quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O jornalismo estúpido da Record

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Durante as últimas eleições, o papel da Rede Record de Televisão foi, em certo sentido, visionário. Destoando do monólogo usualmente estabelecido pelos principais meios de comunicação no Brasil (vulgarmente chamados de "PIG", uma sigla bem-humorada para "Partido da Imprensa Golpista"), com seu apoio integral às forças políticas liberais (na época, representadas mais diretamente pelo candidato José Serra), a emissora protagonizou uma cobertura mais favorável à candidatura Dilma Rousseff. Caiu, dessa forma, nos braços de boa parte da esquerda pró-PT.

Ao ignorar o fato de o alinhamento político-ideológico da emissora ser meramente circunstancial - e pautado por interesses próprios, que podem se alterar em outros contextos -, muitos passaram a proteger a rede do milionário Edir Macedo, evitando tecer críticas relevantes a posturas  condenáveis.Extasiados com a atuação de jornalistas histriônicos como Paulo Henrique Amorim, com sua (justíssima, de modo geral) cruzada contra a hipocrisia de tucanos e "democratas", e com reportagens pautadas em denúncias contra o "poderoso chefão" do futebol, Ricardo Teixeira, e contra a Revista Veja (saco de pancadas de todos os que tenham um mínimo de bom senso), muitos dos que adotam uma postura de oposição a emissoras como a Rede Globo isentam a Record do mesmo linchamento moral. Parece que os apontamentos feitos pelo aclamado documentário "Muito Além do Cidadão Kane", desenvolvido pela BBC de Londres, tornam a Globo a única "vilã" significativa entre as redes de comunicação brasileiras - e qualquer concorrente comercial torna-se automaticamente "heróina" da batalha contra o Golias da mídia nacional. 

De fato, os constantes conflitos entre a toda-poderosa Rede Globo e a TV Record são notórios. Em 2009, por exemplo, a rivalidade entre as emissoras transpareceu na cobertura jornalística de ambas, que recorreram a mútuas campanhas de difamação. Os ânimos atuais estão menos inflados; ainda assim, as redes continuam a a competir pela audiência, mesmo que a liderança da Globo ainda seja inquestionável (na ampla maioria dos horários).

Apesar de sua postura de contraposição à corporação da família Marinho, acompanho a avaliação de alguns jornalistas, menos entusiasmados com os atuais alinhamentos políticos da Record,  de que sua cobertura jornalística é, em muitos aspectos, AINDA pior e mais manipuladora do que a de outras redes, incluindo a Globo. Os críticos da emissora do velho bispo Macedo já perceberam sua disposição pela imitação descarada do formato da emissora da família Marinho; mesmo os nomes dos programas são extremamente similares. O "Domingo Espetacular" é uma imitação descarada do velho "fantástico"; o "Repórter Record" copia o "Globo Repórter", e o "Hoje em Dia" inspira-se no "Bom Dia Brasil", entre outros nítidos exemplos. 


Mas esse não é o maior dos problemas. Nem mesmo critico (ao menos nessa postagem) o fato de a emissora Record ser gerenciada por um magnata religioso. O assunto do dia é o próprio "método" de comunicação com o telespectador. A despeito de suas eventuais atuações políticas de conteúdo, em geral o dia do jornalismo da Record parece um Cidade Alerta sem fim. A todo momento, o telespectador é bombardeado por notícias policiescas cotidianas - desde o jornal matinal até os que preenchem o horário do fim de noite. Mesmo em programas matinais que misturam bate-papos descontraídos com proto-celebridades, receitas de bolos e dicas de estética, costumam-se vincular notícias sobre atropelamentos e até brigas de vizinhos como se fossem casos de repercussão internacional!

