quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sobre o acordo diplomático Brasil/Turquia/Irã: obstáculos simbólicos à guerra

Um comentário:
Afinal, a atuação diplomática do Brasil e da Turquia, frente à questão nuclear iraniana, pode ser contabilizada como vitoriosa ou não?

Na tentativa de responder a essa pergunta, a mídia parece ter-se esquecido algumas ocorrências de um  passado recente, ao meu ver imprescindíveis para a compreensão do acontecimento. Como bem se sabe, a gestão Bush foi responsável pela agressão militar americana a dois países estrangeiros  (o Afeganistão e o Iraque), que seria, em tese, uma reação contra o ataque terrorista contra as Torres Gêmeas, em 2001. É claro que, até agora, o homem apontado como responsável por esse ataque (Bin Laden) não foi encontrado, tampouco qualquer relação entre ele e o Iraque do já executado Saddam Hussein.

Às vésperas da invasão americana do Iraque, lembro-me razoavelmente bem das pressões que o Conselho de Segurança da ONU fizeram contra seu governo, para que esse provasse definitivamente não possuir qualquer arsenal nuclear ou químico e nem deter qualquer intenção de agredir militarmente seus vizinhos. Jogando com a ameça de invasão iminente ao seu país, Saddam adotou uma atitude ambígua, em que provocava os americanos e, ao mesmo tempo, acatava as pressões da ONU, desarmando seus mísseis. Com essa última atitude, procurou adiar o inevitável - os EUA entraram definitivamente em Bagdá, mesmo sem a aprovação da ONU e com forte resistência de países de peso, como França, Alemanha e Rússia. Pagando o preço do grande desgaste da imagem de seu país perante o resto do globo, George Bush fez valer seus interesses geopolíticos e econômicos mais imediatos, tomando posse dos poços de petróleo iraquianos com um apoio interno conquistado mediante essa suposta "Guerra ao Terrorismo" (baseada na ideia "orwelliana" de que a guerra garantiria a paz para as terras estadunidenses).

Não creio que a situação seja muito diferente agora, com relação ao Irã. É óbvio que tal país, governado por uma elite teológica, está indo na contramão dos interesses ocidentais, e que poderia facilmente ser alvo de mais uma incursão militar americana: seria necessária apenas uma justificativa plausível, que associasse a imagem de Teerã a uma ameaça mundial, e a existência de um programa nuclear cumpriria perfeitamente esse papel.

Assim como Saddam no passado, Mahmoud Ahmadinejad também  têm de administrar a perigosa situação de garantir a autonomia de sua Nação frente ao Ocidente enquanto os EUA mantém uma faca  em seu pescoço. Adota, concomitantemente, uma postura de provocação ao Ocidente e de adoção de medidas para fortalecer seu país (como o próprio Programa Nuclear) e de procura, pela via diplomática,  de um acordo que adie qualquer intervenção militar dos países aliados.

Nesse sentido, não devemos ser ingênuos: é óbvio que o acordo entre Irã, Turquia e Brasil não irá garantir, permanentemente, a segurança do país dos Aiatolás. Mas nem por isso tal acordo deixou de ser extremamente bem sucedido, por mais que a oposição discorde: o Brasil fez sua parte para conter a crise e buscar uma solução não-militar para a questão, ao menos a curto prazo.

Em outras palavras, se os americanos almejarem invadir Teerã em breve, terão como obstáculo em acordo internacional legítimo; apenas desmoralizando ou simplesmente quebrando o acordo firmado, eles terão legitimidade para atacar. Isso não significa - como a gestão bem Bush demonstrou - que os EUA não podem chegar ao ponto de atropelar qualquer resolução internacional pelos seus interesses; mas creio que o Sr. Obama esteja muito mais preocupado com a imagem internacional de seu país do que seu predecessor. Logo, a hipótese de um ataque nos meses vindouros fica muito mais remota, restando apenas a opção de desmoralização do acordo - objetivo que a Ministra de Estado Hillary Clinton tenta, desesperadamente, alcançar.

Não me surpreende, portanto, as atitudes demonstradas por autoridades americanas e israelenses. Estão simplesmente jogando por seus interesses geopolíticos e ideológicos, disfarçados pela preocupação com a "ordem mundial" - como se esta estivesse mais ameaçada com o programa nuclear iraniano do que com as milhares de ogivas que possuem, somadas, as nações mais poderosas do mundo - compostas tanto de aliados quanto de inimigos relativos da hegemonia americana (Rússia, China, França,Israel, Índia, etc.).

