segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ardilosas, porém amadas: As contradições e perversidades das postagens virtuais

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Alguns fatores, nos últimos dias, fizeram-me relembrar desse espaço semi-abandonado: conheci (mais) uma pessoa que possui seu próprio blog, e me identifiquei com sua alegria em difundir os pensamentos pela rede. Além disso, notei minha ansiedade por sentir meu pensar cotidianamente devorado pelas responsabilidades profissionais, e o quão interessante e curioso é retomar aquilo que escrevemos meses e anos atrás. 

Relembrando nossos escritos anteriores, podemos reviver um pouco das alegrias e frustrações do passado - e refletir sobre as aflições relacionadas à posse de um blog e um perfil do Facebook. A princípio, a análise de nossa escrita virtual pode ser uma ótima forma de fazer um "balanço" sobre as mudanças que ocorreram em nossa forma de pensar, e captar aquilo que nada ou pouco mudou, conferindo alguma unidade à nossa conturbada biografia. E foram, enfim, essas constatações que me fizeram voltar à ativa. 


Mas escrever em um blog - e, paralelamente, manter-se ativo no Facebook ou outras redes - é tão estimulante quanto arriscado. Por isso, trata-se de uma fonte potencial  de  ansiedades cavalares. O outro lado desse papel "biográfico" das postagens é, na verdade, o tema de hoje. 

De uma perspectiva, o autor de postagens virtuais sente-se "vivo"ao entrar aparentemente em contato com todo um universo de possíveis interlocutores: não mais guarda suas opiniões e convicções para si, mas as expõe para uma rede de contatos (ou para qualquer um que se interesse), o que pode lhe conferir uma enorme sensação de liberdade e  de coesão identitária: existimos quando escrevemos e, mais ainda, quando o fazemos em público. O "olhar do outro" cumpre um papel essencial na formação de identidades, como tantos autores já concluíram.

O caráter público das postagens reforça a impressão de pertencimento ao mundo. Não se percebendo como recolhido a uma bolha individual, incapaz de fomentar qualquer debate substantivo com o outro, o autor de um blog, por exemplo, pode se sentir mais vivo nesse ambiente do que na reclusão do quarto em que redige suas postagens. O isolamento e a invisibilidade social podem lhe atormentar na vida física, mas nos céus da virtualidade há a nítida noção de que se é menos invisível aos frios olhos da sociedade atual. 

Há, contudo, uma armadilha nesse raciocínio: afinal, impressões não escapam do âmbito das ilusões. A sensação de liberdade, identidade e existência que o blog e, em medida similar, as próprias redes sociais favorecem não dialoga com a realidade dos fatos: A liberdade, tanto para o redator de blogs quanto para os indivíduos que interagem no circo da vida física, é condicionada e massivamente limitada.  

Assim, estamos condenados a não escrever a primeira coisa que nos vêm à mente; afinal, somos continuamente sujeitos ao controle do olhar alheio. Nossas postagens nos expõem, pessoal e profissionalmente; e, quando paramos para refletir sobre o tema, emerge a noção de pisarmos em ovos a cada palavra redigida no universo virtual. Cada opinião emitida pode nos condenar, prejudicando, em maior ou menor grau, nossa imagem social em alguma esfera de existência (pessoal, amorosa, profissional, escolar...). Compartilhar uma foto, um vídeo ou um "meme", ou então escrever um desabafo por simples impulso, pode resultar no término do namoro ou em uma demissão sumária - apenas para assinalar algumas das possibilidades mais radicais e palatáveis. 

Por mais que ignoremos essa questão, publicando o que pensamos com relativa sinceridade, não podemos evitar consequências negativas sobre o modo como as pessoas nos veem no dia a dia de fora das telas. Há uma perversão por trás disso: as redes sociais, blogs e outras formas virtuais de comunicação, ao nos estimular a expor publicamente questões de foro  íntimo, obscurecem nossa percepção sobre o controle a que estamos sujeitos. A proteção das telas esconde-nos o quanto estamos expostos e vulneráveis na rede e, na alegria da escrita, podemos facilmente cair no erro de revelar informações, percepções ou sentimentos que poderão ser mal interpretados, vistos por quem nos prejudicarão ou por aqueles que se magoarão, a despeito de nossas reais intenções.