Na emissora, parece que a vida cotidiana torna-se, mais do que nunca, um grande espetáculo, de caráter nefasto na maioria dos casos, quando assassinatos e situações mais escabrosas são explorados à exaustão. É claro que notícias mais relevantes ao conjunto da sociedade, como as de caráter político e econômico, são as primeiras a perder tempo e espaço com a ênfase exagerada no micro cotidiano. Afinal, como o modismo dos "realities policiais" (em que as ações das forças de segurança estaduais são registradas e exibidas aos telespectadores) aponta, é muito mais interessante e "rentável" para a televisão destacar a vida como um exitante e dramático filme de ação, suspense e terror, narrado por preocupados e indignados apresentadores de telejornais. Há aqui algo ainda mais digno de nota na abordagem jornalística da Record: reparem que, no momento em que as notícias são transmitidas, os apresentadores fazem-nos o "favor" de serem "representantes" de nossos sentimentos, indignações e agonias. Ao fim de cada narrativa de uma mãe que afogou o filho ou de um rapaz que assassinou a namorada e estourou os miolos em seguida, as graciosas apresentadoras do Jornal da Record balançam suas cabecinhas em um sinal de reprovação, seguindo uma frase do tipo "que horror, né gente?" (apenas para que sua colega abra um sorrisão, anunciando a entrada da Rodada do Brasileirão na pauta do Jornal). Ao telespectador, não resta sequer tecer suas próprias emoções, após uma interpretação mínima da situação apresentada, sendo-lhe já fornecida a forma mais "apropriada" de manifestação emocional.

A equipe do Jornal Nacional, da Rede Globo, já foi criticada por tachar o telespectador médio brasileiro de "Homer Simpson", em referência ao ignorante e facilmente manipulável personagem criado por Matt Groening. Mas o que pensa de seu público uma emissora que, além de mastigar a notícia de modo a torná-la mais "digerível" por esse suposto "telespectador médio", manipulando e mascarando a  realidade em suas transmissões, ainda enxerga-o como incapaz de até mesmo manifestar suas próprias emoções de modo minimamente autônomo?

Pedro Mancini


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os potenciais comunicativos da Internet

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Dia desses, estive em um Simpósio de Comunicação promovido por uma faculdade particular de São Paulo. A apresentação foi um pouco bisonha para os padrões acadêmicos brasileiros (a platéia teve que cantar o Hino Nacional, e houve um sorteio de livros da editora da instituição no final das falas), mas as duas exposições foram bastante inspiradoras. Hoje, trago algumas reflexões a respeito  do primeiro dia desse Simpósio, que podem  auxiliar na compreensão da própria capacidade do blog de promover discussões e debates significativos. Mas já aviso que não sou especialista na área da comunicação, e minha discussão pode parecer especialmente superficial para quem o seja.

Discutindo o conceito de "comunicação", o palestrante Ciro Marcondes Filho questionou até que ponto nossa sociedade - usualmente tida como "da comunicação" - comunica-se de fato. Para essa análise, distinguiu a ação comunicativa da simples emissão de sinais, em primeiro lugar, e da informação, em segundo.

Para uma simples emissão de sinais romper suas limitações e alcançar o status de informação, faz-se necessária a atenção do outro. Assim, alguém que utiliza os sinais emitidos por outro para um dado fim (após uma busca pontual na internet, por exemplo) transforma-os em uma informação para ele. Trata-se, portanto, de algo que não existe em si mesmo, sendo um conceito relacional: depende tanto de um emissor quanto de um receptor, e só pode ser entendido sob a perspectiva da utilização desse último.

Porém, ainda não basta informar para comunicar: segundo Ciro, no processo comunicativo algo acontece com as partes envolvidas:  emissor e receptor se transformam com a ação, sendo tocados em seu desenrolar. Nesse sentido, faz-se necessária uma espécie de "abertura ao novo" por parte dos dois, uma propensão a transformar-se com os sinais emitidos por seus interlocutores.

É nesse ponto que o palestrante diferenciou a capacidade comunicativa de interações do tipo face a face, físicas, daquelas virtualmente tocadas: no primeiro caso, haveria a possibilidade, em tempo real, de percepção de transformações ocorridas no interlocutor. Mudanças repentinas de opinião, concordâncias e discordâncias, insights inesperados, alterações na expressão facial e na postura corporal e outros sinais menores: pode-se notar o quanto o indivíduo foi tocado pela conversa no momento mesmo em que ela ocorre, pela simples observação da face do outro e pela dinâmica da própria conversação.

