no fundo, via-o como mais uma obrigação a cumprir - o que, ironicamente, acabava por distituir as atividades em questão de qualquer caráter "prazeroso" mais profundo (alguns chamariam o "prazer" restante dessas atividades, de caráter totalmente superficial, simplesmente de "gozo" - em seu sentido psicanalítico.) 

Além de ter notado essa diferença entre a razão superficial e a compreensão "sentimental", por assim dizer, de coisas que nosso lado racional já "sabe", comecei a encontrar - após muita procura - ferramentas adequadas para viabilizar a criação de espaços REAIS para que minhas válvulas de escape das agitações cotidianas funcionem livremente, sem entupimentos, permitindo que meus vapores de estresse sejam (minimamemte) liberados ao vento....

Mas quais ferramentas seriam essas, e por quanto tempo surtirão efeito (e em que medida), são assuntos para as possíveis próximas postagens... afinal, não tenho mais interesse em verborragias intermináveis em meu humilde, mas sincero blog.

Pedro Mancini

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O jornalismo estúpido da Record

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Durante as últimas eleições, o papel da Rede Record de Televisão foi, em certo sentido, visionário. Destoando do monólogo usualmente estabelecido pelos principais meios de comunicação no Brasil (vulgarmente chamados de "PIG", uma sigla bem-humorada para "Partido da Imprensa Golpista"), com seu apoio integral às forças políticas liberais (na época, representadas mais diretamente pelo candidato José Serra), a emissora protagonizou uma cobertura mais favorável à candidatura Dilma Rousseff. Caiu, dessa forma, nos braços de boa parte da esquerda pró-PT.

Ao ignorar o fato de o alinhamento político-ideológico da emissora ser meramente circunstancial - e pautado por interesses próprios, que podem se alterar em outros contextos -, muitos passaram a proteger a rede do milionário Edir Macedo, evitando tecer críticas relevantes a posturas  condenáveis.Extasiados com a atuação de jornalistas histriônicos como Paulo Henrique Amorim, com sua (justíssima, de modo geral) cruzada contra a hipocrisia de tucanos e "democratas", e com reportagens pautadas em denúncias contra o "poderoso chefão" do futebol, Ricardo Teixeira, e contra a Revista Veja (saco de pancadas de todos os que tenham um mínimo de bom senso), muitos dos que adotam uma postura de oposição a emissoras como a Rede Globo isentam a Record do mesmo linchamento moral. Parece que os apontamentos feitos pelo aclamado documentário "Muito Além do Cidadão Kane", desenvolvido pela BBC de Londres, tornam a Globo a única "vilã" significativa entre as redes de comunicação brasileiras - e qualquer concorrente comercial torna-se automaticamente "heróina" da batalha contra o Golias da mídia nacional. 

De fato, os constantes conflitos entre a toda-poderosa Rede Globo e a TV Record são notórios. Em 2009, por exemplo, a rivalidade entre as emissoras transpareceu na cobertura jornalística de ambas, que recorreram a mútuas campanhas de difamação. Os ânimos atuais estão menos inflados; ainda assim, as redes continuam a a competir pela audiência, mesmo que a liderança da Globo ainda seja inquestionável (na ampla maioria dos horários).

Apesar de sua postura de contraposição à corporação da família Marinho, acompanho a avaliação de alguns jornalistas, menos entusiasmados com os atuais alinhamentos políticos da Record,  de que sua cobertura jornalística é, em muitos aspectos, AINDA pior e mais manipuladora do que a de outras redes, incluindo a Globo. Os críticos da emissora do velho bispo Macedo já perceberam sua disposição pela imitação descarada do formato da emissora da família Marinho; mesmo os nomes dos programas são extremamente similares. O "Domingo Espetacular" é uma imitação descarada do velho "fantástico"; o "Repórter Record" copia o "Globo Repórter", e o "Hoje em Dia" inspira-se no "Bom Dia Brasil", entre outros nítidos exemplos. 