Para quem queira se interessar pela distribuição do "clube nuclear" pelo globo, pode dar uma espiada no mapa a seguir, com uma estimativa sobre o número de ogivas presente em cada país:


Pedro Mancini




quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ressalva e explicações sobre a ausência

Um comentário:
Depois de um bom tempo sem escrever, venho apenas fazer duas observações: uma a respeito da última postagem, e outra, sobre a demora nas publicações.

Sobre o primeiro  ponto, acho que não ficou claro um aspecto da minha argumentação: quando critiquei algumas formas de análise política, não me referia a  interpretações de analistas propriamente ditos - cientistas políticos, por exemplo. Só depois percebi que poderia ter sido infeliz usar o termo "análise", por conta desse possível mal entendido. Ao contrário, critico as perspectivas do senso comum, ao pessoal que assiste Jornal Nacional e usa apenas informações superficiais para formar sua opinião política, com base nos critérios distorcidos que mencionei.

Feita essa ressalva, aproveito esse espaço para expor minha insatisfação com minha total falta de vida social (assim como a falta de presença no blog). Como  meus maiores chegados bem sabem, estive enroladíssimo com minha dissertação de mestrado, tendo que elaborar o relatório de qualificação. A situação tende a melhorar um pouco agora, para, daqui a um mês, voltar a piorar... e então melhorar novamente! (Assim espero...)

Enfim, gostaria de pedir sinceras desculpas a todos os amigos e familiares que tive que negligenciar por conta dessa agitação. Quem ler essa postagem saberá que é com ele mesmo que falo... Hehehe!!

Espero compensar esse isolamento e essa negligência enquanto ainda é tempo de não ficar, mais uma vez, enrolado com meus estudos!

Pedro Mancini


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Alguns vícios da análise política contemporânea

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Em mais um ano eleitoral, estou cada dia mais chocado com a tendência à radicalização e a observações eleitorais viciadas.

 
Muitas das tendências de avaliação política atuais, como uma perspectiva intimista e personalista da vida pública, já foram percebidas por sociólogos como Richard Sennett em meados da década de 90; não são, portanto, uma grande novidade. Esses modos de pensar obscurecem visões mais racionais, baseadas na análise de planos de governo e propostas de políticas públicas. São, em suma, vícios que prejudicam a democracia e a civilidade. Analiso, aqui, e de forma apenas exploratória, um desses grandes vícios: uma visão da política que chamarei de "pessoal intimista", preocupada com um destrinchamento da vida privada, e até íntima, dos candidatos em questão.

 
Muitos eleitores pensam em seus candidatos apenas a partir de sua personalidade – ou melhor, de uma imagem idealizada do que SERIA essa personalidade, baseada em conhecimentos de fatos pontuais. Além de potencialmente irracional - por se pautar, muitas vezes, em uma IMPRESSÃO inconsciente sobre o candidato -, reproduzindo, de modo acrítico, preconceitos de classe inculcados em nosso inconsciente, essa forma de interpretação tende a simplificar o debate e obscurecer outros aspectos, que deveriam, esses sim, ser fundamentais nas escolhas políticas. Propostas de governo defendidas pelo partido do candidato ficam, com o domínio dessa perspectiva intimista, relegadas a um segundo plano.

 
Em outras palavras, essa forma de interpretação do quadro eleitoral peca por pressupor, intrinsecamente, que o candidato governará sozinho, contando apenas com seu "caráter", sua "personalidade". Assim, separamos os candidatos entre "honestos" e "íntegros", "bons" ou "mau caráteres", bem ou mal intencionados. Para tanto, focamos em sua "cara", em sua postura, em seus hábitos mais privados. Assim, Lula pode se ver reduzido a um "cachaceiro", a um "analfabeto ignorante", que, por essas características, merece meu repúdio. FHC, por outro lado, será avaliado como um "intelectual" que, "naturalmente", governa de forma racional e inteligente. Sob essa perspectiva, quem liga para as idéias por detrás da personalidade dos candidatos? Quem liga para as plataformas políticas, para os planos de governo, para a ideologia representada pelo partido representado pelo político? E para os resultados dessas políticas? Muito se perde com essa redução patética à personalidade (ou impressão de personalidade) dos candidatos a cargos públicos.