Já a grande maioria das formas de comunicação virtual - por exemplo, das típicas redes sociais, como os murais do Facebook - não permitiriam um controle apurado sobre os impactos causados pelos sinais emitidos. Aquele que escreve um tweet ou atualiza seu mural com alguma informação, própria ou compartilhada, têm uma capacidade fortemente limitada de percepção sobre possíveis transformações que tenha causado nos leitores dos sinais. Depende, por vezes, de respostas simplórias às suas ações online, previamente programadas, como a marca do "curtir" do Facebook - que, na realidade, diz-nos muito pouco a respeito. E o que pensar quando nossos amigos online NÃO curtem, compartilham ou comentam nossas mensagens? Há total ausência de resposta, como se discursássemos no escuro, sem saber se alguém nos está ouvindo - ou, mais profundamente, se esse mesmo alguém está sendo "tocado".

De todo modo, parece que, por muitas vezes, não é exatamente isso que importa; grande parte das intenções de uso das redes sociais parece condicionada à mera emissão de sinais unilaterais, e não a uma real comunicação, capaz de estender um diálogo relevante, com potencial de transformação individual. Alguém que escreve sobre seu dia-a-dia, sobre seus hábitos mais íntimos, por exemplo, parece suprir uma outra necessidade: a da auto-afirmação, do simples "aparecer", do mostrar-se vivo, existente, em uma sociedade que "apaga" aqueles que não se esforçam ativamente para aparecerem da algum modo. Nesse sentido, e evitando-se generalizações, pode-se afirmar que muitos usuários da internet dela apropriam-se para compensar malogros existenciais, colocando-se em evidência em um contexto de ausência de sentido das ações pessoais, cotidianamente sentida no mundo tido como "real".

Mas seria possível uma superação do mero papel da internet enquanto "prova de existência" dos indivíduos nela imersos? Seria ela capaz de fomentar uma real comunicação, possibilitadora de mudanças nas mentes dos internautas pela promoção de debates de substância? Ciro Marcondes, demonstrando certa limitação ao propor, tão somente, um retorno ao "encanto" das interações face a face e um "freio" na agitada vida contemporânea, não consegue analisar a fundo alternativas mais viáveis. Uma idealização das interações físicas pode beneficiar aqueles capazes de refletir sobre a utilização de seu tempo de vida, mas ignora os potenciais trazidos por essas novas formas de "comunicação", além de inviabilizar um olhar crítico, porém realista do futuro.

Assim, algumas questões permanecem sem resposta pelo palestrante: como utilizar as novas ferramentas disponibilizadas pela tecnologia para fomentar uma real comunicação, sem cair no simplismo de descartá-la de antemão, idealizando um modelo inalcançável? E em que medida certas formas de emissão de sinais já em operação no mundo virtual são capazes de fomentar essa comunicação transformadora? Quais as reais limitações dessa capacidade?

É nesse ponto que retomo a análise sobre o papel dos blogs. Interpretações simplistas - otimistas ou pessimistas - poderiam ser tecidas a respeito de seu potencial: considerando o sentido positivo que muitos lhes atribuem, eles seriam naturalmente capazes de promover importantes debates políticos, sociais e filosóficos; uma interpretação que seguisse a linha de raciocínio exposta por Ciro, por sua vez, resolveria a questão apontado que, assim como outros modos de emissão de sinais à distância, os blogs seriam incapazes de garantir uma real comunicação, ao invalidarem a possibilidade de percepção a respeito das transformações causadas nos leitores. Os modos de resposta às postagens - comentários e votos sobre a qualidade dos textos escritos - exporiam muita pouca informação a esse respeito, em comparação com as interações face a face, mais "palpáveis".

Saliento, uma vez mais, que essas visões simplistas deveriam ser evitadas. Desprezar ou idolatrar a comunicação online de antemão pode ser extremamente fácil; difícil é notar seus reais alcances e limitações. Ademais, os dias atuais tornam quase impossível fugir das novas tecnologias.