Mas esse não é o maior dos problemas. Nem mesmo critico (ao menos nessa postagem) o fato de a emissora Record ser gerenciada por um magnata religioso. O assunto do dia é o próprio "método" de comunicação com o telespectador. A despeito de suas eventuais atuações políticas de conteúdo, em geral o dia do jornalismo da Record parece um Cidade Alerta sem fim. A todo momento, o telespectador é bombardeado por notícias policiescas cotidianas - desde o jornal matinal até os que preenchem o horário do fim de noite. Mesmo em programas matinais que misturam bate-papos descontraídos com proto-celebridades, receitas de bolos e dicas de estética, costumam-se vincular notícias sobre atropelamentos e até brigas de vizinhos como se fossem casos de repercussão internacional!

Na emissora, parece que a vida cotidiana torna-se, mais do que nunca, um grande espetáculo, de caráter nefasto na maioria dos casos, quando assassinatos e situações mais escabrosas são explorados à exaustão. É claro que notícias mais relevantes ao conjunto da sociedade, como as de caráter político e econômico, são as primeiras a perder tempo e espaço com a ênfase exagerada no micro cotidiano. Afinal, como o modismo dos "realities policiais" (em que as ações das forças de segurança estaduais são registradas e exibidas aos telespectadores) aponta, é muito mais interessante e "rentável" para a televisão destacar a vida como um exitante e dramático filme de ação, suspense e terror, narrado por preocupados e indignados apresentadores de telejornais. Há aqui algo ainda mais digno de nota na abordagem jornalística da Record: reparem que, no momento em que as notícias são transmitidas, os apresentadores fazem-nos o "favor" de serem "representantes" de nossos sentimentos, indignações e agonias. Ao fim de cada narrativa de uma mãe que afogou o filho ou de um rapaz que assassinou a namorada e estourou os miolos em seguida, as graciosas apresentadoras do Jornal da Record balançam suas cabecinhas em um sinal de reprovação, seguindo uma frase do tipo "que horror, né gente?" (apenas para que sua colega abra um sorrisão, anunciando a entrada da Rodada do Brasileirão na pauta do Jornal). Ao telespectador, não resta sequer tecer suas próprias emoções, após uma interpretação mínima da situação apresentada, sendo-lhe já fornecida a forma mais "apropriada" de manifestação emocional.

A equipe do Jornal Nacional, da Rede Globo, já foi criticada por tachar o telespectador médio brasileiro de "Homer Simpson", em referência ao ignorante e facilmente manipulável personagem criado por Matt Groening. Mas o que pensa de seu público uma emissora que, além de mastigar a notícia de modo a torná-la mais "digerível" por esse suposto "telespectador médio", manipulando e mascarando a  realidade em suas transmissões, ainda enxerga-o como incapaz de até mesmo manifestar suas próprias emoções de modo minimamente autônomo?

Pedro Mancini


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os potenciais comunicativos da Internet

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Dia desses, estive em um Simpósio de Comunicação promovido por uma faculdade particular de São Paulo. A apresentação foi um pouco bisonha para os padrões acadêmicos brasileiros (a platéia teve que cantar o Hino Nacional, e houve um sorteio de livros da editora da instituição no final das falas), mas as duas exposições foram bastante inspiradoras. Hoje, trago algumas reflexões a respeito  do primeiro dia desse Simpósio, que podem  auxiliar na compreensão da própria capacidade do blog de promover discussões e debates significativos. Mas já aviso que não sou especialista na área da comunicação, e minha discussão pode parecer especialmente superficial para quem o seja.

Discutindo o conceito de "comunicação", o palestrante Ciro Marcondes Filho questionou até que ponto nossa sociedade - usualmente tida como "da comunicação" - comunica-se de fato. Para essa análise, distinguiu a ação comunicativa da simples emissão de sinais, em primeiro lugar, e da informação, em segundo.