Em uma sociedade em que, mais do que nunca, nos incita a expor nossas aflições e alegrias diárias - "No que você está pensando?", o Facebook nos questiona -  é deveras fácil e tentador perder a medida e permitir que o esforço por um pífio reconhecimento virtual se traduza em grandes (embora, muitas vezes, invisíveis)  prejuízos para a vida física. 

Tal como o "barato" trazido por qualquer droga lícita ou ilícita, o uso da internet para expor intimidades traz seus próprios e devastadores efeitos colaterais. O problema está na visibilidade de tais efeitos: não atingem tanto o nosso corpo e mente,  mas são potenciais destruidores das impalpáveis máscaras sociais que lutamos para construir e sustentar em nosso dia a dia.  Difícil  se dar conta do quanto podemos sabotar nossos próprios personagens por ações aparentemente tão inocentes - como uma piada, um desabafo ou uma indireta virtualmente endereçados...


Pedro Mancini

domingo, 29 de julho de 2012

A importância do sofrimento para o amadurecimento pessoal

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Aqui estou eu para, mais uma vez, escrever sobre um assunto bem abrangente: a importância do sofrimento para o amadurecimento individual. Tive essa ideia após passar, eu mesmo, por um período de perdas consideráveis em minha esfera pessoal. Tenho plena consciência de que terei momentos muito mais difíceis que esse, mas também sei o quanto dores como as que eu passei estavam fazendo falta em minha vida.

É claro que, em geral (com a interessante exceção dos masoquistas), ninguém gosta de sofrer. Vivemos, em grande parte, evitando ao máximo sentir qualquer espécie de dor. Basta que afastemos um pouco o olhar para percebermos, porém, o papel construtivo que o sofrimento pode assumir para a trajetória biográfica daqueles que sofrem.

O que é o sofrimento? Para além da mera dor física ou emocional, é a sensação de que perdemos algo, às vezes de modo irremediável. É a percepção de que perdemos o controle de algo que nos era caro, que tínhamos como certo, garantido, inabalável. É a admissão de nossa impotência e do caráter efêmero da vida, que escapa de nossas mais prepotentes (e inconscientes) ilusões de controle sobre aquilo que, na verdade, é muito mais incontrolável do que poderíamos admitir.

Aquele que foge do sofrimento, e de certa forma é bem sucedido na arte de evitá-lo, está somente seguindo um instinto infantil de autopreservação. Podemos continuar adotando essa atitude por muito tempo, mas a verdade é que a dor é um processo inevitável - embora relativamente adiável - de nossa formação. Como seres humanos, temos o trágico hábito de nos apegar a objetos, ideias e outros seres de modo intenso, de entregarmos nossa alma em busca do acalanto perdido quando nossa progenitora nos expeliu de seu corpo.  Iludimo-nos, então, acreditando que tudo aquilo a que nos apegamos é eterno, indestrutível, e que está sob nosso irrestrito controle. Iludimo-nos de que não corremos o risco de perder o que amamos.

É claro que, racionalmente, isso pode parecer absurdo. Sabemos, conscientemente, que tudo possui uma "data de validade", uma chance de se esfarelar perante nossos olhos. Mas quem dera fôssemos seres absolutamente racionais! Percebo, hoje, o quanto essa carapaça de "racionalidade" que nos cerca não passa, em muitos sentidos, disso - uma mera carapaça, obscurecendo nossa natureza altamente irracional. Por mais que nos convençamos de que nossa razão é o farol que orienta nossas ações, somos movidos (e reinados) por muitas outras forças internas, obscuras e fora desse "controle" que tanto visamos.

Mas voltemos ao assunto em pauta. Eis que a vida, consciente de sua crueldade, acaba por revelar o nosso erro, e o sofrimento intenso acaba por nos acometer. Que desgraça! Sangramos, sentimos, temos nossos mundos totalmente abalados - como o bebê que perde, repentinamente, o conforto uterino. Como pensar no lado positivo de toda essa dor??



A mágica reside no fato de que, ao convencer-nos de nossa impotência em preservar aquilo que nos é precioso, o sofrimento nos fornece a chance de encarar a vida de modo mais intenso e maduro. Tendemos a nos tornar mais infelizes, é verdade - afinal, estamos fadados a nos conformar ao fato de que, mais cedo ou mais tarde, perderemos contato com tudo que nos torna felizes - mas essa consciência nos faz cultivar de modo mais significativo o apego a esses bens tão efêmeros. Convencidos de que perderemos as coisas que amamos, lutamos mais para preservá-las e para cultivar nossa relação com elas - antes que seja tarde demais e nos tornemos ainda mais infelizes pela culpa de não termos aproveitado o bastante aquilo que, já sabíamos, acabaria por nos abandonar no final.