Pessoalmente, ainda acredito que vale a pena investir, apesar dos percalços, em tentativas de promoção de discussões no âmbito da virtualidade. Mas não escondo que torna-se mais fácil acreditar em tais potenciais comunicativos, em especial do chamado blog, quando há possibilidade de diálogo na seção de comentários: só ela (ou um encontro físico com um leitor) pode provar, ao menos em alguma medida ínfima, que não sou apenas mais um internauta discursando no escuro para uma platéia ausente ou inteiramente desinteressada.

Pedro Mancini















segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Retomada!

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Levou muito mais tempo do que eu gostaria; mas consegui, enfim, retomar um estado de quase-normalidade, de modo que poderei voltar a publicar vez ou outra nesse meu abandonado xodó.

Conforme pensamentos de urgência se esvaem, espaços da mente são abertos  para reflexões que podem merecer algumas postagens...  e com a energia retomada, pretendo voltar à ativa, de vez, já nessa semana.

Tentarei, aproveitando esse momento de retomada, colocar em prática algumas mudanças de estruturação das postagens, que me foram sugeridas por amigos. Especialmente, tentarei me forçar a escrever menos sobre os assuntos que me proponho, de modo que sobre muito mais espaço para uma reflexão autônoma do leitor. Afinal, esse não deve ser um simples espaço de auto-afirmação de pensamentos, mas de debate de idéias sobre temas relevantes. Quero superar a limitação expressa pela maior parte do uso das redes sociais e de blogs pessoais: a mera massagem de egos, sem uma comunicação séria com os interlocutores.

Por essas e outras que não costumo utilizar esse espaço para descrever nuanças sobre minha existência particular: meu estado de espírito, humor, afazeres domésticos. Sei que o potencial desse tipo de informação tem em incitar reflexões e debates é mínimo. Continuarei a focar questões que eu acredito serem de interesse público, quase sempre polêmicas, e que podem sempre ser abordadas sob várias perspectivas; e o farei sempre tendo em vista que escrevo sob uma dessas muitas perspectivas, não tendo a intenção de esgotar o debate (mas de fomentá-lo).

Com esses objetivos em mente, espero aumentar os comentários recebidos não tanto em termos de quantidade, mas de profundidade. Afinal, só saberei o quanto fui bem-sucedido em estabelecer uma real comunicação com meus escassos leitores conforme eles me dêem alguma resposta indicando que ficaram instigados a refletir e a participar ativamente dos debates propostos por minhas postagens.

Pedro Mancini


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estação Angélica, Churrascão e os falsos argumentos de seus opositores

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Resolvi sair de meu recesso auto-imposto por um instante para emitir minha opinião sobre o protesto ocorrido na Avenida Angélica, no último sábado


Muitos já escreveram sobre as razões dessa mobilização: o recuo do Governo do Estado de São Paulo da decisão de construir a Estação Angélica, supostamente devido à pressão de um grupo de moradores do bairro de Higienópolis (em meio a alguns comentários altamente preconceituosos). Mas hoje quero dar ênfase à  outra questão: as formas que a intolerância e o preconceito se revestem, camuflando-se com argumentos que, quando postos à prova, se dissolvem facilmente. 

Isso pode ser percebido não somente quando alguns dos contrários à estação do metrô insistem sobre a falta de necessidade da mesma, alegando, erroneamente, que há estações suficientemente próximas a serem utilizadas (se visitarmos qualquer metrópole européia que esses mesmos indivíduos provavelmente elogiam, veremos estações separadas por distâncias  muito menores do que as presentes). Podemos notar a transmutação do preconceito, igualmente, quando analisamos os discursos contrários à própria manifestação organizada pelo Facebook

Como se sabe, vários jovens revoltados com o recuo do Estado organizaram, via redes sociais, uma manifestação inusitada para protestar tanto junto às autoridades, quando contra os posicionamentos de representantes de moradores do bairro. Veio daí a idéia do "Churrascão da Gente Diferenciada", em referência às declarações de uma senhora moradora de Higienópolis que demostrava medo em imaginar seu bairro coberto de "drogados, mendigos" e afins