 
Essa personalização pode se manifestar tanto em avaliações positivas, quanto negativas: assim, o governo Lula pode ser bem avaliado porque "Lula é um de nós", ou a Dilma pode ser má avaliada, como possível governante, ao ser taxada de "criminosa" ou "terrorista" por ter lutado contra a Ditadura décadas atrás.

 
Essa, aliás, é outra grande ferramenta da simplificação e deturpação do debate político: a descontextualização. Aliada à avaliação personalista-otimista, a retirada dos fatos de seus contextos originais pode acarretar em resultados especialmente catastróficos. O exemplo mais atual, sem dúvida, é a agressão pela qual a candidata Dilma Roussef tem passado, nos últimos meses: por ser uma mulher de "personalidade forte" e de esquerda, que militou em um grupo mais radical durante a Ditadura Militar, ela tem sido avaliada, por setores mais radicais da classe média, como uma simples terrorista criminosa (perdoem-me pela redundância). Ora, a descontextualização é aqui óbvia: ignora-se a falta de legitimidade de um governo militar que torturava e assassinava seus opositores nos porões de prédios públicos, tratando aqueles que resistiam a essa estrutura como criminosos comuns. Como a própria Dilma já disse, naquele período era heróico enfrentar o regime – fosse mentindo para as autoridades, com fins de proteger colegas militantes, fosse resistindo militarmente. O contexto ERA de radicalização – tanto da direita, quanto da esquerda. Não havia, praticamente, possibilidade de resistir pacificamente: quem o fazia, era perseguido, preso e morto, como o jornalista Vladimir Herzog.

 
É claro que a mesma forma de violência nunca se justificaria nos tempos atuais, com instituições democráticas melhor estabelecidas, que permite a existência de oposições institucionalizadas. Mas transplantar os comportamentos políticos de uma época de exceção para os tempos atuais, condenando militantes da esquerda como se fossem simples criminosos, é simplesmente um jogo baixo e sujo demais – e mais um mecanismo de deturpação política, usado para justificar preconceitos ideológicos e de classe ulteriores. Seria ingênuo demais acreditar que o Brasil teria todos os seus problemas políticos resolvidos, se tais mecanismos (a análise "pessoal intimista" e a descontextualização, entre outros que não tratei no presente texto) deixassem de ter tanto peso na hora da análise e da decisão eleitorais; mas, sem dúvida alguma, seríamos um pouco mais racionais em nossas escolhas.

 
Pedro Mancini

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

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Desenvolvo um assunto um pouco menos polêmico hoje, mas sobre o qual tenho interesse acadêmico mais imediato. Já me recomendaram, inclusive, me aprofundar sobre esse tema em minha dissertação.

Trago, por isso, a tradução de uma postagem de um blog em inglês, que destaca o desenvolvimento de uma análise sociológica sobre a chamada "Civilização Warcraft". Desconheço a qualidade do estudo discutido; à primeira vista, me parece uma "viagem" à lá Pierre Lévy  (tanto que foi em seu Twitter que descobri o link do original em inglês), muito filosófica e com grandes pretensões de antecipação do futuro "de toda a civilização ocidental". Mesmo assim, trata-se de uma das inúmeras possibilidades de interpretação do vasto universo representado pelas novas redes de interação propagadas pela Internet, e que demonstra o quanto ainda falta ser estudado.

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Sociólogo descobre a civilização de Warcraft

O sociólogo William Sims Bainbridge, conhecido por seu  trabalho de exploração da Sociologia da Religião, publicou um novo livro intitulado "A Civilização Warcraft: Ciências sociais em um mundo virtual". Uma abordagem estranha demais? Given Bainbridge é um membro fundador de uma organização pró-vôo espacial, conhecida como Ordem dos Engenheiros Cósmicos, um nome propício para uma guilda de World of Warcraft, então essa pode ser uma viagem não tão louca assim.