Nítidos de nossa impotência, também desconfio que somos mais capazes de enxergar as outros coisas e pessoas por si próprias- e não como uma mera extensão de nossos desejos, de nosso mundo particular. Conscientes de que tudo, no final, é efêmero e escapa de nosso controle, tendemos a admitir que todas as coisas possuem um movimento próprio, autônomo daquilo que gostaríamos que fossem. Somos capazes, então, de adotar uma postura geral mais "humilde", admitindo que o mundo se move independentemente - e muitas vezes contrário - à nossa vontade. Em suma, o sofrimento é capaz de nos abrir os olhos para a natureza múltipla e inconstante da realidade.

É claro que não se trata de um movimento universal inevitável - nem todos tiram lições significativas do sofrimento. Mas acredito se tratar de uma tendência e de uma (dolorosa) oportunidade de crescimento. Não é fácil abrir mão da felicidade trazida pela ilusão do controle sobre a vida - mas somente com esse abandono tornamo-nos indivíduos minimamente maduros, conscientes de nossas limitações e capazes de perceber o "outro" em sua especificidade. Enquanto somos abraçados pelo conforto dessa ilusão uterina, de um mundo sem dores, não passamos de infantes presos a uma relação narcisista. Pré-indivíduos felizes, embora incapazes de admitir nossa incompreensão face as sutilezas da vida.

Pedro Mancini



segunda-feira, 9 de julho de 2012

A "luta do século" da sociedade do espetáculo

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Na madrugada entre sábado e domingo, ocorreu aquela que foi considerada a "luta do século" da UFC, o torneio mundial de lutas marciais mistas. Nela, o "herói brasileiro" Anderson Silva (vulgo "Spider") enfrentou o seu "arquirival" americano, o sociólogo (!) de Oregon Chael Sonnen, que teria sido o lutador mais próximo de vencer Silva em uma luta dois anos antrás. Mas, como leigo evidente no assunto, não estou aqui para discutir os acontecimentos de ontem em si mesmos, com as especificidades das técnicas de luta empregadas por ambos os lutadores. Antes, gostaria de colocar em debate a importância simbólica que foi conferida a esse embate pelo mundo - e, em especial, no Brasil.

O que mais me surpreendeu no evento esportivo de ontem foi sua capacidade de mobilização do público nacional. Mesmo aqueles que não se dizem fãs desse tipo de luta fizeram questão de abrir mão de seu sono para assistir o embate. No Facebook, vários contatos expuseram suas expectativas, tento alguns deles arquitetado encontros entre amigos para acompanhar os pontapés ao vivo pela televisão. Mas qual seria a explicação para tamanha atenção a esse esporte, da noite para o dia?

A mídia cobriu os eventos anteriores à luta com rigor. Sonnen, considerado um "fanfarrão", pode ser tido como um representante vivo da ideologia mega-competitiva americana, com seu subsequente estímulo ao orgulho pessoal e nacional: arrogante, transmitiu a típica imagem do "malvado metido à besta", que "fala mais que a boca", ou "fala muito e faz pouco"; o mimado alienado do país do Primeiro Mundo, pronto para pisar em qualquer um que cruzar a sua escalada ambiciosa pelo estrelato. O lutador provocou Anderson Silva em toda oportunidade que teve, de forma aberta e direta. Chegou a afirmar que "passaria a mão na bunda" da esposa do brasileiro e que a mandaria fritar um bife para saciar sua gula

Anderson, por sua vez, encarnou a imagem típica do "herói", o "bom moço" do Terceiro Mundo que apareceria para "calar a boca" do americano, mas apresentando grande "humildade" e um "espírito zen" a gerar inveja até a alguns monges budistas. Ao contrário de Sonnen, o "Spider" era mais do tipo que "fazia" antes de ficar só "falando". Sobre suas costas, ainda estava todo o orgulho de uma nação, diretamente afrontada pelo lutador-fanfarrão (Sonnen havia zombado da pobreza do Brasil durante uma de suas provocações ao brasileiro); Anderson deveria "limpar a honra ferida" do país. Um grande espetáculo estava sendo armado desde semanas antes da luta, como se fortes emoções (de ódio, inveja, vingança, amor à pátria) brotassem espontaneamente entre os envolvidos quando, na realidade, haviam sido meticulosamente planejas e manufaturadas para agregar telespectadores, patrocínios e - enfim - dinheiro, muito dinheiro.