Para uma simples emissão de sinais romper suas limitações e alcançar o status de informação, faz-se necessária a atenção do outro. Assim, alguém que utiliza os sinais emitidos por outro para um dado fim (após uma busca pontual na internet, por exemplo) transforma-os em uma informação para ele. Trata-se, portanto, de algo que não existe em si mesmo, sendo um conceito relacional: depende tanto de um emissor quanto de um receptor, e só pode ser entendido sob a perspectiva da utilização desse último.

Porém, ainda não basta informar para comunicar: segundo Ciro, no processo comunicativo algo acontece com as partes envolvidas:  emissor e receptor se transformam com a ação, sendo tocados em seu desenrolar. Nesse sentido, faz-se necessária uma espécie de "abertura ao novo" por parte dos dois, uma propensão a transformar-se com os sinais emitidos por seus interlocutores.

É nesse ponto que o palestrante diferenciou a capacidade comunicativa de interações do tipo face a face, físicas, daquelas virtualmente tocadas: no primeiro caso, haveria a possibilidade, em tempo real, de percepção de transformações ocorridas no interlocutor. Mudanças repentinas de opinião, concordâncias e discordâncias, insights inesperados, alterações na expressão facial e na postura corporal e outros sinais menores: pode-se notar o quanto o indivíduo foi tocado pela conversa no momento mesmo em que ela ocorre, pela simples observação da face do outro e pela dinâmica da própria conversação.

Já a grande maioria das formas de comunicação virtual - por exemplo, das típicas redes sociais, como os murais do Facebook - não permitiriam um controle apurado sobre os impactos causados pelos sinais emitidos. Aquele que escreve um tweet ou atualiza seu mural com alguma informação, própria ou compartilhada, têm uma capacidade fortemente limitada de percepção sobre possíveis transformações que tenha causado nos leitores dos sinais. Depende, por vezes, de respostas simplórias às suas ações online, previamente programadas, como a marca do "curtir" do Facebook - que, na realidade, diz-nos muito pouco a respeito. E o que pensar quando nossos amigos online NÃO curtem, compartilham ou comentam nossas mensagens? Há total ausência de resposta, como se discursássemos no escuro, sem saber se alguém nos está ouvindo - ou, mais profundamente, se esse mesmo alguém está sendo "tocado".

De todo modo, parece que, por muitas vezes, não é exatamente isso que importa; grande parte das intenções de uso das redes sociais parece condicionada à mera emissão de sinais unilaterais, e não a uma real comunicação, capaz de estender um diálogo relevante, com potencial de transformação individual. Alguém que escreve sobre seu dia-a-dia, sobre seus hábitos mais íntimos, por exemplo, parece suprir uma outra necessidade: a da auto-afirmação, do simples "aparecer", do mostrar-se vivo, existente, em uma sociedade que "apaga" aqueles que não se esforçam ativamente para aparecerem da algum modo. Nesse sentido, e evitando-se generalizações, pode-se afirmar que muitos usuários da internet dela apropriam-se para compensar malogros existenciais, colocando-se em evidência em um contexto de ausência de sentido das ações pessoais, cotidianamente sentida no mundo tido como "real".

Mas seria possível uma superação do mero papel da internet enquanto "prova de existência" dos indivíduos nela imersos? Seria ela capaz de fomentar uma real comunicação, possibilitadora de mudanças nas mentes dos internautas pela promoção de debates de substância? Ciro Marcondes, demonstrando certa limitação ao propor, tão somente, um retorno ao "encanto" das interações face a face e um "freio" na agitada vida contemporânea, não consegue analisar a fundo alternativas mais viáveis. Uma idealização das interações físicas pode beneficiar aqueles capazes de refletir sobre a utilização de seu tempo de vida, mas ignora os potenciais trazidos por essas novas formas de "comunicação", além de inviabilizar um olhar crítico, porém realista do futuro.