Algumas manifestações tímidas na internet condenaram essa atitude espontânea dos organizadores do evento, imediatamente taxando-os de "vândalos" que queriam causar "baderna" em um bairro nobre de São Paulo. Muitos dos contrários ao "Churrascão" quiseram deixar claro não ser contrários à implantação do metrô, considerando injusto serem "responsabilizados" pela manifestação preconceituosa de alguns moradores azedos; outros apareceram com o argumento de sempre, segundo o qual "o espaço público não deve ser ocupado por manifestantes"; outros, por fim, insistiam que apenas os habitantes do bairro tinham o direito de decidir sobre o futuro dos arredores, devendo ser sua opinião respeitada e acatada pelos demais. 

Bem, a própria forma como a manifestação decorreu já anula os receios desesperados dos que acusaram-na de "puro vandalismo": absolutamente nenhuma ocorrência violenta foi registrada, em uma manifestação bem-humorada, que contou com bem menos adeptos do que o esperado (menos de 1.000 estiveram presentes), a maioria composta por jovens das classes média e alta. É claro que não acho que as características da mobilização desqualificam suas intenções ou mesmo seu sucesso: é sabido que o número de pessoas que confirmam presenças em eventos pelo Facebook sempre é bem maior do que as que comparecem de fato. Além disso, a manifestação foi programada para um sábado, dia em que os trabalhadores do bairro, que  seriam os principais beneficiados pela construção da estação, por lá não trafegariam. E uma grande parte da população das classes mais baixas ainda não utiliza o Facebook e outras redes sociais como o Twitter com tanta frequência para participar em massa de um evento por lá arquitetado. De todo modo, foi um pequeno, porém firme passo, de forte conteúdo simbólico, em direção a um futuro pautado por mobilizações e protestos coletivos pela cidade, organizados via Internet.


Mas voltando às argumentações contrárias à referida mobilização.Qualquer um com um mínimo de senso crítico pode detectar algumas contradições graves nesses discursos. De alguns, vi partir tanto o argumento de que cabe aos moradores de Higienópolis decidir sobre a construção da estação, quanto a idéia de que a via pública não deveria ser ocupada por manifestantes. Mas vejam: ou consideramos Higienópolis uma região privada, ou pública! A contradição é evidente quando reivindicamos se tratar de uma via pública, mas que detém autonomia para tomar suas próprias decisões, indiferente à opinião de moradores de outros bairros que frequentam, por motivos profissionais ou pessoais, a região do entorno da Avenida Angélica. Higienópolis não é um feudo, meus caros.

E é evidente que cada um dos argumentos em isolado também pode ser desmantelado. Em primeiro lugar, a Cidade de São Paulo não pode ser vista como um conjunto de pequenos reinos independentes entre si, do mesmo modo que não podemos falar, em tempos de globalização, de uma nação absolutamente isolada das demais. Estamos falando de um emaranhado urbano complexo, em que moradores de um bairro distante precisam se deslocar por quilômetros para alcançar seus locais de trabalho, onde nos deslocamos para comparecer a consultas médicas, e para muitos outros fins. Assim, nenhum bairro é "propriedade" de seus moradores, sendo apenas uma parcela de um espaço público uno e indivisível.  A decisão a respeito da construção do metrô não concerne apenas aos moradores de Higienópolis, portanto (que também seriam beneficiados, obviamente), tampouco a um conjunto pouco representativo dos mesmos (apenas cerca de 6% dos moradores do bairro assinaram a petição contrária ao Metrô), mas ao conjunto de habitantes da cidade. 

Com isso, resolvemos a questão de a Avenida Angélica constituir-se como espaço público ou como ambiente privado dos moradores do entorno. Mas, considerando que falamos de um espaço público e de interesse social, como avaliar uma mobilização que interrompe o seu fluxo, prejudicando a livre circulação de moradores e trabalhadores pela região? Como espaço público, a Avenida poderia ser apropriada dessa forma por um punhado de manifestantes inconformados?