Antes e prosseguir, resta uma colocação: é claro que  a figura do "herói nacional" nunca pode permanecer, no Brasil, apenas na esfera da "bom-mocidade" exagerada. Um bondoso pode rapidamente ser taxado de "trouxa", de "otário", por deixar os outros pisarem em sua honra. Assim, Silva, provavelmente orientado por excelentes agentes, também fez questão de colocar mais "lenha na fogueira" nas disputas simbólicas com Sonnen, negando o caráter "trouxa" de sua personalidade: respondeu às provocações e, na rádio, prometeu quebrar todos os dentes do rival, ensinando-o, assim, a ter mais respeito por tudo e todos. Por fim, chegou a dar uma leve ombrada na face do rival, no clássico ritual da "foto com encarada" entre os lutadores. Anderson ganhava, assim, mais alguns milhares de fãs brasileiros até então hesitantes em se tornar espectadores desse esporte.

Eis, enfim, o meu ponto com a postagem de hoje: o imensurável poder de persuação de uma "sociedade do espetáculo" que, por meio de diversos mecanismos, consegue hipnotizar uma grande massa de espectadores, seduzindo-os de modo altamente eficaz, com uma profundidade e abrangência supreendentes. Assim, as mais pacíficas almas sentiram-se na obrigação moral de assistir, ao menos por uma noite, um dos esportes mais violentos da atualidade, persuadidos por emoções das mais primárias, diretamente provocadas pelo teatro midiático protagonizado pelos lutadores: ódio ao rival, patriotismo distorcido, medo de humilhação, orgulho, dentre outras. As estúpidas - mas de certo modo geniais - provocações de Sonnen cumpriram seu papel: atingiram a grande massa brasileira e garantiram um público massivo aos canais de televisão que transmitiram a contenda. Aposto que, por mais que tenha apanhado, Sonnen também saiu vitorioso desse confronto épico, assim como todas as outras partes diretamente envolvidas: a UFC, Anderson, os agentes, os patrocinadores da luta, apostadores, as redes de transmissão, e muitos outros. E, é claro, os próprios brasileiros ganharam uma boa desculpa para reunir os amigos e acumular, por alguns minutos e de modo osmótico, doses moderadas de adrenalina passiva. 

O desfecho da luta favorece meus argumentos; no final, nada tão surpreendente aconteceu. O malvado perdeu. O herói nacional ganhou. O melhor - e mais previsível - resultado ideológico nesse tipo de espetáculo meticulosamente arquitetado. O homem "dedicado", "zen", "sofredor" e "popular" venceu o "arrogante do Primeiro Mundo", capaz de qualquer ação monstruosa para adquirir o sucesso imediato. A luta pode ter sido mais "real" do que as velhas lutas-livre, mas os personagens são os mesmos, assim como o elevado poder de persuasão sobre os telespectadores, presos por relações de afeto e desafeto com os heróis e vilões do ringue. Anderson não fez Sonnen "engolir todos os dentes", pois isso feriria a própria lógica institucional a que está submetido. No fim, portanto, a fala na rádio e a "ombrada" na pesagem não passaram de provocações meramente simbólicas, ao invés de se constituírem como promessas a serem concretizadas - tanto que a única (e, mais uma vez, bem pensada) atitude de Anderson Silva após a luta foi a de pedir aplausos para seu rival, dando-lhe uma sutil alfinetada verbal. Mais uma vez, o ídolo se consolidava em moldes profundamente "brazucas": trabalhador, disciplinado, mas meio "malandro", "tirador de onda". Taí o o irônico convite para o churrasco que não me deixa mentir.

E um brinde à mais uma vitória esplêndida... da sociedade do espetáculo. 

Pedro Mancini




domingo, 17 de junho de 2012

Morte e desencantamento na FFLCH: Sobre o falecimento do Prof. Antônio Flávio Pierucci

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Essa semana foi celebrada a missa de sétimo dia do falecimento de um grande professor (em que fiquei muito triste por estar impossibilitado de comparecer) - Antônio Flávio Pierucci,  um dos maiores especialistas em Sociologia da Religião e na obra de Max Weber que o Brasil já produziu. Mas não estou aqui para falar dos feitos acadêmicos do excelente professor e pesquisador Pierucci; e sim de suas qualidades pessoais.