Assim, algumas questões permanecem sem resposta pelo palestrante: como utilizar as novas ferramentas disponibilizadas pela tecnologia para fomentar uma real comunicação, sem cair no simplismo de descartá-la de antemão, idealizando um modelo inalcançável? E em que medida certas formas de emissão de sinais já em operação no mundo virtual são capazes de fomentar essa comunicação transformadora? Quais as reais limitações dessa capacidade?

É nesse ponto que retomo a análise sobre o papel dos blogs. Interpretações simplistas - otimistas ou pessimistas - poderiam ser tecidas a respeito de seu potencial: considerando o sentido positivo que muitos lhes atribuem, eles seriam naturalmente capazes de promover importantes debates políticos, sociais e filosóficos; uma interpretação que seguisse a linha de raciocínio exposta por Ciro, por sua vez, resolveria a questão apontado que, assim como outros modos de emissão de sinais à distância, os blogs seriam incapazes de garantir uma real comunicação, ao invalidarem a possibilidade de percepção a respeito das transformações causadas nos leitores. Os modos de resposta às postagens - comentários e votos sobre a qualidade dos textos escritos - exporiam muita pouca informação a esse respeito, em comparação com as interações face a face, mais "palpáveis".

Saliento, uma vez mais, que essas visões simplistas deveriam ser evitadas. Desprezar ou idolatrar a comunicação online de antemão pode ser extremamente fácil; difícil é notar seus reais alcances e limitações. Ademais, os dias atuais tornam quase impossível fugir das novas tecnologias.

Pessoalmente, ainda acredito que vale a pena investir, apesar dos percalços, em tentativas de promoção de discussões no âmbito da virtualidade. Mas não escondo que torna-se mais fácil acreditar em tais potenciais comunicativos, em especial do chamado blog, quando há possibilidade de diálogo na seção de comentários: só ela (ou um encontro físico com um leitor) pode provar, ao menos em alguma medida ínfima, que não sou apenas mais um internauta discursando no escuro para uma platéia ausente ou inteiramente desinteressada.

Pedro Mancini















segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Retomada!

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Levou muito mais tempo do que eu gostaria; mas consegui, enfim, retomar um estado de quase-normalidade, de modo que poderei voltar a publicar vez ou outra nesse meu abandonado xodó.

Conforme pensamentos de urgência se esvaem, espaços da mente são abertos  para reflexões que podem merecer algumas postagens...  e com a energia retomada, pretendo voltar à ativa, de vez, já nessa semana.

Tentarei, aproveitando esse momento de retomada, colocar em prática algumas mudanças de estruturação das postagens, que me foram sugeridas por amigos. Especialmente, tentarei me forçar a escrever menos sobre os assuntos que me proponho, de modo que sobre muito mais espaço para uma reflexão autônoma do leitor. Afinal, esse não deve ser um simples espaço de auto-afirmação de pensamentos, mas de debate de idéias sobre temas relevantes. Quero superar a limitação expressa pela maior parte do uso das redes sociais e de blogs pessoais: a mera massagem de egos, sem uma comunicação séria com os interlocutores.

Por essas e outras que não costumo utilizar esse espaço para descrever nuanças sobre minha existência particular: meu estado de espírito, humor, afazeres domésticos. Sei que o potencial desse tipo de informação tem em incitar reflexões e debates é mínimo. Continuarei a focar questões que eu acredito serem de interesse público, quase sempre polêmicas, e que podem sempre ser abordadas sob várias perspectivas; e o farei sempre tendo em vista que escrevo sob uma dessas muitas perspectivas, não tendo a intenção de esgotar o debate (mas de fomentá-lo).

Com esses objetivos em mente, espero aumentar os comentários recebidos não tanto em termos de quantidade, mas de profundidade. Afinal, só saberei o quanto fui bem-sucedido em estabelecer uma real comunicação com meus escassos leitores conforme eles me dêem alguma resposta indicando que ficaram instigados a refletir e a participar ativamente dos debates propostos por minhas postagens.

Pedro Mancini