 Segue a descrição da editora sobre seu último trabalho:

"World of Warcraft é mais que um jogo. Não há objetivo final, nenhuma mão vencedora, nenhuma princesa a ser resgatada. WoW contém mais de 5000 aventuras possíveis, jogos dentro do jogo, e abrange centenas de reinos paralelos separados (por servidores de computador, cada um suportando 4000 jogadores simultaneamente). WoW é um mundo virtual envolvente, dentro do qual as personagens devem sobreviver em um ambiente perigoso, assumir identidades, lutar para entender e se comunicar, aprender a usar tecnologia, e competir por recursos escassos. Para além da fantasia e da ficção científica, conforme muitos notaram, isso não difere totalmente do mundo de hoje. No "A Civilização Warcraft", o sociólogo William Sims Bainbridge vai mais longe, argumentando que WoW pode ser visto não apenas como uma alegoria dos tempos de hoje, mas também como um protótipo do amanhã, de um futuro humano real, no qual grupos similares a tribos vão se engajar em combates por recursos escassos, construir alianças temporárias na base de interesses pessoais mútuos, e buscar um conjunto de valores que transcendem a necessidade da guerra.

Bainbridge explorou diretamente o universo complexo de Warcraft, passando mais de 2300 horas por lá, criando vinte e dois caracteres de todas as dez raças, as dez classes, e profissões variadas. Cada capítulo começa com a narrativa de uma personagem, e então continua a explorar um tema social mais amplo - como religião, aprendizado, cooperação, economia, ou identidade pelas lentes da experiência dessa personagem.

O que torna WoW um lugar especialmente bom para buscar insights sobre a civilização ocidental, de acordo com Bainbridge, é que ele liga passado e futuro. É fundado na tradição cultural ocidental, e ainda antecipa os mundos virtuais que poderemos criar em tempos vindouros".

Estou genuinamente curioso sobre os conteúdos do livro, se um sociólogo pode percorrer a Civilização Warcraft para estudá-la por mais de duas mil horas, apenas para descobrir a curva de Bell da insanidade.


Pedro Mancini (tradução da postagem do blog MMOCRUNCH, escrita por Fabian e datada de 05/04/2010)





sábado, 3 de abril de 2010

Marcelo Dourado e a vitória do politicamente incorreto

5 comentários:
O resultado da última edição do BBB, assim como outros fenômenos menos explosivos do universo televisivo brasileiro, fazem-me escrever mais uma postagem sobre aparentes futilidades.

Como todos já devem saber, um tal de Dourado foi o vencedor da última edição do programa global. Mais polêmico entre os confinados, ele ganhou notoriedade por adotar um discurso considerado machista e homofóbico, afirmando que bateria em uma mulher "se ela fosse homem", e que apenas homossexuais transmitem o vírus da  AIDS. Mesmo assim, não apenas consagrou-se vitorioso, como mobilizou toda uma parcela da população a seu favor - tanto homofóbicos que denunciavam a existência de uma "heterofobia" entre a sociedade, quanto aqueles mais "ingênuos", que apenas conclamavam que Dourado era uma pessoa simples e sincera, com todo o direito de cometer alguns erros.

É sempre assustador saber que existem pessoas do primeiro tipo, que adotam Dourado como uma espécie de paladino da heterossexualidade contra a "contaminação" do mundo pelos homossexuais. Contudo, é a segunda parcela  que citei que mais prendeu minha atenção: os defensores de Dourado como "ícone da espontaneidade", da sinceridade e da simplicidade. Alguém como nós, com seus defeitos, mas que não adota uma postura hipócrita, sem, em outras palavras, se maquiar como um modelo de perfeição a ser admirado e seguido. Uma espécie de herói sincero, "sem nada a esconder", em meio a um bando de falsos hipócritas. Como pretendo mostrar, acho que as duas formas de pensamento possuem uma relação estreita e perigosa, por mais que tentem escamoteá-la.

Na mesma hora, associei esse discurso da sinceridade, da espontaneidade e da imperfeição a uma perspectiva adotada por amplos segmentos da mídia, em especial o especializado em humor, e reproduzida por sua audiência: um ataque (ou contra-ataque?) à tudo aquilo considerado "politicamente correto".

Cito, como ilustração, o problema que o humorista do CQC, Danilo Gentili, teve recentemente, após deixar escapar uma piada considerada racista em sua conta do Twitter (e estragar ainda mais a situação na tentativa de seu remendo). Como respostas às inúmeras críticas que recebeu, vociferou contra os chamados "politicamente corretos", um bando de hipócritas que adorava achar pêlo em ovo e melar o sentido das piadas sobre estereótipos sociais.Não tardou para que dezenas de milhares de simpatizantes aderissem ao coro do politicamente incorreto encabeçado por Gentili.