Mas quem sou eu para falar alguma coisa, poderia-se pensar? Conhecia ele mais do que vários de meus colegas de faculdade, que cursaram a graduação tendo a honra de assistir as suas aulas descontraídas, apesar de extremamente enriquecedoras? Não. Não sou ninguém notadamente especial entre o círculo de amizades de Pierucci: apenas MAIS UM aluno que ele conhecia pelo nome e comprimentava pelos corredores da faculdade com boa vontade e transparência raras e invejáveis. Não apenas lembrava meu nome anos após uma participação em seu curso de Sociologia IV, como lembrava das conversas que havíamos tido àquela época. E isso, não tenho dúvidas, ocorreu com inúmeros colegas de curso.

A maior virtude de Flávio Pierucci, para mim, não estava em sua produção acadêmica - que, não me entendam mal, é indiscutivelmente importantíssima, mas que já foi destacada pelos usuais veículos de comunicação, embora ainda superficialmente. Sua maior qualidade encontrava-se por detrás do pesquisador e professor: seu lado humano, desapegado às relações burocrático-informais que permeiam um ambiente como aquele que frequentava até muito recentemente: os corredores da Universidade. Em um local em que somos "apenas mais um aluno", com um número de matrícula que nos posiciona em uma massa de milhares de matrículas, e em que nos encontramos na mais baixa posição hierárquica da rígida estratificação universitária, Pierucci possuía a habilidade inata de romper as barreiras estatutárias e apresentar-se como um ser humano para seus alunos, para além de um "simples" reprodudor de conhecimentos teóricos. Aproximava-se de cada um de nós como um colega pessoal, e não como um ser que vive em um inviolável Monte Olimpo, pairando sobre nossas cabeças. Tinha o dom de fazer cada um entre centenas de alunos se sentir um pouco mais especial, um pouco mais do que um mero número de matrícula em uma comunidade acadêmica altamente burocratizada (burocracia essa habilmente tematizada pelo estudioso em que Pierucci mais se especializou, o velho Max Weber). Não era o único professor a deter esse dom - tive a sorte de me relacionar com uma orientadora com qualidades semelhantes - mas era um dos poucos, e daqueles que o faziam de modo mais hábil e natural.

Pierucci, enfim, era um dos poucos professores que conheci que eram capazes, naturalmente, de encantar um pouco esse desencantado, altamente racionalizado, universo acadêmico. A FFLCH acordou um pouco mais desencantada no mês de junho de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Escapes despretenciosos

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Aaaah... nada como uma boa desculpa para voltar a escrever. Obviamente, não faltaram pautas e questões polêmicas para fomentar o debate nesse blog: mas, como uma própria vítima da sociedade contemporêna que tanto gosto de estudar, não encontrava condições emocionais e práticas (tempo, resposabilidades profissionais e acadêmicas) para sentar a poupança e deixar fluir minhas opiniões publicamente.

Mas o problema não está, exatamente, no fato de não conseguir escrever em si mesmo, mas na culpa que é derivada dessa impossibilidade - e na ansiedade diante dessas dificuldades.Sintomas típicos de nossa sociedade, como comprovado pela difusão extrema de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos...(de eficácia real contestável, para piorar.)(Para quem quiser algumas fontes: Portal R7  e Rede Brasil Atual). 


Em diversas ocasiões, estimularam-me a voltar a escrever... e eu mesmo sinto muita falta desse hábito. Mas simplesmente não conseguia cumprí-lo, e isso gerava - ainda gera - um grande peso na alma. Uma dor que não é menor do que aquela gerada quando não cumpro qualquer responsabilidade cotidiana: quando não trabalho "como deveria", não estudo "como deveria", e até... "não me divirto como deveria"!!!!

Ora, e então entramos na seguinte questão: será que TUDO virou motivo de estresse e culpa, de modo que mesmo uma atividade (em tese) prazerosa, que deveria acalmar o espírito, adquire conotações de um "dever" que, em meio às exaustivas demandas profissionais e acadêmicas, gera um grande mal estar quando não  devidamente cumprida? Há, afinal, um escape REAL para o estresse ocasionado por esse estilinho de  vida típico do paulistano, caracterizado por uma dissolução quase completa da distinção entre dever e lazer, público e privado, desejo e obrigação? Será que nossas formas de "resistência", como um horariozinho de isolamento e de atividades "fora de pauta" (caminhadas, meditações, práticas de yoga, entre outras dezenas, centenas ou milhares de opções que mais confundem que nos orientam) não se convertem, sem notarmos, em mais uma linha de nossas intermináveis listas de deveres cotidianos? Se sim, trata-se de uma resistência de fato ou da mera colonização de nosso íntimo pela lógica da produtividade?