Novamente, entramos em uma falácia sustentada por fraquíssimos alicerces. Se retomarmos o conceito fundamente da noção de espaço público, veremos que a ele concerniam os interesses coletivos da cidade, sendo ele indissociável da noção de política. Desse modo, não faz nenhum sentido reclamar da apropriação política do espaço público: é para isso que ele serve! No caso específico que discuto, para viabilizar uma manifestação por melhores condições de transporte para o conjunto da população paulistana. Trata-se de um movimento com uma autenticidade e legitimidade evidentes, não se resumindo à defesa de interesses privados, seja de empresas, seja de categorias profissionais - sendo que mesmo elas, já aproveito para afirmar, também têm o direito de se manifestar pela defesa de seus direitos. Uma democracia não deve se resumir à atividade eleitoral, corrompida e relativamente deslegitimada há tempos; para se aproximar de forma mais efetiva de seu tipo-ideal, mobilizações como a que ocorreu no sábado último são fundamentais, possibilitando a expressão efetiva - e não meramente formal - de anseios da sociedade, e a pressão produtiva das autoridades competentes. É claro que moradores de Higienópolis têm o direito de manifestar-se contra a instauração do Metrô em seu bairro (pois mais torpe e preconceituoso que seja o motivo); mas igual direito possuem outros indivíduos moradores de São Paulo. 

Com isso, volto à questão original: boa parte dos argumentos contrários à mobilização pelo Metrô na Angélica, oriundos de alguns moradores da própria região de Higienópolis, não passam de mecanismos para mascarar seus reais posicionamentos, muitas vezes pautados por um bairrismo tacanho ou por um  preconceito puro, fundado em uma idéia fabricada de usuários do transporte público como miseráveis e "delinquentes" (digo fabricada, pois a heterogeneidade dos usuários desse transporte é gritante, perpassando todas as classes sociais). Se ao menos  mais moradores preconceituosos e bairristas (vejam que não generalizo, pois sei que se trata de uma minoria) fossem como aquela suposta senhora que assumiu seu repúdio à "gente diferenciada", ao menos teríamos uma elite mais sincera, que não esconderia seu lado obscuro pelo uso de argumentos tão dissolúveis. 

Pedro Mancini





terça-feira, 19 de abril de 2011

Precisando de Fôlego

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Desde o ano passado, consegui manter um ritmo razoável de postagens: uma por semana, em média. E comecei o ano mantendo essa produtividade, motivado por comentários e alguns elogios de meus (poucos) leitores. Porém, como em qualquer caminhada, é preciso tomar um fôlego de tempos em tempos. Simplesmente não tenho dado conta de mesma produtividade, e com a mesma qualidade; sendo mais uma vítima daquilo que pretendo descrever (como as agitações, pressões e ansiedades geradas pela sociedade contemporânea), sofro com "fantasmas mentais" que exigem que eu escreva toda semana, e muitos outros fantasmas que me ordenam estudar, trabalhar, e gerir minha vida sob muitos outros aspectos. Percebi que devo abrir mão de algumas coisas - por mais doloroso que isso possa ser, a princípio.

Mas essa não é uma postagem de despedida, para adquirir um teor tão macabro; trata-se apenas do anúncio de uma pausa para reflexão e readaptação. Continuarei escrevendo, mas controlando minha própria pressão sobre isso: não estabelecerei nenhuma meta, desenvolvendo postagens em um ritmo que seja confortável para minha atual condição. Quando minha  mente estiver menos povoada, tendo retomar a produção - e, quem sabe, possa retornar muito mais inspirado e decidido? 

Disso, não posso ter certeza. De toda forma, só tenho que agradecer a todos que me acompanharam até esse ponto. Valeu!

Pedro Mancini

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A decadência da humildade em tempos de fragmentação social

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Em minha última postagem, estabeleci um paralelo entre a paixão juvenil e a experiência pessoal, para apontar como a primeira é mais valorizada nos dias atuais; hoje, traço um raciocínio semelhante para ressaltar que a questão de "fechar a mente para a vida" não é determinada pela idade, e que existem outros fatores a se levar em consideração.