De fato, é notória a existência de grandes hipocrisias em meio à população, que servem como carapuça de camuflagem para escamotear preconceitos em geral. Pessoas que expressam seus valores de uma forma, mas pensam, em seu íntimo, de outra; que agem contrariamente ao que defendem. Contudo, isso não deve, de forma alguma, ser confundido com a simples existência de valores morais reais que orientam nossas condutas e julgamentos. Valores a serem defendidos em prol de uma visão ideal de convívio social harmônico - em prol de uma Humanidade que aceite e convive com inúmeras diferenças individuais.

O perigo maior, perpetuado pelos que vociferam contra o politicamente correto, é a possibilidade de defesa do DIREITO de sermos preconceituosos, junto a  uma BANALIZAÇÃO da violência e da intolerância. Partindo-se do pressuposto dos "politicamente incorretos", de que somos tomos imperfeitos ou hipócrias, qual seria o problema de contarmos uma piada racista, ou de sermos um pouco homofóbicos ou machistas? Ninguém é perfeito, ou melhor, somos todos imperfeitos, imorais, intolerantes. Caso não admitamos essa imperfeição, não passamos de porcos hipócritas. Para quê não admitir isso de vez, não tomar os pequenos defeitos morais naturais e absolutamente compreensíveis? É a naturalização da ignorância.No limite, todos podem se sentir à vontade para erguer suas bandeiras de intolerância e segregação.

Bem, o "politicamente correto" que defendo não é a ocultação dos preconceitos, o fingimento de que eles não estão entre nós - isso, sim, é hipocrisia. Muito pelo contrário, acredito que devamos não apenas admitir a existência do preconceito e da intolerância em todos os níveis da sociedade, mas expô-la aos olhos de todos, mas para que possamos COMBATÊ-LOS, e não naturalizá-los e legitimá-los. Se somos todos moralmente imperfeitos, que tal nos mobilizarmos para mudar essa situação, aprimorando nossos  valores?

A vitória de Marcelo Dourado no BBB, assim como permanentes reações contra qualquer tentativa de combate à intolerância e ao preconceito, são, para mim, parte de um mesmo e trágico movimento. Não caminhamos rumo a uma nova radicalização DE FATO, pois os intolerantes sempre existiram; mas, com a expansão de certos direitos dos excluídos, como maior aceitação dos homossexuais em alguns níveis sociais, e com a expansão do "politicamente incorreto", há uma reação contrária que tende a revelar intolerâncias outrora mais sutis. A defesa pelos valores dos agrupamentos mais favorecidos ressurge como se os últimos fossem "oprimidos" pelos Direitos Humanos e por um mundo (em tese, e muito menos na prática) mais "politicamente correto". Os intolerantes hoje são vítimas auto-intituladas, chegando ao ápice de apontar para a existência de uma "heterofobia" (?) em meio à população.

Não há outra palavra para descrever esse movimento, portanto, senão como sendo reacionário.Brotando de todos os lugares, retirando suas máscaras de aceitação, admitindo a possibilidade de serem o que são, os intolerantes indiscretos e sua aceitação social são uma reação à divulgação de valores universais que preconizam e ensaiam a expansão de certos direitos à camadas menos incluídas. Vide a forte reação, de vários setores, contra a divulgação do último Plano Nacional de Direitos Humanos.

Uma  contra-reação generalizada, diga-se de passagem, que copia fórmulas do passado, adaptando-as ao presente. Nada de novo em si: como todos os movimentos reacionários em geral, o que há é um temor e um desprezo pelo Outro, pelo diferente, e o enclausuramento em um mundinho comunitário utópico de "iguais", uma defesa do Nós contra qualquer perspectiva de universalização de direitos: o mundinho dos heterossexuais contra os homossexuais, dos brancos contra os negros, dos cidadãos de uma nação contra os imigrantes, dos ricos contra os pobres (e vice-versa, para todos os casos)...

E você aí em casa, achando que a humanidade evoluiu muito, produzindo IPods em série. Por vezes ainda me sinto na Idade Média.