Bom, desabafos à parte, voltemos à questão principal: como e porque escrever agora nesse blog , após vários meses de. abandono? Depois de tantas promessas (aos outros e a mim mesmo) de voltar a expressar minhas ideias, como nasce a possibilidade de redigir nesse momento específico? Estaria eu com mais tempo livre? DEFINITIVAMENTE, NÃO!!!! Nunca tive tantas responsabilidades com outros - chefes e alunos - quanto atualmente. Tenho certeza que, se um aluno vir minha produção recente, se questionará: "mas como diabos esse sujeito não corrigiu minha lição e tem tempo para escrever em um blog"? Bem, meus caros, ocorre que eu notei as falhas desse modo de pensar e restaurei uma máxima que costumava repetir a conhecidos: "quanto menos tempo temos, mais tempo arranjamos". E percebi que válvulas de escape - por mais imperfeitas que sejam - são indispensáveis nos dias de hoje. Sem objetivos, sem metas, sem ocupar linhas de uma lista de tarefas: um escape de mentalidade. 

É claro que isso parece meio banal, a princípio; mas se existe algo (entre muitas outras coisas) que aprendi nos últimos dias, é que sabermos CONSCIENTE e RACIONALMENTE de algo é BEM diferente da capacidade de SENTIRMOS esse algo, digerindo-o de fato, apropriando-se de sua essência, internalizando algum conhecimento. Comigo, algo do tipo de passou com minha percepção sobre como entendia o "lazer": no fundo, via-o como mais uma obrigação a cumprir - o que, ironicamente, acabava por distituir as atividades em questão de qualquer caráter "prazeroso" mais profundo (alguns chamariam o "prazer" restante dessas atividades, de caráter totalmente superficial, simplesmente de "gozo" - em seu sentido psicanalítico.) 

Além de ter notado essa diferença entre a razão superficial e a compreensão "sentimental", por assim dizer, de coisas que nosso lado racional já "sabe", comecei a encontrar - após muita procura - ferramentas adequadas para viabilizar a criação de espaços REAIS para que minhas válvulas de escape das agitações cotidianas funcionem livremente, sem entupimentos, permitindo que meus vapores de estresse sejam (minimamemte) liberados ao vento....

Mas quais ferramentas seriam essas, e por quanto tempo surtirão efeito (e em que medida), são assuntos para as possíveis próximas postagens... afinal, não tenho mais interesse em verborragias intermináveis em meu humilde, mas sincero blog.

Pedro Mancini

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O jornalismo estúpido da Record

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Durante as últimas eleições, o papel da Rede Record de Televisão foi, em certo sentido, visionário. Destoando do monólogo usualmente estabelecido pelos principais meios de comunicação no Brasil (vulgarmente chamados de "PIG", uma sigla bem-humorada para "Partido da Imprensa Golpista"), com seu apoio integral às forças políticas liberais (na época, representadas mais diretamente pelo candidato José Serra), a emissora protagonizou uma cobertura mais favorável à candidatura Dilma Rousseff. Caiu, dessa forma, nos braços de boa parte da esquerda pró-PT.

Ao ignorar o fato de o alinhamento político-ideológico da emissora ser meramente circunstancial - e pautado por interesses próprios, que podem se alterar em outros contextos -, muitos passaram a proteger a rede do milionário Edir Macedo, evitando tecer críticas relevantes a posturas  condenáveis.Extasiados com a atuação de jornalistas histriônicos como Paulo Henrique Amorim, com sua (justíssima, de modo geral) cruzada contra a hipocrisia de tucanos e "democratas", e com reportagens pautadas em denúncias contra o "poderoso chefão" do futebol, Ricardo Teixeira, e contra a Revista Veja (saco de pancadas de todos os que tenham um mínimo de bom senso), muitos dos que adotam uma postura de oposição a emissoras como a Rede Globo isentam a Record do mesmo linchamento moral. Parece que os apontamentos feitos pelo aclamado documentário "Muito Além do Cidadão Kane", desenvolvido pela BBC de Londres, tornam a Globo a única "vilã" significativa entre as redes de comunicação brasileiras - e qualquer concorrente comercial torna-se automaticamente "heróina" da batalha contra o Golias da mídia nacional. 