Acho que uma das grandes ironias da sociedade contemporânea é que, conforme cresce a fragmentação social - e, conseqüentemente, as inseguranças individuais - mais uma parcela dos indivíduos radicaliza seu modo de pensar. Kenneth Gergen é um dos autores que escreve sobre o processo de fragmentação da realidade e do próprio “eu” contemporâneo – que ele qualificou como “saturado”. Para ele,

 “A condição pós-moderna, de modo mais genérico, é marcada por uma pluralidade de vozes competindo pelo direito à realidade – de serem aceitas como expressões legítimas da Verdade e o Bem. Enquanto as vozes aumentam em poder e presença, tudo que parecia apropriado, bem-pensado e bem entendido é subvertido. No mundo pós-moderno nos tornamos cada vez mais conscientes de que objetos sobre os quais falamos não estão ´no mundo´ tanto quanto são produtos de perspectivas” (GERGER, Kenneth: “The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life”, p. 7. Nova Iorque: BasicBooks, 1991).

Gergen aponta, portanto, que ao contrário da modernidade, em que algumas poucas perspectivas totalizantes sobre a realidade competiam pelo domínio ideológico, hoje fica mais difícil detectar um número pequeno e bem constituído de "vozes" sobre a sociedade em que vivemos; temos, ao invés disso, inúmeros sussurros espalhados pelo espectro social, que competem entre si e povoam nossas mentes, saturando-as de informações e pontos de vista. 


Uma outra conseqüência dessa fragmentação de modos de encarar a realidade  é a difusão da insegurança: não podemos mais contar, afinal, com uma "grande muleta" ideológica para nos sustentar - ao menos, não com uma muleta maciça e resistente. Não existe uma única religião dominante, uma única ideologia hegemônica, indiscutível, que nos ampare; temos que nos contentar com múltiplas perspectivas incertas, continuamente contestadas, vítimas fáceis da ironia. Sua religião, sua posição política, não passa de mais uma entre dezenas de outras possíveis - e como ter a certeza de que se joga do lado certo?  


Ora, é difícil lidar com a erosão das certezas instituídas, apontada por Gergen. Para aqueles que detém sabedoria suficiente para conviver com aqueles que pensam de modo distinto, essa é uma ótima chance de se desenvolver - de aprender com a voz discordante, aceitando, com humildade, as prováveis limitações de sua própria perspectiva. Já para os mais carentes de certezas, uma alternativa menos indolor e, infelizmente, usualmente adotada é a de agarrar-se a uma dessas perspectivas de forma extrema, a ponto de desconsiderar todas as demais -  e, em último caso, pregar a aniquilamento daqueles que se situam no "outro lado". Agarrar-se a uma ideologia extremista para ser uma saída possível à fragmentação social, portanto.

É nisso, em boa parte, que se baseia a difusão de movimentos fundamentalistas de toda sorte em plena sociedade ocidental. Alguns países não mais se surpreendem quando um gay é espancado na rua, ou um jovem afetado por anos de bullyng rebela-se contra a sociedade a ponto de cometer assassinatos em massa. Todos esses “anti-heróis” procuram agarrar-se em “verdades absolutas”, estejam elas em uma ideologia político-social – como o nazismo, ainda capaz de seduzir jovens “saudosistas” de uma sociedade “organizada” e “pura” – ou em um santuário totalmente pessoal (indivíduos com o ego inflado, que se veem como “gênios incompreendidos” em uma sociedade fria e insensível às suas necessidades). Wellington Menezes de Oliveira seria somente mais um exemplo do último caso, como os grupos de recistas e homofóbicos  - tão ativos  atualmente- exemplificam o primeiro. Ainda há que se considerar, evidentemente, a filiação de indivíduos a grupos religiosos pautados pelo fanatismo e pelo ódio às diferenças - alguns de seus porta-vozes costumam, também, aproveitar qualquer oportunidade para revelar posturas agressivas.