Pedro Mancini

sexta-feira, 26 de março de 2010

A conformação dos sub proletários

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São frequentes as situações em que me surpreendo com a grande apatia que atinge boa parte da população metropolitana de São Paulo. Simplesmente não consigo entender como as pessoas suportam viver nessa cidade,  viajando em ônibus lotados por várias regiões, todos os dias. Aguentando os horrores do tráfego, especialmente nos dias de chuva, e quando das constantes quedas de carretas em rodovias (e muitos outros acidentes diários). Isso sem contar, é claro, várias outras situações desesperadoras, como a falta de acesso a serviços públicos essenciais, insegurança, enchentes, condições precárias de moradia, educação e saúde, etc.


Nos meus vícios burgueses de pensamento, questiono, quando me sentindo uma salsicha em conserva na condução, em um trânsito totalmente parado: "Pôxa, por que esse pessoal não se revolta? Por que não sai às ruas, exigindo condições MÍNIMAS de sobrevivência, para que não se estresse mais na viagem de ida e volta ao trabalho, do que no próprio trabalho?" E concluo que o nosso sistema é tão opressivo, que arranca qualquer vontade de ação da grande massa dos trabalhadores urbanos mais vulneráveis. 

Pois bem. Dia desses, na USP, assisti um debate muito interessante, a respeito de um novo artigo do ilustre ex-porta voz da República, André Singer, intitulado: "As raízes ideológicas e sociais do Lulismo", com a presença do próprio autor, que me ajudou a desenvolver melhores reflexões sobre o tema. A despeito de suas análises sobre o Governo Lula, o que mais marcou em sua fala, para mim, foi sua interpretação a respeito da aversão da grande massa (daquilo que ele chamou de "sub-proletariado", resgatando interpretações marxistas), à qualquer forma direta de confrontação política.

Segundo essa idéia, os componentes desse sub-proletariado, que abrangeria uma série de tipos sociais como desempregados, trabalhadores informais, sub-empregados e micro comerciantes, como camelôs, dentre outros, são por demais vulneráveis para poderem arriscar as condições mínimas que já conquistaram. Assim, os sub-empregados, por exemplo, sem contarem com sindicatos ou outras forças de proteção coletiva, ficam à mercê de seus patrões de uma forma muito mais clara do que um empregado estável e sindicalizado, que possui instrumentos bem arquitetados de luta social ao dispor de sua categoria profissional.

Desse modo, os sub-proletários percebem que ganham muito mais negociando e barganhando com seus patrões, do que enfrentando diretamente as formas de autoridade que os circundam -- inclusive nosso Estado que, como sabemos, assume um caráter particularmente repressivo quando lida com movimentos sociais que possuem pouco capital social e político. Viria daí o espírito conciliatório dessa massa de sub-empregados de nosso capitalismo periférico sub-desenvolvido, que muitos atribuem a um "conservadorismo" particular.

Acredito, então, que podemos generalizar essa situação típica dos sub-proletários para outros aspectos de sua existência, como a falta de reações mais enfáticas contra situações desesperadoras, tais como as já apontadas: trânsito, baixas condições de moradia, falta de qualidade e acesso a serviços públicos essenciais, entre muitas outras. Antes de ser uma atitude conservadora - pois, acredito eu, esse pessoal QUER melhorar de vida e luta para isso -, trata-se de um comportamento cauteloso, adotado pela população mais fragilizada e vulnerável à ações punitivas seja do Estado, seja do mercado de trabalho a que está submetida.

Segundo Singer, as políticas sociais nas quais o Governo Lula investiu tendem a reverter essa situação, na medida em que melhoraram as condições de vida das classes menos favorecidas (a multidão componente das classes "D" e "E" que passaram à chamada classe "C"), inserindo-as, em massa, no mercado de trabalho formal. Se essa ascensão social se reverter, de fato, em uma situação de maior proteção social a  esses trabalhadores, com a sindicalização em massa e maior estabilidade profissional, por exemplo, acredito, como André Singer especula, que poderá haver um acirramento da luta de classes no Brasil (com relação a um aumento da luta institucional por melhores condições, é bom dizer, e não com perspectivas de uma revolução marxista -- como, por incrível que pareça, muitos ainda acreditam ser possível nos anos vindouros!). Porém, mesmo com todo meu otimismo, custo a acreditar que isso ocorra tão cedo, se considerarmos que não podemos desprezar a contínua difusão de mecanismos neoliberais de controle sobre mercado de trabalho, como a terceirização e a criminalização dos movimentos sociais, que continuam a fragilizar a classe trabalhadora de forma absoluta e inquestionável.

Pedro Mancini