De fato, os constantes conflitos entre a toda-poderosa Rede Globo e a TV Record são notórios. Em 2009, por exemplo, a rivalidade entre as emissoras transpareceu na cobertura jornalística de ambas, que recorreram a mútuas campanhas de difamação. Os ânimos atuais estão menos inflados; ainda assim, as redes continuam a a competir pela audiência, mesmo que a liderança da Globo ainda seja inquestionável (na ampla maioria dos horários).

Apesar de sua postura de contraposição à corporação da família Marinho, acompanho a avaliação de alguns jornalistas, menos entusiasmados com os atuais alinhamentos políticos da Record,  de que sua cobertura jornalística é, em muitos aspectos, AINDA pior e mais manipuladora do que a de outras redes, incluindo a Globo. Os críticos da emissora do velho bispo Macedo já perceberam sua disposição pela imitação descarada do formato da emissora da família Marinho; mesmo os nomes dos programas são extremamente similares. O "Domingo Espetacular" é uma imitação descarada do velho "fantástico"; o "Repórter Record" copia o "Globo Repórter", e o "Hoje em Dia" inspira-se no "Bom Dia Brasil", entre outros nítidos exemplos. 


Mas esse não é o maior dos problemas. Nem mesmo critico (ao menos nessa postagem) o fato de a emissora Record ser gerenciada por um magnata religioso. O assunto do dia é o próprio "método" de comunicação com o telespectador. A despeito de suas eventuais atuações políticas de conteúdo, em geral o dia do jornalismo da Record parece um Cidade Alerta sem fim. A todo momento, o telespectador é bombardeado por notícias policiescas cotidianas - desde o jornal matinal até os que preenchem o horário do fim de noite. Mesmo em programas matinais que misturam bate-papos descontraídos com proto-celebridades, receitas de bolos e dicas de estética, costumam-se vincular notícias sobre atropelamentos e até brigas de vizinhos como se fossem casos de repercussão internacional!

Na emissora, parece que a vida cotidiana torna-se, mais do que nunca, um grande espetáculo, de caráter nefasto na maioria dos casos, quando assassinatos e situações mais escabrosas são explorados à exaustão. É claro que notícias mais relevantes ao conjunto da sociedade, como as de caráter político e econômico, são as primeiras a perder tempo e espaço com a ênfase exagerada no micro cotidiano. Afinal, como o modismo dos "realities policiais" (em que as ações das forças de segurança estaduais são registradas e exibidas aos telespectadores) aponta, é muito mais interessante e "rentável" para a televisão destacar a vida como um exitante e dramático filme de ação, suspense e terror, narrado por preocupados e indignados apresentadores de telejornais. Há aqui algo ainda mais digno de nota na abordagem jornalística da Record: reparem que, no momento em que as notícias são transmitidas, os apresentadores fazem-nos o "favor" de serem "representantes" de nossos sentimentos, indignações e agonias. Ao fim de cada narrativa de uma mãe que afogou o filho ou de um rapaz que assassinou a namorada e estourou os miolos em seguida, as graciosas apresentadoras do Jornal da Record balançam suas cabecinhas em um sinal de reprovação, seguindo uma frase do tipo "que horror, né gente?" (apenas para que sua colega abra um sorrisão, anunciando a entrada da Rodada do Brasileirão na pauta do Jornal). Ao telespectador, não resta sequer tecer suas próprias emoções, após uma interpretação mínima da situação apresentada, sendo-lhe já fornecida a forma mais "apropriada" de manifestação emocional.

A equipe do Jornal Nacional, da Rede Globo, já foi criticada por tachar o telespectador médio brasileiro de "Homer Simpson", em referência ao ignorante e facilmente manipulável personagem criado por Matt Groening. Mas o que pensa de seu público uma emissora que, além de mastigar a notícia de modo a torná-la mais "digerível" por esse suposto "telespectador médio", manipulando e mascarando a  realidade em suas transmissões, ainda enxerga-o como incapaz de até mesmo manifestar suas próprias emoções de modo minimamente autônomo?

Pedro Mancini