Acredito que o processo de negação da diversidade e de supervalorização de uma perspectiva determinada sobre todas as demais não pode ser vislumbrado apenas nas situações extremas: terrorismo, movimentos neonazistas, homofobia, racismo, etc. Vemos a tentativa de se agarrar em certezas em várias situações cotidianas que pareceriam inofensivas. Muitos, por exemplo, enclausuram-se em uma visão superestimada de sua própria imagem. São os “convencidos” ou “metidos”, que se transformam nos próprios objetos de adoração. Hoje, eles parecem se multiplicar a uma forma alucinante – alimentados pelas possibilidades de auto-promoção trazidas pelas tão faladas redes sociais. Alguns comentários do Facebook e do Twitter são verdadeiros deleites nesse aspecto, mostrando claramente como alguns indivíduos se deslumbram com a ilusão de estarem fixados em um pedestal que os mantém acima dos “cidadãos comuns”.

Parece que a "humildade", valorizada em tempos pré-modernos, é hoje considerada um defeito, algo a se evitar; antes de mais nada, a ordem é “amar-se”, valorizar-se, vender uma imagem positiva de si próprio, ter orgulho e auto-estima elevados. É evidente que esse movimento possui grandes vantagens, além de ter cumprido um importante papel histórico. Valorizar-se como indivíduo destacado do "social" contém elevado teor libertário, protegendo e armando o sujeito contra opressões externas; a partir do momento em que nos valorizamos, tornamo-nos mais imunes a imposições sobre nosso comportamento. Desse modo, as relações de dominação, outrora dependentes de uma imposição externa, conquistada pela espada, devem hoje se concentrar bem mais em uma "submissão voluntária" de seu público. Uma interiorização da ideologia dos dominantes entre os dominados, embora sempre tenha existido, nunca foi tão necessária às relações de dominação. Assim, as grandes marcas devem mais do que nunca "conquistar" seu público-alvo, e até torná-lo seu próprio porta-voz (difundindo a marca nas redes sociais, por exemplo). O consumidor deve adorar o "estilo de vida" vendido pela Coca-cola e pelo McDonalds, e não mais ser um simples comprador de mercadorias.

Mas voltemos ao assunto principal. Ao mesmo tempo em que adquire forças libertárias em outros contextos, um maior amor-próprio, quando alimentado pelas profundas inseguranças trazidas pela fragmentação social, pode resultar em um aterrorizante radicalismo individualista: buscando refúgio em um mundo individual de certezas, em geral fantasioso, o indivíduo corta qualquer comunicação real com o mundo exterior. A outra opção, como já sugerido, não é menos assustadora: a filiação a grupos radicais de caráter comunitário, como bandos de skinheads ou fanáticas facções religiosas. Seja superestimando sua imagem individual e seus conhecimentos no mundo virtual, seja filiando-se a grupos radicais, ou invadindo uma escola armado até os dentes, o cidadão em questão possui uma profunda certeza de que está "absolutamente correto", acima de todos os demais "seres mortais". Quando alimentado pelo sentimento de vingança contra opressões sofridas, como o trágico caso da escola de Realengo, o indivíduo amedrontado pode tornar-se um agressor impetuoso do status quo que tanto teme e demoniza - por “não compreendê-lo” nem fornecer respostas claras e justas para a vida. Rancoroso, deixa de aproveitar a possibilidade de crescimento a partir do diálogo com o Outro, para se fechar em um mundo de ignorância e convencimento, protegendo-se, de dentro de sua bolha, da maldade vista no mundo externo. Acaba iludindo-se com a idéia de ser um Deus entre os homens. Não passa, na verdade, de um ser humano, dentre muitos outros, apavorado com a possibilidade de ser mais um componente da massa. E isso, em meio a um ambiente onde um único ponto de vista não é mais fornecido de antemão como "o correto" ou "verdadeiro". Por baixo de sua carapaça, o mais feroz terrorista não passa de um ser contaminado pelos efeitos mais nefastos da contemporaneidade.




Pedro Mancini